Capítulo 134: O Que Há Dentro de Nós (3)
Um pilar, uma referência, alguém com quem se podia depender. O homem liderava marchas, exércitos, era bem-sucedido em missões. Sua personalidade era um pouco difícil devido aos traumas passados, mas ele era definitivamente alguém em quem se podia apoiar-se.
O Bibliotecário
— Você por acaso finalmente ficou insano? — A voz grave e velha o perguntou. — O que pensa que está fazendo?
Li, que estava deitado caído no chão, abriu os olhos. Sentando-se, olhou para os lados.
— O que aconteceu? Onde estou?
— Você realmente está louco? — A voz perguntou, com um tom de surpresa.
Virando-se na direção de onde o som estava vindo, Li se localizou.
— Ah, é você, Nasháh.
— O que? Não está feliz em me ver?
— Eu não disse isso — respondeu. — Aliás, você poderia ser um pouco menos ranzinza.
O Nasháh em questão não estava com a aparência de Li, mas com sua própria, acabado, velho, cansado. O cenário também não era o espaço branco, mas o castelo em ruínas da última vez que o havia visto.
— E você pode ser menos insuportável.
— Pelo menos não tenho essa cara de acabado…
— Ora, seu!
Pronto para brigar com o jovem, ele mesmo se parou.
“Por que estou perdendo meu tempo com esse moleque novamente…” Respirando fundo, ele disse.
— Como eu ia dizendo, o que você pensa que está fazendo?
Li notou que o homem estava agindo diferente de antes.
— Para ser sincero, não sei ao certo.
— Não sabe… tem ideia de que se eu não tivesse te interrompido agora, você poderia ter ficado aleijado, ou até mesmo morrido.
Percebendo a gravidade da situação, Jihan se ajeitou.
— Mesmo assim, de acordo com a sacerdotisa, as essências do meu corpo estão em desarmonia e vão me matar eventualmente. Não é melhor que eu tente alguma coisa?
— Em desarmonia?
Esticando a mão na direção do outro, Nasháh puxou seu corpo para perto como se estivesse o atraindo gravitacionalmente.
“Estão realmente em desarmonia… será minha culpa?” Pensou.
— Ahhh!
Subitamente, um ser escamoso saiu de dentro do peito de Li e mordeu a mão do homem fazendo com que Jihan, que estava sendo levitado, caísse no chão.
— Que coisa é…
Nasháh foi pego de surpresa, mas um olhar fixo ao pequeno dragão o fez congelar em seu lugar.
— Ei, cuidado comigo!
— Isso é… um dragão… um vivo?
Li surpreendeu-se, imaginava que o outro já sabia da existência de Vivi, afinal, ele sempre sabia tudo que acontecia ao redor dele.
“Talvez ele realmente estivesse afastado”, pensou.
Estendendo o braço, Nasháh esticou a mão para que o dragão pousasse em sua palma, assim ela o fez.
— Qual o seu nome, pequena? — perguntou tão gentilmente que Li até se sentiu injustiçado.
— Não acho que ela possa te entender ainda…
— Vittoria? Vivi…
Uma onda de ódio em um instante percorreu todo o salão, mas foi contida imediatamente.
— Você está zombando de mim, moleque!?
— Consegue conversar com ela?
— É claro que consigo, dragões são seres abençoados com o saber e a magia, até mesmo o mais tolo de nós é equiparado ao mais inteligente de vocês! — exclamou. — Sua mente não consegue compreender as palavras de um dragão, pois você é patético! Novamente, como ousa colocar o nome da minha falecida filha!
— Espere um momento, não foi…
— Eu vou obliterar a sua exis…
— Ah!
— Não posso? Por que você está do lado dele!
— Ahhh!
— Não serei comandado por uma criança!
— Grrrrr!
— O que? Por que?
— Grrrrr!
— Está bem, está bem… me desculpe.
“O que está acontecendo entre esses dois…” Pensou Li, completamente incrédulo com a cena diante dos seus olhos. Um velho extremamente poderoso se rendendo a um pequeno animal quase do tamanho de sua mão.
— Nasháh, acha que consegue me ensinar a conversar com ela?
— Te ensinar? — questionou. — Primeiramente, me fale, como ela nasceu? Aliás, por que ela está aqui? Deveria ser impossível para você trazer algo de fora para o seu plano mental.
— Sobre isso… não tenho certeza…
— Você realmente não sabe de nada…
— Bem, era um ovo que estava nos cofres do imperador, ele meio que sumiu e me disseram que precisava de sangue de dragão para chocá-lo… da próxima vez que me dei conta, ela nasceu.
“Sangue de dragão… poderia ser um ovo que não foi fertilizado… mas… espere um segundo…” Nasháh rapidamente analisou a estrutura mágica e física do filhote. “Estranho… existem traços de meu DNA nessa criança, mas não somente meus e do dragão que produziu esse ovo… também existem traços humanos…”
— Como foi que você a manteve viva? Tenho certeza de que qualquer humano consciente teria a matado no ato de seu nascimento.
— Não tive que fazer muito, ela consegue se esconder dentro de mim, então ela só o fez.
“Uma mutação…” pensou, cerrando a vista. “Mas, surpreendentemente, o ponto humano não é do menino… de quem seria isso?
— E sobre o ensino?
— Garoto, vamos fazer um acordo, traga-a contigo sempre que vier e te ensinarei uma coisa ou outra… duvido que conseguiria utilizar a força da linguagem draconiana, mas definitivamente conseguiria se comunicar com ela.
— Afinal, como consigo te entender e não a ela?
— Tolice, tenho mais que algumas centenas de anos de idade, acha mesmo que não conseguiria aprender qualquer um desses idiomas rupestres que vocês humanos falam?
— Você tem um ponto… Além disso, e sobre meu problema?
— Vou te ajudar com isso, pode pedir a súcubos para continuar o que estavam fazendo, vou controlar o seu sistema para que não colapse… só lembre-se de dizer a ela para que vá com calma, se ela tentar consumir muito de uma vez, a energia vai incinerá-la de dentro para fora.
— In… cinera-la…
— Sim, esteja avisado — disse. — Temos um acordo?
— Ela não consegue ficar aqui sem minha presença?
— Creio que sim, mas duvido que ela gostaria.
— Vi… Vittoria?
— Ah…
— Ela disse que está confortável se for de sua vontade.
— Então estamos acordados.
— Perfeito.
— Só uma coisa, Nasháh, não acha que ela parece um pouco com a sua filha… digo, as escamas e tal…
TSK
Em um estalar de dedos, Li foi mandado para fora do plano mental.
— Grrrr!
— O que? Foi ele que começou!
— Hmpf!
— Desculpe, desculpe…
“Igual, né…” Subitamente, os olhos de Nasháh se arregalaram. “Igual… como… como ela se parecia mesmo?”
— Li!
Abrindo os olhos no sofá, Jihan viu Matheus, Lisa e Glória ao redor de si.
— Eu desmaiei?
— Sim!
— Eu diria que você parecia mais morto do que desmaiado… — Fynn, do corredor, comentou.
— Ah, chegaram em casa? — perguntou.
— Sim, Hans já foi dormir!
Virando-se para Matheus, ele continuou.
— Por quanto tempo apaguei?
— Pouco menos de uma hora.
— Me perdoa, Li… — pediu Lisa, que estava ajoelhada ao seu lado.
— Não se preocupe — respondeu, acariciando a cabeça da menina. — Seu plano meio que deu certo, obrigado.
— Sério?
— Sim.
— Aliás, o que vocês estavam fazendo? — perguntou Matheus.
— Lisa estava me ajudando a melhorar meu controle de Prana, disse que meu interior estava meio desalinhado… mas acho que eu fiz alguma coisa no caminho e a atrapalhei…
Percebendo que Li estava mentindo pelo seu bem, Lisa apenas concordou com ele e pediu desculpas novamente.
— De qualquer forma… acho melhor todos irmos dormir — disse Glória. — Jihan, você não tem que se apresentar para Lorena daqui a algumas horas?
— Ah, é mesmo!
Com todos se despedindo e indo dormir, a noite terminou de passar rapidamente.

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