Capítulo 81: Refúgio
Sarah, acaba pegando no sono novamente. Agora abraçada com toda a força no travesseiro. Ela esboça uma expressão de felicidade em seu rosto enquanto vai mergulhando em pensamentos que virão sonhos.
Algumas nuvens deslizam pelo céu, carregadas pelo vento para o oeste. Junto delas, algumas estrelas se movem em direção oposta. A Lua por sua vez, busca irradiar sua luz de todos os ângulos possíveis. Até que começa a tocar o horizonto. Do lado oposto, o Astro Rei se levanta imponente e pronto para mais um ciclo da vida.
Ao acordar, Sarah esboça uma expressão de confusa, mas logo vai se encontrando, seja de forma física, como também mental. Depois de encarar a janela aberta e o céu nublado do lado de fora por vários segundos. Forçadamente se levanta, pelo menos ela tenta. Quando busca o apoio da perna esquerda, relembra do motivo de estar ali, e de tudo que passou no dia anterior em Atlás.
Deixando seu corpo cair para trás, ela volta para cama. Porém agora, sentada na beira enquanto encara a atadura com olhar distante e os fios caídos para os lados do rosto. Eles balançam com algumas brisas enquanto alguns feixes de luz, invadem por entre os fios e toca calorosamente o rosto dela.
Esboçando um sorriso de boca fechada, ela volta a tentar inicial uma caminhada. Porém agora, com mais cautela, a perna direita acaba tendo a difícil tarefa de sustentar boa parte do peso. E mancando Sarah vai se movendo pelo quarto, pela escadaria, por corredores, até chegar novamente no jardim.
Inevitavelmente ela para por um tempo enquanto aprecia a paisagem e o aroma suave. Algumas abelhas se aventuram por entre as pétalas em busca do objetivo de cada dia. O vento que vem do Leste, obriga elas a se esforçarem um pouco mais.
Conforme anda, sensações diferentes tomam conta dela. Primeiro é o toque nas pétalas. Depois uma bufa de ar sopra e joga seu cabelo para o lado com força. Mais alguns passos e o sol faz questão de ser lembrado por algum tempo. Antes que volte a se esconder no cinza claro e escuro. O cheiro salgado no ar, por um momento relembra ela de onde está. Mas logo o odor das flores volta a dominar o ambiente. A sombra que vem tomando conta do jardim, logo alcança ela, bem no momento que ela chega ao pé da Mãe.
Sentando de pernas cruzadas em meio as flores, Sarah se põe a observar o tronco e os galhos brancos e consequentemente as folhas chamam a atenção. Seu olhar volta a ser distante enquanto puxa um punhado de ar e o solta com mais calma.
— Sinto um conforto tão grande em estar perto de você. — Sarah solta algumas palavras ao vento em um tom sereno e matutino.
— Que bom que uma mãe consiga passar esse sentimento parar seus filhos. — A Mãe responde de forma mental.
— Um ser tão amaldiçoado como eu. Tem o direito de ser sua filha? — Sarah a questiona com o olhar jogado ao chão por entre a grama rala que se espalha por entre a base das margaridas.
— A mesma maldição que te atormenta em um momento, pode ser a benção que te traz paz em outro. Só depende de você minha criança. — Ela responde em um tom neutro, porém de forma marcante.
— Eu sobrevivi! Eu tinha que fazer isso. Mas no processo eu os perdi, e também acabei me perdendo. Se é que algum dia eu realmente já tenha me encontrado. — Lançando um olhar para um clarão entre as nuvens. Sarah termina a fala enquanto aproveita para olhar para ele sem ser queimada.
— Esse sentimento, ele te moveu até aqui. Sobreviver também foi oque me trouxe até aqui. Tantas possibilidades, tantos caminhos e lugares. E estamos exatamente onde deveríamos. — Contemplativa. Mãe “observa” Sarah, e consegue até sentir sua empatia no olhar. — Mesmo a mais distante estrela, está exatamente onde precisa. Cada uma com sua força, puxando planetas, meteoros, e até nuvens cósmicas de matéria. A mesma força que as torna tão imponente, também é a que pode destruir tudo ao redor.
Sarah sente cada palavra com a alma. Seu coração até entra em um ritmo diferente, um pouco mais calmo. Seu olhar antes distante por entre as nuvens. Agora já está focado novamente na arvore.
— Eu sinto que quanto mais eu tentar sobreviver. Mais vezes a sensação de solidão irá tomar conta de mim. Não tenho medo dela em especifico. Mas sim de me acostumar. De se tornar vazia por dentro. Tenho medo de me tornar igual ou pior que aqueles que tanto desprezo. — Algumas lagrimas despencam do olhar de Sarah e escorre pelo rosto até conseguirem se libertar em direção ao verde.
— Isso minha filha. É algo que só você poderá descobrir. A cada passo dado para escuridão. Mais distante da luz irá estar. Ou você se torna sol, ou será consumida. A cada passo, para a luz, mais você corre o risco de se queimar, e precisará de uma sombra para se refrescar. — A Mãe termina mais uma de suas falas contemplativas enquanto Sarah já de rosto seco a observa atentamente.
— Falando de sombras e luz. Posso me esconder na sua por um tempo? — Sarah começa a se incomodar com o sol que reapareceu bruscamente.
— Minha sombra sempre está disponível para você! — Ela aceita o pedido de forma materna e gentil.
Depois de se esforçar um pouco, Sarah se encosta no tronca e volta a observar o horizonte distante. Uma chuva bem fina, despenca repentinamente enquanto o sol luta por seu espaço. As gotículas caem do céu refletindo os raios do astro rei. A chuva não consegue passar pelas folhas, o que acaba se tornando um abrigo, tanto do sol como da chuva. A sensação de paz toma conta dela de forma tão grande que nenhuma palavra mais precisa ser dita. Só a pura contemplação.
Enquanto corre o olhar pelo jardim, pelas flores que balançam suavemente. Pelas abelhas e insetos que insistem na jornada. Sarah acaba observando lá no fundo, para trás do castelo, um arco íris que se forma e se esconde quase que por inteiro por traz da estrutura.
— Mesmo a chuva pode ser bela. — Mais um respiro do que uma fala, é solta pela Mãe que também observa tal junção de acontecimentos que resulta em algo inesperadamente belo.
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