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    “Eu tive esperanças. Foi fácil demais chegar até aqui. Não importa, esse não será o meu fim! A memória deles não será dissolvida nessa tormenta!”

     Sarah observa o cenário ao seu redor. Lançando olhares de um canto escuro entre containers.

    O mar da meia-noite rosna enfurecido. Suas ondas irregulares aceleram e se levantam imponentes sobre o navio cargueiro. As ondas mais baixas, levantam a proa até ela ficar apontado para as nuvens negras e cinzas. Quando o bico despenca colidindo contra a água, sem tempo para respirar, as ondas maiores se sobressaem engolindo o convés por inteiro. Mergulhando os containers e as cargas ali presente.

    Somente a ponte de comando se recusa a afundar. A água salgada e gelada, escorre para fora do convés pelas laterais, com uma sutil e inegável promessa, “eu voltarei”. E não demora quase nada para tudo se repetir, de novo e de novo. A cada segundo o ar vai ficando mais denso e carregado, até que ele explode em cargas elétricas, que despencam de entre as nuvens, presenteando-as com novas tonalidades.

    Quanto toca o mar, se dissipa como se nunca tivesse existido. O mar furioso com o incomodo, rejeita essa hipótese. Suas ondas parecem mais ferozes do que antes. E junto dessa fúria, gotas de desespero e pavor ressoam pelo ar. Grandes como pedras pequenas, elas despencam até colidirem contra a água, contra o convés, contra seu cabelo preto. E contra as fuselagens negras suspensas no ar, que refletem o brilho dos relâmpagos.

    O que antes era iluminado apenas por raios e relâmpagos, agora de pouco em pouco, é revelado por feixes de luzes que vem de todos os lados. Feixes que correm com calma em direções variadas e irregulares. Containers e mais containers parecem ganhar vida ao serem expostos. Azuis, vermelhos, verdes, cinzas e amarelos. Mas logo voltam a dormir na caótica escuridão do ambiente. O som que antes era regido pela natureza sedenta por uma refeição, agora ganha novos acordes motorizados que cercam o navio.

    Os triângulos que levitam ao redor do local, viram seus bicos para fora, como se fossem partir em retirada. Porém, ao invés disso, uma pequena abertura brota da parte de baixo de cada um deles. Se abrindo igual uma gigantesca boca, um a um, vai regurgitando androides.

    Eles despencam com seus trajes brancos, e linhas grossas e vermelhas que marcam as laterais das pernas e dos braços. Os trajes colados, escopem silhuetas musculosas, algumas são masculinas, outras femininas. Capacetes arredondados na cor branca, cobrem suas cabeças. Na face, um visor de vidro, também branco, ostenta um V curvado para fora bem no centro, que brilha em um tom vermelho escarlate. Assim como as linhas nos trajes.

    Dois deles despencam de cada nave, oito ao todo. Gotas e mais gotas, colidem com seus corpos e deslizam pelo traje sem molhá-lo. Despencando pelo ar, se chocam contra o convés em regiões diferentes, fazendo o navio chacoalhar um pouco mais do que já está.

    Logo uma onda vem e some com toda a visão que ela tem do convés. Com uma rápida puxada de ar enquanto estende os braços para os lados. Se apoia firmemente com as mãos em dois containers que a encurralam. A água salgada a alcança como se quisesse abraçá-la. Quando o convés se expõe de novo, os androides ainda estão de pé como se nada tivesse acontecido. Eles voltam a caminhar com passos firmes.

    Aos poucos as duplas vão se separando. Um de cada, caminham para o centro enquanto os outros caminham perto da borda. Os que avançam para o centro, levantam seus braços com os punhos fechados na altura de seus visores. Seus punhos começam a ostentar linhas e círculos também em tons de vermelho escarlate. Em postura de combate, avançam entre os containers.

    Os que andam pelas bordas. Ostentam fuzis brancos e lisos como se fossem feitos de um metal só. Nas laterais dos fuzis, uma linha vermelha escarlate brilha vindo da base encostada nos ombros até chegar na ponta, finalizando em um círculo da mesma cor na ponta. Eles se movem sentido anti-horário como se fossem programados para isso. As naves voltam a projetar seus feixes de luz em busca de algo entre os containers.

    Quando um dos androides chega pela direita, perto de alguns containers que ficam encostados na base da ponte de comando. Acaba observado no chão, uma barraca de acampamento, toda encharcada e com as duas bases traseiras enfiadas por baixo de um contêiner. Ele se aproxima um passo de cada vez. E em um movimento brusco, pula em cima da barraca a achatando toda. Somente ar e água acabam sendo esmagados. Com um chute, ele a arremessa para longe.

    Um pouco mais acima dele, em meio a escuridão de uma fresta entre dois containers. Com olhar focado naquelas ações, ela observa tudo. O navio volta a se inclinar para cima, o androide pausa sua caminhada mantendo suas botas brancas bens fixas no chão.

    Quando a proa mergulha e a onda engole tudo, ela despenca junto dessa vez. Em simultâneo com a água, se choca com o androide. A adaga então perfura suas costas, atravessando o que quer seja que ele tenha ali dentro. A arma dele começa a disparar abruptamente, feixes curtos de luz vermelha se chocam com o convés e com os containers.

    Ele se vira a procura de algo, mas só encontra uma onda vindo em sua direção. A água então vai adentrando por um pequeno buraco em suas costas. Aos poucos o androide começa a sentir seus pés descolarem do chão. Sua força e brilho começam a se esvair. Assim a onda recua enquanto degusta aperitivo que foi servido.

    Observando os brilhos vermelhos e afogados, as naves direcionam seus feixes na direção do local. Todos os outros androides começam a se locomover na mesma direção.

    Vendo o navio se inclinar outra vez para o céu, os androides cessam qualquer movimento. Aproveitando a força da gravidade, ela deixa seu corpo despencar do meio de dois containers, indo em direção a um deles que está com os punhos levantados.

     Sem resistência, a adaga volta a perfurar no mesmo local. Antes mesmo que ele consiga fazer algo, Sarah se impulsiona em suas costas, sumindo em meio aos containers ali do lado. Enquanto ele procura pelo causador de sua ferida, suas botas descolam do chão. Com o movimento de queda do convés, o androide se vê levitando no alto por um instante. Então tudo se apaga e seu corpo pesado despenca sobre o convés ecoando a vibração ao redor.

    Nem mesmo uma bisbilhotada para ver o que se passa ali é permitida. O mar logo trata de reivindicá-lo, o levando para as profundezas.

    Quando as gotas voltam a despencar contra o convés, nenhum dos androides ousam dar um passo se quer. Se chegar perto, até dá para ouvir seus motores pulsarem em ritmo acelerado. Nem mesmo os pilotos nas naves, conseguem puxar um punhado de ar para se acalmarem. Em pequenas telas, assistem o mesmo que seus colegas abaixo, mas não entendem o que está acontecendo. Uma delas, está apagada devido à escuridão do fundo do mar. E em outra nave, outra segue o mesmo destino.

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