Capitulo 43: A mágoa de um homem amargurado
Lá no céu, resplandecendo a luz do sol, enquanto descia em câmera lenta, estava quem eu menos desejava ver, o Xavier.
Sinceramente falando, isso me lembrou uma das cenas da série em que depois de derrotarem os subordinados do boss final, ele finalmente apareceu com a pose bem estilosa pronto para enfrentar os heróis.
Covardia, não era?
Agora que a gente estava todo ferrado, ele havia decidido aparecer?
Suspirei, olhando em volta. E cheguei a conclusão de que estávamos ferrados.
Meredith não conseguia andar. Theresa, bem, ela só podia usar magia de cura.
“Ah! É claro! Temos o Golem! Mas eu não acho que ele possa fazer algo contra um soldado rank S.”
“Não! Ele pode fazer sim!”
Lembrei das palavras do senhor Alexodoro. Mesmo que o inimigo fosse forte, eu tinha que ter coragem.
Bem, depois daquele desfile no ar, Xavier finalmente pousou no chão. Seus olhos severos foram direcionados para nós, lançando uma pressão que fez o meu corpo se arrepiar.
— Xavier, o que você quer aqui?
“Mas que pergunta, Meredith! Não tá vendo que ele quer nos matar?”
Enfim.
— Vim aplicar a lei.
— Lei? Com uma espada? Acha mesmo que derramar sangue inocente está dentro da lei?
“Boa, Meredith!”
Cerrei um dos punhos enquanto sorria.
— Você quer me falar de sangue inocente? Quando você mesma tirou a vida de alguém.
— Foi legítima defesa.
“Não foi não!
Mas enfim, continue Meredith.”
Se não podíamos vencer ele na luta, vencer ele no argumento era a nossa carta na manga.
— Legítima defesa? Você praticamente se declarou assassina perante o rei, razão pela qual o rei ordenou sua prisão.
— Você esteve lá por acaso? Ou só ouviu dizer?
— O que?
Meredith colocou o Xavier contra a parede. Seus traços manifestaram descontentamento.
— Está me dizendo que o rei mente?
— Como qualquer ser humano.
“Ohhhhh! Isso tá pegando fogo!”
Por dentro, eu estava pegando fogo.
Eu não deveria estar emocionado, mas caramba, Meredith estava mandando muito bem!
Até Theresa deixou escapar uma leve risada da boca.
— Vejo que realmente herdou a língua do seu pai. Mas deveria saber muito bem que até mesmo as palavras podem gerar condenação.
— Em que parte pequei ao falar?
— Essa conversa é inútil. Está me fazendo perder meu tempo apenas.
— Tem medo de responder minha pergunta? Ou simplesmente, não consegue?
“Eu acho que ele não consegue.”
Xavier manteve os lábios selados e retirou a espada da bainha agarrada à cintura, apontando-a para nós.
— Minha espada responderá.
— Não ouse, Xavier!
“Acho que chegou a hora de eu intervir…”
— Com licença…
“Mas parece que Theresa quer falar, então vou ficar quieto por mais um tempo. Afinal, ela é a melhor nisso.”
— Por que quer nos matar?
“O que? Confesso que achei essa pergunta estranha.”
Contudo, Xavier ignorou a pergunta e começou a caminhar. Seus olhos finos e franzidos estavam concentrados em mim.
— Entendi, então eu sou o alvo.
Ele ergueu a espada, a luz refletindo aquela lâmina bem afiada como um alerta da sua inequívoca justiça, mas para mim, como um alerta de que eu deveria fugir dali.
— Morra.
Foi tão rápido que meus pés não conseguiram virar para correr ou recuar. Sua espada já estava a poucos centímetros de me dividir de cabeça baixo num corte perfeitamente retilíneo e vertical.
— NÃO!!!
Meredith esticou seus braços numa tentativa inútil de me alcançar, no entanto, o grito de Theresa foi o que me salvou.
— Gaia! Rápido!
Muito mais rápido do que os meus olhos puderam ver, Gaia, que havia saído do bolso do jaleco, já estava em minha frente. Seu corpo atingiu a altura da espada, impedindo-a de prosseguir.
Xavier teve que recuar. Enquanto isso, Gaia aumentou de tamanho e volume, lançando uma grande sombra sobre o corpo do Xavier.
Xavier, nada intimidado, apontou a espada contra Gaia.
— Saia da frente!
Quando Gaia tentou reagir, arrastando sua mão gigante contra Xavier. No entanto, um vento impetuoso soprou da espada, tão fino, atravessou o peito do Gaia, criando um buraquinho. O som de um cristal se quebrando ressoou em nossos ouvidos.
Seus olhos verdes perderam o brilho. Ele começou a cair de traseiro enquanto nos perguntávamos o que estava acontecendo. Mas não havia tempo para isso. Gaia estava caindo contra nós.
Procuramos nos distanciar o mais rápido possível. O corpo gigantesco do Gaia tombou sobre o chão, levantando uma grande poeira.
— Gaia… — Theresa murmurou com os olhos arregalados. — Gaia…
— O núcleo dele já era.
Os golems tinham uma esfera colorida dentro deles que funcionava como seu coração. Ela era mais forte que a própria pele do Golem e era circundada por uma camada de mana, então dificilmente poderia ser destruído mesmo que identificado, já que a esfera ficava em diferentes áreas para o corpo de cada Golem.
No caso do Gaia era no peito.
Nenhum de nós naquele momento podia crer que o nosso Golem havia sido derrubado com único golpe.
— Não ofereçam mais resistência, por favor, e aceitem a sentença de bom grado.
Xavier baixou a espada e lançou aqueles olhos frios e sem remorso para nós.
— Não precisava ter matado o Gaia! Ele não tinha nada a ver com isso — Meredith disse enquanto encarava Xavier com desdém.
— Você passou dos limites — falei com as sobrancelhas ligeiramente cerradas.
— Ainda há esperança — emitiu Theresa, mantendo contato visual com o corpo gigantesco do Gaia. — Só preciso de…
A fala de Theresa foi interrompida pela voz imponente do Xavier.
— Não deixarei que isso aconteça. Então não ousem se mover sequer um milímetro.
O que Theresa queria dizer era que era possível trazer o Golem de volta à vida. Desde que o núcleo não fosse completamente destruído, ela poderia restaurá-lo com sua magia de cura.
E, por sorte, haviam pequenos fragmentos do núcleo visíveis no chão.
Theresa mordeu os lábios.
Meredith cerrou os punhos. As duas não poderiam fazer nada e eu também não. Estávamos impotentes.
Minha amada Alexandra não estava aqui para a gente trazer a mulher do Xavier de volta para poder acalmá-lo. Bem que o meu pai dizia: nada que uma mulher para acalmar um homem estressado.
Ele dizia isso quando minha mãe estava nos bons-dias e ele voltava estressado do trabalho, reclamando dos seus colegas que queriam usurpar seu cargo. Bem, minha mãe preparava um banho bem quente, sua refeição favorita e me mandava fazer massagens nos pés dele.
Por que eu?
Era o que eu me perguntava, já que a ideia de agradá-lo era dela.
“Enfim”, suspirei. “Será que se eu pedir para fazer uma massagem no pé do Xavier, ele aceita?”
Pelo menos o meu pai gostava.
E embora eu buscasse na minha memória, não conseguia encontrar nada que pudesse usar contra o Xavier neste momento.
— Antes de executar sua sentença…
Ele estreitou os olhos ao me ver curvar a cabeça.
— Poderia, por favor, me permitir fazer uma massagem nos seus pés?
“Aceita aí, por favor!”
Eu rezava internamente.
— Como ousa?
“Como assim, como ousa?”
Levantei a cabeça.
“Não compreendo.”
Meredith e Theresa me olharam estranhamente.
“Falei algo de errado?”
— Realmente, você tem que morrer.
Sua voz ficou ainda mais agressiva, com um tom agudo. Ele começou a andar enquanto erguia a espada.
— Hein? — Confuso, balancei a cabeça. — Mas o que eu fiz?
— O que você fez? — Seus passos cessaram, sua espada foi apontada para mim enquanto seu cenho estava franzido. — Você tem usado minhas lembranças contra mim, sabendo muito bem do impacto que elas têm em mim.
— O que?
— Com isso, descobri que realmente estava certo. Seu verdadeiro poder não é de visualizar o futuro, mas sim de visualizar as lembranças passadas dos outros e, com isso, tentar manipulá-las.
“De onde esse homem tirou isso?”
Eu não fazia ideia.
— Não é que faz sentido?
— Theresa!
Olhei para ela indignado e ela deu um leve sorriso, emitindo:
— Brincadeira! Brincadeira!
— Mas Theresa pode ter razão. Algo que nunca parei para pensar é que o Jarves sabia de algo do passado quando propôs a minha prima a ideia de trazer a ilusão da mulher do Xavier, sendo que esse caso poucos tiveram acesso. E… — Suas bochechas começaram a ficar rubras enquanto ela batia os dois dedos indicadores. — Aquele segredo de… B e A, sabe?
“Agora ferrou! Mas espera…”
Eu tinha uma solução para isso.
— Alexandra me disse tudo, quando eu perguntei a ela sobre o passado do Xavier.
— Ok, mas e o segredo?
“Eh, tinha isso também…”
— Sabe, é que no futuro você também usa o B e A…
Dei um sorriso travesso, colocando fim em todas as dúvidas e assim, havia matado dois coelhos numa cajadada.
O sorriso leve no rosto da Theresa também deixava claro de que ela havia acreditado.
Mas havia somente uma pessoa que não caia no meu papo furado. Veias espreitavam as extremidades da sua testa e as sobrancelhas pressionavam seus olhos estreitos.
— Então me explica como soube que eu gostava de massagem nos pés? A única que sabia disso era a minha mulher!
— Ehhh…
Meredith e Theresa ficaram espantadas com a declaração do Xavier e fizeram expressões de nuvens.
“Então era isso?”
Confesso que nem eu sabia que ele gostava de massagem nos pés. Nem sabia que a mulher dele fazia isso.
Era algo que não mostraram na série.
— Pode ficar tranquilo, eu não sabia disso não! Hahaha, é que o meu pai gostava de massagens nos pés quando ficava estressado, então pensei que todo homem gostava!
— Pensando bem, o meu pai também gostava que lhe fizessem massagens, só que nos ombros — acrescentou Meredith.
— Nossa, acho que eu sou a única cujo pai não gosta de massagens — Theresa riu.
O ambiente havia ficado leve e calmo, até aquele homem estragar tudo com o seu mal-humor e sua cara azeda.
— E quem disse que estou estressado? Eu apenas vim aplicar a lei.
“Vai se fazer de durão, não é? Tudo bem, ainda tenho minha última carta na manga.”
— Sr. Xavier, eu quero que o senhor saiba que eu também gosto da lei. — Coloquei a mão contra o peito e iniciei uma fala cheia de falsidade e naturalidade. — Na verdade, o meu sonho um dia é ser um juiz renomado! Veja como está esse reino, perdido em sua corrupção e o número dos que amam a justiça como eu e o senhor tendem a desaparecer… Então, se o senhor me matar, estará silenciando mais um justiceiro.
“O que acha desse discurso, hein, Xavier? Muito bom, não é?
A verdade é que eu já havia usado um discurso semelhante antes. Aconteceu naquele dia, quando o meu professor me pegou colando em uma prova e queria me dar zero. Eu disse a ele que pretendia me tornar um professor gentil e misericordioso como ele. E ele simplesmente perguntou:
“O que eu tenho a ver com isso?”
E no fim acabou me dando zero.
“Só espero que isso não se aplique ao Xavier.”
— E o que eu tenho a ver com isso?
“Ele disseeeeee! Ah, droga! Estou ferrado!”
“Por que essa desculpa nunca dá certo para mim?”
— Nada. É só que são meus sonhos, sabia?
Mesmo com a carinha triste que eu fazia enquanto dizia essas palavras, ele continuou severo e azedo.
— Quem sabe numa reencarnação, após pagar pelos seus crimes.
“Mas eu já reencarnei…”
Por outro lado, quando direcionei os olhos para lá, pude ver Meredith sussurrando umas coisas no ouvido da Theresa enquanto eu estava prestes a ser morto por Xavier.
“Estou sendo morto e elas estão fazendo fofoca? Francamente!”
— Morra!
Sorri, arrastando o meu punho contra a espada do Xavier. Uma forte pressão fora direcionada contra a espada, e Xavier recuou.
— Não pense que me deixarei ser morto facilmente. Se quiser me matar, vai ter que malhar!
— Então você ainda pretende resistir?
“Na verdade, não, eu pretendo fugir.”
Estranhamente, eu possuía um pouco de mana. Creio que deve ser graças a Theresa e sua magia de cura.
“Mandou bem, Theresa!”
Levantei o polegar enquanto mantinha os olhos focados naquele homem.
— Eu pretendia te dar um fim lento, mas sem muita dor. Mas você dificulta as coisas, então terei que roubar seus membros se não ficar quieto. Algo que eu não gosto de fazer.
— Você quer tanto assim me ver sofrer?
— Muito.
“Esse cara… De onde vem esse todo ódio por mim?”
— Então é assim que vai ser, é? Certo, já entendi!
Cerrei os punhos. E quando Xavier pretendia atacar com sua espada, Meredith avançou com passos velozes, carregando um simples pedaço azul de roupa no tamanho de uma espada. Sua saia estava rasgada, cobrindo menos os joelhos. Era dali que ela havia tirado aquela espada, firme, e reta, que não balançava no vento, estava na verdade, endurecido como ferro.
— Desculpa a demora, Jarves!
Xavier direcionou os olhos para o lado de onde Meredith vinha.
Ele apenas levantou sua mão. Um vento impetuoso tentou arrastar Meredith, mas não conseguia. Com exceção dos seus cabelos, suas roupas não estavam balançando, mais pareciam uma armadura de ferro.
— A magia que endurece as coisas. Entendi.
— Entendeu nada!!
Quando eu ia contra-atacar, arrastando o punho contra o Xavier, a Theresa me interrompeu.
— Vamos, Jarves! Corre!
Theresa acenou para mim, começando a correr.
— Como assim?
— Para de falar e corre! Faz parte do plano!
“Se vem da Theresa, com certeza deve ser bom.”
Comecei a correr junto dela.
— Não vou permitir.
Enquanto cruzava a espada com o tecido nas mãos da Meredith, Xavier direcionou a palma da mão para mim, lançando um vento sobre os meus pés, este que me levitou ao alto.
Mas em pleno ar, movimentei meu corpo num pequeno giro e arrastei o punho, desferindo uma pressão no vento que foi contra o Xavier.
Mas não houve nenhum efeito, a pressão foi combatida pelo vento e desapareceu.
— Chega de brincadeira.
A voz intimidadora de Xavier ressoou pelos meus ouvidos. De repente, um vento que vinha de cima pesou contra os meus ombros e me fez cair abruptamente. Meu corpo estava sendo enterrado na terra, crateras se abrindo ao meu redor pelo peso do vento em força conjunta com a gravidade.
Quando revirei os olhos, vi que não era só eu, Meredith e Theresa também estavam sendo oprimidas por aquele vento; uma pressão tão forte que balançava os nossos cabelos e sacudia nossas vestes; muitas vezes até rasgando alguns pedaços dela.
Xavier começou a caminhar até mim em específico.
— Vou acabar logo com isso. Esquece a morte lenta, te darei uma bem rápida, agradeça.
Ele levantou a espada enquanto eu era oprimido por aquele vento. Cerrei os dentes, tentando me levantar, mas era inútil perante aquela força tremenda.
Nem os gritos da Theresa e da Meredith podiam ser ouvidos devido ao imenso som que o vento fazia.
“Então esse é o fim?”
— Soco invisível!!!
Do nada, Zernen apareceu por detrás do Xavier, em meio àquele vento impetuoso, e desferiu o seu famoso golpe no vento.

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