Índice de Capítulo

    Através do alto matagal denso, a estrada de terra conduzia até o monumental portão duplo, que cravado em uma colossal muralha circular, protegia o acesso à área interna da ASA.

    Acima da entrada, via-se o brasão gigante: um tigre albino de aparência feroz que se destacava em um escudo vermelho com bordas prateadas. Abaixo do símbolo, uma escritura dourada exibia o nome da instituição, talhada com detalhes que imitavam um pergaminho antigo.

    Cap-9-Scene-1

    Quatro homens fardados protegiam o portão de ferro, dois de cada lado, provavelmente shihais destinados à segurança e privacidade do lugar.

    Assim que o camburão se aproximou, algo estranho aconteceu.

    Akemi sentiu uma brisa passando pela pele feito dedos invisíveis que tocavam cada centímetro de seu corpo de forma invasiva.

    Quando a brisa desapareceu, o garoto soltou o ar que segurava. “Isso foi estranho, muito estranho. Foi como se alguém me examinasse. Será que alguém usou aura de vento pra me revistar? Se for verdade, é um método clássico. Usam o mesmo na usina, então não dá pra passar despercebido por mim.”

    O portão se abriu lentamente, ressoando um rangido grave. Aparentemente, a aprovação daquela inspeção invisível liberou a passagem.

    No instante em que o portão foi cruzado, Sho não perdeu tempo e saiu do veículo estacionado no caminho de brita. — Finalmente! Ar fresco! Meu traseiro já estava ficando quadrado de tanto tempo sentado.

    Outros dois militares desembarcaram logo em seguida, acompanhando o Major Hasegawa.

    Akemi desceu do camburão e o que viu o deixou paralisado.

    O pátio principal era altamente planejado para os recém-chegados. Árvores e arbustos enfeitavam os cantos, enquanto uma grande fonte de águas vermelhas coroava o centro com uma estátua em bronze de um homem fardado.”Eu… eu conheço isso! Eu vi tudo isso nas fotos do jornal! A reforma da ASA há três anos! A fonte de águas tingidas, a árvore momiji vermelha, o prédio cilíndrico branco! Agora eu realmente estou aqui…! Entretanto, não lembro daquela estátua de bronze, parece estar jorrando sangue… Queee demaaais!”

    Cap-9-Scene-2

    Caminhos de brita conduziam ao prédio principal, um edifício cilíndrico de concreto branco e detalhes rubro-negros. Ao lado dele, a imponente bandeira de Asahi, altiva a tremular, estava hasteada a uma altura superior à do próprio prédio.

    “As aulas devem ser ali. Mal posso esperar para ver como é por dentro! Tem tantas coisas, academias, quadras… É tudo tão enorme!”

    Mas durante a euforia de um, o inesperado aconteceu.

    Um ser bípede e albino, de não mais que meio metro de altura, corria com os pés desengonçados em direção às costas de Sho. O bicho tinha pelos brancos eriçados, mãos e pés pretos, e uma cauda longa que balançava feito um chicote.

    Sho estava alheio à criatura que se aproximava rapidamente em direção às suas costas.

    Fup!

    O bicho foi impulsionado pelo vento, e passando-o por cima de Sho, roubou os óculos do rapaz com uma agilidade impressionante em suas pequenas mãos pretas cercadas por pelos claros.

    — Ei! Mas o quê-!? — Sho foi atordoado pela perda súbita.

    Quando o bicho voltou ao chão, todos perceberam que se tratava de um macaco, que com sua natureza trambiqueira, seguiu correndo pelo caminho de brita com os óculos erguidos, grunhindo como se risse.

    — Meu óculos! — berrou Sho, pensando na perseguição que faria. — VOLTA AQUI, LADRÃO PELUDO!

    Todavia, era óbvio que aquele garoto jamais alcançaria um ser tão esguio. Por sorte, os óculos foram arrancados das mãos do macaco por alguma força externa invisível. O item voou pelo caminho, atravessou o ar em linha reta, e pousou na mão estendida de um idoso baixo, com cabelo e barba claramente tingidos de preto. A expressão séria e os inúmeros distintivos na farda escura denunciavam um veterano de respeito no meio militar.

    O macaco parou no meio do caminho e grunhiu tristemente, aceitando a derrota.

    — Você anda travesso demais ultimamente, não é, Picuinha? — opinou o velho de voz arrastada, culpando o animal e examinando os óculos. Com um pano que tirou do bolso, ele limpou as lentes e caminhou até Sho. — Aqui está, garoto. Macacos-fantasma são travessos, e pra alegria do senhor, há somente um deles por aqui, mas já é o suficiente para que você mantenha seus pertences bem guardados. Não subestime o porquê do Picuinha ter tal nome.

    Sho agradeceu e colocou os óculos de volta.

    Vendo o militar, Akemi não movia um músculo. “Eu não acrediiito… É o Cororel Kobayashi! Dizem que sua manipulação de vidro é tão veloz que se ele te decapitar, você ainda consegue ver o seu corpo em pé enquanto a cabeça cai! Iraaado!”

    Em sequência, Kobayashi virou-se para aqueles que acompanharam os jovens. — Oh… finalmente chegaram. Quase estourando o relógio, hein?

    Suando frio, todos os militares prestaram continência, demonstrando respeito e serviço ao mais antigo.

    O coronel retribuiu a saudação. — Aha! Vejo que trouxeram os últimos ingressantes. Agora, a lista está completa. Excelente!

    — O que pretende fazer com esses garotos, coronel? — questionou Hasegawa, ainda em posição.

    Kobayashi apontou com o queixo em direção a Sho. — Apenas deixe o gordinho ao meu comando — o mencionado estranhou, mas não protestou. O coronel continuou: — Agora, este outro aqui…

    Hipnotizado pela arquitetura da ASA, Akemi era encarado por todos à sua volta; porém, enquanto admirava o local, um grito masculino ao longe se aproximava rapidamente.

    — Ei, você! O de cabelo castanho!

    — Eu? — indagou Akemi, perdendo olhares à procura de quem o chamou; quando virou-se para trás, viu um homem alto vindo.

    O quepe branco em perfeita harmonia com a farda da mesma cor cobria parcialmente o rosto e dificultava a percepção dos traços faciais, mas nada escondia o semblante autoritário.

    Perto o suficiente, o misterioso confirmava: — Sim, você mesmo. Sou um oficial com instruções para levá-lo a uma sala especial.

    O Coronel Kobayashi se lembrou do paradeiro do jovem Aburaya. — Hmm! você deve ser o “garoto especial”. Ande! Siga o oficial imediatamente.

    “Garoto especial? Por que alguém me chamaria assim!? O que querem comigo?” Akemi procurou abrigo para sua incerteza, e encontrou Sho erguendo o dedão em um gesto encorajador.
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    Confiante, Akemi seguia o oficial pelos caminhos de brita. Seus olhos não saiam dos arredores.

    Ao longe, próximo a uma das árvores, ele viu um pássaro enorme pousado em um galho. O corpo era de águia, mas uma longa cauda de arraia protegia pernas finas que brilhavam em tom azulado.

    Mais à frente, avistou-se um pequeno réptil escamoso deslizando pelo gramado. Parecia uma cobra, mas tinha pequenas patas e uma crista dorsal que refletia a luz do sol.

    Pelos arbustos, ouviu-se um grunhido baixo, lá, espreguiçava-se um pequeno mamífero peludo, do tamanho de um gato, mas com orelhas longas e dentes afiados visíveis mesmo com a boca fechada.

    “Uma lebre-doninha? Esses bichos costumam ser domésticos, mas com dentes de carnívoro, só pode ser uma variante selvagem. Mas eu fico pensando, quantos animais áuricos existem aqui? Não esperava que este lugar passasse a sensação de um zoológico natural a céu aberto.”

    Retomando o foco, Akemi percebeu-se longe do oficial e acelerou o passo. — É-é, com licença, senhor, por que estou sendo levado para uma “sala especial” como um “garoto especial”?

    — Não fui informado sobre os detalhes. Apenas sigo ordens.

    “Que frieza, ele nem me olha na cara. Só que…” Akemi notou algo. — Estamos indo mesmo para o prédio principal?

    — A sala fica por lá.

    “Já vamos entrar!? Maneeeiro!”

    Após a entrada, as paredes brancas suavemente curvadas devido ao formato do prédio e o chão preto coberto por um grande tapete vermelho circular recebiam os recém-chegados.

    As paredes sustentavam pinturas de militares e lousas escuras marcadas por giz branco.

    “Há tantas portas, mas não dá para escutar nada. Esse lugar parece vazio… era pra ser assim?”

    No fundo do edifício, havia uma ampla escada em formato de U com degraus de concreto revestidos em porcelanato.

    “Sério que aquela é a única maneira de ir aos andares superiores? Nossa, só de pensar em subir e descer já dá um certo receio.”

    À esquerda, uma moça sentada atrás de um amplo balcão lixava as unhas com o tédio estampado. Um crachá de mesa exibia seu nome e profissão: Yui Kurosawa, recepcionista; uma jovem adulta de olhos âmbar e cabelos escuros presos em um coque alto, complementada por brincos prateados, batom vermelho e um vestido preto com babados e detalhes em renda.

    “Uma secretária? Hm, pela cara ela não gosta do trabalho. Parece ser um pouco mais velha do que eu, mas… essa roupa pode mesmo ser um uniforme de áreas militares?”

    O vestido apresentava uma saia rodada até os tornozelos, acompanhado por uma blusa de mangas longas e bufantes. Mesmo predominantemente preta, a roupa possuía um tecido branco do peito aos ombros, realçando um grande laço vermelho e botões verdes. Definitivamente um estilo gótico.

    Apesar da falta de movimento no local, a presença da moça adicionava um toque peculiar na entrada do campus…

    Akemi foi levado até uma porta adjacente às escadas nos fundos do primeiro andar. O oficial girou a maçaneta e revelou o que havia dentro da sala.

    “Essa gente sentada nessa mesa… Isso é algum tipo de conselho de autoridades? Ei, aquele é o…”

    Um homem velho no centro da mesa de vidro retangular se destacou.

    — MARECHAL ICHIKAWA!? — Akemi entrou em alerta máximo; um dos shihais mais respeitados de toda Asahi estava adiante.

    Seu nome era Jin Ichikawa, um homem velho porém alto, de cabelos curtos e grisalhos. A barba espessa e o olhar verde penetrante marcavam a forte presença em conjunto da farda branca com detalhes dourados e esmeralda.

    Livros e artigos que relatavam os feitos heroicos do marechal pela pátria descreviam, em apenas uma página, como ele derrotara um exército inimigo de mil homens sozinho, usando sua temível aura de vento.

    “Caramba, é o dono da ASA! Ainda é cheio de fibra e saúde mesmo com idade avançada, incrível! Mas era pra eu me encontrar com alguém assim agora!? Alto lá, foi ele quem me revistou!?” Akemi tremia diante do shihai. — A-ah! Marechal Ichikawa — curvou-se — não esperava encontrar o senhor aqui pessoalmente! E-eu sou um grande fã! Sei de todas as suas histórias e de co-

    O marechal se levantou bruscamente. — Ho ho ho! Então você é o jovem I- ahem, Akemi Aburaya… Levante a cabeça! Seja bem-vindo à Academia Shihai de Asahi. Ouvi falar sobre o incidente que deu uma aura a um trivial além da idade prevista.

    “Ele sabe meu nome! E essa voz forte, esse sorriso… A personificação de um verdadeiro herói está bem na minha frente!” O reconhecimento de alguém tão renomado alegrava o Akkemi. — Sim! Minha vida mudou completamente, mas nunca imaginei que isso me levaria até aqui tão rápido!

    — Gostaríamos de observá-lo em ação! Por favor, demonstre sua aura para nós.

    Choque, mas não como esperado: o pedido repentino paralisou o garoto por instantes. — … C-certo!

    “Por favor, funciona!” 

    Concentração. A busca pela emanação de energia se iniciou.

    Só que mais uma vez, falhou. Nada aconteceu.

    Os outros superiores estranharam.

    “Agora não, agora não!” Akemi temeu a reação do marechal diante do fracasso. — E-e-eu posso explicar! Ultimamente eu nã-

    — Ho ho ho! Não se preocupe, jovem. O controle de nossa aura nem sempre é simples, posso vê-la em você e sentir sua energia. Tenho plena certeza de que possui um imenso potencial.

    “Ah, que alívio. Achei que me expurgariam daqui, não esperava tanta compreensão.”

    — Agradeço, marechal. Suas palavras têm um significado profundo para mim.

    — Só queria vê-lo pessoalmente. Quando soube do seu caso, quis trazê-lo na hora.

    “Esse acidente repercutiu mais do que eu pensava. Qual o motivo de tanto interesse?”

    — Me sinto honrado com o reconhecimento. Permita-me perguntar, por que queriam me ver?

    — Alguns jovens passam por aqui antes de prosseguirem no teste. Apenas foque-se em suas habilidades e esteja alerta. Dispensado! Fique aos comandos do oficial ao seu lado.

    — Siga-me.

    Ambos saíram da sala, e atravessando o térreo, foram à subida da escada em U.

    Caraaamba! Conheci o Marechal Ichikawa! Ele foi tão legal, haha! O que vem mais por aí?”

    — Senhor oficial, essas escadas nos levarão pra onde?

    — Seguiremos para a área de entretenimento do prédio.

    — Teremos um show de abertura da prova!?

    — … Praticamente.

    Um andar antecedido por uma longa passagem diagonal foi avistado.

    — Venha por aqui, passaremos pelo espaço à frente — ordenou o oficial.

    O fim da passagem dava acesso a um extenso corredor reto na vertical, com uma grande vidraça oferecendo a vista dos campos da ASA e de outros estabelecimentos desconhecidos por Akemi.

    Após alguns passos, a primeira entrada à direita já mostrava algo.

    — Woah! Isso é um anfiteatro?

    Mesmo na semi-escuridão, o design triangular e a atmosfera teatral marcada por tons rubros e dourados da grande sala traziam curiosidade.

    Naquela área de teto fechado, arquibancadas com assentos decaíam até um palco de madeira com longas cortinas vermelhas em ambos os lados.

    — É apenas um auditório, jovem, não se distraia com isso. Nosso destino está na próxima porta ao final do corredor.

    Caminhando, Akemi observava o auditório. “Eles devem usar esse lugar para reuniões importantes. Mas parando para pensar, por que um corredor tão grande feito esse só tem duas portas? Um momento… esse som… Tem alguma coisa muito estranha por perto.”

    O abafo de gritos denunciava que uma plateia por perto estava em êxtase.

    Diante da segunda porta no fim do corredor, o som cresceu. O oficial a empurrou e apontou para que o garoto entrasse.

    Quando cruzou a porta, Akemi deparou-se com uma extensa arquibancada rodeando uma arena.

    Cap-9-Scene-3

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