Capítulo 24: O futuro que eu quero
01 de janeiro de 2009 – Reino de Eva – Praia do Paraíso.
Fogos de artifício explodem por todo o céu noturno espalhando desenhos que parecem ganhar vida.
A tela que antes era reservada para as estrelas, agora ganha novas tonalidades. As pessoas reunidas, estouram seus champanhes, se abraçam, se beijam, sorriem na esperança de um novo começo, de uma nova etapa em suas vidas, por que não uma nova vida?
Um bando de pequenas aves chamadas Alígeiros, já acostumadas com esse dia, estão voando pelo céu noturno sobre a muralha dos escolhidos. Se afastando do barulho mais intenso, chegam a um pequeno distrito.
Periferia de Eva – Zona 47.
Quase toda a população da região se concentra em um pequeno lago para vislumbrar o espetáculo que brilha no céu. Exceto os ricos que se acham bons demais para se misturar, mesmo sendo da periferia. Também não estão ali os doentes e idosos esquecidos em hospitais, casas e asilos. Já os antissociais preferem ficar em casa.
E tem os que simplesmente têm preguiça de mais e preferem dormir, se é que dá para dormir com tanto barulho. Não se vê cachorros por perto, pobres criaturas espantadas com a barulheira, na verdade, não se vê nenhum animal por perto a não ser o humano.
Na frente de uma academia de lutas que fica um pouco afastado do lago, se encontra uma bicicleta presa em um poste. Há essas horas, ela já deveria estar fechada, mas se percebe luzes em seu interior, e alguns barulhos.
Um saco de pancadas balança. Junto dele Sarah toda suada, desfere um chute lateral à meia altura, em seguida um direto de direita.
Suas mãos seguram o saco como se estivessem agarrando um oponente. Aproveitando a proximidade, uma joelhada seguida de outra e outra são desferidas. Após uma rápida e curta afastada, ela junta toda sua força no punho direito e desfere um golpe rápido que perfura o alvo. Ao tirar a mão e relaxar seu corpo, a areia começa a despencar sobre o tatame.
“Estou ferrada” A memória do aviso do dono da academia ressurge em sua mente:
— Se você estourar mais um dos meus equipamentos, eu vou te banir daqui! Não importa seu dinheiro. Você nem se quer luta em competições. — Júlio segura uma luva rasgada enquanto fala. — Vem de noite quando quer, e quando chego de manhã, dou de cara com isso. — Até levanta a luva mais alto para ela ver. — Não vou mais tolerar!
Com um balançar de cabeça ela responde consentindo.
Agora, olhando a areia no chão, suspira fundo, vai até o quarto de material de limpeza e pega uma pá, uma vassoura e um saco de lixo. Após limpar toda areia do tatame, coloca o saco de pancadas no canto, deitado com buraco para cima. Ao lado, uma folha de papel dobrada com dinheiro dentro e um recado.
Após tomar uma ducha, coloca uma blusa cinza com toca, um short esportivo largo que vai até o joelho e um tênis de corrida. Apaga as luzes e tranca a academia com cadeado. Pega o celular da mochila para verificar as horas, desencadeia a bicicleta e começa a pedalar em direção oeste
Quase 12 minutos de pedaladas, e ela chega até seu refúgio.
Cerca de 5 minutos de escalada e o que antes era um clima parado sem vento, agora se torna um clima fresco com uma brisa forte. Tudo está quieto de primeira, os fogos já se foram, as pessoas também, só alguns bêbados insistem em permanecer nas ruas.
No céu, a lua cheia e prateada se destaca imponente. Algumas estrelas que se movem em linhas retas e tortas, e outras que rabiscam o céu, também se apresentam na pintura. Todas refletidas em seu olhar contemplativo.
Depois de um tempo ela se deita sem a toca para apreciar cada segundo da paisagem, e do vento que toca seu rosto.
Algumas horas de admiração e pensamentos longínquos se passam. Seus olhos se fecham. O estímulo visual agora dá lugar para sons que antes não eram claramente percebidos.
Um carro passando em uma rua próxima, outro um pouco mais longe, e outro. Agora o barulho de um caminhão subindo uma rua aparentemente íngreme. Uma moto bem potente a toda velocidade. Cachorros timidamente latindo em vários cantos diferentes quase como se estivessem conversando a distância.
E até os Fai-Fai estão cantando, o que desperta um sorriso nela
Por alguns instantes, aquele momento parece parado no tempo, até que de forma repentina seus olhos se abrem como se tivesse se lembrado de algo.
O canto dos Fai-Fai agora a incomoda. Ao olhar o celular sua preocupação se confirma. Apressada, envolve a toalha no celular e o devolve para dentro da mochila. Se aproxima da beirada da plataforma e a solta lá de cima. Vai até outro canto e se vira de costas para escada.
Inspirando profundamente e depois expulsando o ar, ela salta.
Um salto bem de leve para trás, o suficiente para cair no arco que cerca a escada. Então se segura em uma das barras de metal, e pouco a pouco vai se soltando da escada. A cada vez que ela repete essa ação, quatro barras são avançadas.
Em uma queda controlada que levou menos de dois minutos, ela termina sua descida já se direcionado até a mochila
Rua após Rua, ela mantém a velocidade a toda. Nem parece que acabara de treinar intensamente por três horas. Descendo por escadarias, atravessando um parque pelo meio, sem parar em nenhum semáforo, o percurso que ela costuma fazer em quinze minutos, é concluído em seis.
Chegando em casa, abre a porta da garagem. Para seu alívio, o carro de seu pai ainda não está ali. Larga a bicicleta em um canto e a passos rápidos, sobe para seu quarto.
Antes de se deitar, percebe que está toda suada e decide tomar outra ducha. Quando vai pegar a toalha na mochila, esboça uma careta ao sentir o fedor. Logo a joga em um cesto atrás da porta do banheiro, junto com o traje de treino. Pega uma toalha limpa, tira a roupa do corpo e a joga juntamente no cesto.
Nada ocupa sua mente, só a alta percepção das coisas. A temperatura da água e a sensação dela colidindo com sua testa, escorrendo pelo seu corpo e o deixando relaxado enquanto inunda o ambiente de fumaça.
Enquanto caminha em direção a cama, aproveita para jogar a toalha no cesto após enxugar seu cabelo. Despencando nua na cama, seus braços se abrem de forma relaxada, seu corpo vai “afundando no colchão”.
Depois de alguns minutos, ela escuta um barulho de batida na porta.
— Sarah! Você está acordada? — Seu pai bate na porta.
— ESPERA! — Ela grita.
Em um pulo, levanta e coloca uma camisa larga e uma calça moletom.
— Oi! Pai, o que foi? — Ela o indaga após abrir a porta.
— Eu vi a luz acesa… pensei que chegaria em casa e você já ia estar dormindo — Ele se explica.
— Eu acabei de chegar em casa pai, estava indo dormir agora. Aliás! Cheguei antes de você! — Ela logo vai abrindo um leve sorriso enquanto solta um curto riso.
— Bem a sua cara mesmo… — Ele fala enquanto dá uma olhada de relance pelo quarto ali mesmo de onde está.
— Ei! O que foi isso? — Ela o encara com estranheza — Se acha que tem alguém aqui? Aiai… — Termina a fala suspirando.
— É que você já é adulta, isso seria normal… encontrar alguém aqui. — Ele olha para ela. — Não precisa mais fazer as coisas escondida, você já é responsável por você mesma. Mesmo morando na minha casa. Você tem liberdade.
— Você está bêbado né? Para ficar falando isso. Não se preocupe! Se eu trouxer alguém, você vai ser o primeiro a saber.
Ela desvia o olhar por um momento e retorna.
— E outra coisa, eu estive pensando sobre aquilo que conversamos. Já faz sete anos que terminei os estudos, aproveitei bastante esse tempo que você me deu para relaxar e decidir o que queria fazer.
Sarah relaxa um pouco os ombros antes de falar.
— Eu quero viajar! Ver os monges nas Montanhas da Redenção e se possível, viver com eles por um tempo.
— Filha… — Ele a encara por alguns segundos.
— Vai tomar um banho e dormir pai! Vai! — Ela o expulsa dali.
Ele com uma cara de quem estava prestes a sucumbir ao sono a qualquer momento, se direciona para seu quarto se escorando pelas paredes. Sarah se deita na cama e rapidamente cai no sono.
As horas passam e o dia chega ao seu auge, porém, já parece fim de tarde. Tempo nublado, vento forte, as árvores balançam como se quisessem sair voando pelos céus. Alguns pássaros se arriscam a confrontar as forças da natureza para desfrutar de sua liberdade neste feriado de ano novo.
E mesmo com o tempo prestes a desmoronar, é possível observar algumas chaminés de churrasqueiras trabalhando o mais rápido possível. O sol até tenta se destacar, mas as densas nuvens negras logo tomam a cena, o vento aumenta sua fúria a um nível que até então não tinha alcançado.
Sarah se vira para um lado, depois para o outro, um desconforto paira sobre ela.
Sonhos?
Pesadelos?
Lembranças…
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