Antes de levar a xícara aos lábios, Sara ajeitou uma mecha de cabelo para trás da orelha. Seus fios estavam tão escuros quanto o café que bebia. Era impossível que seu pai, sentado do outro lado da mesa, suspeitasse que ela havia cometido uma infração besta na noite anterior.

    Ainda recordava-se das batidas de seu coração ao subir as escadas de volta ao térreo. Foi como estar na cena furtiva de um filme de espionagem, com direito a uma subida de tensão quando a dona Helena percorreu a casa chamando seu nome para lhe oferecer um pratinho de bolo. Movendo-se na pontinha dos pés, conseguiu entrar no banheiro do segundo andar e ligar o chuveiro quente. A empregada, atraída pelo barulho da água, bateu na porta perguntando se era a Buarque quem estava ali, e, assim, Sara pôde dispensá-la para não achar que tinha fugido de casa.

    Lembrava-se também do azul escorrendo pelo ralo do banheiro enquanto esfregava o cabelo intensamente. Cada traço de cor precisava desaparecer antes que seu pai e sua irmã retornassem para casa após o encerramento da festa ou caso viessem conferir como ela estava. Averiguando os fios várias vezes em frente ao espelho, passando a mão no cabelo para observar se a palma saía manchada, o processo de limpeza demorou uma eternidade. Ao menos, acabou antes de os convidados irem embora, de os muros do salão serem magicamente triturados em cascalhos, e de Alana e Camilo regressarem exaustos para casa. 

    A arma do crime — o pote de tinta vazio — foi descartado na lixeira do banheiro; na verdade, escondido ao fundo dela, bem abaixo das tiras de papel higiênico. O correto seria jogar o potinho em uma lata de lixo do quintal que era específica para material plástico, mas como ela estava vazia, Sara não quis correr o risco de a irmã abrir a tampa e dar de cara com aquele recipiente familiar. 

    Seu ato criminal da noite passada era um assunto resolvido. O que se mantinha pendente, no entanto, era o seu achado no porão. E a única pessoa, talvez, capaz de esclarecer o mistério daquele espelho bocejava de sono diante dela.

    Sara segurou o impulso de fazer uma pergunta direta, preferindo uma abordagem casual.

    — Não devia ter dormido um pouco mais? Está com uma cara horrível.

    — Não preciso de mais horas de sono. Preciso é passar o dia sem ver o rosto de ninguém — disse ele, bebendo um gole de café, antes de suavizar o tom. —  Exceto o seu e o da Alana, é claro.

    — E do seu próprio ao se olhar no espelho — complementou Sara, sorrindo. 

    Não conseguia imaginar um mundo onde Camilo enjoaria das filhas. Ele era um pai grudento desde que nasceram, mimando-as sempre que possível. Se elas tinham um desejo, esforçava-se para realizá-lo. E se elas tinham alguma dúvida, empenhava-se para respondê-las, se possível.

    — Por falar em espelho… não tem um guardado lá no porão?

    Camilo interrompeu o movimento de sua xícara aos lábios e encarou a filha.

    — Tem. Mas a moldura está quebrada, e o vidro, meio sujo. Se você quer um espelho novo, podemos comprar outro — disse ele, retomando o movimento.

    — Não, tudo bem. Seria estranho ter um espelho que atravessa coisas no meu quarto.

    Camilo apenas chegou a molhar a ponta da boca antes de baixar a caneca e pousá-la com força na mesa, quase derramando a bebida.

    — Você fez o que estou pensando que fez? — questionou, com uma voz mais dura do que normalmente usava com a filha. — Sara! Eu avisei que não era para mexer naquele espelho!

    A garota desviou o olhar, sentindo a culpa ruborizar o rosto.

    — Desculpa. Eu me enfurnei no porão ontem à noite porque não aguentava sequer ouvir o barulho da festa. Eu só… queria checar uma espinha coçando no rosto. Não estava a fim de subir pro térreo. Aí usei o espelho.

    Camilo soltou um suspiro pesado e esfregou as têmporas. Sara estava preparada para ouvir poucas e boas, até mesmo ser posta de castigo, mas não sem antes saciar sua curiosidade.

    — Aquilo é um artefato divino, não é? O que tem do outro lado? Eu pus a cabeça lá dentro, mas estava escuro demais para enxergar alguma coisa.

    Camilo tamborilou os dedos na mesa, o olhar pensativo mirando a xícara ainda fumegante. De repente, se levantou da cadeira.

    — Agora que sabe da existência do artefato, não há porque eu esconder o que ele é. — O fidalgo apanhou a xícara e tomou o restante do café em goles rápidos. — Vamos até o porão.

    Sara deixou escapar um sorrisinho de triunfo enquanto saía da sala de refeições com ele. Sentia-se quase uma criança que pedira ao pai para levá-la em algum lugar divertido e desconhecido. Enquanto desciam as escadas, lembrou-se da irmã, que ainda dormia um sono profundo no segundo andar.

    — Pai, não é melhor a Alana estar aqui também.

    — Já é demais uma pessoa além de mim saber do artefato — disse ele, destrancando a porta de face dupla do salão de treinamento. — Estou fazendo uma exceção apenas porque você foi enxerida. E Alana está tão cansada da noite de ontem que não deve acordar mesmo que você diga que Juan Mostar está tomando chá em casa — justificou, fazendo menção ao ídolo de sua irmã, embora Sara acreditasse que Alana pularia da cama se fosse o caso. — Mas vou trancar a porta, só por garantia.

    Ao entrarem no porão, Sara constatou como tudo estava organizado. Na noite anterior, ela havia esfregado o piso para retirar qualquer manchinha azul que houvesse pingado no chão durante seu surto. Também havia guardado a caixa com os frascos de tinta. A única coisa que se manteve fora do lugar foi o espelho, que ela deixara coberto antes de ir embora.

    Camilo puxou o pano e revelou o artefato de dois metros de altura.

    — Venha — pediu ele, indicando com a cabeça.

    Sara viu o pai atravessar o espelho como se fosse apenas uma moldura vazia. Sem escolha, ela respirou fundo, tomou coragem e deu passos em direção ao vidro. 

    Ao atravessar, esperava encontrar a mesma escuridão da noite anterior, mas, em vez disso, uma luz suave e etérea, emanada de um esfera flutuante, descortinou o que seus olhos não puderam ver antes. Seu pai controlava a fonte de luz ao longo daquele recinto rústico, mas acolhedor. O chão, as paredes e o teto eram construídos com tábuas de madeira polida. Cômodas, poltronas e um conjunto de mesa e cadeiras que exalavam um aroma de pinho fresco dividiam espaço com um fogão à lenha e uma pia de pedra. Atrás da garota, um espelho idêntico ao do porão estava encostado à parede.

    — Isso é… uma cabana? — perguntou Sara, absorvendo cada detalhe no ambiente.

    — Bingo.

    Antes que pudesse perguntar a localização dessa cabana, Camilo abriu uma das janelas de madeira; em seguida, desconjurou a esfera mágica e abriu uma segunda janela. Não somente a luz diurna, mas também o som de fora invadiu o espaço. E foi justamente o barulho externo que intrigou a garota: um ruído espumoso que só escutara em cenas de filme. 

    Ao se aproximar da janela, impressionou-se com o que viu. Sem pensar duas vezes, subiu no peitoril e saltou para o lado de fora. Seus pés descalços pousaram sobre a grama fofa, depois esquentaram em contato com a areia macia, para então se refrescarem na água salgada. Observou as ondas da praia se revolverem e se desmancharem na areia molhada sob seus pés. Por um momento, duvidou se aquela paisagem era real, se o seu subconsciente não estaria mastigando sua ansiedade sobre o mistério do espelho e regurgitando-o na forma de um sonho.

    Camilo se aproximou atrás dela, mas manteve os pés na areia seca.

    — Pai… que lugar é esse? Não estamos em Neriquia, estamos? — questionou a garota, levando em conta que o país onde vivia não era banhado pelo mar.

    — Não sei dizer a posição exata, mas estamos em algum lugar ao sul da costa do continente de Arsalia.

    Sara arregalou os olhos, pois aquilo significava, no mínimo, estar a uns duzentos quilômetros ao sul de Neriquia.

    — Viajamos essa distância toda depois de atravessar o espelho? — perguntou, num tom introspectivo. Lembrou-se de que havia um segundo espelho na cabana. — Entendi. Ele é um portal!

    — É o seu segundo bingo do dia. Chama-se… espelho de Greine.

    — Greine? — Sara franziu a testa. O sobrenome de seu pai, abdicado para representar a família “Buarque” após a morte de Eliza, era Cardoso. No entanto, o artefato não se chamava “espelho de Cardoso”. — O senhor herdou o artefato de outra família?

    — Não. Esse par de espelhos não está registrado no nome dos Buarque nem dos Cardoso. — Camilo cravou o olhar na filha por alguns instantes, preparando-se para dizer algo surpreendente. — Eles foram roubados.

    — Como é? O senhor roubou? — Sara estava embasbacada. Usurpar um artefato divino era um dos piores crimes que um aurano podia cometer.

    — Não eu. Seu tio Célio.

    — Meu tio? — A origem daquele espelho tornava-se ainda mais intrigante. Célio Cardoso havia morrido em uma missão no além-Leviatã, quando ela ainda tinha seus quatro aninhos. Possuía bem poucas lembranças do tio visitando sua casa. — De quem ele roubou?

    — Do Estado de Neriquia — respondeu Camilo, chutando casualmente um montinho de areia, como se tentasse dispersar o peso daquela confissão. Sara não encontrou palavras para expressar seu espanto. — Tem algo importante que você precisa saber sobre seu tio. É um segredo atrelado a um outro segredo. Algo que eu pretendia contar a você e à Alana somente depois que entrassem na Academia. — O estrondo de uma onda quebrando sobre a praia preencheu os segundos de silêncio que antecederam uma revelação bombástica. — Foi dito a você que seu tio foi morto por um desgarrado, mas isso não é verdade. O Célio… foi executado por nós, neriquianos.

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