Índice de Capítulo

    O silêncio reinou no campo de batalha.

    Nihara, com o punho suspenso a centímetros do rosto do oponente, estava totalmente paralisado.

    Com os braços levantados e os olhos arregalados, Akemi não compreendia o que acontecia. “O que é isso? Não sinto mais nada… Eu morri!? Espera… aquele é…”

    Atrás do Miyazaki, o shihai temporal mantinha as mãos erguidas. Escrituras horizontais em suas palmas brilhavam intensamente.

    “Ele está fazendo isso? Além de voltar ele consegue parar o tempo!? Como isso é possíveeee-!?” Akemi foi novamente dominado pela visão turva; seu mundo distorceu-se em espirais confusas. Uma escuridão o engoliu, seguido do arrasto do corpo por uma força invisível, como um galho se desmanchando na correnteza de um rio caótico.

    Então, um clarão cortou a escuridão, e a sensação cessou abruptamente.

    De volta à realidade, Akemi assustou-se com o próprio corpo em pé. “Eu voltei no tempo!? Minhas roupas voltaram ao normal, e a dor… ela sumiu!” Erguendo a cabeça, ele avistou Nihara à frente, distante, igualmente renovado, mas estático, examinando o entorno com perplexidade.

    O som da plateia voltou, aplausos tomaram conta da arena.

    O clima indicava que o combate acabou.

    Os dois combatentes permaneciam parados, respirando calmamente.

    — Senhoras e senhores! Em apenas sete minutos, a batalha chegou ao fim com a declaração de desistência de um dos competidores. Então, o vencedor é Nihara Miyazaki! Uma honra ter mais um membro da nobre família de fogo dentro da Academia Shihai de Asahi. Parabéns e boa sorte!

    Enfim, vitória concedida ao ígneo.

    A plateia respondia com palmas simples, e pelo tom, o desfecho da batalha causado por uma desistência não os agradou como esperado;  apesar daquilo, a garota no trono, isenta das chateações abalavam seu rosto, olhava diretamente ao jovem Aburaya, tomada pela curiosidade mascarada de espanto.

    Mas entre tantas reações, Nihara se aproximava lentamente do rival. — Você… pediu desistência? — Os olhos azuis outrora em chamas, exibiam incredulidade.

    Akemi sorriu com constrangimento. — É… bem, a gente fez uma boa luta, não acha?

    — Uma bela luta? Tá de sacanagem!? — Nihara acelerou o passo, a ira ferveu em suas veias. — Não acredito que de tantos inscritos eu tive que pegar logo você! Tá estampado nesse seu jeito ridículo que não sabe o que está fazendo!

    — Não imaginei que as coisas seriam assim — disse Akemi, o medo ainda estava presente, mas outro sentimento vinha: a tristeza da derrota e a perda de um sonho. — Eu não queria lutar. Eu só queria uma chance de-

    — Então por que se inscreveu nessa merda!? — interrompeu Nihara, indignando, gesticulando violentamente — além do mais, o que um fracassado feito você faria na ASA!? Como chegou aqui!? Qual é a sua!?

    — Eu não tenho ideia! — admitiu Akemi, firme — mas uma coisa eu sei: não é certo a gente se machucar dessa forma!

    AAAAAAH!!! QUE CARA IRRITANTE!!! — esbravejou o Miyazaki, soltando chamas da boca — esse era pra ser o momento mais importante da minha vida! Uma batalha épica que eu lembraria pro resto da vida feito o meu primeiro grande passo, mas você estragou tudo! VERME!

    Nihara não estava apenas com raiva, estava cego, cego para tudo exceto sua própria ambição, seu próprio desejo de glória. Ele não via as pessoas ao redor como seres humanos, apenas como obstáculos ou degraus para sua ascensão.

    Akemi notou o comportamento. “Posso ver, ele está alienado a um mundo caótico e sem escrúpulos de justiça. Tudo isso é normal pra ele. Matar alguém para entrar na ASA é apenas um passo necessário… Imperdoável.” Com tal percepção, seu medo deu trégua. — Você precisa se acalmar. A luta já acabou, você venceu. Não há mais nada que-

    Ffu-woooffff!

    Consumido pelo ódio, Nihara canalizou a energia áurica nos músculos e se lançou impetuosamente, voando baixo com um soco armado.

    Akemi perdeu a reação pois sabia que, sem sua eletricidade, jamais desviaria.

    Mas antes que o punho o alcançasse, o tempo agiu como herói:

    O espaço à frente de Nihara tremeu: uma rachadura transparente surgiu no ar como se a própria realidade fosse quebrada. A fissura se expandiu rapidamente em um portal transparente.

    Dentro da passagem sem cor, uma figura surgiu:

    O shihai temporal.

    Atravessando o portal em um movimento fluido, o homem encapuzado imobilizou Nihara com um mata-leão bem encaixado. Embora a aura complexa, o shihai apresentava músculos fortes em sua roupa carbono de fibra colada.

    “O quê!?” Nihara tentou revidar com suas chamas, mas o fogo simplesmente foi cauterizado. “Minhas chamas! Ele cessou minhas chamas! Impossível!” Enquanto era levado para dentro do portal, ele se debatia em vão.

    O shihai temporal, com sua força e poder, tinha total controle sobre a situação.

    — Arg! O que tá fazendo!? Me solta! Eu não posso deixar essa luta acabar assim! NUNCAAA!!! — Parcialmente engolido pelo portal, Nihara encarou o rival declarado. — Ei, Akemi! Eu vou te encontrar, o seu tá guardado! ME AGUARDE, VERME-!

    O portal se fechou quando atravessaram, e o grito foi cortado abruptamente.

    Silêncio.

    Akemi ficou parado no centro da arena, sozinho. A tensão removida de seu coração levou suas mãos aos joelhos. “Ufa! Sobrevivi!” Ele olhou para as próprias mãos, notando que tremiam levemente. “Mas, no final, eu perdi… Caramba, que vazio é esse?” Enquanto alguns na multidão o aplaudiam, Akemi se angustiava por ter ferido alguém. O sonho de ser aluno da ASA parecia ainda mais distante, até porque a expectativa de vitória na luta já era baixa desde o início, uma vez que sua experiência em combate era praticamente nula.

    Isolado, ele se sentia melancólico quando entendeu que, talvez, tivesse fantasiado demais, enxergando-se como um jovem perdido em um mundo ilusório onde, no lugar de futuros heróis, havia apenas matança, sofrimento, ódio e egoísmo.

    Os aplausos da platéia só aumentavam sua frustração.

    “Eles não podem achar que sou um monstro assassino ou algo do tipo. Tenho que dizer o que penso, nem que seja a última coisa que faça nesse lugar maldito!”

    É TUDO DESNECESSÁÁÁRIO!!! — gritou Akemi, de olhos e punhos cerrados pelo estresse.

    Os aplausos pararam e os espectadores focaram no jovem, que apesar do desconforto diante de toda atenção, não hesitou.

    — Vocês não entendem? Não precisamos nos machucar! Não precisamos nos matar para entrar em uma instituição! Somos todos de Asahi! Todos nós deveríamos lutar lado a lado, não uns contra os outros ou mesmo contra inocentes!

    Algumas pessoas murmuraram.

    — Nosso país sempre buscou a paz! Sempre! — prosseguiu Akemi — mesmo depois de guerras devastadoras, mesmo após perdermos tantas vidas contra Medved, nós sempre buscamos reconstruir, sempre buscamos um futuro melhor! Mas colocar jovens pra se degladiarem? Isto não é paz! Isto é loucura, insanidade!

    A garota no trono levantou-se, exibindo um belo sorriso maravilhado. Quando Akemi a viu, surpreendeu-se por breves segundos. Aquilo lhe deu mais coragem.

    — Olhem em volta! Cada um de nós aqui tem valor! Cada um tem sonhos, famílias, pessoas que amam! Não somos peças descartáveis em um jogo de guerra! Somos seres humanos!

    Algumas pessoas na plateia começaram a se mexer desconfortavelmente. Outras pareciam genuinamente tocadas pelas palavras.

    — Eu não sei como são os treinamentos aqui, não sei o que a ASA ensina, mas tenho absoluta certeza de que há outras maneiras de demonstrarmos nosso potencial! Formas que não envolvam sangue, dor e morte!

    Akemi respirou fundo e preparou-se para o fechamento.

    — Somos mais fortes juntos! Somos melhores juntos! E se esta instituição que deveria formar os defensores de Asahi, não consegue ver isso… — ele deixou a frase incompleta, mas o significado estava claro.

    “Talvez não sejamos dignos da nossa história.”

    O discurso atingiu os espectadores como um eco de reflexão.

    A garota de olhares cativantes estava encantada, aplaudindo com entusiasmo delicado, iluminada pela felicidade genuína. Porém, a família ao redor não compartilhava o mesmo sentimento em suas feições negativas.

    Sob a quietude da grande maioria, Akemi sentiu o peso do que fizera. — Enfim, é… eu vou indo! — A vergonha lhe alcançou, direcionando-o rapidamente rumo à porta oeste por onde havia entrado no campo de batalha.

    “O que deu em mim!? Por que eu disse tudo aquilo!? Espero que não me levem a mal! Ai, caramba! Será que eu posso ser preso!? Mas, aquela garota… por que ela agiu daquela forma? Achei que ela me odiaria por ser Miyazaki, mas não parece que foi bem assim… Ah, esquece! Eu tenho que sair logo daqui o mais rápido possível!”

    O que sobrou foi o retorno pelo trajeto já percorrido até a saída da instituição, atravessando a entrada da arena e seguindo pelo amplo corredor com vista para os estabelecimentos da ASA.

    “Maldito Major Hasegawa! O que ele tinha na cabeça para não me contar detalhe algum desse teste!? De qualquer jeito, a escolha foi minha, e agora, tudo o que eu almejava foi por água abaixo. Não tenho cabeça pra aguentar essas dores e sofrimentos. O que essa gente maluca pensa ao ver toda essa intriga absurda?”

    Akemi se tornava ainda mais pensativo enquanto descia sozinho pela longa escada em U rumo ao térreo do edifício principal.

    “Só quero voltar pra casa, o vovô deve tá preocupado. Pior que ele estava certo o tempo todo, nem sei nem o que dizer quando o ver. Esse lugar não é bem como eu pensava… Acho que não fui feito para ser um shihai, e sim, um mero operário… E agora? O que eu faço com o meu corpo? Não quero mais essa droga de aura! Como eu volto ao normal!?”

    Desconhecido do próximo passo da vida, o rapaz não segurou a lágrima que escapou de seu olho direito. A tristeza profunda veio à tona.

    Entretanto, enquanto descia as escadas, ele escutou passos rápidos se aproximando por trás.

    “… Mas o que é que-?”

    Akemi foi pego por um forte abraço pelas costas. Surpreendido, ele se manteve imóvel.

    O abraço era caloroso, acompanhado de um suave aroma floral, provavelmente vindo de um perfume com notas açucaradas e frescor cítrico de neroli.

    Cap-14-Scene-1

    Quanto mais tempo durava o abraço, mais ansioso e constrangido o jovem ficava.

    “O quê? U-u-um abraço!? Estão me abraçando!? Q-quem tá fazendo isso!? A-aliás, quem faria isso!?”

    Finalmente, a pessoa abruptamente soltou o abraço.

    Akemi virou-se e deu de cara com alguém que não esperava. A mesma garota que, sentada no trono entre a Família Miyazaki e tinha aplaudido suas palavras, estava diante dele, a apenas um degrau acima de distância.

    O rosto dela corou-se com a troca de olhares, um recuo de um degrau foi a reação. Desesperada, ela se curvou várias vezes em gestos de desculpas, gaguejando e suplicando: — A-ah! É-é… desculpe pelos meus modos! E-eu não sei o que me deu! Perdão, perdão, perdão! — Mesmo constrangida, sua voz permaneceu suave e encantadora.

    “É a garota chamativa… Ela… me abraçou? É ela mesmo…? É a primeira vez em que recebo um abraço de um desconhecido assim… E FOI DE UMA GAROTA!? Ai, caramba! O que eu falo agora!?”

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