Capítulo 77 - Distorções
O topo do castelo virou um campo de batalha onde a única luta era não ser engolido.
Agarrados uns aos outros numa cadeia humana que se estendia da espadachim até onde chegava a resistência dos últimos contra a correnteza gravitacional, os alunos se prenderam como cada par de mãos apertando o tornozelo de quem estava à frente, alguns com desespero aberto, outros raciocinando enquanto se seguravam..
Mayumi havia encontrado a única saída possível: a katana de gelo no piso que se mantinha cravada com toda a força que os dois braços reuniram contra a correnteza gravitacional.
Mais próximos do desastre cósmico, Nikko e Minoru se seguravam pelas pontas dos dedos no primeiro degrau da escadaria, concentrados pelo esforço de se manterem num único lugar enquanto o vórtice os puxava para cima, puxando a pele de seus rostos.
— Wow, wow, wow! Nikko, rápido! Faz alguma coisa por nós! — conclamou Minoru.
— Não posso fazer nada sem uma arma nessas circunstâncias, seu bobo! E pelo visto muito menos você! bleh!
— Então por que jogou aquele maldito bastão de gelo fora quando veio me ajudar, hein!? Simplesmente esqueceu dele!?
A cobrança chateou. — … Eu não sei, não grita comigo…
— Incompetente!
Já Nihara ocupava o pior ponto de todos: suas mãos apertavam a ponta do último degrau — o mais alto, e mais próximo da esfera. A força que o puxava era de outra natureza, parecia até mesmo pessoal, como se o buraco negro o escolhesse entre todos. Os pés voavam livres em direção ao roxo insaciável, e as chamas que eram apagadas antes da ativação, engolidas pelo mesmo vácuo que queria o resto. — Nrrr! — Com o canto do olho, ele flagrou o sadismo em pessoa, onde o único movimento era o balançar frenético de cabelos curtos e lilases. — O que deu na sua cabeça!? Vai matar todos nós!
— Que engraçado — ironizou Rin, com um eco espectral dando a estranha sensação de sua voz se estendia além do tempo. — Você entendeu rápido o perigo que passa. Parabéns, mais um ponto pra ti, esquentadinho.
— Tu é maluca?!
— Maluca? Quem sabe. Na verdade, queria eu saber o que sou além da casca de um experimento feito por idiotas como você.
— Nrrraah! Já falei que não tenho nada a ver com o seu passado! Chega dessa palhaçada! Se continuar fazendo isso, vai causar um desastre na academia!
— Nah, fica de boa. Este poço gravitacional não possui nem um bilionésimo da real força de atração. Só que… se atravessarem o horizonte de eventos, não creio que poderão ter volta. Além do mais, não precisa se preocupar comigo, eu vou junto.
A vívida tonalidade roxa se alastrou pelo pescoço, indo até as orelhas como uma marca venenosa.
Rin levou uma mão ao rosto, falando consigo mesma. — Haah, que propósito patético. É impressionante que uma mísera fração de energia já é o suficiente pra ativar a Singularidade, e pensar que aquela corja imunda ainda se ilude com uma busca pela aura perfeita… Que ironia, não? Tão cegamente obcecados por poder que nem percebem o quão longe estão do próprio ideal — a garota olhou para a mão cósmica que pairava a esfera crescente — mas, pode ser que exista uma solução para o fim de tudo isso… Se eu simplesmente acabar com a minha existência junto dessa aura abominável, quem sabe não transformo esse projeto miserável no fracasso monumental que aqueles desgraçados tanto merecem!
A potência e tamanho da esfera aumentaram juntamente do barulho estridente. Nem mesmo a luz sobrevivia perante a extinção em partes de um vortex insaciável.
Os arrastos pioraram, o desespero descontrolava, e a certeza da morte, se confirmava.
Com apenas as pontas dos dedos, Nihara se segurava contra a força etérea, mas apesar da resistência, o pior dos destinos o esperava…
Pela corrente humana, Kinyoku fazia contas em meio ao caos. “Nhrg, essa força… Não consigo me adentrar nas sombras.” Seus olhos percorreram a situação. “A falta de armas desgastam demais o Sasaki e a Hattori, o tempo não nos recuperou. Estamos com problemas reais.”
— Uaah! G-gente, o que faremos agora!? — exasperou Aruni, agarrada nos pés do irmão.
Sho fechou os olhos enquanto se segurava nos pés da ruiva, mas logo lembrou que seu fascínio pelo poder de Rin era mais forte do que tudo aquilo. — Eu não quero nem olhar, eu não quero nem olhar!… Mentira! Quero olhar sim! Esse evento é magnífico!
— Vocês, concentrem-se! — exigiu Mayumi — precisamos pensar em uma forma de detê-la, se não tudo irá para os ares!
Vendo a expansão contínua do próprio poder, Rin transfigurou seu rosto no delírio. O momento era dela. — Um poder que ilude a perfeição, que purifica, destrói, apaga e reconstrói, mas a mesma sensação ruim continua: nojo pelo que ele faz comigo. Me consome, me transforma em uma coisa que mal reconheço, trazendo dores incessantes nesse universo que nunca acaba… Eu não preciso mais me segurar, pois se assim fizer, não estarei mais presa a números e nem à força que me dizem ser revolucionária… Um dia… um dia todos vão ver… vão entender o que realmente é ser incompleto.
Em proporções absurdas, a esfera criou caminhos roxos e curvos que giravam do salão ao seu ponto central e obscuro, expandindo-se e contraindo-se continuamente na imagem de um redemoinho sem fim.
O tom mais escuro do violáceo dominou por completo o corpo humano que a suportava.
— Contemplem! A fusão de tudo o que é impuro, para enfim, chegar à pureza! Um vórtice em ciclo refinado por sua natureza! Esta é a verdadeira forma do infinito, tão destrutivo quanto o supermassivo, o espiral cósmico! — Inusitadamente, Rin perdeu o delírio para um sorriso singelo que jamais julgara um dia oferecer, muito menos a um jovem cuja essência lhe causava tamanho detesto. — Obrigada, garoto. Se não fosse por você, eu não teria a coragem de tomar essa iniciativa. Foi bom te usar pra desabafar.
De olhos bem abertos, Kyoko observava o vórtice. A boca coberta pelo agarre da mão cósmica impedia contradições, em síntese, a baixinha nunca teria palavras.
Já Hisako… outra história.
A instrutora prendeu sua cadeira ao chão com uma espécie de cinto congelado e abriu os braços, acolhendo o caos. Seus olhos estavam marejados, majoritariamente pela idolatria. — Aah, isso! Belo! Lindo! Esplêndido! Um combate na forma mais pura do desatino áurico1 à tragédia! Há tantas décadas que eu não vejo tal paisagem diante dos meus olhos!
— Estão de parabéns, meus queridos alunos — disse Hisako, sincera — mas não é isso que Asahi precisa.
Rin e seus braços cósmicos seguiam impassíveis do desespero dos outros. Sua missão de posse em Kyoko foi-se embora pelo crescimento do buraco negro acima da grande palma galáctica, impassível diante do desespero de alguns, e o risco a própria integridade. Seu lado esquerdo desintegrava-se aos poucos, como um papel queimando de dentro para fora. A marca consumia seu corpo pela aparente condição áurica que chamou por Singularidade…
Sentindo o caos se agravando e tendo suas forças ampliadas involuntariamente pelas faíscas auto-protetivas inquietas por todo o corpo, Akemi forcejou a voz entre o barulho crescente do vórtice. Seu objetivo era por uma solução. — Se conseguirmos chegar perto daquela garota enquanto somos puxados, teremos uma chance de parar tudo isso!
De fato, a ideia parecia válida, porém, Teruo riu esnobe. — Quanto mais perto daquilo, menos controle sobre o próprio corpo. Acabe logo com sua esperança.
— Qual é!? Pensar assim não ajuda! — retrucou.
— Não seja ingênuo. Estou apenas apreciando uma aura sem catálogos de origem. Olhe para ela, não é fascinante? Uma região no espaço-tempo onde a gravidade é tão intensa que nada, nem mesmo a luz, consegue escapar de uma fronteira que uma vez cruzada, não permite retorno.
Sho concordou, e apontou uma preocupação: — O que intriga de verdade não é o poder em si, é o preço. Uma aura que rompe as leis físicas conhecidas certamente não viria sem restrições severas. O corpo da Kurosawa está se desintegrando gradativamente com a expansão daquele buraco negro. Temos que salvá-la também!
Com os olhos em pequenos raios, Akemi analisava a grande esfera ao longe, o tamanho superava a mão cósmica e quase cinco vezes. “Lembro de estudar essas formas na escola. Apesar daquilo ser um buraco negro de formação instável, as bordas do horizonte de eventos não são subestimaveis! O que ela criou parece uma representação espacial enfraquecida, uma aproximação do fenômeno em si. Isso significa que as leis que regeriam um colapso gravitacional real provavelmente não se aplicam aqui de forma integral. Então… o que acontece se…”
— E se atravessarmos aquele horizonte de eventos mesmo assim — insistiu ele —, o que acontece?
O aumento do barulho estridente que vinha da esfera cresceu com a breve quietude dos jovens. Ninguém tinha resposta… além de Teruo:
— Há outro detalhe: aquela garota não possui formação acadêmica registrada em nenhum dos institutos de Asahi, nem mesmo em escolas básicas de controle áurico ou sequer uma ficha de treinamento… nada.
— Como tem uma informação dessas? — indagou Kinyoku.
— Meu pai integra o júri de aceitação de alunos indicados. Quando ele mencionou que havia uma garota com uma aura sem precedentes registrados, nos debruçamos sobre o que haveria nela. Não encontramos nada de substancial. A vida dela é praticamente uma lacuna, ou seja, o que ela está fazendo agora só pode ser fruto de puro talento e intuição natural.
A informação pousou sobre Akemi com a mesma força que o vórtice aplicava. — Então ela não sabe exatamente o que tá fazendo.
— Sabe o suficiente pra fazer — corrigiu Kinyoku — mas certamente desconhece os próprios limites. Temos que pará-la.
Crsh-!
A parte entre a empunhadura e a lâmina de gelo rachou parcialmente. A espada não resistiria tanto tempo contra a força gravitacional.
— Temos que agir, rápido! — informou Mayumi — meu sangue está perdendo o efeito na katana, ela pode quebrar a qualquer momento!
Foi naquele ponto que uma ideia brilhou.
— Espera! — disse Akemi.
Todos o olharam.
Na ponta da cadeia e com os dedos envoltos na base da canela de Kinyoku, faíscas crescentes irradiavam pelo antebraço e criavam uma aderência extra entre a palma e a pele, cuidadosamente contidas para que não tocassem diretamente na carne alheia, mas suficientes para que o agarre resistisse à força que o puxava.
— Se a aura dela não for eterna — continuou Akemi, pensando em voz alta — talvez ela tenha um limite… e se tiver limite, o horizonte de eventos também terá!
— … Essa é a ideia mais idiota que já ouvi — disse Kinyoku, sem tempo para diplomacia.
— Explica melhor, cara! — exigiu Sho.
Akemi estendeu a mão esquerda. — Observem isso — disse ele.
As faíscas que cobriam o antebraço se expandiram levemente, e ali estava o detalhe: elas seguiam um fluxo completamente imutável pelo braço, precisamente descendo pelo dorso da mão e percorrendo os nós dos dedos. Não havia desvios.
Resumindo: a força gravitacional que puxava tudo em direção ao vórtice não afetava as faíscas. O ar distorcido que envolvia o vórtice não alterava o caminho delas.
— Meu corpo ainda é puxado, mas a aura não — continuou Akemi — essa espada de gelo eterno também não cedeu, e segura oito pessoas contra uma força absurda e crescente. Como dizem, auras eternas não são afetadas por auras comuns. Pelo menos é o que parece. Se a minha for eterna, posso atravessar o horizonte sem ser destruído, posso chegar até ela!
Os alunos mais inteligentes avaliavam a ideia.
Conclusão: era loucura.
— Você não sabe se sua aura é eterna — afirmou Kinyoku.
— Só existe um jeito de saber… tentando. Afinal, tudo isso não passa de uma provação. A vida já me deixou claro que quando ninguém consegue agir perante o perigo, é nesse momento em que surge um verdadeiro herói… um verdadeiro shihai! Esse sempre foi o meu sonho! Proteger aqueles que precisam, mesmo que o preço seja minha própria vida!
— Akemi, pare! Você está sendo imprudente de novo! Não é o seu senso de heroismo que nos salvará dessa-
A mão que segurava o tornozelo de Kinyoku, se soltou, e os próximos acontecimentos, demandariam da mais absoluta autoconfiança…
- também cataclisma áurico: estado de ruptura entre mente e aura em que o áurico perde o domínio racional sobre suas manifestações, levando a uma liberação instável, caótica ou excessiva de energia, geralmente desencadeada por emoções intensas, podendo causar falhas, danos colaterais ou prejuízo ao próprio usuário.[↩]

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