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    Eu realmente não conseguia acreditar no que os meus olhos viam…

    Tentei esfregá-lo, sem sucesso. Me aproximei, era real. Não era um dos meus pesadelos, aquele ser estava ali…

    Mas por que?

    Normalmente, ela deveria aparecer junto de seus companheiros daqui a três meses, então o que teria falhado? Pelo que me lembrava, todo mundo estava selado no abismo pelos antigos heróis, mas ao que parece, essa era exceção.

    Analisando bem, pelo menos não se tratava de um dos comandantes, mas de um inferior, seu único chifre evidenciava isso.

    O nível de poder de anjos caídos era medido por chifres. Quem tivesse mais chifre, maior seria seu poder. E o máximo de chifres que simbolizava o ápice do seu poder era doze ao todo.

    — Meredith, lembra sobre o que falei naquele dia…

    Meredith olhou para mim, balançando a cabeça afirmativamente.

    — Pois é, essa é uma das pragas que irá destruir Hengracia, um demônio.

    — O que? Então quer dizer que o selo já foi liberado?

    Antes que eu pudesse responder Meredith, aquela mulher falou.

    — O que estão falando aí?

    — Não se intrometa, fofoqueira. Não te ensinaram que é feio se intrometer na conversa dos outros?

    — Fofoqueira?

    Ergueu uma das sobrancelhas, confusa, como se não soubesse do que eu estava falando.

    — Isso mesmo, eu tenho a certeza de que com o corpo que roubou deve ter absorvido todo conhecimento, então deve reconhecer muito bem essa palavra.

    — Como assim, Jarves?

    — Bem…

    Acontece que os demônios podiam roubar o corpo do ser humano, através da legalidade ou da fraqueza, ou seja, pessoas com baixa mana possuíam muita probabilidade de serem possuídas. Quando um desses requisitos era cumprido, eles entravam no corpo e guerreavam com o espírito da pessoa, no caso, quem tivesse mais força de vontade vencia e expulsava o outro do corpo.

    — A verdadeira dona desse corpo não deve ter aguentado… — finalizei, olhando para Meredith que cobria a boca, chocada.

    Eles até poderiam materializar seu próprio corpo, mas adoravam roubar o corpo dos outros, isso satisfazia suas emoções negativas.

    A propósito, era disso que eles realmente eram feitos.

    Humanos possuíam alegria, tristeza e felicidade, mas isso era diferente para com esses seres em específico, sua emoção era puro ódio.

    Diante das minhas palavras, Meredith baixou a cabeça, tremelicando os ombros enquanto cerrava os punhos.

    Eu entendia ela. Essa também era uma das razões que tornou o exército das trevas difícil de derrotar. Quando eles tomavam o corpo de quem você amasse e começavam a emitir suas emoções e falas, você automaticamente caía em suas armadilhas e era degolado por eles.

    Toquei no ombro da Meredith.

    — Não se preocupe, apesar do corpo, essa já não é a gerente, ela se foi e com certeza deve clamar por justiça neste momento.

    — Tem razão… — Meredith ergueu a cabeça, fazendo o rosto frio enquanto apontava o dedo indicador para aquela mulher. — Escuta, você vai pagar por isso! Da maneira mais cruel possível!

    — Ah, é mesmo, é? Vai mesmo dilacerar esse belo corpo?

    A mulher começou a passar a mão no rosto suavemente e depois fez uma voz fofinha, que provavelmente caracterizava a verdadeira dona.

    — Vai mesmo? Pensei que tivéssemos muito em comum.

    — Malditaaaaaaa!

    Meredith avançou com o punho, veias espreitavam sua pele, enquanto eu a seguia por trás, preparando uma esfera amarelada.

    — Venham e pereçam!

    Ela lançou uma gosma através de suas mãos, que conteve minha esfera amarelada e o punho da Meredith.

    Nossos braços começaram a ser absorvidos por aquela substância pegajosa, que parecia goma de mascar.

    Droga…

    Não importava a força que fizéssemos, Meredith e eu não conseguíamos nos soltar.

    — Ahhhh, bom apetite para mim…

    Ela lambeu seus lábios, seus olhos violetas brilharam intensamente.

    Em contrapartida…

    Theresa tentava reanimar Zernen, mas sem sucesso, a mancha só se espalhava pelo corpo em direção ao último ponto, o coração.

    — Cura! Cura! Cura!

    A professora, apavorada, que estava ao pé das crianças, mandou seu marido ajudar Theresa a carregar aquele rapaz para que pudessem abandonar aquele lugar, que cada vez mais era tomado por gosma.

    — Vamos!

    — Não posso parar de curá-lo! — Theresa agora vertia sangue do nariz, de tanto esforço que fazia para afugentar aquelas manchas violetas, que persistiam em chegar ao coração do rapaz. Suas mãos cintilantes não paravam nem um segundo de pressionar aquele peito. — Vão vocês, se eu parar por um único momento, ele poderá morrer. Sua magia é do gelo, não é? Ajude eles…

    Ao passo que eu e Meredith tínhamos metade do corpo consumido pela gosma enquanto nos remexiamos numa tentativa inútil de nos descolar.

    — Superfície de gelo!

    Em um som crepitante, a superfície viscosa e roxa estava sendo corrompida pelo sólido cristalino e azul. Belia recuou para não ser afetada por aquele gelo que não parava de se expandir por sua gosma.

    Quando Ur emitiu a palavra destruir, metade do gelo retendo a gosma que cobria nosso corpo quebrou e caiu como pedras cristalinas no chão. Agora estávamos livres para a raiva daquela mulher.

    — Tse!

    Belia resmungou.

    — Leiliane, vá sem nós! As crianças, em primeiro lugar, ficarei para dar cobertura.

    — Mas… Tudo bem.

    A professora ordenou que as crianças se mantivessem em fila, bem perto dela, enquanto caminhavam em direção à porta.

    Apenas duas não queriam dar o pé dali. Os irmãos da Meredith saíram do grupo e foram abraçar sua irmã, mas no meio do caminho, foram pegos por uma gosma que surgiu do chão.

    — Não…

    Meredith arregalou os olhos.

    — Crianças!

    — Maninha, nos salva, por favor!

    Elas começaram a chorar, com medo, enquanto Meredith corria até eles.

    Enquanto isso, a professora preferiu adiantar a saída das restantes crianças ao ver aquelas duas salvas, já nos braços da Meredith.

    — Kyaaaaaa!

    Quando pegou a fechadura da porta, deu um grito estridente, assustando as crianças. Uma gosma emergiu na porta, não só, as paredes, a comida, absolutamente tudo foi tomado por gosma que só subia e crescia pelos nossos pés.

    — Ahhhh!

    As crianças gritavam.

    Imediatamente, tirei metade da poção do bolso da minha calça e atirei para Theresa que estava ali sofrendo para curar Zernen.

    Ela pegou e sorriu, agradecendo.

    Levantei o polegar.

    Meredith carregou os dois irmãos para cima, para que não fossem afetados pela gosma, o que não aconteceu com aquelas crianças…

    Ur tentava usar sua magia de gelo, mas não dava em nada, era como se a gosma já tivesse ganho imunidade.

    — E agora, o que faremos?

    — Sucumbam! Hahahaha!

    Aquela mulher começou a rir.

    — Só preciso de uma espada para acabar com isso…

    Meredith pousou seus irmãos no chão e levantou um de seus braços.

    Ur retirou uma espada envolvida em sua bainha e atirou contra a Meredith. Ela segurou e agachou para afagar a cabeça dos seus irmãos. Sorriu para eles e pediu para que se acalmassem.

    Quando Meredith sacou a espada da bainha, até eu senti uma pressão cair sobre os meus ombros, como se sua aura assustadora me forçasse a ajoelhar.

    — Uma espada…

    A mulher sorriu.

    — O que pensa que vai fazer com uma espa…

    Mas, em um instante, sua cabeça estava fora do corpo, que caia lentamente. Nem eu vi o que havia acontecido. Meredith estava do outro lado com a lâmina da espada encharcada de sangue…

    O que foi aquilo?

    O pescoço vertia sangue enquanto a cabeça rolava pelo chão, esparramando o líquido carmesim.

    — O que?

    Foi o que todos nós nos perguntamos, inclusive a demônia que nos olhava sem entender nada.

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