Índice de Capítulo

    Cinco dias vieram a se passar, cada um mais tenso que o outro. A cabeça de Kevyn não estava conseguindo acompanhar o que estava para acontecer, cada vez mais, mais perdido estava.

    Ele acordou.

    Mesmo horário.

    Era madrugada.

    Estirado na cama, ao menos soube o que fazer, o que temer, apenas olhou para o vazio de forma cômoda, perdendo-se em pensamentos que talvez nem fossem seus de verdade…

    “Preciso fazer café para eles…”

    Pensou.

    “Eu quero levantar!”

    Quebrou.

    “Talvez descansar mais um pouco…”

    Seus olhos fechou.

    Breves milésimos se perpetuaram, foi o bastante para o ranger da porta chegar aos ouvidos do garoto. Talvez não só o ranger, mas o tremor da madeira com os passos de quem acabara de entrar.

    Silêncio.

    De olhos fechados, era impossível de se ver, mas só de sentir a presença, era difícil não reconhecer.

    Ela se aproximou, se deitou, e ficou ali.

    No fundo, uma nostalgia tocou o garoto, que se lembrou de sua antiga parceira de cama, de todas as vezes que ela entrou em seu quarto e se agarrou nele… mas não era hora de pensar naquilo, jamais poderia ter piedade.

    Por outro lado, ela deitou a própria cabeça no ombro dele. Era a primeira vez que Kevyn não era assediado, tocado, agarrado e tentado a ser tomado… era uma sensação boa, mas também desconfortável…

    Ele deve está acordado?

    ❍ ≫ ──── ≪ • ◦ ❍ ◦ • ≫ ──── ≪ ❍

    Por culpa dela, o garoto adormeceu de novo, o frio tão bom para sua alma, trazendo memórias que não queria lembrar…

    Panquecas,

    Café,

    Armadura e 

    Garota.

    Sentadas juntas como sempre, Dayron ensinou-a a ler, cada dia, palavras novas, cada dia, frases, poemas, textos..

    Pela primeira vez em sua vida, Dayron estava vivendo, e ser professora era algo que poderia fazer?

    Pela primeira vez, a Aycity estava conseguindo ler seu manga favorito.

    Sorrisos, risos.

    「❍」

    Por que me chamou, maninho?

    Gabriel chegou na planície, ele havia recebido uma mensagem de Kevyn. 

    — A-ah… eu… estava só testando…

    Ele desviou o olhar.

    — Aycity te ensinou a usar o celular, não é?

    — Uhum…

    Gabriel riu.

    — Mas você disse que se eu aparecesse, me mostraria algo?

    O garoto desviou o olhar.

    「۝」

    — Dayron! Eu quero tanto entender as coisas… queria entender o porquê ela voltou, sei que era impossível fugir, mas… ela poderia ter se unido ao invés disso! 

    Eufórica, a garota pôs o celular na mesa após ler mais um capítulo. Melhor dizendo, ela leu o volume inteiro mais de dez vezes só para tentar decifrar o que estava sentindo.

    Como não poderia falar, a armadura juntou suas mãos.

    Aycity então fechou os olhos e respirou fundo, pensando consigo mesma, diversas coisas.

    Em meio aquele momento das duas, Kevyn e Gabriel chegaram.

    O barulho dos pássaros, vento e árvores abafaram suas vozes suaves, quase sussurrando. Eles estavam tão calmos quanto o próprio ar.

    Sem elas perceberem, eles foram para a forja.

    「❍」

    Do lado de dentro, o som era uma distorção viva — algo que não deveria existir, dobrado sobre si mesmo, como se o silêncio tivesse aprendido a gritar. Quando atravessou a porta, Gabriel congelou. Seus olhos se arregalaram em puro medo, não aquele medo comum que alerta, mas o medo que dilacera a alma antes mesmo que o corpo compreenda.

    Havia algo sendo criado ali.

    Algo que seu instinto se recusava a aceitar.

    Suas íris negras tremeram ao colidir com aquilo que se agitava no centro da sala. A visão subiu pela espinha como uma corrente elétrica, arrepiando cada fibra de seu ser. A criatura — ou o início dela — o encarou. Ali existia vida. Uma vida errada, deslocada, impossivelmente viva.

    Uma vida que não deveria bater, mas batia.

    Sob a bigorna do irmão, algo pulsava. 

    Um embrião.

    Não um simples amontoado de células — mas um núcleo, talvez milhares, de existência, um lampejo de criação prestes a romper o mundo.

    Tentava se desenvolver, tentava nascer, como se cada molécula suplicasse por continuidade.

    Era horrível.

    Era perfeito.

    Era lindo em sua monstruosidade, luminoso em sua aberração.

    A pele translúcida parecia feita de vidro molhado, revelando veias que serpenteavam como raízes de luz. No interior, órgãos, talvez não dê verdade, talvez núcleos em formação se abriam e fechavam num ritmo próprio, como pétalas aprendendo a florescer. 

    Havia harmonia naquele caos — cruel, mas harmoniosa — e a inocência crua de algo que não sabe o que é, mas deseja ser.

    A pequena criatura pulsava como um segredo divino roubado.

    Terrivelmente, Gabriel desejou a própria morte.

    Não era um pensamento.

    Um impulso primal que nasceu da certeza de que olhos mortais não deveriam ver aquilo.

    O ar queimava.

    Aquilo queimava seus olhos desprotegidos, como se cada detalhe da forma nascente gravasse cicatrizes invisíveis em sua mente. Mesmo assim, ele entendeu… ou pensou entender.

    Nem tentou descobrir como Kevyn havia criado aquilo — porque a resposta, qualquer resposta, seria pior.

    Era terrível.

    Abominável.

    E, algo inocente.

    Algo puro demais para existir, e exatamente por isso tão perigoso.

    Gabriel caiu de joelhos — não havia mais força, só fraqueza. Ele montou seus próprios cacos e respirou sem ar.

    Kevyn não esperou por aquilo, então tapou seus olhos.

    Ele disse com tristeza, mas não terminou. Com um leve respirar, o príncipe pediu:

    Uma proposta sem cláusulas, apenas uma troca perfeita.

    Recuperando seu chão, Gabriel fechou suas pálpebras e falou:

    — Pode tirar suas mãos, irmão.

    Ele tirou.

    — O que você me diz?

    Gabriel sorriu.

    — Eu aceito, tudo para te ajudar, nem precisa fazer o braço, huhu!

    「❍」

    Kevyn sorriu, ele arrastou seu irmão para fora da forja e do lado de fora, puderam conversar melhor:

    Aycity entrou no meio, e agora, eram os dois encarando-no.

    Kevyn olhou-os com vergonha, a patética garota lembrou de Humbra, sabendo que ele era meio que filho dele.

    Gabriel, ele cruzou o meio braço e encarou o lado de fora.

    ❍ ≫ ──── ≪ • ◦ ❍ ◦ • ≫ ──── ≪ ❍

    Os três se acomodaram ao redor da mesa, como se aquele gesto simples fosse um pacto. A madeira rangia sob o peso deles, era como um suspiro, impregnado de histórias que ainda ecoavam do tempo. 

    Dayron estava ali, encostada na cadeira ao lado, e embora presenciasse tudo, Aycity sabia que ela não se importaria em ouvir. Aquele ambiente, por algum motivo, aceitava testemunhas.

    Kevyn pousou as mãos sobre a mesa. Os dedos tocaram a superfície, deslizando pelas ranhuras que o tempo fez. Havia calor naquele toque, contrastando com o ar gélido que serpenteava pelo cômodo. 

    A brisa fria parecia se originar de Aycity, irradiando de sua forma como uma neblina suave que fazia a madeira estalar e a chama do fogão oscilar.

    No canto da cozinha, o fogo permanecia aceso. A chama tremulava em silêncio, lançando sombras trêmulas pelas paredes. 

    Um calor tênue se espalhava, mas não o suficiente para expulsar o frio. Como se a casa estivesse tentando decidir qual temperatura merecia habitar.

    O ar tinha cheiro de madeira e ferro. 

    Havia uma quietude tão nítida que cada pequena movimentação parecia grande demais: o arrastar de uma cadeira, um suspiro, o leve bater dos dedos de Kevyn contra a mesa.

    Ele fazia pequenos gestos. 

    Todos nervosos. 

    Todos calmos.

    Todos impetuosos.

    Um paradoxo respirando através das mãos.

    Gabriel, sentado ali, fingindo estar presente, deixou o olhar cair para as próprias mãos. O que viu antes ainda o perseguia — e o atravessou novamente com a mesma violência de antes. 

    O medo surgiu como um flash no estômago, uma sombra que percorreu seu peito e apertou sua garganta. 

    Ele lembrava.

    Lembrava demais.

    E era quase insuportável.

    Por outro lado, a garota — sem entender totalmente, mas sentindo tudo — permanecia ali. 

    Aycity não desviava o olhar, como se sua simples presença fosse uma âncora. 

    Ela estava ali para ouvi-lo, mesmo que ainda não houvesse palavras.

    Ela queria estar presente.

    Queria ajudar.

    Não sabia como, mas desejava.

    E às vezes, esse desejo sozinho já era mais do que qualquer gesto concreto.

    A casa ecoava ao redor deles.

    E dentro desse cenário quieto, algo prestes a se partir, ou a se revelar, vibrava no ar.

    Então Kevyn falou:

    — Eu estou fazendo minha última criação viva, e sendo a última, queria que tivesse a participação de pessoas importantes para mim. Por isso pedi seu sangue, Gabriel.

    — Era isso? Que fofo Kevyn… 

    Gabriel sorriu alegremente até demais.

    Kevyn sorriu após ouvir aquilo. Ele desviou o olhar envergonhado.

    — Você quer ser a mãe, não é?

    Atordoado, o garoto fechou seu punho sobre a madeira e corado, desviou o olhar.

    Ela, por outro lado, manteve seu olhar aguado, pronta para qualquer pergunta com respostas perfeitas.

    Enquanto eles flertavam, Gabriel despejou um pouco do próprio sangue em um frasco de vidro que ele mesmo fez.

    Oferecendo-no ao garoto, ele disse:

    — Ei, Kevyn, eu preciso trabalhar. O sangue tá com você, agora é com vocês.

    Sorriu e continuou:

    — Eu vou querer aquele braço que prometeu, hein? Huhuhuhu!

    Já de pé, ele deixou com o príncipe e rapidamente entrou por um portal.

    — Vamos lá, quero te ajudar com isso.

    Ela sorriu.

    「❍」

    Após um momento de preparo, passo por passo chegaram na forja, ao entrar, Aycity encarou, seus olhos cerraram e, tênue, sua frieza contagiou não só a forja, mas como o embrião.

    Ela nunca poderia ser ferreira.

    Kevyn se aproximou e manipulou o sangue dado por Gabriel, ele espalhou por suas mãos e tocou sobre a placenta feita de pura energia.

    Parada, Aycity não conseguiu se mexer.

    O que estava acontecendo?

    Por um momento, tudo pareceu se aliviar, a pressão se foi e a garota pode se mexer novamente. Se aproximando, nervosa, encarou a criação de Kevyn, aqueles olhos assustadores a consumindo.

    Ainda assim, apreciou.

    Kevyn, de mãos limpas pegou as de Aycity, seu sorriso atrás de um rubor tão visível, ele juntou suas mãos, e, tênue, encarou-na nos olhos.

    Então veio. O frio, a sensação. Naquele momento, Aycity liberou o que tinha, ou tentou. Seu controle limitado era fofo.

    Kevyn, solene de tão feliz, cerrou seus olhos e fez um pequeno corte no pescoço de sua residente.

    “Aya, me deixa provar”

    Ele veio.

    Seus dentes, sua vontade, sua fome — tudo caminhando junto, afiado como um instinto antigo. Cada segundo se estreitava em um instante sufocante, quase sagrado. O ar pareceu encolher à volta deles.

    Ele sentiu o cheiro.

    A tensão.

    E cada centímetro que o aproximava era uma nova revelação sensorial, como se o mundo tivesse decidido pulsar mais forte apenas para aquele momento.

    Tão perto, Kevyn respirou fundo, uma respiração que mais parecia um estremecer do espírito. Bufou, uma excitação contida, tão viva que parecia se infiltrar no ar gelado. Estava pronto para morder, para romper a pele, para saciar o impulso que fervia em suas costelas.

    Mas se conteve.

    Contente, por ora, com o que lhe era oferecido, inclinou o rosto até onde o sangue escorria pela clavícula de Aycity. 

    Provou o que podia. 

    Um fio apenas. 

    Uma promessa.

    Sua língua deslizou pela pele, colhendo o gosto quente que escapava.

    Havia tanto tempo…

    Tempo demais.

    E ainda assim, no momento em que o sabor tocou sua boca, ele esqueceu tudo. A Espera, a Fome, o Mundo. Seus olhos se fecharam, e uma lágrima solitária se desprendeu, escorrendo pela lateral do rosto.

    Aquilo o desmontou.

    Aquele sangue era tão bom, tão vivo, tão infinitamente precioso que o instinto bruto queria devorá-la ali mesmo.

    Mas ele suportou.

    Respirou.

    Lamento.

    E ao invés de morder, apenas sugou levemente seu pescoço, como quem reverência antes de reclamar o que deseja.

    Lamento.

    Um breve gemido escapou dos lábios de Aycity. Não era algo que ela esperava, não algo que planejava, mas o corpo reagiu sozinho. 

    Lamento.

    Um susto prazeroso. 

    Lamento.

    Um arrepio que a percorreu inteira. 

    Lamento.

    E aquilo, de forma estranha e nova, fez sentido.

    Lamento.

    Cada segundo ao lado dele parecia empurrá-la para algo desconhecido e irresistível.

    E então…

    Algo aconteceu.

    Algo maior do que os dois.

    As almas — a dela, a dele, e algo além — se moveram. 

    Por causa do lamento.

    Não se tocavam, mas se reconheciam.

    Por causa do lamento.

    Ondas sutis de poder vibraram no ar, como fios de luz se entrelaçando num tear invisível. A madeira rangeu, o fogo tremeu, o frio respirou de volta. A casa inteira pareceu suspender o próprio fôlego.

    Por causa do lamento.

    A presença se condensou.

    Uma força silenciosa, profunda, ancestral, nascida do contato dos dois.

    E o embrião reagiu.

    Por causa do lamento.

    Era como se aquela troca de energia, de sangue, de emoção, fosse alimento. Um chamado. Um despertar.

    Sua forma, antes embrionária, rompeu o limite da simples gestação.

    A carne brilhou por dentro, expansões sutis, um crescimento quase audível.

    Não era mais apenas um embrião.

    Era lamento.

    Agora, mostrava os pés minúsculos, arqueados com perfeição surpreendente.

    Era lamento.

    O cabelo começava a surgir — fios finos, translúcidos, quase como teias de luz.

    A estrutura do corpo se moldava com elegância inquietante.

    Ela parecia humana… mas algo nela era superior.

    Algo que respirava tanto inocência quanto poder.

    O ar mudou.

    Mais denso.

    Mais vivo.

    O lamento ter sido invertido…

    Como se a criação tivesse sido testemunhada por forças que ninguém ali ousaria nomear.

    O mundo?

    Mana.

    Sangue.

    Alma.

    Herdou o sentimento dos dois, trouxe consigo o que transmitiram, o que acabara de fazer foi um ato carnal, quase indevido.

    Agora era questão de tempo até sair de seu casulo, sua placenta, sua metamorfose estava quase pronta.

    Ela desviou o olhar.

    Totalmente envergonhado, Kevyn limpou o sangue em sua boca e fechou os olhos de tanta vergonha.

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