Índice de Capítulo

    A porta de madeira rangeu quando Akemi a empurrou com cautela, revelando o interior familiar de sua casa.

    A luz alaranjada do fim de tarde invadia pelas grandes janelas à esquerda, criando faixas douradas que cortavam a sala de estar.

    Na poltrona de couro desgastado — aquela que já havia absorvido décadas de preocupações e histórias não contadas — Isao, de corpo curvado e mãos entrelaçadas sobre o colo, esperava por algo que em sua mente talvez nunca chegasse: seu neto.

    Vovô? — murmurou Akemi, tomado por uma culpa desconhecida.

    Os olhos idosos encheram-se instantaneamente de emoção: Isao levantou-se da poltrona com uma velocidade surpreendente para sua idade e atravessou a sala em passadas largas e determinadas. — Akemi! — O abraço apertado confirmou que o neto era real e voltou em segurança.

    Akemi sentiu a fragilidade daquele corpo envelhecido pressionado contra o seu, o calor da pele enrugada era reconfortante e doloroso ao mesmo tempo. — Vovô, eu…

    Isao afastou-se abruptamente, examinando cada centímetro do jovem com um desespero mal disfarçado. — Como você está!?

    A pergunta saiu como uma ordem, exigindo respostas imediatas.

    Akemi entendeu a situação e optou pela sinceridade. — Estou bem. Confesso que vivi momentos assustadores, mas já passou.

    O semblante do velho iluminou-se momentaneamente, uma breve centelha de alívio cruzando suas feições cansadas. Contudo, a satisfação durou apenas um instante antes que fosse engolida novamente pelas sombras de preocupação que pareciam permanentemente gravadas em seu rosto. — Ainda bem, mas o que quer dizer com momentos assustadores? O que aconteceu?

    — Como posso explicar? Meio que… eu consegui!

    — Conseguiu?

    Akemi respirou fundo, reunindo coragem. — Deu tudo certo, vovô! Eu serei um integrante da Academia Shihai de Asahi!

    — Você… — Isao arregalou os olhos, vendo-se diante de um pesadelo antigo.

    Akemi quis passar confiança, mostrando que estava tudo sob controle, que ele sabia o que estava fazendo. — Vovô, eu vi tudo com meus próprios olhos e agora entendo do que o senhor estava tentando me proteger. Mas durante essa jornada, conheci pessoas incríveis que estão dispostas a me ajudar. Pela primeira vez na vida, eu não me senti sozinho.

    Isao desviou o rosto imediatamente, aquela revelação foi um gatilho, uma palavra-chave que abriu baús trancados há décadas. Memórias dolorosas renasceram por trás das pupilas escuras e cansadas. — É muita ingenuidade. Você não entende, Akemi. A vida de um militar… ela é… — O sofrimento inocultável estrangulou as palavras na garganta do idoso, impedindo o  término da frase.

    — Diga-me a verdade, por que você sempre foi contra os meus objetivos?

    As palavras que Isao buscava pareciam presas em algum lugar entre o coração e a boca, constantemente reprimidas por alguma força invisível. O idoso suspirou longamente e apontou ao sofá. — Precisamos conversar melhor sobre isso. Vamos nos sentar.

    — Certo.

    “Ele está tão tenso e confuso…”

    Ambos caminharam até o sofá desgastado no centro da sala. Isao sentou-se primeiro, afundando no estofado com um gemido baixo. Akemi ocupou o lugar ao lado, mantendo uma distância respeitosa.

    — Akemi, existem coisas que você ainda não sabe — começou Isao — você não passou por momentos de guerra, mas eu, por ser mais velho, sei bem o que ela causa. Vi cidades devastadas, amigos se perdendo, famílias destruídas. Apesar de estarmos em paz agora, o Exército Asahiano é uma ameaça que pode desencadear novos conflitos intermináveis. Não quero que você tenha que passar por tudo isso.

    — É óbvio que a guerra é terrível, e por isso farei tudo ao meu alcance pra evitar novos embates. Mesmo que eu seja vulnerável e tenha muitas coisas pra melhorar, sei que não estarei sozinho nessa.

    Uma nostalgia profunda invadiu Isao, como se um fantasma de seu passado estivesse sentado ao lado do neto. “Ele fala exatamente como ela… esse brilho no olhar junto dessa teimosia…

    Akemi franziu a testa. — No que está pensando?

    — Não. Não é nada — Isao balançou a cabeça, espantando os fantasmas dos pensamentos — quero que me diga como foi esse teste que você fez na ASA — seu olhar afiado esperava verdades não ditas através das microexpressões e hesitações do neto.

    — Eeeh… imaginei que seria um teste como uma prova escrita, porém… era um combate.

    Confuso, o avô conectava pontos invisíveis na mente. — Um combate?

    — Foi numa arena, era tipo um coliseu enorme com uma redoma transparente que protegia os espectadores. Eu mal podia acreditar que estava naquele lugar.

    Redoma transparente — repetiu o idoso, reflexivo — você entrou nesse campo de batalha sabendo que faria uma luta real?

    — Sim, vovô. Meio que eu não sabia dos riscos no começo, mas não adiantava fugir, eu tinha que seguir em frente!

    Isao lamentou, logo, questionou: — Contra quem você lutou?

    Akemi detalhou a magnitude de sua surpresa quando descobriu quem seria o seu oponente. — Era um garoto insolente e valente, mas era rápido e poderoso. Pra falar a verdade, eu sempre soube que não teria a menor chance. Seu nome era Nihara, um integrante da Família Miyazaki.

    Miyazaki… — O nome saiu dos lábios de Isao como uma maldição, um veneno destilado ao longo de anos de ressentimento acumulado.

    Akemi coçou a nuca, constrangido pela própria fraqueza. — Até porque eu estava passando por alguns problemas pra controlar a minha aura.

    — O que ele fez com você?

    — Não sei como explicar. As chamas dele… elas não me afetavam. Ele tentou me atacar com fogo, mas eu não sofri dano algum. Só que… antes que eu pudesse perceber, ele partiu pra cima de mim e… — Akemi relatou como sua aura havia reagido automaticamente, deixando ferimentos graves num Miyazaki. Todavia, ele não escondeu o que aconteceu quando sua defesa foi quebrada, lembrando da sensação de derrota iminente nos estágios finais da batalha. — … Mas então, tudo ao redor parou. Foi o shihai do tempo.

    O rapaz explicou sobre como o shihai temporal havia impedido que ferimentos permanentes fossem causados, trazendo um pouco mais de tranquilidade ao avô imerso na história.

    — Em seguida?

    — Fui puxado pra um tipo de corrente temporal. Foi a sensação mais estranha da minha vida, e quando retornei, tudo estava como antes. Eu estava ileso e com as roupas intactas.

    A informação do shihai do tempo trouxe perplexidade genuína pelo fato.

    — E como isso terminou?

    — Como esperado, fui declarado perdedor — relatou Akemi, triste — a plateia reagiu de várias maneiras com o fim da luta, mas Nihara estava furioso por eu não lutar como ele queria e tentou me atacar após o fim do combate. Pra minha sorte, um shihai o impediu.

    Que situação deplorável — desaprovou Isao — bom, você ganhando um combate é realmente impensável. Mas o que você fez depois?

    — Questionei o público sobre a necessidade dessas lutas. Falei sobre a futilidade de confrontos mortais e a necessidade de buscar a paz. Não sei se deveria ter falado isso, mas senti que precisava.

    — Hum, sua cara fazer uma coisa dessas — uma sombra de orgulho cruzou Isao brevemente antes da substituição pela preocupação.

    — Entretanto, se perdeu o combate, como entrou pra ASA?

    — Eu… conheci uma garota… da Família Miyazaki — Akemi comentou sobre como Miya havia sido pragmática, como ela o havia avaliado e decidido que ele seria útil. — … Ela enxergou algo em mim e disse que precisava da minha presença pra realizar seus sonhos de paz. Mesmo com algumas desavenças, ela usou o sobrenome pra me indicar.

    — Só ela não será o suficiente pra uma indicação.

    Akemi olhou para frente, relembrando o momento crucial de sua vida. — Nós também sentimos isso, mas foi quando o Marechal Jin Ichikawa apareceu.

    — Ji-

    Isao paralisou instantaneamente: o nome morreu em seus lábios, arregalando seus olhos. Não era surpresa, era terror puro e visceral, como se alguém tivesse invocado um demônio esquecido.

    Akemi, completamente alheio à reação do avô, continuava animado: — Nós já tínhamos nos encontrado antes da minha luta. Não sei como, mas ele descobriu sobre o meu caso e colocou muita esperança na minha aura elétrica… só que algum tempo depois, quando aquela garota me indicou, ele apareceu do meio do vento, como se fosse do próprio nada! Você devia ter visto!

    Uma quietude estranha e sufocante surgiu entre os dois, preenchendo a sala como uma névoa densa. Akemi finalmente percebeu e virou-se para o lado. A reação inerte do velho o assustou. — Vovô!?

    Isao saiu da paralisia lentamente e abaixou a cabeça. — Não me diga mais nada.

    — Não?

    O olhar do avô finalmente encontrou o do neto, e por um momento — apenas um breve e terrível momento — Akemi viu algo em Isao que nunca havia visto antes: resignação total, a aceitação sombria de um destino inevitável.

    — Está entrando num mundo perigoso, rapaz. Só espero que no fim você encontre o que busca. Você é um adulto, te manter longe do perigo já se tornou difícil. Saiba que está avisado.

    — Confie em mim, vovô. Me sinto inspirado agora. Não quero mais ser aquele garoto sozinho e estranho. Serei alguém melhor!

    Mesmo aceitando momentaneamente a situação, Isao preocupava-se com as incertezas do futuro de seu neto. Ele endireitou a postura e ampliou a seriedade. — Entendo, mas agora, deixe-me contar algo sobre os Miyazaki.

    Akemi atentou-se. — Claro, pode dizer.

    — Os Miyazaki são extremamente poderosos, imponentes e ricos, porém rudes e gananciosos, infestados de pessoas com feitos sujos e maléficos. Entretanto, conseguiram apagar esses casos com a chegada de certos integrantes que alavancaram o nome da família… Tome cuidado, orgulhosos destroem coisas cegamente.

    — Tá tudo bem, consigo perceber a índole dos outros. A garota que conheci é totalmente diferente do que você está dizendo. Confio plenamente nela.

    — Seja como for, só peço que preste atenção nela. Diferente de você, eu nunca acreditaria nessa classe alta… Enfim, como vai se preparar pra ASA? Nem roupas pra lá você tem.

    Com base nas informações do contrato que outrora assinara, Akemi repassava: — Parece que elas serão enviadas em encomenda até a nossa casa, juntamente com várias outras coisas. Não sei quando vão chegar, mas estou ansioso pra ver!

    — Compreendo. Bem, como não terá mais tempo pra trabalhar, darei fim ao seu estágio na usina. Espero que seja feliz com sua nova rotina daqui pra frente.

    — Você aceitou tudo isso… numa boa?

    — Como eu disse, não tenho mais forças pra te segurar. Preciso descansar a cabeça — Isao levantou-se do sofá com dificuldade, ajeitando as calças com preguiça.

    — Onde vai?

    — Vou ao meu quarto escutar um pouco de rádio. Essas tecnologias de hoje em dia me encantam. Fique à vontade pra fazer o que queira.

    O idoso caminhou em direção ao corredor à direita da casa.

    Akemi observou a figura encolhida do avô sumindo na penumbra do corredor. “Nossa, achei que ele fosse espernear, trancar a porta da casa e jogar a chave fora comigo aqui dentro, mas foi tudo tão tranquilo… Enfim, queria aprender mais sobre a ASA, mas não tenho nada que possa ajudar. Acho que vou apenas esperar a encomenda.” Ele recostou-se no sofá, deixando a cabeça pendendo para trás enquanto encarava o teto manchado pelo tempo.

    Finalmente, o sonho da vida estava mais próximo do que nunca.

    Entretanto, por que aquela sensação estranha de vazio ainda persistia no fundo do peito do rapaz isolado?

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