Capítulo 35 - Não subestime o desconhecido
[ Pátio da Academia Shihai de Asahi, às 15:55h. ]
Os alunos da turma 1F andavam pelo caminho de brita que seguia até o Campo de Treinamento 1, o mesmo que haviam frequentado no dia anterior.
O sol não pegava leve, torrando tudo e todos sob sua luz impiedosa.
Entre passos arrastados e bocejos mal disfarçados, Minoru suspirava com dramaticidade. — Caaara, esse sol tá me matando! — Se cansaço fosse uma arte, ele seria o Picasso.
Caminhando ao lado, Nihara não estava nem um pouco paciente. — Coé, para de resmungar! O dia mal começou e você já quer voltar pra cama?
— Ah, dá um tempo! — protestava Minoru, afastando a bronca — a última aula do seu tio foi um porre, demoraram pra caramba! Como você conseguiu prestar atenção naquilo?
— E quem disse que prestei? Só não fiquei pescando o tempo todo! Aliás, você deveria agradecer por não ter sido mandado embora da sala, estava parecendo um zumbi!
Minoru coçou a nuca, claramente sem contra-ataque.
— Aí! — Kentaro apareceu com as mãos atrás da cabeça — algum de vocês sabe quem será o próximo instrutor?
— Não faço a mínima ideia, talvez Nihara saiba.
— Eu? Nem olha pra mim.
— Pelo menos conhece alguém que saiba?
Observando os arredores, Nihara avistou alguém que teria a resposta. — Ei, tampinha! — Ele chamou Kyoko, causando uma pontada de raiva na que caminhava sozinha adiante. — Sabe quem é o instrutor de agora?
Apertando os dentes, a garota nem olhou para trás. — Ela deve estar esperando no campo de batalha.
— Ela?! — repetiu Kentaro — então é uma instrutora?!
— Sim. Algum problema?
— Nenhum! Só quero saber como ela é. Vai, conta pra gente!
Kyoko cansou-se das perguntas tão triviais. — Uma velha. Mais de cem anos.
— MAIS DE CEM ANOS???!!! — Os garotos não acreditavam.
— Teremos instruções com uma múmia, é? — zoou o careca.
— Se eu fosse você, teria mais cuidado com desconhecidos, moleque.
Kentaro levantou as mãos em rendição. — Hahaha! Pode deixar! — Seguidamente ele juntou os dois colegas próximos entre cada braço. — Eu e os rapazes estamos preparados para o que vier!
Kyoko revirou os olhos, já sem paciência. — Que seja… — E logo após, acelerou o passo, afastando-se do trio antes que a enlouquecesse de vez. Enquanto resmungava para si mesma, suas reclamações escapavam em murmúrios raivosos. — Que pé no saco! Será que eu poderia ter apenas um tempinho de paz?

[ Campo de Treinamento 1 da Academia Shihai de Asahi, às 13h. ]
— Eu deveria ter pedido mais tempo de paz…
Sorrindo, Nikko acariciava o topo da cabeça de Kyoko, tratando-a como um troféu. — Já falei pra vocês que essa aqui é a minha melhor amiga!?
— Miya, acho que deveríamos ajudar a Kyoko — sussurrou Akemi.
Miya devolveu: — Pra quê? Um carinho sempre ajuda um coração irritado.
Ignorando a conversa dos outros, Mayumi mantinha os olhos no trocador do campo. — Há mesmo a certeza de que a instrutora está ali? Está ficando atrasada.
— Estava no comunicado no primeiro andar — respondeu Teruo, ajustando a ponte dos óculos coloridos.
— Vocês realmente olham aqueles quadros? — Rin parecia intrigada.
— Mas é sempre bom olhar — recomendou Aruni.
— Pois é, mas é estranho pensar o porquê da instrutora estar dentro do trocador — Sho direcionou-se para a garota à direita, vislumbrando-a. — Não acha, Kurosawa?
Sem ânimo, Rin fugiu dos olhos esperançosos. — Não fala comigo, não.
— Tá bom — Sho encolheu os ombros, desconfortável com o clima.
Apreensivo, Akemi compartilhou suas angústias. — Só espero que essa instrutora não seja como o Major Yura. Aquele cara quase me mata, literalmente.
Ainda aturando carinhos indesejados, Kyoko colocou as mãos na cintura e encarou. — Ela não vai te matar, cara! Bom, pelo menos não demonstrará essa intenção, o que já serve de algo.
— Pera aí! — Nikko caçava algo com os olhos. — Ouvi dizer que hoje teríamos treinamentos áuricos, então achei que poderíamos usar nossas armas, até porque sei que tem gente aqui que depende delas, mas… cadê as armas? Inclusive a minha!?
“Nikko usa uma arma!?”
— Nenhuma lâmina ou escudo — analisava Mayumi — sabe o que essa instrutora pretende, Shimizu?
— É uma pessoa que gosta de desafiar, não estranhem qualquer loucura.
— Loucura!? — Interessada pelo que foi dito, Nikko agachou-se e pousou as mãos nos ombros de Kyoko, sacudindo-a levemente. — Que tipos de coisas ela pode fazer com a gente, ein?
— Ôe! Vê se desgruda! — Kyoko livrou-se das mãos irritantes. — Eu não sei o que virá. E podem ficar pensando o quanto quiserem, eu não vou perder tempo com as ideias daquela mulher.
— Você a conhece? — perguntou Miya.
Kyoko respirou fundo, memórias drenavam sua pouca paciência. — … É a minha tataravó.
Nheeeeeeeeeeiiiccc…
Um som agudo espalhou-se. Todos os olhares foram para a porta do trocador abrindo-se vagarosamente…
Indiscreto, Kentaro apontou. — Ih, alá! A velha tá sobre rodas!
Uma mulher sorridente sentada em uma cadeira de rodas se aproximava da turma. Mesmo que suas mãos fossem um pouco atrofiadas, elas giravam as rodas sem esforço.
Os cabelos médios e grisalhos presos a um penteado estiloso combinavam com os olhos prateados; já o uniforme militar azul-marinho com medalhas e sutaches lhe davam uma aparência respeitável.
Já um detalhe bem peculiar trazia uma queixa intragável.
Cobrindo a boca, Minoru se aproximou dos ouvidos de Nihara. — Vem cá, ela não tinha mais de cem anos? Parece que tem quarenta!
— E eu sei lá, p#rra.
Apesar da cadeira de rodas e das mãos quase ineficientes, a mulher possuía uma vitalidade incomum para alguém com sinais claros de problemas físicos.
Ela continuava se aproximando, girando as rodas por conta própria.
A turma não reagia perante a militar que passava entre eles, e quem os culparia? O ambiente já não era exatamente tranquilo, uma indecisão atrapalhava os mais jovens.
Até que finalmente, um passo adiante demonstrou prontidão: embora o receio atrapalhasse sua confiança, Aruni cautelosamente aproximou-se. — E-em… a-a senhora… precisa de ajuda?
A mulher ergueu o rosto, seu sorriso maternal dissolveu qualquer aflição. — Não precisa se preocupar, querida. Apenas quero passar por vocês até o outro lado — sua voz rouca e grave com um toque meigo relembrava a entonação de uma avó carinhosa…
Ela passou por entre os alunos, contemplando o rosto de cada um com um breve sorriso caloroso.
Aruni, e todos os outros, relaxaram por um momento, afinal, um pouco de gentileza em um ambiente tão exigente agradaria a qualquer um.
“Ufa, uma pessoa normal”, pensou Akemi, aliviado.
Em certa distância, a militar girou a cadeira e ficou de frente à turma. — Meus queridos alunos, se não for incômodo, irei me apresentar. Meu nome é Hisako Shimizu, e serei a instrutora de vocês sobre o “Aprimoramento Áurico Interior”. Ou seja, buscarei o máximo da mais pura capacidade áurica de vocês por alguns dos dias que teremos até o final deste ano. Mas antes de qualquer coisa, como é de conhecimento dos alunos das classes superiores, costumo aplicar alguns pequenos desafios nos primeiros dias. E aqui vai a minha primeira pergunta: estão preparados?
— SIM, SENHORA!!!
A mulher sorriu, satisfeita. — He ho ho! Esplêndido! Vocês parecem uma turma bastante disciplinada. Espero que nenhum de vocês fique para trás. Aproveitem ao máximo a trajetória de formação na Academia Shihai de Asahi.
Embora as lindas palavras, nem todos compartilhavam daquele otimismo.
Kentaro se inclinou para perto de Nihara. — Aí, tô com um mau pressentimento nessa coroa. Nunca vi alguém falar assim num meio militar. Ali tem coisa…
— Então, sem mais delongas, vamos começar? — A instrutora contagiava todos com sua elegância, autenticidade e ânimo irresistível.
No entanto, devemos lembrar que a vida guarda lições que não podemos ignorar:
Por mais encantador que alguém pareça, por mais perfeita que sua máscara possa ser aos olhos atentos ou inocentes, é crucial lembrar: toda cortesia pode esconder segundas intenções.
O desconhecido sempre carrega surpresas…
— PRIMEIRO DESAFIO!!! “APROXIME-SE DA MOOORTE”!!! — A voz antes acolhedora transformou-se no eco de um…
“UM DEMÔNIO?! O QUE ACONTECEU COM ELA!?”
A feição de Hisako distorceu-se; só restaram olhares sérios e um sorriso amedrontador. — Um desafio simples! O clássico dos meus mais de 70 anos nesta instituição! — Ela abriu os braços, um teatro estava sendo feito. — Todos vocês, usando tudo o que têm em suas auras, devem tentar me encostar um dedo que for! Podem usar qualquer artimanha: sujeira, ataques baixos, injustiças, covardias, o que quiserem! Surpreendam-me!
— Viram? Exatamente como eu falei — relembrou Kyoko para os amigos por perto.
Sho queixou as implicações. — Se ela permite qualquer coisa, significa que está completamente segura de si, o que é bastante perigoso. Como ela vai reagir?
Mayumi pensava consigo mesma. — Sem uma lâmina, minha aura é inútil… e talvez a dor não valeria a pena.
A instrutora ajeitou-se e voltou os olhares afiados à turma. — E para os que não veem vantagem, há uma recompensa! Quem conseguir o feito não precisará frequentar este primeiro período e será promovido diretamente para as turmas E!
O anúncio colocou brilho nas retinas de Nihara, que trocou olhares com seus dois amigos igualmente animados pela chance.
— Ao meu três, vocês podem começar! Um…! Dois…! TRÊS! — O fim da contagem foi como um tiro de partida, mas ninguém se moveu de imediato.
Os presentes pensavam cuidadosamente no que fariam, decifrando o melhor passo para aquele jogo perigoso.
Mas aquela quietude frágil despedaçou-se em um instante.
Pffshhh!
Uma fumaça negra densa como um pesadelo materializado avançou e envolveu Hisako em um círculo sinistro, retorcendo-se como se tivesse vida própria.
Entre os véus sombrios, dois olhos brilhantes romperam a escuridão: um branco como a lua, e outro claro como uma esmeralda sob a forte luz do dia.
Sorrateiramente, dentre as trevas, uma mão surgiu em direção ao ombro da militar, que entretanto, não se incomodava.

— CAAARAMBA!? — gritou Akemi, de olhos arregalados quando viu um imenso estalagmite de gelo formado instantaneamente atrás de Hisako, prendendo alguém em uma prisão cristalina.
A cena era tão incrível que parecia uma ilusão para alguns.
“Uma aura de gelo? Mas ela nem se mexeu! Foi rápido demais! E o que foi aquela fumaça!?” Quando Akemi forçou as vistas no estalagmite, percebeu nada mais nada menos que Aya Hattori congelada como uma estátua lá dentro, com o corpo lateralizado no ar mostrando que, apesar da destreza e velocidade absurda, não foi párea.
— Como eu disse, não vou perder meu tempo com isso. Divirtam-se — Kyoko saiu de cena.
— Acha que vale a pena enfrentá-la, Miya?
— Ficarei paradinha aqui, amigo.
— É, você tem razão. Não deve ser muito bom ser congelado à toa. Afinal, quem seria bobo de ir pra cima de uma militar daquelas? Não é mesmo, Nikko? — Para Akemi, o apoio moral daquela que o ajudava nos treinos seria reconfortante. O problema era que ela não estava mais lá… — Nikko?
— O ACESSO DA TURMA E SERÁ MEEEU!!! — Nikko corria com uma vontade que beirava a inconsequência. Impulsionando seus passos com a força dos ventos, seus punhos cerrados e olhos direcionados ampliavam o foco e desejo pela promoção.
Ela pensava que nada a deteria? Ou apenas se achava uma heroína insana? Difícil a resposta. O entendível era que Akemi estava boquiaberto.
— Ela é maluca!? — Ele colocou as mãos na cabeça.
— Hihihi, veremos no que isso vai dar, até porque com certeza a Ni não estará sozinha nessa…

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