Índice de Capítulo

    — Lutaaaa!

    — Eu sabiaaa!

    Zernen mal podia esperar por empurrar seu soco para a cara daqueles dois soldados, enquanto Meredith parecia estar com pulga na mão para puxar aquela espada. Ela foi tão rápida e ágil ao tirá-la, que senti uma pressão cortante passando por mim.

    — Luta nada! — Theresa segurou a gola do Zernen, o fazendo retroceder.

    — Theresa, o que você pensa que está fazendo?

    Seus olhos se encontraram.

    — É óbvio que eles estão brincando. Da última vez que vim eles fizeram esse tipo de brincadeira, não é?

    Os guardas baixaram as lanças, pousando-as sobre a terra e começaram a rir.

    — Como esperado de Theresa! Sempre perspicaz!

    — Essa de fato é a nossa Theresa!

    Isso não fazia sentido algum. Estávamos sendo perseguidos, para começo de conversa. Havia uma recompensa para nossas cabeças, então não tinha como esses guardas repetirem a mesma brincadeira diante de supostos criminosos.

    — Mas isso não faz sentido — disse. — Não que eu queira ser preso, mas é sério mesmo? Vocês vão mesmo desacatar ordens reais?

    — Pois, Jarves tem razão — Meredith emitiu. — Traição é um crime grave, punido com pena de morte.

    — Estamos cientes disso. Mas se essa cidade prosperou não foi graças ao rei, foi graças a Theresa! E todos desta cidade sabem que Theresa jamais faria algo que ferisse as leis!

    — Isso mesmo, por isso estamos dispostos a proteger a Theresa e quem ela defende. Se o rei quiser nos condenar, então terá que condenar toda cidade, porque todos estamos com Theresa!

    Todos arregalamos os olhos diante de palavras tão emocionantes quanto aquelas. Um calor havia se incendiado no meu coração.

    — Que lindo… — Meredith deixou escapar.

    — Caramba, eu queria lutar… Mas fazer o que, não é? — Zernen encurralou um dos ombros do soldado e o aproximou dele enquanto sorria. — Vocês são muito legais para a gente bater!

    O guarda deu um sorriso descontraído.

    — Eu não disse?

    Os olhos de Theresa encontraram os meus com um sorriso que enunciava: nunca duvide das minhas palavras. Me limitei a balançar a cabeça positivamente com um sorriso.

    — É impressionante a união da vossa cidade — disse Rein. — Mas isso não é uma armadilha para entrarmos e sermos capturados, não é?

    Não podíamos descartar essa hipótese, mas Theresa era sempre cuidadosa e analítica que eu não sabia de que lado ficar. Será que Theresa estava, na verdade, sendo levada por uma emoção excessiva e confiança em seus conterrâneos, que havia se esquecido de que estávamos lidando com seres humanos gananciosos?

    — Theresa salvou nossas vidas e isso não tem quem pague — disse o guarda que era segurado pelo Zernen. — Mas se ainda duvidam, vamos entrar. Eu serei levado como refém para caso haja qualquer eventualidade…

    — Não precisa. Contanto que possamos viajar em uma caravana com alimentos.

    — Só isso? Tudo bem.

    Eles aceitaram a proposta do Rein numa boa. Já havia, curiosamente, uma caravana atrás do portão com alimentos como Rein havia pedido. A justificativa para isso era que haviam apreendido uma caravana de um comerciante que queria entrar na cidade sem pagar. Havia usado uma droga para os hipnotizar, mas quando um terceiro membro da guarnição chegou, acabou interceptando esse homem e acabaram ficando com a mercadoria.

    Theresa semicerrou os olhos, mas depois sorriu e disse que os seus amigos deviam tomar mais cuidado.

    Assim, entramos na caravana que havia sido trazida para fora. Um dos soldados estava como cocheiro. O diferencial daquela caravana era que havia um espaço no formato de uma porta, que nos permitia ver a parte traseira da cadeira em que o cocheiro estava certo.

    Haviam também realmente os referidos produtos apreendidos. Saco mangas, melancias, maçãs e espigas de milho.

    — Vamos recarregar as energias.

    Rein, que sentava na extremidade da porta do cocheiro, pegou uma maçã vermelha. — Se isto for uma emboscada, teremos mana para fugir.

    — Falou!

    Zernen, que também estava sentado na extremidade, levantou uma melancia e partiu em dois.

    Eu estava sentado no banco traseiro, no meio dessas duas.

    — Mas pessoal, não está errado a gente comer produto de dono?

    Quando Meredith levantou esse ponto, a caravana começou a andar para o portão já aberto que revelava aquela linda cidade.

    — Produtos apreendidos passam a pertencer ao governo da cidade, então não tem nenhum problema — disse Theresa, pegando em uma maçã verde.

    Eu peguei em uma manga. Fazia tempo que não comia uma.

    — Achado não é roubado — disse depois de dar uma mordida, o líquido amarelo e doce manchando os meus lábios.

    Meredith deu um suspiro e pegou na espiga de milho, atraindo os nossos olhos estranhos para ela. Havia gosto para tudo. Tipo, comer espiga de milho crua? Mas acho que depois de termos comido pedras de mana não tínhamos direito de falar muita coisa.

    — Que duro! E cru! — Meredith cuspiu o milho.

    — Nunca provou milho? — questionou Theresa enquanto Meredith devolvia a espiga de volta no saco. — Só é comido cozido.

    — Não, nunca. Por isso queria provar.

    Como esperado de uma princesa que comia coisas finas como uma maçã caramelizada.

    — Essa deve ser a temporada de milho. — Theresa olhou pela janela, que ilustrava casas com decoração de folhas de espigas atadas as janelas e batentes de folhas nas portas. — Com certeza, você vai gostar de comer quando ela estiver cozida.

    — É, acho que sim.

    Meredith tomou uma maçã, voltando seus olhos à janela. Os meus também estavam mirados nela para apreciar aquelas casas um tanto peculiares, não pela maneira como foram construídas, mas pelos adornos de trepadeiras e janelas feitas de garrafa.

    Cada casa possuí uma árvore, algumas presas ao gramado e outras rodeadas de pedras. Mas o que mais me surpreendeu foi o chão laranja asfaltado de areia, que não levantava tanta poeira assim.

    — Muita gente diz que fui que contribuí para essa cidade, mas na verdade, não. — Theresa começou a fazer uns movimentos estranhos com as mãos. Espera, eu já havia visto esses movimentos. Uma senhora que ficava no canto da TV costumava fazer esses movimentos para traduzir o que a mulher do telejornal estava falando. — Mas eu acabei ficando com os méritos da minha mestra. Como era muda e tímida, ela dificilmente interagia com alguém.

    Theresa parou de mexer as mãos. — Foi ela quem teve toda ideia de fazer dessa cidade o mais natural possível.

    — Ela fez um bom trabalho. Da última vez que vim não estava assim. Com certeza é algo que as terras do centro e sul deviam copiar.

    — Com certeza! — Dei uma risada, lembrando das casas, cujos telhados eram feitos no formato de sapatos em Nova sola.

    — O norte é o berço da biodiversidade — disse Rein. — Boatos dizem que o primeiro rei quis assim.

    E os boatos não estavam errados. Se o Rein continuasse, com certeza chegaria na verdade. Balancei a cabeça positivamente com um sorriso que escondia um mistério para ele.

    — Mas também o lugar mais perigoso para se viver, hahahahaha! — Zernen deu uma risada com boca vermelha e coberta de sementes da melancia. Agora ele estava pegando uma outra. — Nunca se sabe quando um monstro aparece!

    — Pois é, o que me faz questionar o porquê de você ter saído do norte, Zernen. Visto que você gosta de perigo.

    — É para ajudar o vovô nos negócios!

    Zernen mentiu descaradamente. E Meredith acreditou com a inocência de uma criança.

    — Que atitude boa.

    — Embora o norte seja o berço da biodiversidade, o sul é o berço da riqueza. Sem dinheiro, embora você tenha uma boa terra, você não faz nada.

    Assenti com a cabeça. Havia tempo de secas, e escassez de água, então muitas das vezes era preciso contratar pessoas com magia de água ou comprar artefatos que armazenam água, algo que saia muito caro.

    — Pessoal… — Fomos atraídos para Theresa. — A verdadeira razão pela qual estamos entrando nessa cidade não tem nada a ver com o fato de eu ser querida. É porque a governadora dessa cidade possui magia que permite ver cada canto dessa região e com base nisso ela deduz se as pessoas são realmente do bem.

    Eu não estava acreditando que Theresa havia mantido isso em segredo e somente estava revelando agora, quando preocupação há muito havia tomado conta dos nossos corações.

    — O que? É sério isso? Mas por que?!

    — Por que, Theresa? — Meredith questionou enquanto Zernen nadava seus lábios numa outra melancia. Rein apenas observava, aguardando ansiosamente pelas palavras daquela mulher.

    — Em parte eu queria ver se vocês realmente confiavam cegamente em mim. E em outra parte, eu queria provar para a governadora que vocês eram dignos de confiança.

    Não vou negar que me senti um tanto traído, mas se Theresa tivesse contado isso para a gente muito provavelmente começariamos a nos sentir desconfortáveis e a agir de um modo extremamente estranho.

    — Há quanto tempo estávamos sendo observados? — questionou Rein.

    — Não estou gostando disso! Será que ela viu quando eu mijei?!

    De todas as coisas que Zernen tinha para se preocupar, era com isso? Eu estava preocupado com a privacidade dos moradores em seus momentos íntimos.

    — Calmem, a visão dela só se estende nos lugares em que ela marca. É como sua magia de teletransporte. No caso, ela marcou a floresta e os cantos públicos da cidade.

    Dei um suspiro.

    — Então ela não consegue nos ver nessa caravana?

    Theresa balançou a cabeça negativamente.

    — Só uma perguntinha. Como ela pode ter certeza de que você não tenha contado nada a nós? Até onde eu sei existem pessoas que fingem bem — disse Meredith e não deixei de me lembrar de Graziela fingindo amizade para ela enquanto ficava com o seu noivo.

    — A habilidade extra dela é intuição. Ela acerta em 100% os casos. Uma vez entraram quatro pessoas condenadas à guilhotina nesta cidade e ela os protegeu. Depois ficou provado usando magia da verdade que eles eram inocentes, visto que um dos artefatos da verdade que os condenou apresentou defeito. E esse não foi o único caso, houveram outros casos.

    Essa governadora tinha uma habilidade muito roubada, pena que eu não a conhecia, tão pouco toda essa cidade. Na série, apenas mostraram ela para mostrar o passado trágico de Theresa e da sua amiga. Os outros personagens como governadores e até mesmo os pais de Theresa haviam aparecido de raspão, praticamente esqueciveis.

    — É estranho… — disse Meredith. — Normalmente, pessoas detentoras desse tipo de habilidade são escaladas para ficarem perto do rei.

    — É que com exceção do Karlos, do Louro, de eu, da minha mestra e da aventureira Calcária ninguém sabe que ela possui esse tipo de habilidade. Ela atribui isso aos sonhos, ao invés disso. E como sonhos são inconstantes, normalmente ninguém quer saber disso.

    — Entendi. Então basicamente nos tornamos também dignos da sua confiança cega?

    Theresa balançou a cabeça positivamente.

    — Caramba…

    Fiquei boquiaberto. Pensava que era o único que escondia meu verdadeiro segredo debaixo da minha habilidade ver o futuro, mas afinal de contas, também existia alguém que fazia o mesmo.

    Coloquei a mão no peito, sentindo um alívio momentâneo.

    — Sinto que vou me dar bem com essa governadora…

    — Pessoas capazes de se colocar em perigo para ajudar outras pessoas são dignas de uma confiança cega, não é mesmo?

    Rein deu um sorriso nostálgico.

    Theresa retribuiu.

    E enfim, depois de tantas andanças, chegamos a um enorme casarão, que de certa forma, me lembrou a casa branca do Faisal no distrito de Galen. Quando descemos da caravana, quem estava na entrada para nos receber era aquela linda mulher de meia idade em suas vestes negras como os de uma freira em contraste aos seus cabelos e olhos cinzas.

    Estava tudo calmo até eu ver Theresa arregalar os olhos, não diretamente para aquela senhora, mas para aquela mansão, como se ela de alguma forma estivesse assombrada.

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