Índice de Capítulo

    — CURIOSIDADES DO MUNDO ÁURICO —

    INSTRUMENTOS MUSICAIS E A MANIPULAÇÃO SENSORIAL DA AURA

    Entre as diversas aplicações práticas do poder áurico, uma das mais refinadas e menos compreendidas pela ciência asahiana moderna envolvia a fusão entre música e energia áurica. 

    Distinta das técnicas de combate direto ou das habilidades de construção civil que dominavam os currículos militares, a manipulação áurica através de instrumentos musicais permanecia como uma arte praticamente perdida, preservada somente por mestres tradicionais das regiões montanhosas de Meilí e por algumas linhagens milenares de países culturalmente fortes.

    A descoberta dessa técnica existia há mais de mil anos, quando monges meilianos que habitavam as encostas vulcânicas perceberam que certas melodias tocadas em flautas dizi1 aquecidas pelo calor das fumarolas provocavam reações físicas involuntárias nos ouvintes. Inicialmente atribuído a efeitos psicológicos simples, estudos posteriores revelaram que a combinação específica entre frequências sonoras e energia áurica canalizada através do instrumento criava ondas de ressonância que interagiam diretamente com o sistema nervoso dos áuricos.

    No caso específico das flautas de bambu meilianas, o material em si desempenhava um papel crucial. O bambu escuro das regiões vulcânicas possuía uma estrutura celular que, após décadas de exposição ao calor geotérmico, desenvolveu propriedades condutoras únicas. Quando cortado, tratado e transformado em instrumento musical, tal bambu retém uma memória térmica, permitindo que áuricos ígneos canalizassem suas chamas através das fibras da madeira sem que danificasse o material. O resultado era uma melodia que carregava literalmente o calor em suas notas, transmitindo sensações de temperatura diretamente ao corpo do ouvinte.

    Masaru Miyazaki explicou aos alunos de turmas passadas que tal técnica se fundamentava em três pilares científicos distintos. Primeiro, “Ressonância Simpática”: certas frequências sonoras que vibravam na mesma amplitude que os tecidos musculares humanos permitiam transferência direta de informação cinética. Segundo, “Codificação Elemental”: cada nota musical, se “tingida” com energia áurica específica, transformaria a melodia em uma linguagem corporal não-verbal. Terceiro, “Memória Muscular Induzida”: quando o cérebro recebia simultaneamente estímulo auditivo e sensorial térmico coordenados, interpretava tal combinação como um comando motor direto, facilitando o aprendizado de movimentos complexos.

    As aplicações marciais da técnica sonora eram vastas, porém pouco exploradas devido à dificuldade extrema de domínio. O ensinamento de katas através de melodias direcionais exigia que o músico possuísse não apenas maestria sobre seu elemento áurico, mas também conhecimento profundo de anatomia, cinesiologia e teoria musical avançada, além de compatibilidade da energia áurica dos praticantes, o que auxiliava a conexão.

    Historicamente, a arte foi desenvolvida pelos Monges de Chama Perpétua, uma ordem milenar que habitava o Monastério de TenShin, construído no cume inativo do Vulcão KaZan, em Meilí. Aqueles sábios acreditavam que a música era a forma mais pura de comunicação entre a chama interior humana e o fogo exterior da terra, e durante séculos, desenvolveram um repertório de mais de trezentas melodias distintas projetadas para o aprendizado de técnicas marciais específicas, desde posturas básicas até sequências de combate avançadas.

    O fim misterioso do Monastério de TenShin resultou na dispersão da arte musical áurica. Acreditava-se que alguns monges se esconderam em Asahi, levando consigo instrumentos sagrados e partituras preservadas em pergaminhos protegidos por selos áuricos. Algumas das melodias foram adaptadas e incorporadas aos programas de treinamento de certas famílias nobres asahianas, notadamente os Miyazaki, cuja matriarca na época continha laços diplomáticos com os monges refugiados.

    Contudo, mesmo entre aqueles que tinham acesso às partituras originais, poucos reproduziam os efeitos com fidelidade, e nem todos os elementos áuricos funcionavam igualmente bem naquela aplicação. O fogo, por sua natureza transformadora e penetrante, adaptava-se perfeitamente à transmissão de comandos musculares. A água, por sua fluidez, auxiliava em movimentos contínuos e transições suaves. Já o ar carregava melodias por distâncias maiores, embora com menor precisão direcional. A terra, paradoxalmente, demonstrava dificuldade extrema, pois sua energia estática conflitava com a natureza dinâmica do som.

    Estudos realizados pela Academia de Ciências Áuricas de Asahi em 1910 tentaram os efeitos através de dispositivos mecânicos, construindo gramofones áuricos que reproduziriam melodias pré-gravadas enquanto canalizavam energia elemental. Mas os resultados foram decepcionantes: descobriu-se que a eficácia da técnica dependia fundamentalmente da intenção consciente do músico no momento da execução. A música gravada, embora preservasse as frequências corretas, perdia completamente a capacidade direcional, confirmando que a transmissão de comandos motores necessitava da presença ativa e ajustes em tempo real baseados nos dons do compositor e nas reações dos ouvintes.

    Os últimos registros estimavam que menos de cinquenta indivíduos em todo o mundo possuíam habilidade suficiente para a transmissão de aura através de melodias direcionais; sendo que apenas uma três residiam em Asahi, e a maioria restante pertencesse a linhagens antigas com conexões históricas aos monges meilianos…

    [ Salão de Fogo, 20h20 ]

    O Salão de Fogo recebia Akemi com seu silêncio pesado e cheiro particular de metal e poeira aquecida. As vigas, as correntes, os bonecos articulados organizados como sentinelas de madeira eram os últimos desafios a serem completados, ou melhor, limpados.

    O trabalho da noite iniciou-se nas clavas suspensas sobre a plataforma à esquerda.

    Akemi reuniu os baldes e observou o mecanismo das vigas antes que molhasse um único centímetro. Um ensinamento do avô foi memorizado: “Antes de mexer em qualquer equipamento, entenda como ele funciona.”

    Vãos percorrendo o centro das vigas foram notados, dali, desciam as correntes que suportavam as clavas. Aparentemente, havia um mecanismo de ativação que as movia e multiplicava a mortalidade da travessia.

    “Esses equipamentos velhos não são nem um pouco confiáveis. Se eu jogar água primeiro e essas clavas se moverem, posso me colocar em sérios riscos. Melhor eu ser cauteloso.” 

    Tomando o maior cuidado do mundo com sua energia áurica que o ajudava na velocidade, força e precisão em que seu corpo agia, Akemi, crepitando pequenas faíscas pelo corpo, passou um pano úmido no material rochoso entre os espinhos de cada clava, posteriormente, utilizando uma escada, as correntes foram limpadas com desengraxantes e outros materiais úteis encontrados nos cantos do salão. Na vez das vigas, nenhum problema foi encontrado, já que o equilíbrio do garoto o permitia passar por cima da madeira fina sem que sequer bombeasse.

    Devido ao costume de limpeza em casa, aquele desafio era tratado como uma terapia. Para o rapaz, era melhor passar a noite em um trabalho silencioso, do que ralar o corpo em exercícios acompanhados de gritos ou exigências, detalhe esse que ampliava sua concentração, e consequentemente, aprimorava suas habilidades desenvolvidas…

    Sobre as plataformas à direita, havia as mesmas vigas com vãos que suportavam correntes, mas o diferencial estava no equipamento principal, que no lugar das clavas, tratava-se de anéis metálicos e espinhentos.

    Akemi iniciou com o mesmo procedimento realizado na outra plataforma, porém, quando o pano pegou no metal entre as formas pontiagudas, um cheiro forte atingiu suas narinas.

    Era gasolina.

    O jovem recuou devagar, como se aquilo fosse uma bomba. “Isso é inflamável… Talvez não seja uma boa ideia eu gerar faíscas aqui.” 

    Aprendizado imediato: controle de aura durante a limpeza. Nada de eletricidade acidental.

    Akemi trabalhou devagar, mais devagar do que qualquer outra tarefa que havia feito naquele salão. Pano limpo, materiais especializados, trabalho constante e sem pressa. Cada clava demorou mais do que deveria, porém chegou ao fim com os equipamentos limpos e intactos.

    Quando desceu da escada, a satisfação pelo trabalho feito tornou-se uma recompensa diante da dor latejante que retornou aos braços…


    A última tarefa para o fim do desafio eram os bonecos articulados.

    Haviam trinta deles, distribuídos em cinco fileiras lado a lado, metade nas plataforma superior, metade na inferior.

    Nos braços de madeira e espinhos que esperavam qualquer descuido, Akemi jogou o primeiro balde de água e os viu girarem como as pás de um moinho, batendo um no outro em uma proposital forma de dificultar os processos de treinamento, e coincidentemente, limpeza.

    “Certo, então vai ser assim.”

    O garoto respirou fundo, e concentrando-se na respiração áurica, entrou na primeira fileira com os pés afastados e postura baixa como um felino cauteloso, exatamente como Miya corrigiu dezenas de vezes naquela semana.

    Enquanto os bonecos passavam pela limpeza, um esbarrão discreto despertou o braço espinhoso, movendo-o rumo à nuca de Akemi, que como esperado pelo mesmo, viu o mundo cedendo à lentidão, alongando-o instantes antes em que o perigo atingiria. Era a aura agindo antes do pensamento, protegendo-o, bem como Miya havia explicado.

    O jovem abaixou o corpo em esquiva, e o golpe passou raspando o topo dos fios castanhos. Como parte do mesmo gesto, a limpeza com o pano seguiu pelo tronco de madeira, continuando para os próximos bonecos sem quebra de ritmo…

    Nas fileiras da plataforma superior, o desafio dobrou. Bonecos de todos os lados, ângulos imprevisíveis, e o espaço entre eles tão apertado que qualquer passo largo ativava dois ao mesmo tempo. Akemi tomou um golpe nas costelas, outro no antebraço, mas o tecido de treino absorvia o que os espinhos tentavam perfurar…

    Duas e meia horas depois, o último boneco foi limpo.

    Akemi desabou no chão com o pano enrolado na mão, olhando para a lua entre os espaços no teto. Seu suor escorria no pescoço, seu corpo doía em pontadas, e sua energia áurica estava tão baixa que lhe faltava forças extras para que se levantasse.

    Mas diferente dos dias anteriores, o cansaço estava mais aceitável do que nunca.

    O trabalho foi finalizado…

    Akemi fechou os olhos, contente. “Realmente… Mereço uma recompensa por isso…”

    1. flauta transversal de origem meiliana, um dos instrumentos musicais mais tradicionais e populares de Meilí[]
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