Capítulo 16 - Consequências de um derrotado
Miya e Akemi viraram-se simultaneamente ao som dos passos apressados ecoando pelo pátio.
Um militar de farda verde camuflada aproximava-se com as mãos entrelaçadas atrás das costas e postura rígida denunciando anos de serviço. Fisicamente, ele não aparentava imposição: sua estrutura era mais cerebral que combativa. Os óculos de armação prateada refletiam a luz do sol, ocultando completamente os olhos enquanto os cabelos pretos, curtos e lisos, caíam penteados para a direita. — Hm… Hiromi? Não irá assistir as próximas lutas? — Sua voz suave tinha um tom de autoridade contida, sem agressividade, mas inegavelmente atenta.

Miya arregalou os olhos por um instante. — Pai!? O que faz aqui?
“Pai? Esse é o pai dela!?” Akemi enrijeceu o corpo. A presença do pai de alguém como Miya — uma candidata ao matriarcado, filha de uma lendária marechala — não era exatamente o que ele esperava.
— Vi que você não estava nas arquibancadas, então fui te procurar — respondeu o militar, ajustando os óculos — pelo menos você não foi tão longe.
Miya abaixou a cabeça e falou mais baixo que o normal. — Não entenda como se eu estivesse me afastando da família.
O tom de incômodo era inconfundível.
O pai observou a filha por alguns segundos antes da sua análise a Akemi, que permanecia sentado no banco, completamente deslocado daquela situação familiar. — A gente conversa sobre isso depois. Quero saber o motivo de você estar perto desse fracassado.
“Fra-FRACASSADO?!”
A palavra bateu como um soco no estômago.
Miya levantou-se bruscamente do banco. — Ele não é fracassado! Aliás, ele tem um nome! Akemi, este é o meu pai, Masaru Miyazaki. Pai, este é o Akemi. Enfim, espero que vocês se deem bem.
“Essa patente nos ombros dele… é um subtenente!”
Masaru caminhou e ficou frente a frente com Akemi, que ainda permanecia sentado.
Miya desconfiou da movimentação.
— O que você vai fazer?
Masaru ignorou a questão completamente, mantendo o foco no jovem amedrontado. — Garoto, você foi extremamente imprudente naquele discurso. Muitas pessoas de alto escalão estavam assistindo, e suas manifestações contra o teste poderiam fazer-te prisioneiro ali mesmo… ou pior.
“Pior?! Que diabos isso significa!?” Akemi engoliu seco, sentindo a garganta apertando. — Senhor, eu só tentei dizer o que achava certo… e-eu não queria lutar.
— Sinceramente não sei como te inscreveram nesse teste final, mas estava óbvio que você não queria estar ali — prosseguiu o militar, cruzando os braços — por mais que sua aura tenha deixado um membro da nossa família naquele estado, todos viram o seu jeito de lutar, e isso foi o que mais confundiu os telespectadores. Não é essa a atitude que esperam de um aluno da ASA.
Akemi levantou-se do banco, buscando algum resquício de dignidade. — Me desculpe… eu… irei me retirar.
— Ele não vai agora!
O grito urgente virou os rostos de Akemi e Masaru simultaneamente.
Miya estava visivelmente irritada. Claramente, se dependesse dela, ocorreriam afrontas por respeito.
— Hiromi, se você quer o bem desse garoto, tem que deixá-lo ir embora o mais rápido possível. Como derrotado, ele precisa sair da instituição antes que grandes problemas sejam causados. Você sabe que estamos sendo observados.
— Eu não me importo! — Miya deu um passo desafiador à frente — Akemi não causará problema nenhum! Assim como nós, ele também quer defender o país. Você sabe que são poucos os que entram naquela arena, e só de ter feito isso, ele já merece um pouco da nossa consideração.
Apertando a ponte do nariz por baixo dos óculos, Masaru suspirou e negou com a cabeça. — Haahh, não adianta apenas entrar na arena, é preciso mostrar o espírito de batalha. Observei que os recrutas da nova turma são promissores, e este moleque não duraria nem no primeiro dia daqui. Os que têm força para defender o país sempre se sobressaem, não os que apenas querem.
— Falando assim, até parece que você esqueceu de tudo que a mamãe disse — Miya entristeceu-se, suas duas mãos pressionadas contra o peito seguravam a dor que escapava.
Masaru aproximou-se da filha. — Querida, sei o quão isso significa para você, mas não podemos fazer nada por ele. Você não precisa se preocupar, concentre-se em aprimorar suas habilidades para quem deseja orgulhar. Você tem um cargo muito importante à disputa, não pode deixar que coisas como essa tirem o seu foco.
— Você não entende! — Miya recusou, negando com os braços — eu preciso de alguém como ele! Não me importa se parece fraco ou ingênuo, é muito melhor do que qualquer um que conheci nessas instituições que criam monstros!
— Tome cuidado com as palavras — advertiu Masaru, erguendo um dedo indicador — apenas fazemos o necessário para proteger Asahi. Além do mais, esse garoto pode tentar servir em outro quartel, porém, a ASA não o serve.
— Me recuso a aceitar! Não sei ao certo quem o trouxe, mas se ele chegou até aqui, é porque tem coisas além do que vejo!
— Hm, como esperado, você nunca perde a postura — embora entregue, Masaru inclinou a cabeça levemente — então, que alternativa a senhorita tem agora?
Miya assumiu a seriedade e caminhou com passos firmes em direção ao garoto.
“O que ela tá fazendo!?” Confuso, Akemi levantou os braços em rendição. — M-Miya? Você tá bem?
Silêncio.
A garota parou a menos de um metro dele, encarando os olhos do rapaz com uma intensidade sufocante.
“Ela vai ficar parada me olhando assim por quanto tempo!? Ela tá brava comigo? Ela quer me matar!?”
Inesperadamente, Miya bateu a mão contra o centro do próprio peito. — Em minha posição como portadora da chama eterna e candidata à futura matriarca da família ígnea, eu, Hiromi Miyazaki, usarei meu direito de indicação para que Akemi entre na próxima turma de recrutas da Academia Shihai de Asahi!
— … Quê…? — Akemi simplesmente quebrou: boca entreaberta, rosto incrédulo, mal entendimento sobre o que ouvira… parecia que alguém havia desligado seu cérebro por alguns segundos e esquecido de religá-lo.
A quietude pairou entre os jovens, pesada como chumbo, até que…
— Ha ha haaa! Hiromi, você sabe que é impossível tentar isso.
A risada alta e debochada de Masaru quebrou o momento.
Miya encarou o pai com um rosto emburrado, quase infantil apesar da seriedade anterior. — Impossível por quê!? Tenho absoluta certeza de que sou qualificada para fazer uma indicação.
Masaru abandonou completamente a postura militar e colocou as mãos na cintura como se estivesse conversando sobre o clima.
— Tem razão, entretanto, a decisão final dos indicados é feita apenas pelos superiores, e das poucas vagas que existem, com certeza eles não vão escolher alguém que perdeu uma luta na frente de quase mil pessoas.
— Mas essa é a única opção! Independente do que pensem, vou fazê-los entenderem o meu pedido. Eles vão me ouvir.
Masaru deu de ombros. — Faça como planejar. Suas responsabilidades já são bem conhecidas, e por incrível que pareça, não sou eu quem tem poder pra te impedir de fazer o que queira, mesmo sendo seu pai. Apenas posso te aconselhar: tome cuidado com as suas decisões, lembre-se que o matriarcado da família não pode ser manchado.
— Eu sei o que estou fazendo. Não é como se um simples pedido sujasse o nosso sobrenome.
— Claro, mas por favor, volte logo para o seu posto. Provavelmente já perdemos a exibição de alguns combates.
— Tá, mas antes! Posso apenas me despedir do meu amigo?
— Amigo, é? — Masaru ergueu uma sobrancelha, mas não pareceu realmente surpreso — tudo bem, dispense-o logo. Ele está fazendo hora extra aqui há um bom tempo.
O subtenente deu meia volta e caminhou em direção à entrada do prédio principal, os passos ecoaram pelo pátio até desaparecerem completamente.
Miya voltou-se para Akemi, relaxada daquela postura formal e imponente. — Finalmente! Nossa, te fiz ficar esse tempo todo observando essa conversa boba. Mil perd-
— Me fala a verdade, quem é você?

Regras dos Comentários:
Para receber notificações por e-mail quando seu comentário for respondido, ative o sininho ao lado do botão de Publicar Comentário.