Capitulo 7: Vila púrpura
Moshe facilmente contaria os grãos de areia depositados em seus olhos, porém os pensamentos o engoliram por completo. As vozes não deveriam o assustar mais, elas não deveriam ser tão fortes sobre si. Deveriam estar presas dentro de si e não ele refém delas. Sempre soube que era impossível conte-las, e ainda assim se deixou enganar. Talvez Séfora poderia conter a sede de sangue delas. Talvez. Mas a cada dia os sonhos se tornavam piores, mais reais. A gota d’água foi ontem. Poderia ter a matado.
Quando a abraçou sentiu o peito se inflar com alegria. Sentiu-se vivo, sentiu que poderia continuar vivendo. Mas as vozes, os olhos, nada o deixa esquecer do que fez.
— Moshe, o quão ruim está? — Aharon põe fim no silêncio. — As vozes pioraram?
Há muito vento, os cabelos longos de Aharon armazenam grãos de areia e se tornam cada vez mais pesados. O Sol castiga a pele clara independente de quantos panos use. O pior de tudo são os olhos, a agonia presente neles. A dor no tronco pulsa como um verme. O ferimento no abdômen foi fechado, porém a cura é maculada quando vinda da escuridão.
— Há noites em que não vejo nada além de sangue. Meu corpo não me obedece como antes. Há algo rastejando na minha mente. Eu… eu… — por um breve momento sentiu as lágrimas correrem pelas bochechas e serem limpas pelas areias. — Eu não quero machucar ninguém… Não de novo.
Suas mãos trêmulas agitam o dromedário. Os olhos se fixam ao chão. Parece mais pálido desde que saíram do acampamento.
— E o que vai fazer? Fugir? — o uivar dos ventos o obriga a gritar e se aproximar do amigo. — Quer mesmo abandonar essa família?
Moshe pisca, a surpresa toma a face.
— Eu não posso arriscar, eu sou uma ameaça! Você me viu, você presenciou tudo que fiz! — os olhos negros com pequenos pontos dourados lhe dão um ar ameaçador, maligno. — Então sim eu vou os abandonar. Eu quero os proteger!
O rosto do príncipe, antigo príncipe, nunca mente. As rugas não são algo que a barba e o cabelo consigam esconder. Se ignorar os olhos, vê somente uma criança assustada prestes a chorar.
— Certo, então deixe eles à mercê da própria sorte — agora sua montaria parecia muito mais alta em relação a de Moshe. — Deixe Séfora sozinha após tudo que ela te fez. Abandone Yitro após ele te salvar da morte. Vamos ver o que um velho e sete mulheres farão se encontrarem bandidos. Se torne um maldito covarde logo, vire suas costas e fuja sem mim. Não ouse olhar para trás.
Moshe calou-se, o gosto amargo rouba as palavras. Não há como garantir que eles continuariam seguros se partissem. Yitro é um ótimo pai e um verdadeiro sábio, mas ele já é muito velho e não consegue gerir as próprias filhas. Elas por muitas vezes se esforçam em vão ou negligenciam tarefas como pastorear as cabras ou verificar a quantidade de suprimentos restantes antes de partir. Arranjar um casamento para elas é o caminho mais óbvio, entretanto seria demorado encontrar bons pretendentes. E, claro, há Séfora. Pensar nela casando-se com um desconhecido o incomoda. O peito se contrai e o ar se torna escasso.
— Vamos — Aharon toca seu ombro, como sempre, ver o seu rosto o acalma — a gente compra o suficiente para três dias e retornamos. Não precisa se precipitar. Vamos dar um jeito. Confia em mim, nada vai dar errado.
— Obrigado…
Moshe se vira ao escutar algo, julga ser o vento. Porém percebe que o vento se tornou imóvel. São risadas. Dezenas. Centenas. Milhares. Pela primeira vez as escuta rindo. Um enxame de suspiros mortos, ecoando e ecoando.
A cidade é mais populosa do que se recordavam. Os vendedores chamam os clientes com gritos sincronizados. As pessoas se movem sobre linhas perfeitas dentro do infinito fluxo do mercado.
— Compra algo para Séfora e deixe o resto comigo — o sorriso malicioso de Aharon quebra o bizarro padrão do ambiente. — Claro, como um agradecimento aos tratamentos. Não é na ideia, né?
— Não exagere.
— Irei — com seu passo manco, ele adentra o mar de indivíduos com quase toda reserva monetária juntada. — Vamos nós encontrar daqui duas horas.
Quase escuta o farfalhar metálico dentro da sua bolsa de couro. Cada mísera gota de suor condensada nas mãos do mais inconsequente dos homens. Bom, quase todas. Em uma bolsa menor há não mais que o suficiente para comprar uma lembrança. A questão é o que comprar.
Aharon se encosta em uma casa. A parede está fria, isso o relaxa. A dor no abdômen piora. Lateja e parece aumentar. Se levantar o manto que veste, verá um tumor negro. Pulsando e pulsando. Um coração maligno que o mantém vivo. A segunda chance que seu amigo lhe deu. Precisa usar essa segunda oportunidade e se redimir.
É o que Rehlum gostaria
Por isso fará Moshe e Séfora serem felizes. Eles se amam e isso é óbvio. Fugir é a escolha errada e o fará entender isso. Esconderá a agonia dele. Se tornará um homem digno.
— Com problemas? — uma mulher assusta Aharon. — Talvez eu possa auxiliá-lo.
As rugas preenchem o rosto com dobras. As costas são levemente arqueadas. Atrás de si há uma carroça com várias flores. Belíssimas como as do jardim do palácio. Azuis como o céu, amarelas como o Sol, brancas como os olhos de Séfora. É isso.
— Esses lírios, quanto custam? — diz com dois pares em mãos.
Sabe que deveria comprar comida e outras coisas muito importantes, no entanto está ciente da pouca desenvoltura do amigo no amor. Talvez a cena na tenda foi a primeira vez que o viu tão íntimo de alguém, logo não pode o deixar perder essa oportunidade. Deve ao menos garantir um bom presente.
— Ótima escolha, esses vendem muito bem — ela responde sem movimentar os lábios. — São para uma mulher?
— Sim… são… — hesitou em responder.
São para uma mulher, mas não para a sua mulher. Claro que não. Nunca foi sua. Sempre foi o pecador. Viu a luz dela se apagar por sua infantilidade. A viu se afogar no próprio sangue. Enquanto ele permanece impune, vivo e manco.
— Pelos céus, está bem? — a vendedora limpa uma das lágrimas de sua bochecha. — Quer se sentar?
— Desculpa… eu… eu não sei o que me deu — a falta de postura serviu somente como analgésico a dor no abdômen — Obrigado, porém é melhor eu seguir adiante. Eu…
— Ora não se preocupe, descanse um pouco — sua mente lhe escapa por um instante. — Vejo tanta dor em sua face, permaneça aqui apenas por mais alguns segundos. Prometo arrancar essa amargura.
Os olhos são roxos, como uma das suas belíssimas flores. A luz do Sol dá um toque cromático a eles. Ao permanecer a encarando por poucos segundos, sente-se atraído. Sim, não há problema em olhar nos olhos de outra pessoa. Encará-la é um sinal de respeito. Não pode desviar o olhar. Deve olhá-la. Encarar seus belos olhos violeta.
— Então? — ela diz sorridente.
— Sim, estou melhor — ele sorri e sente-se leve. — Obrigado, muito obrigado.
Se alegra após os ombros não sentirem mais o peso. Não se recorda o motivo de estar tão tenso. Deve ser algo fútil, sim só pode ser isso. Afinal está feliz vivendo em comunhão com os… os… estava com quem mesmo?
— Que ótimo, que tal eu te dar uma oferta especial? Eu amaria fazer um casal feliz.
Não importa agora.
— Claro…
Ele não percebe o sorriso dela. Não, ela não sorriu. Ou sorriu? Mais importe, de onde veio? Estava com quem?
— Algum problema?
— Não é nada — ele cambaleia, tenta recordar a própria identidade.
— Não é inteligente resistir, abandone a dor.
Os olhos ardem. A algo rasgando suas córneas. Sim, agora a agonia volta o assombrar. Resistir retorna as imagens de Rehlum caída no chão. Não. Não. Não. Deve aceitar e voltar para o conforto da felicidade. Não é relevante saber quem era ou o motivo de estar aqui. É fundamental saber que agora pertence a algo maior. Aceitar o violeta é a única coisa que importa. Talvez assim a dor o abandone.
Estava Moshe a ver flores, e assim como Aharon, apanhou três pares de lírios. Brancos como as nuvens. Puros como os olhos de Séfora. Evitou olhar as flores vermelhas, pois recordavam os olhos da mãe morta. Assassinada por ele próprio.
— Pode levá-las gratuitamente — anunciou o vendedor, um homem carrancudo e baixo.
— Não seria justo — retrucou o Ivrit.
— Teus olhos perdidos significam um profundo afeto ou uma grande melancolia — ele aproximou levemente o rosto. — O que lhe perturba.
Notou os olhos violetas do homem, os julgou exóticos. Um ligeiro pensamento sobre o vendedor vir do norte ou do Sul para possuir tal cor em seus olhos, logo deixou escapar tal indagação. A mente o atormenta, nubla a vista com lembranças sórdidas.
— Agradeço a gentileza, mas tenho que retornar a um amigo meu — sem que o homem conseguisse alcançar seu braço, Moshe seguiu navegando com a multidão.
Os lírios balançam com a fraca brisa ameaçando se desmanchar na mais sutil das mudanças. Ao tentar cobri-las com as mãos percebeu como elas são igualmente frágeis ao toque bruto e ao toque protetor. Percebendo que não resistiram a viagem de volta, observou o entorno buscando água.
— Perdão, onde fica a fonte — com receio chama uma dos transeuntes.
— Lá… — respondeu com uma única sílaba e um gesto com a mão.
Seus olhos também são roxos como flores mortas em um jardim. Os olhos nada observam. A boca entreaberta soltando murmúrios. O corpo jovem é negligenciado. Os músculos, notoriamente grandes, estão se atrofiando.
— Obrigado…
Após a resposta Moshe enfim notou seu entorno. Os corpos magros. A postura cansada. As dezenas de olhos violetas. Sim. Dezenas de olhos violetas o observando. Seguindo cada passo. Farejando o medo. Fechando as saídas. O cercando.
Água. Precisa de água.
Está cercado um círculo sempre em movimento. Talvez sejam centenas de pessoas. A angústia toma forma quando chega ao poço da vila. Está armado. Exatamente. Agora não é somente uma presa.
És o caçador...
— Não ouse se aproximar — a voz embargada de angústia interrompe a caminhada circular.
Os olhos de Moshe tornaram-se negros como a noite sem luar. O gosto de podridão preencheu os lábios junto a uma súbita vontade de vomitar. Sua mão direita empunha um sabre translúcido. A sua volta cinco setas d’água flutuam.
— Moshe? — a familiaridade da voz oscila as armas moldadas pelo Ivrit. — Por que está tão raivoso?
É Matí. Não teria como confundi-la. As roupas são as mesmas de três meses atrás, um vestido bege de mangas curtas que se estendem até os pés. Ela sempre fora magra, no entanto seu belo rosto tornou-se cadavérico.
— Não se recorda de mim? — os lábios secos sangram ao simularem um sorriso.
A voz é a mesma. Seria impossível replicar uma voz. Talvez. Mas ela tem que ser Matí, pois assim o coração de Moshe se tranquilizará. Uma companheira estaria viva e bem. Sim é ela, é Matí. Tem que ser.
— Não se aproxime — Moshe lança uma seta d’água ao chão como alerta.
Entretanto há em sua face algo horrível. Pior que o gosto fúnebre na boca. Os olhos antes azuis, agora estão mergulhados em um violeta profano.
— Moshe… — o tom foi raivoso.
— Eu… eu…
Algo dentro de si tem certeza que essa mulher não é Matí. Os olhos não mentem, nunca mentem. Os olhos. Sim, os olhos. Eles revelam a índole de qualquer ser. E então observa a lâmina em sua mão. Vê o próprio reflexo ondulado, há somente dois pontos negros distorcidos. Logo sentiu asco em segurar em uma arma. O gosto podre na boca se assemelha ao que sentiu quando matou Qabils inocentes.
— Eu… me desculpe… Eu não sei o que deu em mim.
Não é um assassino. Não mais. Por que está a ameaçando? São as vozes, essas malditas vozes.
— Não há motivo para se desculpar, deve estar bem cansado — Matí dá alguns passos e segura a mão de Moshe, a mão que segura os lírios.
Uma pétala se solta. Flutuando sobre o deserto até cair na areia. Ela pouco se importou. Avançou sua mão e mais pétalas foram arrancadas.
— Presencie a calma… — antes que ela percebesse, o príncipe exilado calou sua boca.
— Não reconhece quem está por trás disso — os olhos do príncipe derramam lágrimas negras. — Somente garanto que pagará por isso…
Sagol logo entendeu que sua missão teria um grande agravante. O príncipe não pode ser controlado. O uso da força será inevitável.
— Não me deixa escolha Moshe — alguém fala. — Sempre terá a opção de se render.
Percebe a multidão ao redor. Cambaleantes, não tendo forças para manter-se de pé. Muitos com os ossos marcando a pele. Babam, todos babam como animais doentes. O segundo silencioso é quebrado com Matí mordendo sua mão.
— Não morra, príncipe .

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