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    Alguns minutos depois, Sarah se encontra encurralada no canto do pátio.

    Às suas costas uma parede alta, impede qualquer recuo. Pela direita, um muro de concreto. E pela esquerda, outra parede delimita o espaço. À sua frente, mesas e bancos de cimento, abrigam inimigos à espreita.

    Os inimigos se aproximam.

    Ela os observa em silêncio, procurando uma rota de fuga.

    Todas levam à derrota quase certa. Apenas uma aparenta ser viável.

    Suas mãos se apoiam na parede a suas costas quando um dos meninos se aproxima a passos leves, pronto para dar o bote. Sarah o observa com um olhar fixo. Em uma ação repentina, ela ameaça disparar pela esquerda. O menino reage no reflexo e se joga sobre ela, enquanto os outros se movem para o mesmo lado.

    Mas ela recua.

    Por uma fração de segundo, seus dois pés se apoiam na parede. O garoto se choca com o chão cinza e quente. Sarah se impulsiona para frente, saltando por cima dele e rolando até perto de uma das mesas.

    Sombras a cercam.

    Ao erguer o olhar. Mais inimigos.

     Na visão periférica, uma mesa vazia à direita se revela. Ali está.

    Sarah dispara.

    — Não a deixem escapar! Hoje é o dia da queda do Rei! — grita um menino do alto de uma mesa.

    A horda avança, como se fossem monstros saídos de uma masmorra.

    O pé direito de Sarah pisa na mesa. O esquerdo busca apoio. O corpo se projeta. Ela salta com força suficiente para alcançar o topo do muro, agarra a borda e, com esforço, se puxa para cima.

    Silêncio.

    De pé sobre o muro, ela olha para seus inimigos desolados por mais um fracasso.

    Uma brisa suave a atinge pelas costas. lançando seus cabelos para frente. Sarah abre seus braços e fecha os olhos.

    Puxa o ar.

    E se deixa cair.

    — Corre! Corre! Vaaaamooosss! — Grita um deles.

    Os meninos disparam pelas escadas que levam ao outro lado do muro. Quando chegam, encontram Sarah caída na caixa de areia, braços abertos e olhos fechados, como se estivesse dormindo.

    — Lá está ela! Avancem até Atlás!

    A arena é tomada, os embates começam, o caos reina. O maior dos meninos pega um dos menores no colo e o carrega para fora. O pequeno até tenta se espernear, porém, sem resultados.

    — Isso é injusto! — O pequeno resmunga, derrotado e cabisbaixo.

    Se afastando, ele vê Bernardo e Marcela sentados nos balanços, eles riem enquanto observam a batalha.

    — Ela é louca! — Bernardo comenta.

    — Ei Carlinhos! Desanima não! Você tentou. Senta aí vai. — Marcela o convida.

    — Como ela consegue? Parece uma guerreira que já batalhou na própria Atlás. — Carlinhos se senta em um dos balanços. — Será que ela não está usando nenhum daqueles novos artefatos mágicos que chamam de N2?

    — Você sabe que é proibido o uso deles por alunos na escola né. Só maiores de idade podem usá-los — Bernardo o relembra de algumas regras.

    — Fiquei sabendo que pessoas ricas conseguem comprar ilegalmente. — Carlinhos continua a duvidar da índole dela.

    — Nããão. A Sarah não é disso. É como se ela fosse um daqueles androides que governam Ayda. — Bernardo complementa e Carlinhos concorda em silêncio.

    No centro da caixa de areia, Sarah permanece cercada.

    Para escapar, ela corre em direção aos dois mais altos e magros. Eles sorriem confiantes.

    Até que ela salta entre eles e termina com um rolamento. Ao tentar agarrá-la, os dois se chocam de cabeça e começam a chorar. Os demais começam a rir. Envergonhados, correm para longe.

    — Ei! Cadê ela? — Um dos garotos indaga ao vento em voz alta.

    No instante seguinte, ele sente mãos se apoiando em seus ombros e pés o empurrando pelas costas. Desequilibrado, começa a cambalear até esbarrar em algo. Ao se recompor e levantar a cabeça, percebe que acabou de jogar outro menino para fora da caixa.

    — Aaaai! — O menino reclama de dor enquanto está caído. — Poxa Cleber! Você precisa malhar em. Assim não dá! — Ele esbraveja enquanto começa a se levantar.

    Então Cleber se vira com a face furiosa procurando por Sarah. Mas para sua surpresa, outro garoto se aproxima a toda velocidade.

    — Merda!

    Os dois despencam para fora da arena. Caindo em cima do menino que está terminando de se levantar.

    — Você também Cleiton! Hoje mesmo, vou conversar sério com a dona Claudia. Vocês precisam de uma academia. Dá não! Vão acabar me matando ainda! — Ele volta a reclamar enquanto novamente se levanta do chão.

    — Ah não Maike, essa história de novo? — Cleiton resmunga enquanto seu irmão Cleber o ajuda a levantar.

    — Esquece! De hoje não passa! Se queremos nos tornar mestres rastreadores, temos que focar mais. — Ele exclama com convicção já distante do local.

    Sobram somente Sarah e um menino de sua altura. Um encara o outro com os corpos rígidos e preparados para o embate.

    — Ei Sarah. Você vai jogar bola no campinho de terra hoje? Depois da aula. — O menino há indaga.

    — O quê? Vai ter jogo hoje? Ninguém me falou nada!

    — Acho que eles não querem te chamar mais. Foi o que ouvi. — Ele a responde. — Mas se quiser chegar comigo lá. Eu te dou moral.

    — Você me dar moral? — Sarah começa a tirar sarro dele enquanto se aproxima.

    — Não sou apelidado de Romário à toa sabia.

    — Eu sei, obrigada! Mas se eles não me querem lá… não vou incomodar. Deixa que eles sintam falta das minhas canetinhas! — Ela olha para ele com um leve sorriso enquanto passa a mão na nuca por baixo do cabelo.

    Por um instante ele fica envergonhado e sem reação.

    O sinal toca.

    Bernardo e Marcela chegam perto da caixa de areia.

    — Ei Sarah, vamos! É educação física! — Marcela a instiga.

    Os olhos de Sarah brilham.

    — Desculpa Rômulo. — Ela sai correndo em direção a torneira. Para lavar as pernas.

    “Romário” abaixa a cabeça, conformado, e segue para o banheiro.

    Bernardo e Marcela se aproximam de Sarah, que está sentada ao lado de seus tênis enquanto deixa a água escorrer pela areia grudada na pele.

    Uma silhueta que observou Sarah por todo recreio. Agora se direciona para a o ginásio.

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