Capítulo 19 - O dia do alistamento (1)
Na véspera do exame de alistamento, as irmãs Buarque jantavam uma porção de macarrão com carne moída preparado pela dona Helena. A diarista fazia as vezes de cozinheira sempre que terminava a faxina antes do anoitecer, embora Sara insistisse que ela e a irmã não eram mais crianças e que sabiam se virar muito bem sozinhas. A comida da vulgar era ligeiramente mais salgada que a do pai, e Sara preferia assim — ao contrário da irmã, que torcia discretamente o nariz para o sal. Contudo, se a dona Helena tivesse posto menos sal que o de costume, Sara provavelmente não perceberia, tão concentrada que estava no dia de amanhã.
Para tomar o lugar de Alana no exame, tinha que impedir a irmã de fazê-lo; mais precisamente, arranjar uma maneira de mantê-la em casa. A princípio, considerou acordar bem cedinho e colocar sonífero no café. No entanto, não havia necessidade de chegar a esse ponto.
— Amanhã… você vai mesmo na parte da tarde? — perguntou Sara, tentando soar casual, enquanto enrolava o macarrão no garfo.
— Ahã. Combinei de encontrar o pessoal da escola. A gente vai sair pra comer num rodízio depois — Alana levou uma garfada à boca, mastigou a massa e complementou: — Talvez eu volte pra casa meio tarde da noite.
— Hm. Tudo bem — assentiu Sara, sorrindo por dentro. — Acho que também irei passar o dia fora amanhã. Tem uma mostra de cinema que vai começar às nove, lá no pólo de Helió.
Alana perguntou quais filmes iriam passar no evento, o que rendeu uma conversa cinéfila animada. A impressão era que a irmã só estava puxando esse tópico para evitar o elefante na sala de jantar. Sara vinha se esquivando disso desde o seu fracasso no teste de Durval. Queria demonstrar que ainda estava bastante frustrada e desanimada com aquilo.
Após o jantar, trancada em seu quarto, Sara analisou os objetos necessários para o dia mais importante de sua vida. Estavam todos dispostos sobre a cama: duas fotos 3×4 de Alana, roubadas de um pacotinho recente de retratos tirados na semana passada; uma cópia do certificado de conclusão escolar, onde percebeu que as notas de Alana não eram tão boas quanto as suas; uma identidade colorida falsificada; e a peruca azul oferecida pelo sintético de Shala.
Este último item, no entanto, não saiu de graça. Custou o equivalente a seis meses de mesada. O acessório lhe foi entregue em um segundo encontro com o mascarado, no templo de Helió, alguns dias após sua passagem pela Central de Neriquia. Quando voltou para casa naquele dia, subiu imediatamente para o quarto, trancou a porta, abriu o pacote, pôs-se diante do espelho e vestiu a peruca. Nos primeiros segundos, sua mente não processou a existência daquele reflexo. Era como se a própria irmã a estivesse encarando do outro lado do vidro. Porém quanto mais observava a si mesma, menos de Alana e mais de Sara transparecia naquela silhueta. Deixou escapar um sorriso quando aceitou que estava olhando para Sara Buarque de cabelos azuis.
Ainda assim, a situação não fazia sentido. Essa peruca jamais poderia vir de um sintético de Shala, um ser criado pelos deuses para servir aos valores morais pregados desde a Era Divina. Nunca lhe passou pela cabeça a existência de um ou mais sintéticos que se desviavam do caminho regrado da sociedade neriquiana, pois apenas isso explicaria o porte e a venda de uma peruca. Mais do que isso, o mascarado mencionara que também vendia documentos falsos aos vulgares que desejavam se passar por fidalgos e, assim, realizarem o exame de alistamento. Isso explicava porque todo ano se deparava com notícias de vulgares sendo flagrados no CA ao fracassarem no exame.
Será que o mesmo destino a aguardava? Ela não era exatamente uma vulgar, embora tivesse o corpo de uma e, por consequência, fosse tratada como tal. Mas acreditava que algo em seu material genético, herdado de uma longa linhagem de fidalguia, pudesse fazê-la uma exceção.
******
Sara acordou pouco antes do nascer do sol. Fez uma respiração profunda antes de sair da cama, preparando corpo e mente para as ações que definiriam o seu futuro nas próximas horas. Queria muito se arrumar ao som de uma música tocando em sua vitrola, mas correria o risco de acordar a irmã — e até trancou a porta do quarto, a fim de garantir privacidade. Para não ficar no silêncio, passou a cantarolar baixinho uma música que lhe acompanhou durante o banho quente. Escolheu uma calça jeans branca e uma blusa azul para vestir. Depois prendeu o cabelo numa toca para, enfim, vestir a peruca.
Em frente ao espelho, alisou suas mechas de mentira, enrolando-as entre os dedos. Ela havia se transformado em Alana Buarque.
— Hora de ir — murmurou para si mesma.
Guardou os documentos em um envelope pardo, apanhou sua bolsa tiracolo, calçou suas sandálias e abriu a porta.
Deu de cara com a irmã, ali de pé, bloqueando sua saída.
O coração de Sara quase saiu pela boca e o sangue gelou nas veias. Alana estava tão bem arrumada quanto ela, pronta para sair de casa. O espanto no rosto da irmã, por um segundo, a fez pensar que estava mais uma vez diante do espelho.
— Sara? — indagou, com os olhos arregalados. — Seu… cabelo… está todo azul.
Sara procurou manter a calma. Se Alana descobrisse a peruca, ou pior, que pretendia tomar o lugar dela no CA, provavelmente tentaria impedi-la. Ou será que não? A irmã sempre apoiou o seu sonho improvável de ser uma aurana. Talvez, só talvez, ela lhe desse uma última chance, ainda que ilegal.
Contudo, resolveu não arriscar. Seu único objetivo naquele dia era tocar o arauto, independente dos meios que usasse, o que incluía contar uma mentira. Por isso forçou um sorriso e fingiu um entusiasmo tímido.
— Shala realizou meu desejo! — exclamou, passando os dedos pelos fios falsos — Vê? Está todinho azul que nem o seu. — Deu alguns passos para trás, dando passagem para a irmã entrar no quarto. — Aconteceu enquanto dormia. Eu… lembro que tive um sonho esquisito… algo sobre o oceano e o céu azul… depois eu acordei e não consegui mais pegar no sono. Aí decidi ficar logo arrumada, e quando fui pentear meu cabelo e olhei pro espelho… estava azul.
Sara titubeou um pouco nas palavras, mas acreditava estar dentro da personagem, já que também ficaria estremecida se, de fato, uma transformação tão radical ocorresse. Viu Alana se aproximar do espelho e encará-la através dele. Pela primeira vez, elas eram idênticas.
— Ainda é difícil de acreditar — disse a irmã, virando-se para Sara.
— Eu sei… Também fiquei em choque.
— Posso olhar mais de perto. — Alana se aproximou, o olhar curioso carregado com algo a mais que Sara temeu ser desconfiança.
Então, sentindo um frio na espinha, deu um passo para trás.
— Acho melhor não.
— Por que não?
— É que… é…
Sua mente estava em branco. Não conseguia encontrar palavras para uma desculpa, fosse ela convincente ou não. E com os pensamentos acuados, reagiu com atraso ao movimento da irmã, que agarrou seu cabelo falso e o puxou com força. Sara se desequilibrou, o corpo tropeçando para a frente enquanto Alana se deslocava para o lado com a peruca azul na mão. Ao menos, conseguiu firmar os dois pés no chão e evitou a queda.
— Uma peruca — constatou a irmã, olhando perturbada para o adereço. — Sara, o que você pretendia fazer com isso? Não me diga que…
Sara fechou as mãos, cravando as unhas contra a pele. De todos os imprevistos possíveis, ser desmascarada pela irmã era o pior deles. Alana sempre fora sua confidente, a pessoa a quem poderia contar (quase) todos os seus segredos e receber dela todo tipo de conselho. Mas, desta vez, ela optara não dizer nada a respeito do mascarado ou da peruca, pois temia a possibilidade de ser impedida por ela.
— Bem que eu achei estranho… — disse Alana, movendo a cabeça de um lado para o outro. — Você ficava acanhada quando a gente tocava no assunto. Parecia esconder seus sentimentos… ou alguma outra coisa. — Ela ergueu a peruca na mão. — Onde conseguiu?
Sara suspirou. Agora que as coisas chegaram a esse ponto, sua única alternativa era abrir o jogo e, de alguma forma, convencer a irmã. Assim, contou sobre a aparição do sintético de Shala no templo dos deuses, sobre a compra da peruca e também sobre o seu plano de ir ao Centro de Alistamento.
— Sara, isso é loucura! Você quase cometeu um crime. Na verdade, só de portar isso aqui já é ilegal — ralhou Alana, sacudindo o adereço.
Sara grunhiu, refreando um riso nervoso. A irmã ficaria impressionada se soubesse que havia um outro objeto ilegal naquela casa, cuja posse era ainda mais perigosa.
— É? E daí? Só porque corro o risco de ser presa, acha mesmo que não vou aproveitar essa chance?
— Você já teve essa chance, Sara! Eu estava lá quando a lumeia…
— Aquela flor maldita não prova nada! Quem descreve o nosso potencial aurânico é o arauto. Se eu fizer aquele artefato brilhar, eles terão que me aceitar na Academia.
— Olhe para si mesma! — Alana apontou para o espelho. E com a voz meio embargada, prosseguiu: — O seu potencial para magia não existe. Eu sinto muito, mas você é como uma vulgar. E vulgares não entram na Academia.
O fatalismo da irmã soou como um golpe em suas costas, mas foi sentido como uma adaga perfurando o peito.
— Não acredito que está dizendo isso pra mim — disse ela, com o coração em pedaços.
— Pro seu próprio bem, eu estou. Já chega disso, Sara. Não vai dar em nada. Você sabe disso.
Sara engoliu o bolor na garganta e conteve as lágrimas. Precisava se manter de pé, precisava ser forte.
— Alana, devolva minha peruca.
— Você não escutou nada do que eu disse?
— Devolva ela!
— Sara, você não vai fazer isso. Eu não vou deixar.
— Se não der minha peruca de volta, irei tomá-la à força. E se você tentar me impedir de sair de casa, vai preferir estar na frente de um desgarrado — desafiou Sara, com fúria enrolando cada palavra sua.
Alana piscou os olhos, sentindo o baque daquela declaração. Os lábios dela tremeram, e a respiração tornou-se pesada.
— Está bem. Você quer isso? — levantou a peruca na altura do peito, fazendo menção de que iria entregá-la. — Então pegue!
E arremessou o adereço no fundo do quarto, bem no encontro entre duas paredes. A peruca resvalou e caiu no vão atrás da cama.
Sara largou sua bolsa de lado e pulou rapidamente sobre o colchão. De bruços, pôs o rosto acima do vão e esticou o braço para agarrar a peruca. Assim que sentiu os fios de cabelo entre os dedos, escutou a porta do quarto bater. Olhou para trás. Alana não estava mais no cômodo. Ouviu em seguida o som inconfundível da chave girando na fechadura.
— Não, não. — Sara correu até a porta e girou a maçaneta em desespero. Trancada. — Droga, Alana! Abre a porta! — gritou, batendo com os punhos na madeira. — Alana! Alana! Está me ouvindo! Abre isso! — Suas ombradas fortes contra a porta fizeram um eco pelo quarto, acompanhado de seus xingamentos.
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