Capítulo 15: Entre lâminas e presas
E com um olhar de canto, o mercenário agora observa a situação de seu companheiro enquanto pega o escudo e a espada de Lozar.
— Se apressa aí! Já conseguimos o que queríamos. — As palavras saem junto de um sorriso contido de canto de boca.
O outro mercenário suspira de forma bem rápida e também retira um pequeno cristal do bolso, esse tem um tom de vermelho sangue e é mais arredondado, quase igual um núcleo de N2.
— Pelo sangue a vida se…
Ele até tenta recitar, mas logo se vê forçado a pausar enquanto se joga para o lado direito e faz um rolamento lateral para desviar de uma curta rajada de tiros de Draus que ansiava por tal momento. Mesmo antes que o mercenário possa se dar ao luxo de se levantar, precisa forçar mais um rolamento para desviar de outra rajada de tiros, mas dessa vez, o executa de forma mais limpa, o suficiente para terminar em uma posição mais confortável e assim poder arremessar o punhal na direção de Draus.
Quando a lâmina acerta a coxa dele, um grunhido sai de forma curta e rebelde por entre seus lábios. Mesmo com a dor, ele não se deixa abalar e prepara para disparar outra rajada, mas é interrompido quando uma flecha afunda em suas costas e desponta timidamente pelo peito. Não é o lado do coração, mas pouco importa quando ele começa a sentir o ar parar de fluir para dentro, e o lugar ser tomado por sangue.
O arqueiro empoleirado no galho, suspira aliviado enquanto fecha os olhos por um momento. Seu olhar acinzentado junto de seus trajes feitos de tecido fino de mesmo tom, quase o oculta por completo em meio a copa da árvore, se não fosse pelos fios ruivos que balançam para fora do capuz e em alguns momentos resplandecem com alguns feixes de luz que atravessam por entre as folhas.
Então se lembra de algo importante, quando se vira para a colina a esquerda novamente, lá está ela, deitada e mirando. Ele já começa a preparar uma nova flecha, um pouco mais longa que a anterior.
Primeiro a lâmina perfura o tórax pela lateral, e depois se enterra no coração, e por último, o barulho de outro tiro ecoa pela planície.
Já sem forças e sentindo o toque gelado daquela que o aguarda no fim de tudo, ele ainda força um disparo para baixo na direção de Miriane que o observa do solo com olhar focado e respiração ofegando. A flecha finca no chão a alguns metros de distância dela, e o corpo cai já despido do véu que cobre a todos.
Enquanto caminha a passos lentos e respirando de forma mais prolongada, Miriane olha para o lado para ver a situação em meio ao milharal. O homem de cabelos loiros, segura o escudo e a espada de Lozar enquanto lança um olhar longínquo em direção a colina, ao lado dele um cadáver, e ao fundo, mais três.
Após pegar a espada e limpá-la nas roupas do arqueiro, ela já vai se virando para ele com olhar sério e focado. A espada em suas mãos assume a mesma posição de quando ainda estava no alto da colina.
O mercenário então a vê sob a árvore em tal pose ao lado do corpo de seu companheiro. Imediatamente ele larga a espada e o escudo, e retira outro cristal azulado de outro bolso enquanto saca a sua espada da bainha.
— Mil noites e Mil dias.
Infinitas mortes e uma só vida.
Diante daqueles que atentam contra mim.
Eu lhe usarei para um único fim.
E quando o sangue for derramado.
Que esse ato, possa ser perdoado.
— Mesmo sob o sol eterno.
Ou diante do próprio fogo.
Minha vastidão há de perdurar.
Pois, nesse jogo.
Sou aquele que carrega o próprio fim.
Quando ele termina, com a espada em uma mão e cristal na outra, observar que ela já está se aproximando em uma velocidade que faria até o mais rápido dos javalis sentir inveja.
No fim da corrida, apoiando o pé esquerdo a frente, Miriane executa um corte na horizontal enquanto segura a espada com às duas mãos e gira o tronco com toda força. A espada dela é mais longa que a dele, a amplitude do movimento também é maior do que ele esperava, assim, Miriane acabou ficando no limiar da zona de resfriamento.
O mercenário até consegue posicionar a espada para bloquear. Mas assim como a lâmina azul se estilhaça diante de seus olhos, a sua cabeça se separa do corpo diante dos olhos dela.
Do alto da colina, através da mira da arma, Sarah começa a relaxar o corpo por um momento, mas logo em sua visão periférica, um par de pernas e botas se posicionam ao seu lado, fazendo seu coração perder o compasso.
— Pode relaxar. — A voz de Miguel se mistura ao vento e desliza pelo local sumindo para trás de Sebastian que mesmo com as mãos enfaixadas, carrega Lafral nas costas.
Sarah nada responde, e nem se quer olha para ele ou para trás, só volta a observar através da mira com o olhar neutro.
— Mesmo se tentasse, dificilmente me ouviria chegar. — Miguel fala já com os binóculos em mãos e analisando a situação. — Só tome cuidado, pois focar de mais em algo, pode te deixar vulnerável. O resto, você já sabe.
O olhar que atravessa a mira, cai por um momento em direção ao chão, mas logo volta ao que é importante.
— Belo dia para uma prova. — Ele solta as palavras já olhando para baixo em busca de Iris e Bernardo.
Seu olhar até fica mais sério e focado quando vê a cena.
Iris vem saindo da mata com Bernardo em suas costas, ele está sem o elmo e desacordado. Ela também arrasta o corpo sem reação de um dos mercenários pelo capuz.
Miguel então deixa a posição e começa a descer ao encontra dela, Sarah até observa por um momento a cena dele transferindo Bernardo para suas costas, mas logo retoma o foco em Miriane.
— Aquela flecha passou raspando pela minha cabeça.
— Ainda bem que você não decidiu pular naquela hora. — Lafral ri ainda fazendo uma careta de dor.
— Se eu pulasse ali, perderia todo apoio que me permitiu defender aquele golpe.
— Se não fosse ela, a gente estaria ferrado. — Lafral olha para frente e para baixo, mas quando seus olhos encontram primeiro a bunda de Sarah, ele se força a desviar o olhar até que Sebastian o solta ao pé da árvore ao lado dela.
— Caramba! Não sobrou ninguém! — Sebastian até deixa o tom de voz se elevar sem querer por um momento.
— Oque? Como assim? — Lafral o indaga enquanto até ousa se virar um pouco, mas logo desiste ao perceber que não conseguira ver nada. A única coisa que consegue observar é Miguel chegando ali enquanto carrega Bernardo e é seguido por Iris junto do mercenário ainda sendo arrastado.
Em silêncio, ele e Sebastian observam os fios brancos com mechas rochas que esvoaçam com a brisa mais intensa do local.
— Rasga o capuz dele com essa espada e amarra as pernas e braços. — Miguel puxa a espada da cintura de Bernardo e entrega para Iris que consente com a cabeça.
— O que aconteceu com ele? — Miguel a indaga sem olhar enquanto coloca Bernardo deitado no chão e começa a examiná-lo.
— Enquanto enfrentávamos o merce…
Cortando a explicação, o barulho ensurdecedor de mais um tiro, faz todos ali colocarem as mãos nos ouvidos. Até Bernardo e o mercenário acordam no susto. A primeira coisa que Bernardo vê, é Miguel em pé enquanto leva os binóculos aos olhos. O mercenário, entretanto, vislumbra primeiro o olhar azul focado em si, e depois sente a lâmina gelada e pontuda ameaçando perfurar sua garganta.
Ele mal consegue respirar.
— Professor, arrasta ele até aquela arvore por favor. — Iris fala sem perder a compostura e o foco.
— Sarah, poupe munição, ela dá conta deles. — Miguel mais relaxado, caminha até o mercenário e faz o que ela pediu. Iris por sua vez, não tira a lâmina da garganta dele nem por um segundo. No momento após ser colocado ao pé da árvore, ele até ousa mover os lábios e puxar um pouco de ar, mas rapidamente sente a lâmina forçar um pouco mais enquanto Iris coloca o dedo sobre os próprios lábios em um claro sinal para ele fazer silêncio.
O ínfimo momento de rebeldia dele, se desfez tão rápido quanto um monte fino de areia em meio a um furacão.
E assim, eles ficam sentados um de frente para o outro.
— Foram quantos? — Miguel indaga para Iris enquanto volta até Bernardo que permanece em silêncio e com a mão na cabeça.
— Três, apareceram bem na hora que íamos derrubar esse aqui. Bernardo não conseguiu desviar, ele até tentou pular, mas levou um choque com tudo nas pernas, e ainda no chão, veio outro e arrancou seu elmo com as presas.
— Não faz sentido, era para ser só um. — Miguel passa a mão na cabeça de Bernardo e encontra um leve calombo na nuca, arrancando um grunhido de dor dele.
— Pelo menos esse aqui serviu para matar um deles que o derrubou e já estava começando a morder sua roupa. — Iris solta as palavras ao ar enquanto encara o mercenário e os fios negros e médios do cabelo dele.
— Foi nesse momento que a gente se separou, por que ele começou a correr e fugir, e ela foi atrás dele após lançar sua espada em um dos javalis que estava vindo me golpear enquanto ainda estava no chão.
Bernardo aproveita o momento de folga para explanar com o olhar cabisbaixo e distante.
— Só que o outro veio com tudo, e eu estava sem a espada, ele me acertou em cheio no meio da armadura, então acabei batendo a nuca em uma árvore e ficando zonzo. Mas como consegui pegar a espada que estava perto da árvore, pelo menos deu para estocar no olho e mata-lo. Depois tudo ficou escuro e aqui estou.
Miguel desvia o olhar para Iris por um momento, depois retorna para Bernardo.
— Bom trabalho! — Ele acaricia com delicadeza a cabeça de Bernardo enquanto se levanta. — Vou buscar o outro, não percam o foco.
Ele fala enquanto se vira e vai sumindo para trás da colina.
Pela mira da arma, e pelos binóculos, Sarah e Sebastian se recusam a perder cada segundo daquele embate. Com arrancadas explosivas e cortes rasteiros e precisos, Miriane corta as patas frontais de uns e as traseiras de outros. Sete javalis ao todo estão no chão se contorcendo e rosnando de dor. Um por um, são finalizados com golpes precisos no pescoço, que os fazem perder as cabeças.
Depois de um tempo, Miriane que já retornou para a colina, está parada em pé e de frente para o Mercenário que ainda tem um pedaço da flecha enfiado em sua perna.
— Acho que devemos matar um deles. Dois vai dar muito trabalho para cuidar. — As palavras que saem da boca dela, fazem o coração sujo deles, perder todo o calor que tinham até então.

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