Nota do autor: Dedico este capítulo a todos os fãs de Kingdom Hearts que, assim como eu, passaram horas perdidos no País das Maravilhas. Maldito seja aquele lugar. 

    A semana só piorava.

    Digo semana, pois, contrário as minhas expectativas, não acordei logo após deixar a biblioteca.

    Meu corpo dormiu a noite toda, apenas para acordar no dia seguinte em uma casa completamente esquisita, com um minúsculo Arthur cutucando meu nariz.

    Como se isso não fosse problema o suficiente, Merlin havia se tornado um gato azul de olhos verdes.

    Entre gritos de pânico e tentativas fúteis de explicar a catástrofe diante de nós, perdemos a manhã inteira sem tomar uma atitude sequer.

    Por fim, nos acalmamos — em detrimento da fadiga — e optei por contar toda a experiência vivida por mim após desmaiar.

    Terminada a explicação, Merlin foi o primeiro a comentar:

    — Sabia que já tinha lido sobre uma magia como a sua!

    O gato lambia os pelos enquanto falava.

    — E vocês conversaram sobre algo mais?

    Neguei com a cabeça.

    — Não tivemos tempo.

    Ele soltou um miado tristonho.

    — Uma pena!

    Arthur nos interrompeu, balançando violentamente suas pequenas mãos para chamar nossa atenção.

    — Vamos presumir que essas estranhezas sejam obra de outra Veia de Mana. E aí, como procedemos?

    Nessa hora, algo caiu pela chaminé.

    — Ao menos agora eu tenho uma chaminé — comentou o gato.

    Aproximei-me da lareira e retirei de lá um pequeno caderno.

    Não parecia nada especial, mas podia sentir a energia vinda dele.

    Abri-o.

    — Ah. O experimento funcionou. — disse o Intérprete.

    — Esse vai ser nosso meio de comunicação? — perguntei.

    Pude ouvir um suspiro vindo das páginas.

    — É o que temos, por hora…

    Arthur estava montado em Merlin.

    Afinal, não poderia se mover pela casa por conta própria.

    Ambos me encaravam com preocupação.

    — Está conversando com um livro? — disseram juntos.

    A realização me atingiu.

    — Só eu posso te ouvir, não é?

    As páginas do livro vibraram em um riso.

    — É como havia dito: você é a grande exceção aqui.

    Ele soava calmo, mas pude sentir a preocupação em sua voz.

    — Infelizmente, estamos sem tempo para jogar conversa fora. Cometi um erro de julgamento. Luísa, escute com atenção: sua Veia de Mana está incompleta.

    Arregalei os olhos.

    — Incompleta?!

    — Há oito anos, sua avó desenvolveu um elixir para trazer de volta o poder das Veias. Como ou quando descobriu sobre elas não importa. Elixir algum deveria ter poder para romper aquela barreira, e, de fato, ele não tinha. 

    Franzi a testa.

    — Então como…

    Antes que pudesse concluir minha fala, prosseguiu:

    — O elixir causou apenas um pequeno arranhão no selo, o suficiente para o poder da destruição perceber você e se aproximar. Dada a sua própria natureza, ele mesmo começou a romper a barreira. 

    Eu o ouvia com atenção imensurável.

    — Sua Veia de Mana lutou contra a barreira com todas as forças. Então, quando entrou em contato com você, estava em um estado de completa instabilidade.

    — Por isso desmaiei?

    — Exato. Seu corpo não estava pronto para a súbita avalanche de energia.

    Cocei a cabeça.

    — Ainda não entendi o que isso tem a ver com ela estar incompleta.

    — Ia chegar a essa parte agora. Há oito anos, você causou o primeiro rasgo na barreira e, há um dia, o segundo. A barreira, entretanto, segue de pé, apesar do gigantesco rasgo infligido a ela. 

    A preocupação tornou-se aparente em meu rosto.

    — A situação atual tem algo a ver com isso, não é?

    Ele suspirou.

    — Uma Veia em específico despertou quando sua usuária estava para morrer. Não seria um problema se estivesse completa, mas, como não estava, saiu do controle.

    Estalei a língua.

    — Merda.

    Arthur e Merlin observavam com interesse e preocupação aparentes. 

    Merlin, em especial, já juntava as peças em sua mente e corria os olhos pela sala à procura de algo.

    — Por hora — continuou — procure despertar por completo seu poder. No passado, Veias de mana sempre surgiram nos momentos de maior necessidade, quando o possível não bastava e uma quebra de limites era a única opção além da morte e da derrota. Vou cortar a comunicação por hora, mas se precisar de mim, basta abrir o livro.

    Assim ele fez e me deixou a cargo de repassar toda a conversa aos garotos.

    Arthur emanava puro estresse, enquanto Merlin, tendo confirmado suas suspeitas e recebido informações complementares, pulava de prateleira em prateleira e marcava vários recipientes.

    Ele me pediu para pegar cada um deles e colocá-los sobre a mesa no centro da sala.

    Virou-se para nós e começou a falar:

    — Bem. Precisamos despertar sua Veia para terminar de quebrar o selo. Para fazer isso, precisamos te expor a uma situação de necessidade, certo? Então… vamos em busca da causa dessas estranhezas!

    Não sei dizer se fomos tomados pelo espírito da aventura ou coisa similar, mas não perdemos mais tempo.

    Misturei cada ingrediente alquímico conforme ele ditava e, então, usei os resultados para desenhar círculos em diversos pergaminhos. No centro de cada um, coloquei um cristal de mana.

    Ao concluir o processo, imediatamente os pergaminhos voaram em círculos e, então, colidiram em uma explosão de fumaça de todas as cores. Quando a fumaça se dispersou, havia ali um pequeno objeto metálico.

    O resultado final era uma espécie de bússola mágica.

    Com ela, poderíamos rastrear a garota.

    Merlin nos encarou com um sorriso e pulos ansiosos.

    — Luísa, pegue o rastreador e vamos.

    Fiz como ele pediu e saímos os três rumo ao desconhecido.

    Nem dez minutos se passaram após cruzarmos a porta, e já havíamos atravessado o mesmo rio, no mínimo, vinte vezes.

    Parte de mim se perguntava se aquele não era o momento ideal para extravasar toda a minha fúria. 

    Talvez assim a Veia despertasse.

    Decidimos tentar o caminho inverso.

    Conseguimos apenas terminar subitamente ensopados após o chão sob nossos pés se tornar água.

    Por fim desistimos de passar por ali e tentamos outro caminho, apenas para nos percebermos dentro da casa outra vez.

    Após alguns segundos, Merlin, mais familiarizado com a disposição dos móveis, percebeu que, na realidade, estávamos dentro do espelho. 

    Fato confirmado após atravessarmos o próprio e retornarmos ao começo.

    — Grrrrrr! — urrei de ódio. — É isso, sai todo mundo da frente, eu vou quebrar essa merda de parede!

    Nenhum dos dois tentou me impedir.

    Estava prestes a nos tirar daquele pesadelo ou nos jogar de cabeça em um ainda maior.

    Não importava.

    A fúria já havia tomado meu bom senso.

    Ia destruir aquela parede.

    Aquele rio.

    Todo obstáculo no meu caminho seria um inimigo a despedaçar.

    Então… algo bateu na minha cabeça.

    Foi um golpe fraco.

    Bem fraco.

    O fato, por si só, foi tão inusitado que me esqueci da razão de estar irritada.

    Virei-me por reflexo.

    Havia sido atingida por um leque!

    Um leque segurado por uma garota de vestes negras, com um corvo no ombro e um chapéu pontudo na cabeça.

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