Índice de Capítulo

    [ Pátio da ASA – 18h30 da noite. ]

    O céu noturno estava limpo demais, sem uma única nuvem, e a brisa, morna e arrastando poeira, completava o famoso clima estranho antecessor do inesperado…

    Seguindo o caminho de brita, Akemi passava pelas pedrinhas que sempre entregavam qualquer intenção de andar despercebido, o que por sorte, não era o caso. “Campo de Treinamento 3”, pensava ele, olhando a placa pendurada em uma estaca de madeira envelhecida. À frente, protegendo o interior de um grande muro de tijolos claros, os duplos portões de ferro do Campo 3 se destacavam como a entrada de uma imensa estrutura amaldiçoada.

    Grandes barras arqueadas e meio abertas traziam um tipo muito específico de desconforto: não era medo, era a falta dele, o que seria algo pior.

    Para uma inútil tentativa de parecer apresentável, o garoto ajeitou a gola do gakuran. “Ok, além desse maldito frio, não tem ninguém por perto? Que vazio estranho…”

    As portas foram empurradas pela força mínima de dedos finos: o portão cedeu de forma anormalmente fácil e rangeu até um breve estalo final.

    Cuidando-se para que não esbarrasse na pouca abertura que tinha entre o vão da passagem, Akemi avançou, adentrando um vasto terreno irregular, arenoso em certos pontos, seco e duro em outros. O vazio continuava tomando conta: nenhum som além do próprio caminhar. A iluminação vinha do céu estrelado, e nos arredores, haviam formas silenciosas de ruínas: casas quebradas, torres carcomidas, campos abertos com elevações artificiais de terra.

    Em um cenário que parecia usado pela última vez há anos, não se podia baixar a guarda.

    “Este lugar é feito para simulações de guerra? Macaaabro…

    Mais à frente, entre as construções retorcidas por antigas batalhas, viu-se uma construção arrojada, com contornos elegantes elevados sobre uma alta base de mármore esbranquiçada, e escadaria de mesmo material até a entrada desprovida de portas.

    “Um dojô?”

    O diferencial estava no que escapava do interior após a entrada: uma luz clara, pulsante, e quente.

    “Essa luz vindo lá de dentro quase arde meus olhos”, mesmo desconhecendo o porquê, Akemi seguiu adiante com certa reverência. Quanto mais se aproximava, mais o calor se intensificava, envolvendo-o como um abraço morno, trazendo a sensação de feitiço. O calor devia queimar, mas somente acariciava e infiltrava a pele, a mente… e algo mais profundo.

    A luz do interior continuava sumindo e aparecendo, mas de maneira forte, como se convidasse e soubesse exatamente que o alguém viria.

    Ultrapassado o último degrau da subida, o curioso cautelosamente esgueirou-se na lateral da entrada, e quando espiou, indagou-se. — Quem é… aquilo?

    No centro do dojo e de costas para a entrada, estava sentada a própria encarnação do fogo: uma figura humanoide de curvas definidas e inteiramente moldada por chamas vivas que tornavam seu corpo um manto inquieto. Os cabelos eram labaredas intensas que ondulavam no ar, vibrando o vermelho que poderia ser extraído do coração de uma fênix.

    Do âmbar dourado nas extremidades até o laranja incandescente que ampliava sua silhueta, a chama ardia com uma presença hipnótica, bela e perigosa. Como o próprio fogo em forma humana, ela cagava tudo que ousava olhá-la, mas para a sorte de um jovem que poucas coisas viu na vida, Akemi foi agraciado pela capacidade de observá-la.

    Quando a luz baixou, revelaram-se os contornos solenes do dojo sem janelas. Paredes de madeira escura, com detalhes dourados que reluziam sob tochas, mantinham o tradicional. O chão, claro e polido com esmero1 sagrado, refletia colunas esverdeadas entalhadas com dragões dourados. Não havia móveis, só um vazio cerimonial onde o fogo iluminava em silêncio.

    Contudo, tamanha beleza e fascínio não viriam sem instinto. Uma figura de teor tão poderoso, mesmo meditando com serenidade, certamente perceberia qualquer intruso antes mesmo que o ar mudasse, e independente do destino reservado àqueles que perturbassem sua paz, uma coisa era certa: ela notou que não estava sozinha.

    As chamas avermelhadas tremeluziram, então, lentamente, um olhar acima do ombro revelou o brilho carmesim de pupilas atentas cravadas no rosto isento de boca e nariz.

    No instante seguinte, entre a entrada do dojo, onde atrás só a escuridão da noite sobre muros e construções era visível, alterações foram percebidas em Akemi:

    Em todo o seu corpo, a eletricidade o usava de referência. Correntes elétricas amareladas e velozes como relâmpagos evadiam-se e infiltravam-se por diversos pontos diferentes do corpo, brilhando nos olhos a energia de mil relâmpagos.

    Energizado entre a entrada, o rapaz estava altamente hipnotizado nas chamas que trocava olhares; aparentemente, seu corpo já estava tomado pelo calor, e aquilo o alimentava fisicamente, mentalmente, e talvez, espiritualmente.

    Surgia-se algo nas duas presenças: uma admiração mutuamente conectada, como se tivessem se perdido para sempre dentro um do outro…

    A quebra do transe veio da chama.

    A-AKEMI???!!! — Levantando-se rapidamente e desafogando-se do fogo que a envolvia, Hiromi Miyazaki retornou ao seu estado normal. Seu rosto arregalado de surpresa e ligeiramente envergonhado contrastava o impacto visual de suas roupas destinadas a treinamentos: um kimono alaranjado vibrante de padrões flamejantes nos punhos, barra e gola alta, acompanhado por calças bordô justas que destacavam a musculatura das pernas. No dedo médio esquerdo: o reluzente anel alaranjado de sempre. Nos pés: nada.

    Parado no limiar entre o interior do dojô e o mundo lá fora, Akemi parecia mais fenômeno elétrico que humano, pois estava estatelado, consumido pelo que viu, e talvez alimentado por aquilo.

    — Akemi? Ooi? — chamava Miya, aproximando-se do garoto energizado e hipnotizado entre a entrada do dojo mal iluminado por tochas. “Ele tá… diferente. Será que tá me ouvindo!?”, pensou. — Ei, me responde! O que deu em você? — Palavras forçadas não alteraram aquele curioso estado alheio.

    Akemi continuava imóvel, como se visse algo além da garota à sua frente, além das paredes, além do próprio mundo. A eletricidade que o cobria alimentava-se de algo invisível e ao mesmo tempo presente. 

    “Isso não é normal. Essa energia… está dominando ele”, determinada, Miya aproximou a mão delicadamente. Se palavras não funcionavam, talvez um toque o trouxesse de volta. Seus dedos se aproximaram do rosto do jovem, lentamente… até que-

    Tzzt!

    Um arco de energia saltou da pele de Akemi e atingiu a ponta dos dedos de Miya como um aviso. Ela recuou com um susto entrecortado quando sentiu um formigamento desagradável subir pelo braço.

    “Isso foi… uma absorção?!” 

    Não havia espaço para teorias, se Akemi estava perdido em si mesmo, só restava uma opção.  

    Determinada, Miya enfrentou as faíscas que drenavam sua força e preparou um generoso peteleco.  

    Tuc.

    Akemi cambaleou, piscando algumas vezes. As faíscas dissiparam-se como fumaça, e o jovem levou a mão à cabeça, bem onde a pequena marca do leve golpe se formava. — A-ah… Eu… O que aconteceu? — Seu rosto voltou ao normal, levemente atordoado, mas consciente. 

    Miya aliviou-se, porém, apertou os punhos sob uma breve irritação. — Eu que te pergunto! Anda, não pode ficar parado aí, entre logo! — Ela agarrou o pulso do garoto e o levou para o centro do dojo, onde apenas as tochas nas paredes mantinham a ilusão de calor. Lá, a garota soltou-se do rapaz, cruzou os braços e estreitou os olhos. — O que deu em você ali? 

    Akemi observava as próprias mãos na espera de que encontrasse a resposta nelas. — Eu… não sei. Só lembro de ver uma luz. E depois… foi como se eu estivesse sonhando acordado — ele não tirava da mente a figura flamejante que contemplou. — Você pergunta de mim, mas aquela luz… Era você.

    — Luz? — indagou Miya, receosa.

    — Você estava toda em fogo. Seu corpo era luz.  

    Miya cruzou os braços e ponderou consigo mesma. “Normalmente eu consigo perceber a presença dos outros. Por que não consegui pressenti-lo? Enfim, agora não dá pra voltar atrás”, seu rosto mantinha a expressão habitual de quem estava lidando com um cachorrinho teimoso, mas algo trazia a suspeita de um possível segredo sendo escondido. — Quero saber o que faz aqui.

    Akemi abriu a boca, mas as palavras morreram na língua. A pergunta que recebeu o confundiu. Por que Miya perguntaria algo que a mesma com certeza saberia a resposta? — Eu… não sei. Mas seu pai me informou que você queria me ver.

    Miya paralisou. — M-m-meu pai!?

    O jovem coçou a nuca por constrangimento. — Fui atrás dele como você me indicou. Até que a gente conversou bastante, aprendi coisas que nem imaginava. A médica da academia também apareceu pra ajudar, ela era… bizarra… mas foi eficaz. No fim das contas, descobri que minha aura reage bem com energias, principalmente o fogo. O calor meio que… alimenta ela, sabe?

    — Depois?

    O olhar afiado amedrontou o rapaz. Miya parecia interessada em outra coisa além dos relatos da aura do rapaz. 

    “Caramba! Ela prestou atenção no que eu disse?” Mas ele continuou. — Após uns exames, seu pai comentou que você estaria me esperando neste campo de treinamento — uma olhada ao redor flagrou desconfiança. — Só não achei que estaria tão vazio e… escuro.

    Haaah, claro que ele faria isso.

    — Miya… o que tá-

    — Quer mesmo melhorar seus dons com aura?  

    Akemi concordou prontamente.

    — Então me espere amanhã, aqui, no mesmo horário — ordenou Miya, direcionando-se para a saída do dojo.

    — E-ei! Por que quer de novo que nos encontremos aqui?

    Miya não diminuía o passo, frustrada. — Você não deveria ter vindo aqui hoje. Você e nem ninguém. Mas agora já era. A partir de amanhã, este horário será destinado a treinos extras sobre sua aura.

    — Espera! Por que tá dizendo isso? Não vai nem me dizer o que era aquela sua forma de fogo? — Akemi foi ignorado, mas optou por mais explicações. — Pelo menos me diga pra onde está indo!

    Entre a entrada, Miya virou-se, e de pernas cruzadas, escorou-se no batente. — Vou para outros aposentos. Recomendo que não me siga… por enquanto — ressaltou. — Se continuarmos próximos agora, só aumentamos o risco de sermos interrompidos.

    — Eu não entendo. Sei que está falando do Jin, mas quer mesmo que a gente continue se encontrando aqui, todos os dias? E se ele aparecer alguma hora?

    — Não se preocupe com isso. No mais, tome cuidado ao se aproximar de mim sozinha até a segunda ordem.

    — Dormimos no mesmo quarto e só agora você age com cautela?

    — Só estou dando meu máximo pra manter a única pessoa no qual plenamente confio por perto — desabafou Miya, ainda séria.

    — …

    — Qual é a dessa cara? Nunca se sentiu considerado?

    — …

    — Ok, ok. Não tá tão tarde, mas te recomendo dormir logo, precisaremos de muita energia amanhã. Se Nikko perguntar sobre mim, diga que passarei a noite sob alguns afazeres. Então, até mais — Miya desceu os degraus apressadamente e sumiu da visão de Akemi.

    — Até… mais?

    1. perfeição e cuidado com que se faz alguma coisa; apuro.[]
    Sabia que Shihais tem um servidor no Discord? Se quiser conhecer, clique no botão abaixo!

    Regras dos Comentários:

    • ‣ Seja respeitoso e gentil com os outros leitores.
    • ‣ Evite spoilers do capítulo ou da história.
    • ‣ Comentários ofensivos serão removidos.
    AVALIE ESTE CONTEÚDO
    Avaliação: 0% (0 votos)

    Nota