Capítulo 57 - A verdadeira guia
[ Campo de Treinamento 3, 20:04h ]
O corpo de Akemi pesava como se alguém tivesse trocado seus músculos por argila úmida durante os treinos da tarde. Cada passo em direção ao dojo custava um pouco mais do que o anterior.
Ele sabia que Miya o aguardava, uma certeza que trouxe a velha dúvida sobre novamente sair dali dividido ao meio. “Haah, mais uma noite de alongamentos e posturas que trituram meus ossos… Sei que preciso lapidar isso, mas variar um pouco cairia bem às vezes, né?”
Entretanto, diante da escadaria, uma música chegou.
Era suave, sinuosa, feita de notas que subiam e desciam como uma respiração. Definitivamente, tratava-se do ressoar de uma flauta, mas o que saía dela, embora lembrasse as músicas de Toryu, não convenciam Akemi de que aquele som era natural de Asahi, mas curiosamente, assim como o fogo, alimentavam suas energias.
O núcleo áurico elétrico, antes vazio, se reanimou, pois junto da música, o calor chegou.
Algo demonstrava que aquela melodia não fora criada somente para os ouvidos, e sim, para todo o corpo, conduzindo quem a recebia até um lugar específico que só existia enquanto a flauta tocava tais notas.
Diferente da simples sensação calorosa, a temperatura sonora chegava como uma imagem: uma encosta de rocha escura, envolta pela névoa espessa e branca, onde o chão fumegava e o céu de tonalidade alaranjada era filtrado por cinzas:
O pico de uma montanha vulcânica, solitário demais para que fosse somente deslumbrante, e deslumbrante demais para que fosse somente desesperador…
Enquanto subia os degraus, Akemi percebia que a música continha uma beleza que doía emocionalmente, do mesmo jeito que certas outras doíam, concluindo que a flauta, com sua melodia, trazia os sentimentos mais complexos, e quando chegou entre o batente da entrada, confirmou quem era a artista:
Hiromi Miyazaki, sentada sobre os joelhos sob a luz tênue de duas tochas nos fundos do dojo, utilizava uma longa flauta de bambu escuro. As notas se esticavam e acabavam em trechos curtos que seguiam a mesma melodia…
De repente, a música parou.
Miya abaixou a flauta devagar e abriu os olhos. — Sabia que chegaria arrastando os pés. Está atrasado.
Akemi reconheceu que aquela conclusão já estava feita muito antes da chegada dele, e mesmo com a curiosidade pela melodia que ainda ecoava em sua memória, optou pelo caminho mais curto. — Bom, ultimamente os dias têm sido longos.
— Para os seus padrões de antes, sim — Miya depositou a flauta sobre um pano dourado dobrado ao lado do joelho e levantou-se. — Sua energia está baixa, e quando se está assim, independente do horário em que o chega, a mente fica atrasada — analisando-o de cima a baixo com uma leitura que ia além da roupa e da postura, ela concluiu: — Forçou demais nos treinos de hoje, né?
— Tentei ajudar meu grupo num desafio de força. Achei que estava fazendo algo digno, mas acabei recebendo um sermão do Major Yura sobre liderança não ser carregar o peso pelos outros… Mas não me arrependo.
Com a naturalidade de quem raramente dava o braço a torcer, Miya levantou uma sobrancelha. — Certeza disso?
Akemi calou-se. “Me arrependo…? Realmente… do que eu não me arrependo?” Seria da prova de força? Da ajuda que ofereceu? Da lição de moral que recebeu?
No fundo, o rapaz sabia que havia algo errado em suas escolhas, algo que embora gerasse orgulho, traria consequências drásticas.
— Venha, caminhe até mim.
Inicialmente, Akemi estranhou a ordem ríspida da garota, pois independente do quão dura soou, era tão simples quanto respirar.
Entretanto, no primeiro passo dado, os joelhos simplesmente esqueceram o que eram.
Como uma falha seca em queda esfarelando no ar, como um fio de lã se arrebentando em meio à costura, a fraqueza surgiu rápido demais.
Mas antes que os joelhos de Akemi encontrassem o chão, Miya agiu rapidamente: um borrão que partiu do centro do dojo sem aviso com a flauta na mão e o corpo baixo quase rente ao assoalho. A haste de bambu alcançou o colarinho traseiro do uniforme de treino, prendendo o garoto pelo tecido firme da gola e deixando-o suspenso a centímetros da queda.
— Idiota — disse Miya, contidamente irritada, suportando o companheiro até que tivesse certeza de que aquelas as pernas voltaram ao funcionamento natural. Quando ambos se recompuseram, a garota cruzou os braços.
Zonzo e levemente envergonhado, Akemi endireitava-se aos poucos. — Eu…
— Sente-se.
— Miya, eu… acho que não consigo trein-
— Senta.
Aquela voz séria cortava qualquer assunto que tornasse a discussão inútil, mas não era autoridade forçada, era a convicção de quem sabia exatamente qual era a solução do problema em questão.
Akemi sentou-se, e seguidamente, Miya abriu as palmas das mãos. Vagarosamente, aquilo que Akemi só conhecia como calor se alastrou, mas “calor” era a palavra mais pobre do repertório para que precisamente descrevesse o que acontecia.
Era como uma brasa viva aplicada propositalmente, uma brisa acalentada que atravessava o tecido do uniforme colado como se inexistente, descendo pelos ombros e se espalhando pelos pulmões. Por onde tocava, o músculo que estava contraído há horas simplesmente relaxava.
— O que você tá-?
— Xiu, preciso me concentrar.
A eletricidade adormecida no núcleo elétrico se forjava na brasa, aquecendo devagar sem explosão ou urgência. O vazio que ficava por trás da dor, aquela sensação de poço seco que ele carregava desde o início dos treinos, se alimentava de fora pra dentro.
O suor gelado nas têmporas afrouxou e a dureza entre os ombros se dissolveu por camadas: em algum ponto do abdômen, a eletricidade que estava apagada faiscou, reencontrando finalmente a energia que precisava.
Aliviado, Akemi soltou um suspiro involuntário.
Miya abaixou as mãos. — Melhor?
Tocando os dedos dos pés esticados como em um alongamento enquanto faíscas mínimas pulavam pelo corpo, Akemi relatava: — As dores ainda estão aqui, mas parece que alguém ligou minhas luzes de volta. Me sinto ótimo!
— Ter a energia áurica alta nos faz sentir renovados… Mas isso não significa que lhe farei treinar em alto ritmo nos próximos dias.
Akemi tentou questionar, mas Miya já se virava e retornava ao pano dourado onde a flauta repousara. Entendeu-se que a discussão encerrou-se antes do próprio início.
A garota novamente sentou-se sobre os joelhos e pegou o instrumento com ambas as mãos. — Hoje faremos diferente. Você irá experienciar katas1. Mas não mostrarei os movimentos…
— Como vou aprender sem ver?
Ela levou a flauta até os lábios, e antes de tocá-la, disse: — Não quero que você me copie ou decore, quero que sinta os meus movimentos.
A primeira nota saiu longa e limpa, e junto dela, veio uma brasa direcional. Akemi sentiu uma pressão quente no braço direito; curiosamente, aquilo insinuava que um movimento leve com a mão estendida deveria ser realizado, e o garoto, embora receoso, se deixou levar.
— Isso, continue seguindo — instruiu Miya, entre as notas.
A quentura desceu pelo lado direito até o quadril, aquecendo aquela região do corpo como um lampião por dentro da musculatura.
Akemi compreendeu que precisava flexionar os joelhos, mas sentiu que faltava algo. Pela demora do movimento, a brasa desapareceu.
Miya pausou a música. — Qual parte acendeu primeiro?
— O quadril.
— E você moveu o quê?
— O… joelho? — A confusão deu lugar à clareza do erro. — Oh, entendi.
— O quadril sempre antecede a perna. Na marcialidade, o poder nasce no centro, nunca na extremidade. Fique atento em cada ponto que a chama o guia, se pular um, recomeçará do zero. De novo.
A melodia foi retomada.
O calor efetuou a mesma travessia. Akemi desferiu o soco lento, abriu o quadril e afundou os joelhos para a postura do cavalo.
— Bom — disse Miya.
As notas foram duradouras, com somente uma pausa entre elas. A brasa reuniu força na base do punho direito, fechando-o e recuando-o sem que Akemi percebesse; na mão oposta, um calor manso percorreu os dedos, mantendo a palma de dedos unidos lateralizada e um pouco inclinada para baixo, conduzindo-a à frente como a asa aberta de uma garça.
Miya pausou a melodia. — Feche os olhos.
Curioso, Akemi os fechou. — A-assim, do nada? Por quê?
A resposta veio da flauta:
Com os olhos fechados, a brasa direcional combinada à música deixou de parecer meras instruções e transformou-se em um idioma, e o corpo do aprendiz, sem a distração da visão, podia lê-lo com uma atenção que nunca usara antes.
Uma concentração específica na coxa esquerda dizia que o peso do corpo se sustentaria lá. Uma quentura leve na borda do pé direito pedia que o calcanhar saísse do chão. Um fluxo que começou no joelho destro erguido, subiu pela musculatura da perna, atravessou o quadril e se espalhou no core2: um passo inteiro desenhado de dentro pra fora que visava o equilíbrio central do corpo.
Sutilmente, Akemi errou o ângulo do pé alto, obrigando a correção da brasa partida do tornozelo, pontual como um dedo indicador corrigindo uma linha.
Concluído o ajuste, o fogo dominou todos os membros em diferentes intensidades para cada, dali em diante, a melodia em sua forma física modulava movimentos que pediam transições fluidas entre golpes e posturas, desacelerando quando Akemi necessitava do melhor equilíbrio.
Em resultado da concentração, correntes elétricas passaram a acompanhar o fluxo das chamas melódicas, auxiliando Akemi e sua percepção perante os movimentos que realizava.
Socos lentos, posturas ensaiadas, chutes altos, tudo era executado baseado nas formas remetentes ao comportamento de animais: a garra do tigre nos dedos arqueados e tensos; a cabeça da serpente em falanges unidas e retilíneas; e o gancho esguio do louva-a-deus com o indicador apontado e o médio abaixado.
Erros mínimos, imperceptíveis aos olhos comuns e gritantes para qualquer mestre revelavam que talvez aquele jovem não obtivesse a perfeição, explosão, ou sequer graciosidade de um exímio lutador marcial. Em contraponto, o jovem demonstrava o incrível controle corporal e equilíbrio que um corpo áurico aprenderia e evoluiria seguindo técnicas extraordinárias…
A música avançava para movimentos mais exigentes, alguns com maior inclinação, outros em cadência acima do habitual, poucos além da altura a que os pés chegavam.
Akemi seguia cada gesto no limite que o corpo permitia; por vezes, houveram leves desvios em que a chama corrigia; em outras, a execução saia plena e a brasa prosseguia.
Existia uma certeza: como discípulo do próprio fogo, o jovem assimilava uma trilha inédita que lhe oferecia paz e vigor.
Com certeza, em dias, meses e anos de prática, se tratada com compromisso e foco, aquela técnica o ajudaria a encontrar parte do talento de um mestre marcial, esclarecendo a conexão com o mundo e uma arte insólita3 para combate áurico.
Na última melodia, a música foi finalizada em uma nota extensa que se apagou com suavidade.
Notando o término do treino, Akemi abriu os olhos e viu-se outra vez na postura do cavalo, com os punhos cerrados recolhidos à altura da cintura. A eletricidade aquietou-se junto do toque da flauta.
Com a satisfação estampada no rosto, Miya depositou o instrumento no pano. — Mesmo com muito a aperfeiçoar, está de parabéns pela primeira performance.
Akemi analisava o próprio corpo, resíduos do calor ainda pulsavam em seus membros. — Funcionou de verdade. Conseguia sentir cada parte que você queria que eu movesse, era como se você estivesse desenhando os passos por dentro de mim… Incrível.
— Eu?
— Sim, você! — Quando Akemi olhou para Miya e viu aquele sorriso alegando mais um erro, a confusão o dominou. — Não?
— Em nenhum momento eu te guiei. Foi a música.
O silêncio que se instalou era atrapalhado apenas pelo crepitar distante das tochas.
— … Como assim “a música”? Não era você que controlava a chama?
— O calor estava seguindo a melodia. Eu apenas toquei. A música foi quem guiou você, e o fogo.
— Mas… — Akemi coçou a cabeça, imaginando o conceito. — Como uma música guia movimentos? Sons não têm direção.
— Realmente, porém, a melodia que você ouviu tem — Miya olhou para a flauta, memórias antigas a traziam momentos inesquecíveis de aprendizado. — Esta é uma dádiva da terra da minha mãe. Lá, nas montanhas onde nasceram sábios de artes milenares, descobriram que a aura não serve apenas para destruir ou proteger: serve para criar, para dar vida, e de maneira formidável, até mesmo um objeto inanimado tem capacidade para tal feito.
Akemi imaginava em silêncio o quão magnífica aquela técnica era.
Miya percebeu a fascinação do garoto, e seguiu com as explicações. — Quando você fornece energia áurica a um instrumento de forma específica, controlada, e até ritualística, a melodia deixa de ser apenas som e ganha vontade própria. A música se torna uma entidade viva que pode tocar quem a ouve de maneiras que vão além dos sensores auditivos.
— Quando cheguei perto do dojo, ouvi outra música de você. Aquilo me dava uma sensação estranha, era como se eu estivesse em um outro lugar, mas não era só isso, também sentia emoções específicas invadindo meu corpo, e mesmo tão específicas, pareciam opostas… Como pode isso?
— Aquelas notas foram criadas justamente no lugar em que você sentiu, e junto a elas, vieram os sentimentos do compositor no exato momento em que foi criada. O mesmo serve para a melodia que usamos no treino. Minha única função foi tocar a melodia correta e alimentá-la com a chama, o resto foi a música conversando diretamente com seu corpo, mostrando onde avançar, onde recuar, onde atingir e onde corrigir. Como planejado, eu só fui a intérprete entre vocês dois.
— Isso é… insano. Aprendeu isso com sua mãe?
Miya abaixou a cabeça. — Foi antes dela partir para guerra. Antes de tudo — em consequência da tristeza da fala, surgiu-se uma quietude respeitosa, mas foi cortada antes que o clima pesasse demais. — Voltando ao que importa, lembre-se de que suas pernas serão seu foco por enquanto. O centro de gravidade é o fundamento de tudo na nossa arte marcial. Braços sem pernas são apenas decoração, ok?
— Entendido — confirmou Akemi, mas seu rosto entregava que ele estava longe da verdadeira compreensão.
— Não, não, hihi. Você não entendeu — zombou Miya, sem rispidez — quando compreender de verdade, suas pernas se moverão antes que pense. Por enquanto, você ainda pensa demais. O objetivo é tornar seus movimentos instintivos e naturais, assim como os seres mais poderosos agem guiados pela aura.
— Mas eu executei de olhos fechados sem pensar.
— Executou seguindo a brasa — corrigiu ela, erguendo um dedo — seguir e executar são coisas diferentes quando se trata de autocontrole. Da próxima vez, quero que pare de esperar e comece a antecipar. É como diz um velho ditado: “O corpo que reage é aprendiz, o corpo que antecipa é praticante”.
Akemi coçou a nuca, pensativo. — Quanto tempo até eu chegar lá?
— Depende de você — dada a resposta direta, a garota se levantou. — Creio que sua aura absorverá os movimentos rapidamente. Mas como sempre, mente e alma são outras histórias, pois estão fadadas a respeitar o tempo designado a elas desde o nascimento.
— Ótimo, adoro saber que vou demorar — resmungou Akemi, entregando no sorriso que a frustração era teatro.
Miya cruzou os braços. — Podia ser pior. Imagina você aprendendo isso com alguém sem paciência. Aí sim você sofreria.
— Você TEM paciência?
— Comparado com a maioria? Sou um exemplo de bondade — ela disse, completamente séria, mas os olhos brilhavam com aquela ironia característica.
Akemi soltou uma risada baixa. — Claro, “bondade”. Deu pra perceber quando você corrigia minhas posturas a base de pancadas. Olha, talvez até a música seja mais gentil comigo do que essa sua versão ensinadora.
— Você não teria coragem de dizer isso de novo.
Diante de um olhar mortal, Akemi ergueu parcialmente as mãos em rendição. Uma leveza estranha o acompanhava depois que aprendeu algo novo. — Tudo bem, tudo bem. Obrigado.
— Por…?
— Pela paciência… pelo treino… e por não me deixar desmaiar feito idiota.
Miya virou o rosto, e pela primeira vez na noite, deixou com que uma curta risada sincera escapasse, não de menosprezo, mas o tipo de risada que ela guardava para os que realmente importavam. — Da próxima vez, chegue no horário. Aí eu penso em te ensinar algo ainda mais impressionante.
— Tipo o quê?
— Você vai descobrir… se conseguir chegar andando nos próximos dias, claro. Até porque você ainda não terminou todas as suas tarefas, não é?
O rapaz amoleceu o corpo, pois já sabia o que lhe esperava. — Tááá, tááá… eu vou lá antes que seja tarde demais…
- sequências de movimentos coreografados que combinam ataques, defesas e técnicas de combate, muitas vezes inspiradas no comportamento de animais e elementos da natureza.[↩]
- conjunto de músculos que formam o centro do corpo, responsável pela estabilidade, equilíbrio, sustentação da coluna vertebral e transferência de força entre as partes superior e inferior do corpo.[↩]
- rara[↩]

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