Capitulo 6: Sonhos na penumbra
Em meio ao frio da noite, Moshe manipula a água sobre a úmida areia. Dançando sem música. Os vultos na penumbra sendo sua única companhia. Flechas são moldadas e lançadas contra as dunas. As mãos se movem em perfeita sincronia. Sabe onde mirar. Sentia-se completo. Atrás de si havia somente o silêncio da morte. Estava completo. O calor das silhuetas obscurecidas o agrada. Tudo encaixa. Submerso na própria escuridão.
— Acorde.
Então Moshe despertou e seus olhos perceberam que estava sob o céu estrelado, banhando-se da luz da Lua. Frio, foi sua primeira sensação. A areia úmida cobria os pés nus. Dor, foi a segunda sensação a invadi-lo. Os nós dos dedos estão esbranquiçados. Havia manipulado água, aos poucos a exaustão consumiu o corpo. Quente, foi a terceira sensação. Algo segura sua mão.
— Séfora? — a voz falha.
Os olhos brancos o encaram como se ela soubesse perfeitamente a altura de seus olhos. A mão dela se encaixa perfeitamente a do Ivrit. Ele mal consegue retribuir o calor que ela proporciona. Está exausto.
— Acalme-se — as sílabas saem como o cintilar de uma harpa.
Sente a água correr e correr, se erguer até os céus tocar. Ao reunir forças olhou para cima. Desejando as estrelas uma grande serpente translúcida se ergue. O longo corpo cerca ambos. Só então Moshe entendeu onde está. O centro do Oásis. Deveria ter 5 metros até a margem, agora é uma grande parede de areia.
— Irá nos aceitar... — a serpente ruge como um trovão. — Um só nos tornaremos...
A serpente estrangula o espaço. Os olhos dourados pesam. O corpo escamoso se movimenta em círculos. O nariz sangra. A serpente se torna cada vez mais disforme.
— Tu és nosso libertador...
Sentiu o calor de Séfora se afastar. Ela disse algo, algo que o fez sorrir. Talvez não tenha sido o significado das palavras, mas o tom da voz. Ama a escutar antes de dormir. Seu corpo se recusa a sair. Olhar as estrelas debaixo d’água é mais belo do que esperava. Certas estrelas se multiplicam formando novas constelações. A Lua pode ser tocada estendendo o braço.
Está em outra manhã observando o próprio reflexo. Não se lembra de quando chegou na tenda ou se sequer saiu dela. Mas sabe que seu corpo é receptáculo de algo poderoso e perverso. Já passaram três meses, longos três meses convivendo com essa praga. A barba povoa o rosto. O topo da cabeça começa a ficar cheio de pequenos fios, as laterais irão demorar mais tempo para crescer. Mas não é isso que o perturba, são os olhos. Sim, ainda há o brilho dourado no centro de cada um. Porém a escuridão ainda os cerca, não existe nada além do licor fétido transbordando do seu espírito. Sente todos os dias as vozes querendo se libertar, arranhando o fundo de seus olhos. Implorando por uma brecha.
Não esqueça…
Tua mão és…
Tão maligna quanto a nossa…
A face refletida na água é distorcida. A visão embaçada. As mãos voltam a sentir o calor da vida escorrer como areia. Cada um dos mortos tinha um rosto, uma voz e um nome.
Se deleite…
Lembre…
Deguste a agonia…
Isso é…
Vingança...
Tudo se escurece. Se desfaz. Não resta nada além do sangue. Da maldição. Não resta nada mais em seu rosto, nada além da pes…
— Não temas, pois mal algum poderá perturbar aqueles que se refugiam sob minha presença —alguém encobre os olhos escuros, pequenas mãos magras como pétalas de lírio. — Acalenta teu peito e aceite minha luz. Afugenta esta escuridão tão densa. Acredite em mim. Deixe-me guiá-lo.
A voz doce esvazia a mente, espanta a dor. Cada sílaba ressoa o verbo divino. Sim, as vozes se calaram. Voltaram para as rachaduras de sua alma, temendo serem tocados pela luz.
— Desculpa — por fim, Moshe segurou ambas as mãos de Séfora. Sentiu a fragilidade dos dedos após o salvarem novamente da escuridão. — Perdão por continuar sendo um pe…
— Não, não — ela belisca o rosto entristecido. — Somente agradeça, nunca se desculpe após te ajudarem. Não quero ouvir seus lábios soprarem palavras tão tristes. Então sorria e me agradeça direito porque eu também trouxe seu café.
A bronca arrancou uma sorrateira lágrima de Moshe, o pequeno gesto o joga para sua vida do castelo. Quando estava cercado de bondade. Aftí e Matí sempre o consolavam nas frias madrugadas. Joquebede trazia as melhores refeições sobre a bandeja de prata. Tuya contava histórias antes de dormir. Verdade é, foi feliz pois havia pessoas dispostas a amá-lo. Então…
— Claro, se assim deseja — Moshe arranca o mal-estar dos ossos e infla o bom humor. — Muito obrigado, Séfora. Muito obrigado mesmo
Com facilidade ele tira os pés descalços da mulher do chão e coloca seu dorso entre os braços. A levanta energético. Ela ri, confusa após ter o senso de direção mudado. Os olhos brancos refletem a luz como um cristal puro. Sua boca libera gargalhadas infantis. O cabelo torna-se um com os movimentos de Moshe. Ela abraça o pescoço do homem que acabará de ajudar. Sente os pelos do rosto e da nuca roçarem o pulso e o antebraço. Não a incomoda. O mais importante é que ao tocar o rosto do Ivrit, o sente se deformar levemente. Um lindo sorriso deve estar em sua face. Por este breve momento desejou que os espíritos lhe mostrassem como Moshe sorri, como são seus olhos cheios de paixão. Porém se limita a imaginar a partir dos contornos do amalgama negro que o possui. As vozes que ele tanto reclama tem uma cor única, escuridão. Muito mais densas do que o preto. São vários tumores rastejando entre as frestas de sua alma.
— De nada… — ela se deixa ser abraçada.
Sente o coração dele bater desesperadamente. Sente o calor do seu corpo aumentar. Sente a respiração agitada. O sente vivo. Então com a própria luz ele espanta a escuridão do coração. Séfora agarra-se a uma simples imagem mental dele sorrindo. Ela não corresponde a realidade, mas basta a jovem mulher.
— Séfora, eu…
— Moshe, o Yitro autorizou descansarmos mais um dia — Aharon surge sorridente. — Vem tomar um pou…
Após passar pela entrada da tenda observou os últimos segundos de uma energética dança. Seu amigo, Moshe, está com Séfora nos braços. As mãos dela seguram o rosto do ivriti, estão separados pela distância de um nariz trocando olhares quentes. Ao menos Moshe, os olhos brancos da mulher são difíceis de ler. Independente, ambos estão tão próximos que reza que seu amigo de sangue não tenha comido a carne fétida de ontem. Não, isso não é relevante. Se pudesse expressar tamanha felicidade ao ter visto ambos tão próximos, jogaria sua bengala fora e dançaria com ambos. Talvez mais desajeitado por conta do lado esquerdo, mas ainda deve manter certa habilidade dos anos felizes com Rehlum. Entretanto sabe quando deixar um homem deleitar-se na felicidade do amor.
— Não os interromperei novamente — diz antes de desaparecer do local, saltando como um coelho em um pasto verde.
Moshe, ainda paralisado com a súbita presença de Aharon, nota alguns pequenos rostos fora da tenda. Aniramad e Jerusa, irmãs mais novas de Séfora. Naturalmente, elas acompanham a irmã durante o dia. Os espíritos podem dar direções, porém ela constantemente esbarra em objetos. Moshe se pergunta como esqueceu de algo tão óbvio enquanto ambas as pequenas irmãs sorriem maliciosamente. A culpa recai sobre o peito do príncipe exilado.
— Me exaltei um pouco — Moshe gentilmente devolve a mulher ao solo.
Seus pés tocam o chão e com dificuldade ela volta a se equilibrar. Precisando agarrar-se a Moshe por mais alguns segundos preciosos até finalmente seus sentidos se equilibrarem.
— Obrigado por tudo — as palavras são sopradas em seu ouvido.
O vermelho toma conta da Euqone, as mãos intercalam em cobrir o rosto e as orelhas. Ela sente o corpo queimar, está assustada. A mente se contorce, confusa, ao escutar as palavras do Ivrit. Sua alma pulsa descompassada.
— Acho que suas irmãs vieram te buscar — Moshe arde de vergonha, como uma criança após molhar a cama.
Percebeu que o ato de tentar ser menos invasivo, sussurrando em seu ouvido, deixou tudo mais estranho. Como pode se agir assim, a levantou como se fossem íntimos. Não são? Não. Não são. Ela somente cuida dele por conta das vozes que o perturbam. Somente isso. Ela não nutre nada por si. Uma relação completamente formal. Ela o ajuda e ele ajuda o acampamento de seu pai.
— Al… alguma coisa te perturba? — pergunta ao vê-la ainda estática.
Ela deve ter se sentido exposta. Humilhada. Droga. Tem vontade de gritar, mas Séfora ainda está à sua frente. Sorte que é cega, ou seria exposta a sua patética feição. A face se molda entre a vermelhidão da vergonha e a palidez do medo.
— Eu… eu…. — as mãos dela deslizam sobre o próprio braço buscando relembrar do calor momentâneo. — Obrigada.
Novamente sorriu. Moshe tornou-se uns rocha sólida. Seu corpo se comportou como se uma lâmina envenenada atravessasse seu peito. Está paralisado pelo sorriso dela? Não. Absolutamente não. Com toda certeza dos céus, não. Está paralisado ao ver Yitro do lado de fora de sua tenda.
— Eu… eu… só… — Séfora ressoa sílabas soltas, Moshe não tem forças para impedi-la. — Só queria…
No entanto, caso arranque forças para tal feito, gostaria de amaldiçoar cada maldito espírito que a guia. Pois a abandonaram justamente quando sua vida corre maior risco. Conhece a força do patriarca, já o presenciou arrancar quatro cabras do chão com somente um braço.
— Com licença — o velho coça a garganta e cospe no chão um espesso catarro, talvez a tanto tempo alojado que se transformou parte do pulmão. — Tenho que conversar com minha filha, se me permite.
— Cla… claro, nós já… já… — por pouco não morde a própria língua, mais qualquer segundo na presença dele e Moshe enlouquecerá.
Aniramad e Jerusa aguardaram o pai se distanciar para continuar provocando o pobre Ivrit. Moshe percebe a quantidade de gestos obscenos sob o repertório de duas pequenas criaturas. Questiona se demônios não andam sob peles humanas.
— Você mudou bastante, amigo — a presença de Aharon ressurge, óbvio, alegre. — Não te vejo assim desde… desde… Creio que nunca te vi assim.
Tal colocação não está errada. Quando a cabeça e o rosto ainda eram raspados diariamente, poucas eram as mulheres dispostas a serem suas pretendentes. Sua existência era repudiada entre aliados e inimigos.
— E você me parece o mesmo de sempre, amigo — o peso dos ombros o deixou, momentaneamente.
Mas, de fato, sua aparência pouco mudou. O cabelo sempre foi grande com cachos passando dos ombros. A barba rala cobrindo o queixo. Desde que foi apresentado a realeza é um homem desleixado. Joquebede sempre foi rígida com ele, relembrando da sorte de permanecer vivo. Moshe demorou alguns anos para compreender tal frase, afinal, uma década separa os nascimentos. Mas Rehlum e ele sempre tiveram um caso, o destino adiou sua sentença quando Adraug teve que sair de Otige por alguns meses. Foi nesse período que Tuya o ajudou. Cobrindo os rastros.
Tuya…
Não se esqueça…
Nós a matamos…
É claro, a já falecida rainha de Otige. A mulher que o adotou e ofereceu amor. Sua mãe. A mulher que matou friamente. As malditas vozes não irão o deixar esquecer tão fácil.
Então…
Mate-os…
Livre-se de todos…
Nos vingue…
— Temos que ir até a cidade — Moshe rispidamente ordena.
— Pensei que quisesse um tempo a mais com… você sabe… — ao olhar para Moshe vê a perturbação de três meses atrás retornar. — Vo… vou preparar os dromedários, assim que terminar de comer venha me ver.
Constrangido, Aharon tenta o abraçar. Moshe retribui friamente. Antes do silêncio tornar-se constrangedor, Aharon sai da tenda. O passo manco é apoiado por uma bengala, deixando um rastro único na areia.
— Saiam de perto — Aharon sacode a bengala sobre a cabeça, tentando afugentar Aniramad e Jerusa.
Por vezes as caçulas roubam a bengala, obrigando-o a correr atrás delas. Falhando inúmeras vezes até que ele canse ou alguém sinta pena o suficiente. Na realidade Moshe se culpa, não o salvou quando injetou a substância em seu tórax. O escuta agonizar em inúmeras noites. O vê mascarar a dor com conversas sem sentido. Talvez ele também as escute. As vozes.
Nós...
Moshe preenche os pulmões com ar seco e esvazia o peito lentamente. Longos minutos se passam repetindo a ação até que tenha se acalmado por completo. Outra vez suas pernas se movem antes do pensamento se formar. A cabana Yitro fica a meros passos. A dois meses atrás dividia o mesmo teto de pano com o patriarca e Aharon, hoje conseguiu comprar a própria tenda. Yitro é generoso a respeito de dinheiro.
— Perdão a intromissão — Séfora está sentada com uma xícara soltando um leve vapor a sua frente. — Yitro, eu e Aharon necessitamos ir até a cidade para comprar mantimentos.
Ao perceber não ser o foco da conversa, Séfora esvazia a xícara quente ao passo que se enche de decepção. O líquido amargo atravessa o paladar arrancando uma careta da mulher. O pequeno gemido interrompeu a conversa entre Moshe e Yitro. O calor tomou conta do rosto durante o silêncio. Não é necessário usar os espíritos para saber onde os dois pares de olhos estão. O que lhe resta é sentir o líquido quente queimar sua língua e torcer para que voltem a discutir.
— Tudo bem — seu pai cede ao Ivrit.
— Obrigado — houve uma longa pausa antes que Moshe saísse da tenda.
Séfora permaneceu com a xícara vazia na boca. A língua dormente não reconhece se há ou não líquido. A mente se aquece ao se imaginar segurando o rosto de Moshe. A ponta dos dedos não queimam sobre o barro, e sim se aquecem sobre a pele áspera. A palma da mão se encolhe ao tocar a barba.
— Filha… — a voz grossa a faz derrubar o copo de barro. — Sobre o… sobre o tratamento em Moshe, como está?
Ela, trêmula por não se recordar do pai ainda presente no espaço, esfrega os olhos aguardando algum espírito lhe auxiliar. As figuras disformes lembram gotas d’água. Tendo cores e formatos distintos. A grande maioria não fala, apenas emite pequenas cantigas.
— Está tudo bem, sua alma se tranquilizou nessas últimas semanas. Não há tanta angústia quanto antes e… e…
Um espírito lhe empresta o dom da visão. Os objetos misturam-se uns com os outros. Os cacos do copo são o pé da mesa ou o tapete que cobre a areia. Entretanto, o rosto de seu pai é nítido, pois sua alma é nítida. Os olhos cansados constantemente são puxados para o chão. As rugas ao redor dos lábios. O nariz arqueado e pontiagudo.
— Irei o ajudar pai, não se preocupe — os pequenos braços cobrem o corpo cansado.
Os dedos engancham no cabelo crespo. Yitro não é agraciado como sua filha, porém teus olhos cinzentos flutuaram sobre o Ivrit todos os dias a fio. Reconhece o mal e o bem, entretanto, não reconhece Moshe.
— Prometa cuidar-se na presença dele.
— Prometo — o patriarca viu o brilho puro emanar muito além do corpo.
Ainda teme por ela, mas preza ainda mais por sua felicidade. A cada noite ela conta como foi o dia. Quanta alegria emana a cada frase, independentemente do quão simples foi a tarefa. Confiar no homem que devolveu a alegria a sua filha é o mínimo de seu dever como pai.
— Descanse… eu irei buscar… água.
Ela anda até sua tenda, ocasionalmente colidindo com objetos empilhados ou cumprimentando o vento. Aniramad e Jerusa não tardam em ajudá-la. O patriarca a acompanha com os olhos enquanto equilibra dois jarros de água. Sente o peso da idade ao sentir a respiração pesada e o corpo dolorido após completar a tarefa. Ao observar sus filhas realizando boa parte dos afazeres físicos, sente-se amargo. Quando Moshe retornar conversará melhor, com a mente mais fria. Se sua filha confia nele, como pai deve apoiar.
Moshe já partiu, perturbado pelas vozes. Ele e Aharon caminham ao encontro do pequeno vilarejo de olhos violetas.
Retorne ao palácio…
Finalize a…
Vingança…

Regras dos Comentários:
Para receber notificações por e-mail quando seu comentário for respondido, ative o sininho ao lado do botão de Publicar Comentário.