Capítulo 41 - Encontro de energias
[ Pátio da ASA – 18h30 da noite. ]
O céu noturno estava limpo demais, sem uma única nuvem, e a brisa, morna e arrastando poeira, completava o famoso clima estranho antecessor do inesperado…
Seguindo o caminho de brita, Akemi passava pelas pedrinhas que sempre entregavam qualquer intenção de andar despercebido, o que por sorte, não era o caso. “Campo de Treinamento 3”, pensava ele, olhando a placa pendurada em uma estaca de madeira envelhecida. À frente, protegendo o interior de um grande muro de tijolos claros, os duplos portões de ferro do Campo 3 se destacavam como a entrada de uma imensa estrutura amaldiçoada.
Grandes barras arqueadas e meio abertas traziam um tipo muito específico de desconforto: não era medo, era a falta dele, o que seria algo pior.
Para uma inútil tentativa de parecer apresentável, o garoto ajeitou a gola do gakuran. “Ok, além desse maldito frio, não tem ninguém por perto? Que vazio estranho…”
As portas foram empurradas pela força mínima de dedos finos: o portão cedeu de forma anormalmente fácil e rangeu até um breve estalo final.
Cuidando-se para que não esbarrasse na pouca abertura que tinha entre o vão da passagem, Akemi avançou, adentrando um vasto terreno irregular, arenoso em certos pontos, seco e duro em outros. O vazio continuava tomando conta: nenhum som além do próprio caminhar. A iluminação vinha do céu estrelado, e nos arredores, haviam formas silenciosas de ruínas: casas quebradas, torres carcomidas, campos abertos com elevações artificiais de terra.
Em um cenário que parecia usado pela última vez há anos, não se podia baixar a guarda.
“Este lugar é feito para simulações de guerra? Macaaabro…”
Mais à frente, entre as construções retorcidas por antigas batalhas, viu-se uma construção arrojada, com contornos elegantes elevados sobre uma alta base de mármore esbranquiçada, e escadaria de mesmo material até a entrada desprovida de portas.
“Um dojô?”
O diferencial estava no que escapava do interior após a entrada: uma luz clara, pulsante, e quente.
“Essa luz vindo lá de dentro quase arde meus olhos”, mesmo desconhecendo o porquê, Akemi seguiu adiante com certa reverência. Quanto mais se aproximava, mais o calor se intensificava, envolvendo-o como um abraço morno, trazendo a sensação de feitiço. O calor devia queimar, mas somente acariciava e infiltrava a pele, a mente… e algo mais profundo.
A luz do interior continuava sumindo e aparecendo, mas de maneira forte, como se convidasse e soubesse exatamente que o alguém viria.
Ultrapassado o último degrau da subida, o curioso cautelosamente esgueirou-se na lateral da entrada, e quando espiou, indagou-se. — Quem é… aquilo?
No centro do dojo e de costas para a entrada, estava sentada a própria encarnação do fogo: uma figura humanoide de curvas definidas e inteiramente moldada por chamas vivas que tornavam seu corpo um manto inquieto. Os cabelos eram labaredas intensas que ondulavam no ar, vibrando o vermelho que poderia ser extraído do coração de uma fênix.
Do âmbar dourado nas extremidades até o laranja incandescente que ampliava sua silhueta, a chama ardia com uma presença hipnótica, bela e perigosa. Como o próprio fogo em forma humana, ela cagava tudo que ousava olhá-la, mas para a sorte de um jovem que poucas coisas viu na vida, Akemi foi agraciado pela capacidade de observá-la.
Quando a luz baixou, revelaram-se os contornos solenes do dojo sem janelas. Paredes de madeira escura, com detalhes dourados que reluziam sob tochas, mantinham o tradicional. O chão, claro e polido com esmero1 sagrado, refletia colunas esverdeadas entalhadas com dragões dourados. Não havia móveis, só um vazio cerimonial onde o fogo iluminava em silêncio.
Contudo, tamanha beleza e fascínio não viriam sem instinto. Uma figura de teor tão poderoso, mesmo meditando com serenidade, certamente perceberia qualquer intruso antes mesmo que o ar mudasse, e independente do destino reservado àqueles que perturbassem sua paz, uma coisa era certa: ela notou que não estava sozinha.
As chamas avermelhadas tremeluziram, então, lentamente, um olhar acima do ombro revelou o brilho carmesim de pupilas atentas cravadas no rosto isento de boca e nariz.
No instante seguinte, entre a entrada do dojo, onde atrás só a escuridão da noite sobre muros e construções era visível, alterações foram percebidas em Akemi:
Em todo o seu corpo, a eletricidade o usava de referência. Correntes elétricas amareladas e velozes como relâmpagos evadiam-se e infiltravam-se por diversos pontos diferentes do corpo, brilhando nos olhos a energia de mil relâmpagos.
Energizado entre a entrada, o rapaz estava altamente hipnotizado nas chamas que trocava olhares; aparentemente, seu corpo já estava tomado pelo calor, e aquilo o alimentava fisicamente, mentalmente, e talvez, espiritualmente.
Surgia-se algo nas duas presenças: uma admiração mutuamente conectada, como se tivessem se perdido para sempre dentro um do outro…
A quebra do transe veio da chama.
— A-AKEMI???!!! — Levantando-se rapidamente e desafogando-se do fogo que a envolvia, Hiromi Miyazaki retornou ao seu estado normal. Seu rosto arregalado de surpresa e ligeiramente envergonhado contrastava o impacto visual de suas roupas destinadas a treinamentos: um kimono alaranjado vibrante de padrões flamejantes nos punhos, barra e gola alta, acompanhado por calças bordô justas que destacavam a musculatura das pernas. No dedo médio esquerdo: o reluzente anel alaranjado de sempre. Nos pés: nada.
Parado no limiar entre o interior do dojô e o mundo lá fora, Akemi parecia mais fenômeno elétrico que humano, pois estava estatelado, consumido pelo que viu, e talvez alimentado por aquilo.
— Akemi? Ooi? — chamava Miya, aproximando-se do garoto energizado e hipnotizado entre a entrada do dojo mal iluminado por tochas. “Ele tá… diferente. Será que tá me ouvindo!?”, pensou. — Ei, me responde! O que deu em você? — Palavras forçadas não alteraram aquele curioso estado alheio.
Akemi continuava imóvel, como se visse algo além da garota à sua frente, além das paredes, além do próprio mundo. A eletricidade que o cobria alimentava-se de algo invisível e ao mesmo tempo presente.
“Isso não é normal. Essa energia… está dominando ele”, determinada, Miya aproximou a mão delicadamente. Se palavras não funcionavam, talvez um toque o trouxesse de volta. Seus dedos se aproximaram do rosto do jovem, lentamente… até que-
Tzzt!
Um arco de energia saltou da pele de Akemi e atingiu a ponta dos dedos de Miya como um aviso. Ela recuou com um susto entrecortado quando sentiu um formigamento desagradável subir pelo braço.
“Isso foi… uma absorção?!”
Não havia espaço para teorias, se Akemi estava perdido em si mesmo, só restava uma opção.
Determinada, Miya enfrentou as faíscas que drenavam sua força e preparou um generoso peteleco.
Tuc.
Akemi cambaleou, piscando algumas vezes. As faíscas dissiparam-se como fumaça, e o jovem levou a mão à cabeça, bem onde a pequena marca do leve golpe se formava. — A-ah… Eu… O que aconteceu? — Seu rosto voltou ao normal, levemente atordoado, mas consciente.
Miya aliviou-se, porém, apertou os punhos sob uma breve irritação. — Eu que te pergunto! Anda, não pode ficar parado aí, entre logo! — Ela agarrou o pulso do garoto e o levou para o centro do dojo, onde apenas as tochas nas paredes mantinham a ilusão de calor. Lá, a garota soltou-se do rapaz, cruzou os braços e estreitou os olhos. — O que deu em você ali?
Akemi observava as próprias mãos na espera de que encontrasse a resposta nelas. — Eu… não sei. Só lembro de ver uma luz. E depois… foi como se eu estivesse sonhando acordado — ele não tirava da mente a figura flamejante que contemplou. — Você pergunta de mim, mas aquela luz… Era você.
— Luz? — indagou Miya, receosa.
— Você estava toda em fogo. Seu corpo era luz.
Miya cruzou os braços e ponderou consigo mesma. “Normalmente eu consigo perceber a presença dos outros. Por que não consegui pressenti-lo? Enfim, agora não dá pra voltar atrás”, seu rosto mantinha a expressão habitual de quem estava lidando com um cachorrinho teimoso, mas algo trazia a suspeita de um possível segredo sendo escondido. — Quero saber o que faz aqui.
Akemi abriu a boca, mas as palavras morreram na língua. A pergunta que recebeu o confundiu. Por que Miya perguntaria algo que a mesma com certeza saberia a resposta? — Eu… não sei. Mas seu pai me informou que você queria me ver.
Miya paralisou. — M-m-meu pai!?
O jovem coçou a nuca por constrangimento. — Fui atrás dele como você me indicou. Até que a gente conversou bastante, aprendi coisas que nem imaginava. A médica da academia também apareceu pra ajudar, ela era… bizarra… mas foi eficaz. No fim das contas, descobri que minha aura reage bem com energias, principalmente o calor. O fogo meio que… alimenta ela, saca?
“Calor o alimenta assim como outras energias? Isso é curioso, mas compreensível para uma aura retratora derivada do fogo. Talvez isso possa nos ajudar”, concluiu Miya, questionando em seguida. — O que aconteceu depois?
— Após uns exames, seu pai comentou que você estaria me esperando neste campo de treinamento — uma olhada ao redor flagrou desconfiança. — Só não achei que estaria tão vazio e… escuro.
— Haaah, claro que ele faria isso.
— Miya… o que tá-
— Quer mesmo melhorar seus dons com aura?
Akemi concordou prontamente.
— Então me espere amanhã, aqui, às oito da noite — ordenou Miya, direcionando-se para a saída do dojo.
— E-ei! Por que quer de novo que nos encontremos aqui?
Miya não diminuía o passo, frustrada. — Você não deveria ter vindo aqui hoje. Você e nem ninguém. Mas agora já era. A partir de amanhã, este horário será destinado a treinos extras sobre sua aura.
— Espera! Por que tá dizendo isso? Não vai nem me dizer o que era aquela sua forma de fogo? — Akemi foi ignorado, mas optou por mais explicações. — Pelo menos me diga pra onde está indo!
Entre a entrada, Miya virou-se, e de pernas cruzadas, escorou-se no batente. — Vou para outros aposentos. Recomendo que não me siga… por enquanto — ressaltou. — Se continuarmos próximos agora, só aumentamos o risco de sermos interrompidos.
— Eu não entendo. Sei que está falando do Jin, mas quer mesmo que a gente continue se encontrando aqui, todos os dias? E se ele aparecer alguma hora?
— Não se preocupe com isso. No mais, tome cuidado ao se aproximar de mim sozinha até a segunda ordem.
— Dormimos no mesmo quarto e só agora você age com cautela?
— Só estou dando meu máximo pra manter a única pessoa no qual plenamente confio por perto — desabafou Miya, ainda séria.
— …
— Qual é a dessa cara? Nunca se sentiu considerado?
— …
— Ok, ok. Não tá tão tarde, mas te recomendo dormir logo, precisaremos de muita energia amanhã. Se Nikko perguntar sobre mim, diga que passarei a noite sob alguns afazeres. Então, até mais — Miya desceu os degraus apressadamente e sumiu da visão de Akemi.
— Até… mais?
Final Extra
[ Quarto 1 da Turma 1F – 20h08 da noite. ]
Após o giro da maçaneta, a porta rangeu para dentro e revelou o quarto vazio iluminado pela luz da lua.
Akemi entrou e fechou a porta atrás de si. Não havia ninguém, nenhum som ou vestígio de vida. Todavia, o real problema estava na conversa com Miya que morava em sua mente: palavras confusas, sinais pela metade. O calor do dojo não havia ido embora por completo. “Não entendi nada do que aconteceu lá. Aquela forma de fogo…”
Tentando achar algum indício de presença, o jovem observou os arredores, mas só encontrou as cobertas mal ajeitadas de Nikko, e um dos armários entreaberto. Nada demais.
Foi então que toques contra o vidro atraíram a atenção: Tec tec.
Akemi parou, e vagarosamente voltou-se à janela que tomava quase toda a parede do quarto.
E lá estava, imóvel, quase como uma escultura trazida de um sonho noturno bonito demais para que fosse esquecido.
Uma falcoruja.
Com uma carta no bico, a ave pousada no rodapé do lado exterior da janela banhava-se da luz opaca da lua crescente cujos contornos prateados destacavam as penas largas e garras curtas. O porte alto e orgulho, digno de uma postura nobre, realçavam as asas dobradas como mantos escuros de realeza. Plumas do topo da cabeça até o rabo grosso, exibiam um degradê entre tons escuros e brancos, com um brilhante violeta rodeando o pescoço.
Grandes pupilas âmbar encaravam com uma intensidade tão calma quanto ameaçadora.
Do lado interior da janela, Akemi estava tão encantado que a visão o mantinha estático diante do emissário alado.
Sem ruído, a ave curvou-se devagar, enfiou a ponta da carta pela fina fresta inferior da janela e empurrou-a para sobre a escrivaninha.
Logo após, ergueu-se novamente, encarando o jovem por mais dois longos segundos.
Então, abriu suas enormes asas reluzentes, e voou.
Conclusão: uma mensageria foi entregue, e pela primeira vez em vários segundos, Akemi respirou.
A carta meio amarronzada era pequena, selada com cera vermelha.
Quando o rapaz pegou a encomenda, sentou-se na beirada do seu beliche inferior, e após um profundo suspiro, abriu o envelope…
“Querido neto,
Receber suas palavras em carta é como enfrentar um vendaval de emoções. Por um lado, há uma surpresa, algo que, mesmo relutante, reconheço como um feito. Por outro, a preocupação persiste em meu coração.
Ao longo dos anos, tenho expressado minha apreensão quanto à sua decisão de seguir esse caminho. Talvez, minhas palavras tenham soado como uma resistência despropositada. Ainda assim, a vida tem seu próprio curso, e as escolhas que fazemos moldam nosso destino.
É difícil aceitar que você agora caminha por uma estrada que eu tanto desejei que evitasse. A academia é um lugar de desafios intensos e adversidades que testarão mais do que habilidades. A resistência emocional é o dom mais importante agora.
Oro para que encontre força e sabedoria para enfrentar o que irá surgir em seu caminho.
Entretanto, sobre o apoio de sua colega Miyazaki, reconheço a representação que a família dela possui, mas não a conheço pessoalmente, então, tome cuidado com quem você se relaciona.
Sobre os poderes áuricos no qual despertou, torço para que possa lidar tal condição. Neste mundo, sabemos que possuir habilidades que nos diferem dos triviais requer tremenda maturidade, mas imagino que você adquiriu uma certa responsabilidade — virtude que sempre procurei em ti, mas não esperava que sua coragem inusitada e força de vontade pudesse ultrapassar limites e o levar até onde desejava.
De qualquer forma, mantenha os bons valores como seus guias, pois são eles que verdadeiramente moldarão o homem que você se tornará.
Por aqui, nossa casa parece maior quando não há passos além dos meus ecoando pelos cômodos. Tenho me virado como posso: cozinho o que dá, cuido do jardim, varro quando lembro, e às vezes deixo a janela aberta só para ver se escuto algo distinto do silêncio.
Seu quarto permanece intocado, e nas manhãs, ainda levo uma xícara a mais à mesa sem perceber.
Na usina, os ventos estão calmos. Após o incidente envolvendo o protótipo da turbina a gás, os conselheiros chegaram à conclusão inevitável: o dispositivo que se encontrava irrecuperável, inviável, e potencialmente catastrófico, foi oficialmente descartado. A falha estrutural era mais profunda do que havíamos previsto, e qualquer tentativa de reparo aumentaria os riscos de uma nova pane no sistema central.
Quanto ao responsável por ter solicitado sua presença naquele fatídico fim de tarde, o demos sanções no salário deste mês. Não houve demissão, a comissão entendeu que sua ação foi imprudente, mas não mal-intencionada, afinal, sabemos das dificuldades no qual o mesmo passa. Ele está bem de saúde, ao menos. Parece abatido, mas segue comparecendo ao trabalho com mais pontualidade que nunca, e inclusive, está bastante surpreendido por saber do paradeiro daquele garoto franzino que admirava seus músculos.
Termino dizendo que, embora a distância entre nós agora seja alta, quero que saiba que minha preocupação é uma expressão de amor. Esta carta é escrita com um coração pesaroso, mas também com certa aceitação perante as mudanças que a vida nos impõe até mesmo nos estágios finais da nossa jornada.
Como eu já havia dito uma vez, meu neto: o tempo é um mestre implacável que nos ensina lições que só compreendemos com a idade.
Mantenha-se forte, e acima de tudo, seja fiel a si mesmo.
Estarei aqui, aguardando um dia em que nossos caminhos se cruzarão novamente.
Com amor e uma saudade antecipada,
Isao Aburaya.”
— … Eu irei orgulhá-lo…
- perfeição e cuidado com que se faz alguma coisa; apuro.[↩]

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