Índice de Capítulo

    Tum-tum, tum-tum…

    Com o coração batendo forte, Akemi deglutiu em seco. Tudo ao seu redor encolhia, como se as paredes do túnel o esmagassem.

    O silêncio, mais aterrorizante do que nunca, intensificava o nervosismo dos jovens, que suando frio, mal reagiam aos altos olhos verdes que os observavam por entre a penumbra.

    — E então? Não vão me dizer por que estão aqui? — A voz familiar e ameaçadora reverberou pelas paredes de pedra.

    Imóvel, Miya cerrou os punhos e abaixou a cabeça, seus tremores revelavam toda a fúria que sentia. — Vocês são monstros…

    Lutando contra o instinto de fuga, Akemi espiou de canto. “Mas era óbvio…” As luzes piscantes revelavam Jin Ichikawa em seu corpo grande e definido apesar da idade avançada. “Claro que isso aconteceria! E-e agora!? Calma, ele não pode fazer nada conosco aqui, pode?” Reunindo uma coragem que nunca imaginara, Akemi tentou explicações. — Diretor Ichikawa! Perdoe nossa presença, estávamos apenas explorando os arredores e acabamos por-

    O marechal estufou o peito em arrogância. — Um reles recruta ousa tentar me enganar?

    “Ele tá muito perto!” Akemi desesperou-se pela proximidade; o corredor encolheu ainda mais. Tum-tum tum-tum… Entretanto, o toque de uma mão gentil e firme o empurrou para trás:

    Miya colocou-se à frente da situação. — Não encoste um dedo nele — avisou, direta a Jin.

    — Hmm… Senhorita Miyazaki, a herdeira da chama eterna… você deveria estar focada em se tornar o símbolo principal de sua família. Mas, conhecendo sua linhagem fora do padrão, é compreensível que esteja aqui — disse o militar, escorrendo deboche nas palavras — e quanto a você, 01, vejo que minha promessa já se juntou a essa pífia oposição. Como gostam de dificultar a minha vida.

    “Promessa? Ele se refere a mim?”

    — Vocês são nojentos! — Miya apontou um dedo na cara do militar — acha mesmo que esses feitos horrendos do exército não chegarão aos ouvidos da população!?

    — Ho ho ho… Entenda, minha jovem, seu povo é como argila nas mãos de um hábil artesão, e através das conquistas deste artesão, essa argila foi moldada num jarro forte, potente, e acima de tudo, inalterável. A profundidade do núcleo deste recipiente vai muito além do que se pode conceber, e recrutas como vocês não arranham nem a superfície.

    Akemi sentiu um nó no estômago. “Ele acha que somos apenas peças de um jogo, e mesmo assim, nada cheira como mentira.”

    Com o desgosto agravado pela metáfora, Miya não tinha palavras para a resposta.

    — Fique tranquila, senhorita — continuava Jin — da mesma forma que não pode agir contra nossas ordens, também sei que não posso fazer nada à sua pessoa. Um simples sumiço repentino não cobriria a importância de alguém como você na Família Miyazaki.

    Akemi procurava a calma sob o suor frio em sua testa. — Miya, temos que sair daqui — com uma mão, ele segurou o braço da companheira estressada, sentindo a tensão nos músculos dela.

    — Hummm, enquanto isso, minha promessa decidiu complicar tudo. De fato, agora posso ver: as pessoas nunca mudam. Não importa quantas gerações possam vir, as mesmas vocações irão se espalhar. Os seres sábios sempre estiveram certos.

    As declarações do militar eram de uma certeza sombria.

    “Promessa de novo!? O que ele tá falando!? Argh, não importa, temos que dar no pé o mais rápido possível!” Tendo seus puxões resistidos pela garota, Akemi via-se preso numa teia de intrigas confusas e insuportáveis. “Caramba! Por quê ela não se mexe!?” O medo e o desespero aumentavam sua ansiedade. — Miya! — Seu gritos percorriam todo o túnel — já escutamos o suficiente! Temos informações, agora precisamos pensar no próximo passo! Não estamos em boas condições de continuar por aqu-

    Wooooosssshhhh…

    Jin desapareceu.

    “… Pra onde ele-“

    Sorrateiramente, uma brisa passou pela orelha de Akemi, arrepiando-o.

    Se quiser continuar na academia, fique longe dessa garota. Estou de olho em você.

    Woooooooosssshhhhh…

    A presença se foi.

    O túnel “expandiu-se” novamente, mas a ameaça invisível que literalmente pairava traumatizou Akemi. “Ele… me proibiu de ficar perto dela? Mas… ela é minha única esperança aqui…”

    Decidida, a garota partiu em direção às escadas. — Temos que voltar.

    “O que foi… isso?”


    [ Fundos da ASA, às 10h25 da manhã. ]

    A floresta de pinheiros parecia mais densa do que quando entraram. Akemi seguia a pressa de Miya. — Ouviu o que ele disse? — expressou, confuso.

    — Sim — Miya seguia o ritmo — pretende obedecê-lo?

    A paciência do rapaz estava perto do fim.

    — Não é questão de obedecer ou não! É sobre sobreviver aqui tempo suficiente pra poder fazer alguma coisa! E que ideia foi aquela!? Sei que quer acabar com o mal do exército, mas não precisamos ir tão longe! O que você tinha na cabeça!?

    — Está tudo sob controle — respondeu Miya, direta.

    Akemi gesticulava em descrença. — Como assim sob controle!? Acabamos de descobrir que o exército tá cometendo crimes de guerra, que o Czar pode estar vivo, que Jin é cúmplice de tudo e talvez a cabeça por trás das operações criminosas! E agora ele me ordena a me afastar de você! — Ele respirou fundo, buscando controle — aliás, nem sabemos quantos outros militares corruptos existem nesta academia. E com todo respeito, os Miyazaki não são confiáveis nem mesmo pra você!

    — Nunca foram, e sobre os outros fatos, eu já suspeitava há anos. Só precisava ouvir e ver com os meus próprios olhos. Agora, Akemi, peço novamente que você confie em mim. Está tudo sob controle.

    — Por que diz isso!?

    Miya suspirou e soltou os braços, preparando a explicação. — Como você sabe, Jin vigia toda esta academia — ela retomou a caminhada em um ritmo mais lento — não sei ao certo como a aura dele funciona completamente, mas pelos registros de suas missões na guerra: invasões, espionagens, emboscadas surpresa, é um analista nato. Ele gosta de observar, medir, e entender até onde o inimigo vai antes de agir.

    — Concordo, porém isso é mais suposição do que fato.

    — Se quiser pensar assim, pense. Nada muda o fato de que a única razão para ele não ter nos impedido de entrar naquela floresta foi querer ver até onde iríamos — Miya virou o rosto para olhá-lo — pensa, Akemi. Você mesmo viu: ele apareceu depois que escutamos tudo, não antes ou durante, depois.

    “Isso faz sentido…” o rapaz relembrou os ensinamentos do avô sobre a paciência estratégica. “‘Observar antes de agir.’ Só que…” Dúvidas sobre si mesmo se formavam.

    Miya voltou o olhar adiante. — Apesar da punição que ele te deu, não ocorreu nada grave. Jin não é burro: ele sabe que qualquer movimento errado dele chama atenção, e eu… — uma pausa mediu as palavras — eu não sou uma aluna qualquer. Ele não pode simplesmente me eliminar sem consequências.

    — E eu? — indagou Akemi — por que ele não me matou ali mesmo?

    — Ele te chamou de promessa, não foi? Isso significa que, de alguma forma, você tem um valor que eu ainda não entendo completamente… — a garota respirou fundo — mas sei que enquanto você estiver comigo, Jin terá que me enfrentar primeiro.

    — Você tem força pra isso!?

    — Sinceramente? Não sei. Não reconheço direito as minhas capacidades. Por isso, só posso descobrir tentando.

    — C-cê tá falando sério? Realmente cogita enfrentar um marechal áurico?

    — Não é soberba, Akemi. É… necessidade.

    Percebia-se a dor contida nos punhos pressionados da garota. O desabafo estava próximo.

    — Fui criada e treinada na dor e no combate. A Família Miyazaki me moldou para virar uma arma, e quando fico diante de um militar corrompido, ou de qualquer figura que deveria proteger os nossos mas prefere trocá-los por interesses próprios, quando enxergo tudo o que esses monstros representam… eu quase me quebro, quase deixo a raiva me consumir. E é por isso que eu te trouxe, Akemi. Independente da sua força física ou experiência, você é a única pessoa nesta academia que não aceita a violência como resposta padrão.

    — Eu… o quê!?

    — No teste de ingresso, quando você se recusou a ferir seu oponente, no discurso que deu depois, quando disse que não estava ali pra lutar contra irmãos do mesmo país. Você foi o único que destacou o absurdo que eu sentia há anos e nunca consegui expressar em voz alta.

    — Pois isso me enfiou nessa loucura? 

    — Não só por isso, te trouxe pra me impedir de ir longe demais. Quero que você seja minha consciência quando a minha falhar. Porque se chegar o momento em que eu tiver que enfrentar forças maiores, preciso saber que tem alguém do meu lado que vai me lembrar do porquê estou fazendo isso: por nada mais além de justiça.

    — Confia mesmo que sou a pessoa certa pra te proteger de si mesma?

    Quando atravessou o fim da floresta e pisou na grama baixa do pátio da ASA, Miya virou-se com um sorriso. — Você só precisa continuar sendo você: alguém que ainda acredita que as coisas podem mudar. Também preciso seguir acreditando nisso. Contudo, não se sinta pressionado. Todos falham, e assim como você pode falhar comigo, eu posso falhar com você. É nessas horas que saberemos o quão forte é a nossa aliança.

    Sem escapatória, Akemi coçou a cabeça.— Continuamos juntos mesmo?

    — Positivo! Mas com cuidado, precisamos ser espertos. Por isso, tenho um plano! — Miya levantou um dedo, convencida — Nikko cuidará de você por enquanto.

    — Ni?

    — Sim, a Nikko.

    — N-Nikko? Nikko Ichikawa!? — Akemi recuou, incrédulo — acabamos de ter um descaso com o diretor da academia e você quer que eu fique perto de uma garota da família dele!? Que grau de parentesco eles têm?

    — Se não me engano, Ni é sobrinha-neta de Jin, mas pode confiar, conheço aquela energia positiva há muito tempo.

    — Mas como isso pode nos ajudar? Ela sabe no que estamos nos metendo?

    — Nikko possui uma pureza tão preciosa quanto a de uma esmeralda recém-extraída, sem contar que é uma áurica muito talentosa. Ela não precisa saber o que fazemos pra te ajudar a ficar mais forte aqui, e se soubesse, viveria desconfiando daquilo que mais ama: a própria família. Isso a destruiria… não quero isso pra ela.

    — Ainda assim, duvido muito que Jin não se sinta afrontado pela minha proximidade com ela.

    — Você é o 01, certo? Nikko é a 02, ou seja, sua companheira de curso mais próxima, é natural que permaneçam tempo perto um do outro. Jin não terá coragem de nos açoitar com a Ni por perto, seria uma grande dor de cabeça pra ele.

    Akemi soltou o ar dos pulmões, ponderando a situação. — Haaah, tudo isso é tão confuso. Chego a perder as esperanças de que há pessoas normais nesse lugar.

    — Então você precisa conhecer mais dos seus companheiros de curso! Quem sabe encontremos novos aliados? Vamos! — Miya gesticulou para que fosse seguida e iniciou a caminhada em direção ao refeitório.

    “Essa garota ainda vai me causar sérios problemas um dia…” Mas relutante, Akemi a seguiu entre, pois pela primeira vez desde que entrara na ASA, entendeu que não estava ali somente para que aprimorasse suas habilidades áuricas, estava ali pra que, juntamente de Miya e quem quer que os ajudasse, encarasse perigos maiores ameaçando a integridade dos inocentes sob os panos de mentiras governamentais.

    Conclusão: eles precisavam da confiança e da proteção de ambos, sempre evitando riscos além de seus limites. Porém, na falta de escolha, o preparo prévio para qualquer situação seria vital para o futuro de ambos os jovens, e para tal, Akemi precisaria do corpo e da mente fortalecidos.

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