Capítulo 21 - Mal-entendidos
[ 28 de abril de 1922, Toryu, Asahi, às 7h30 da manhã. ]
Utilizando bondes públicos, Akemi chegou à praça do centro de Toryu com a maleta em mãos. O frio sob o sol fraco da manhã forçava os transeuntes à opção de casacos e passos acelerados.
Notificado em um jornal sobre serviços de taxi que operavam próximos à fonte central da praça, o jovem Aburaya esperava um veículo na região.
“Caramba, já se passaram trinta minutos e nada! Era pra ter chegado pelo menos um!”
O serviço de táxis era recente e escasso, Akemi estava ciente disso, mas era o único meio de transporte até a academia.
“Hoje não pode dar nada errado!”
[ Cinco minutos depois ]
Um veículo vermelho de mesmo modelo visto anteriormente na ASA estacionou próximo à praça.
“Oh! Aquele deve ser um táxi!” Akemi atravessou a praça em passadas rápidas, trombando sem querer em algumas pessoas enquanto desculpava-se apressadamente. Quando chegou próximo ao carro, observou o interior através da janela.
O motorista era um homem de meia-idade, corpo leitoado, vestido em um uniforme vermelho com botões brancos que quase cediam sob a força da grande barriga. Embora a calvície coroasse o topo de sua cabeça, ele esbanjava uma cabeleira longa e ruiva por trás da nuca. A barba e o bigode eram volumosos e bem cuidados, contrastando completamente com a postura desleixada. Ele estava praticamente caído sobre o volante, com uma pálpebra visivelmente mais caída que a outra.
“Que cara estranho, parece sonolento…”
O motorista notou que era observado e encarou o jovem.
— Tá olhando o quê, garoto?
A voz arrastada e o jeito jogado dispararam um alarme na cabeça de Akemi.
“Essa voz… ele tá bêbado!? Não é possível! Mas não tenho outra escolha.”
— Você… é um taxista, certo? Qual o seu nome?
— Fjell Gråååååg!
O tremendo arroto acompanhado do nome afastou Akemi. — Fjell… Grog?
— Gråg1! Tem que melhorar essa pronúncia, garoto… e sobre ser taxista, depende da viagem. Mas esse seu uniforme não engana ninguém, quer ir pra ASA, né não?
— Sim, senhor.
— Faço por cem Ians.
“Ugh! Facada! Ainda bem que trouxe uma quantia maior comigo.” Akemi entregou cem moedas asahianas ao motorista e entrou no banco de trás. Assim que fechou a porta, o carro iniciou o trajeto lentamente pela rua.
Fjell esticou o braço para trás, segurando algo entre os dedos grossos. — Toma, garoto. Cortesia da casa.
Era um copo pequeno cheio de um líquido dourado e transparente.
Akemi pegou o recipiente instintivamente, observando o conteúdo com curiosidade. “Isso é… cerveja?”
O cheiro forte de álcool confirmou suas suspeitas.
Ele nunca havia bebido antes, pois atingira a maioridade há poucos tempo, e seu avô nunca permitiu que álcool entrasse em casa. A curiosidade era genuína. Como seria o gosto? Por que tantos adultos bebiam aquilo?
Akemi aproximou o copo dos lábios, quase experimentando… mas recuou. “Espera. De onde diabos esse líquido saiu?” Ele olhou para Fjell, que dirigia tranquilamente como se nada tivesse acontecido. Não havia garrafas visíveis no carro. Não havia nenhum recipiente.
“Esse forte cheiro de alcool não vem desse copo. Espera, ta vindo… do motorista?”
Com receio mal disfarçado, a cerveja foi colocada no porta-copos ao lado do banco.
— Hm, não vai beber? — perguntou Fjell, observando pelo retrovisor.
— Ah… não, obrigado. Não costumo beber pela manhã.
— Ah é!? Haahaha! Bom que sobra mais pra mim! — Fjell apontou o dedão para a boca, e da ponta do dedo grosso, saiu-se o líquido dourado que saciava sua sede por bebida alcoólica.
Como suspeitado, Akemi era levado por um áurico destilado, o que aparentemente resultava em um homem eternamente bêbado. “Onde eu fui me meter… e se esse cara bater o carro!? Bom, na velocidade que estamos, pode até não acontecer.”
A viagem seguia vagarosa, fazendo com que o relógio antigo no painel do carro fosse incessantemente vigiado.
“Sete e quarenta e sete. Se o caminho até o centro demorou quase vinte minutos da última vez, esse caminho inverso deve levar o mesmo tempo! Quem sabe até mais! Eu vou me atrasar logo no primeiro dia?!”
A ansiedade crescia a cada minuto que passava. Akemi balançava as pernas involuntariamente.
O veículo finalmente chegou à frente da ASA.
Fjell estacionou do lado de fora da muralha. — Tá aí, chegamos. Ó, não te deixarei lá dentro pois tenho que voltar ao centro. São sete e cinquenta e nove, então eu te aconselho a… — Ele olhou pelo retrovisor; o banco de trás estava vazio. — Ué? Pra onde ele foi? — Olhando à frente, o motorista flagrou Akemi correndo em direção ao grande portão duplo que estava sendo fechado por dois militares.
— EI, ME ESPERA! — gritou o garoto, acelerando com a maleta batendo contra a perna.
À esquerda do portão, um homem de farda azul parou de empurrar quando viu um jovem de gakuran aproximando-se velozmente. À direita, uma mulher loira e alta com várias cicatrizes, vestida num uniforme vermelho com grandes ombreiras de metal desgastado, também pausou. Seu cabelo preso num rabo de cavalo acentuava a seriedade em seu rosto desafiador.

— O que é aquilo? — perguntou o guarda.
— Argh, é apenas mais um bisonho chegando tarde.
Akemi parou na frente deles, colocou a maleta no chão, e com as mãos nos joelhos, recuperava o fôlego. Sua cabeça baixa não o mostrava quem eram os militares.
— Hmm, olha só quem é — sussurrou o homem.
— Você é um recruta!? — indagou a militar, afrontosa.
Akemi não levantava o corpo. — Haaah. Haaah. Sou um aluno… da nova turma. Haaah. É meu primeiro dia aqui — curvado, ele juntou as mãos — por favor, perdoem-me por chegar em cima da hora.
— Documentos — ordenou o outro guarda.
“Essa voz… eu a conheço…” Akemi finalmente ergueu a cabeça e deparou-se com um rosto familiar. — M-Majo-!
— Documentos! — interrompeu Hasegawa, firme e quase hostil.
Ignorando o reencontro, Akemi vasculhou a maleta, pegou seu registro civil e entregou.
Hasegawa analisou o documento em silêncio. — “Akemi Aburaya, nascido no dia vinte e sete de maio de 1904 na cidade de Mushi…” Hmmm… Lembro do nome dele na lista de indicados, mas isso aqui é muito estranho — Hasegawa mostrou o papel para a companheira, apontando. — Este documento é recente e insinua que este garoto é trivial.
Akemi ficou sem jeito. — Ah! É… então, hehe. Isso é uma longa história, sabe.
“Meus documentos ainda me categorizam como trivial! Que vacilo! Como deixei essa passar!”
— É algum tipo de piada, moleque!? — questionou a mulher, brava.
— N-não! Não sou trivial, esses documentos são antigos! Eu…
Hasegawa soltou o papel, deixando-o no chão. — Desculpe garoto, mas isso só pode ser tratado como falso.
As palavras duras deixaram Akemi baqueado. — Por favor! E-eu posso provar! Olhem!
Desesperado, Akemi fechou os olhos e tentou manifestar sua aura, concentrando-se com toda a força…
Nada.
“De novo não! Inferno!”
Os militares observaram a cena com confusão.
— Deve estar drogado — comentou a mulher.
Hasegawa olhou-a de esguelha, permanecendo em silêncio. Seu comportamento era estranho, como se soubesse exatamente o que estava acontecendo mas fingisse ignorância.
— Gente, por favor! Vocês precisam acreditar em mim! Olha, recebi todo este equipamento da ASA, isso deveria servir de prova!
Irritada, a mulher impôs ordens de modo dominante: — As regras são claras! Sem identificação, nada de passagem! Você não pode permanecer nessas proximidades! Saia imediatamente antes que seja preso por falsificação de documentos!
Naquele momento, Akemi sentiu o medo tomando conta. “Não tem pra onde correr! Eu não quero ser preso!”
Woooosshhh!
— Que confusão é essa? — Uma voz autoritária ressoou atrás dos guardas.
Akemi viu Jin Ichikawa posicionado entre os militares. Mesmo com a idade avançada, o homem era incrivelmente mais alto que todos ali.
— Marechal Ichikawa!? — exclamaram os três simultaneamente.
— Vejo que temos um recém-chegado — comentou Jin, observando Akemi com interesse.
A mulher de uniforme vermelho prestou continência. — Senhor! Este garoto está tentando entrar na academia com documentos inverídicos e isso é crime. Pode manter o caso conosco, já estamos tomando as medidas drást-
— Deixe-o passar — cortou Jin, subjugando a subordinada com os olhos.
Os guardas cederam à autoridade imediatamente. O portão foi aberto.
— Siga-me, garoto — ordenou o marechal.
Caminhando pelo caminho de brita até a entrada da instituição, Akemi sentia-se desconcertado pelo envolvimento numa cena tão complicada logo no primeiro dia. Enquanto massageava o braço nervosamente, ele olhou para o militar ao lado. — Obrigado, Marechal Ichikawa.
De peito estufado, andando com as mãos entrelaçadas atrás das costas, Jin mantinha a seriedade absoluta. — A partir de agora é Diretor Ichikawa — aquela personalidade convidativa de antes desapareceu completamente.
“Diretor?”
— Ah, claro!
Distraído pela beleza dos jardins e construções locais, Akemi analisou os arredores enquanto caminhavam.
O lugar estava vazio demais: nem sinal de outros alunos ou militares transitando, apenas alguns pequenos animais estranhos como aves e insetos.
“Aqui continua tão deserto de pessoas… não esperava isso.”
De repente, exigências do avô foram lembradas. “Não sei quem é o diretor da ASA hoje em dia, mas tome cuidado com ele, mantenha distância…”
Akemi olhou discretamente para Jin caminhando com aquela postura imponente e silenciosa. “Preciso ficar atento.”
— Senhor Ichi- quero dizer! Diretor… por que-
— Achei que você não viria, 01 — interrompeu Jin.
“… 01?” Akemi coçou a nuca rapidamente. — Ah! Hehe, perdão pela impressão. Vim do melhor jeito possível, mas ocorreram alguns mal-entendidos. Que sorte a minha o senhor estar por perto. “Então aquele 01 na minha roupa de treino era realmente a minha identificação? Mas como ele sabe exatamente qual é o meu?”
Na entrada do prédio principal da instituição, era notável que o local encontrava-se quase vazio. Apenas a presença da recepcionista de estilo gótico indicava vida.
— Senhorita Kurosawa, voltamos — informou Jin.
— Conseguiu encontrar o que faltava? — perguntou Yui, tediosa.
— Positivo, a partir de agora, este recruta está aos seus comandos, tenho que resolver alguns afazeres. Hoje será um longo dia.
Woooosshhh!
Jin desapareceu fundindo-se ao vento.
A recepcionista trocou olhares com Akemi. — Olá… — mantendo sua frieza, ela estendeu a mão. — Pode me chamar de Yui, sou a assistente de atendimento daqui. Prazer… em conhecê-lo.
— O prazer é todo meu!
A empolgação de Akemi no aperto de mãos não agradou a moça, que, enojada, limpou discretamente as mãos com um lenço embaixo do balcão e apresentou uma lista de assinaturas sobre a mesa.
— É, então… preciso registrar a sua chegada. Assine aqui.
Akemi deixou a maleta no chão, pegou a caneta-tinteiro e assinou onde era solicitado seu nome e horário de chegada.
Terminada a assinatura, Yui guiou com muita má vontade: — Sua sala é a primeira à direita no primeiro andar. Pode ir até lá e abrir a porta sem nenhuma precaução.
— No primeiro andar? Você fala deste aqui?
Yui passou a mão nos olhos com impaciência evidente. — Ai, como pode ser tão burro? — sussurrou ela antes da explicação com calma forçada — estamos no térreo do prédio, o primeiro andar está logo acima de nós, e é lá onde você precisa ir.
— Woah! Não sabia dessa! Muito obrigado!
Akemi curvou-se em agradecimento, pegou a maleta e iniciou a subida pelos degraus das estreitas escadas em U.
“Por que não há ninguém nem nas escadas? Será que realmente estão acontecendo aulas neste prédio?”
A primeira porta de ferro foi encontrada, abrindo-a, revelou-se um corredor curvo que insinuava uma volta circular baseada no formato do prédio. Portas pretas à esquerda indicavam vários recintos.
“Tenho que me apressar! Tô muito atrasado!” Seguindo as recomendações da recepcionista, Akemi agilizou o passo.
Não demorou muito até que visse a primeira porta à direita.
“Oh! Ali está! Deve ser ali a minha sala!”
A porta era feita de madeira escura e desgastada, sem qualquer identificação nas proximidades — ao contrário das outras à esquerda, que possuíam placas acima.
“Yui disse que eu poderia abrir sem problemas. Então vamos lá!”
Quando girou a maçaneta redonda e empurrou um pouco a porta…
Ktiiinnn!
Akemi foi surpreendido pelo barulho de uma lâmina cortante. Algo pontiagudo chegou perigosamente perto de seu pescoço. Por instinto, seu queixo se levantou levemente e seu corpo se manteve completamente imóvel.
Dentro da sala e de costas, uma garota baixa de cabelo chanel preto usava um uniforme negro com detalhes vermelhos e brancos. Em sua mão esquerda, uma pequena foice mantinha a ponta da lâmina próxima à jugular esquerda de Akemi, que suava frio.
“Q-quem é essa maluca!? E que coisa é essa? Uma kama ninja…? Ela quer me matar!?”
O silêncio tornou o clima tenso.
A sala era relativamente pequena e escura, mas era visível que as paredes estavam cobertas por uma impressionante variedade de armamentos: facões, katanas, lanças, escudos…
Amedrontado, Akemi se explicava: — O-opa! Acho que abri a porta errada, eu… vou pro outro lado, foi mal! — Com muita cautela, ele se afastou lentamente, e assim que a distância perdeu a ameaça, a garota girou a foice num malabarismo rápido e bateu a porta com força, fechando-a num estrondo.
Akemi suspirou aliviado. — Nossa! Que belo cartão de visitas…
Com passos curtos e ligeiros, ele voltou na direção contrária.
“Quem era aquela garota? Como alguém pode me apontar uma arma daquele jeito sem nem olhar nos meus olhos?”
De repente, uma entrada levemente escura ao lado direito da porta de ferro foi vista.
“Sério que tinha isso aqui antes? Como não vi?”
No fundo da passagem, havia uma porta fechada. Próximo dela, uma placa era examinável.
“Sala um sexto? Ah, tem que ser essa”, decidido, Akemi empurrou a porta com cautela, “por favor, que seja essa…”
- A letra “Å” representava a vogal “á” da língua de uma nação antiga e quase extinta; o som lembra um “o” aberto.[↩]

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