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    “D-doutor?!” O Assistente exclamou, assustado, rapidamente tentando levantar o homem, mas foi subitamente empurrado.

    “Afaste-se Caiman, isso é algo entre mim e meu aluno.”

    Ao ouvir isso, o homem tinha uma expressão complexa e fez como pedido.

    Foi algo tão inusitado que o próprio jovem Tenente não sabia como reagir a isso.

    No entanto, ao contrário dos dois Humanos, Brakas não conseguiu evitar soltar uma gargalhada.

    “Buhahahah! Isso supostamente deveria ser um Mestre de Runas? Esse Humano é patético! Mestre, você deveria procurar outra pessoa para lhe ensinar.” disse, de forma zombeteira.

    Fernando franziu a testa ao ver isso. 

    “Pare de falar abobrinhas, Brakas!” ordenou, de forma rígida.

    “Por que, Mestre? Esse velho tentou me matar!”

    Ouvindo isso, o jovem Tenente olhou para a criatura com um olhar de julgamento.

    “Você também tentou me matar quando nos conhecemos.”

    A expressão brincalhona do Baiholder rapidamente sumiu com essas palavras.

    “Err… Você sabe, Mestre. Não foi minha intenção, eu jamais te feriria!”

    “Então, se você tivesse vencido naquele dia, teria me deixado viver?” O rapaz perguntou, de forma irônica, mesmo sabendo a resposta.

    “Isso…” Mesmo a criatura não ousou ser tão descarada e mentir sobre isso. Conhecendo a si mesmo, Brakas sabia que definitivamente não deixaria um Humano viver.

    Vendo a falta de resposta dele, Fernando balançou a cabeça.

    Pelo menos ele é sincero… pensou.

    Ouvindo a troca de palavras entre o jovem Tenente e a ‘monstruosidade’, Alfie não pôde evitar franzir a sobrancelha.

    “Tenente Fernando. Se me permiti, mesmo que a questão do contrato seja verdadeira, o fato de deixarmos ‘isso’ viver, é apenas por benevolência do Doutor a você. O fato dessa coisa estar em território Humano, perambulando por aí, é um risco. Se qualquer Legião soubesse a respeito, não hesitaria em executar o Beholder e você.”

    A expressão do rapaz pálido mudou um pouco, pois sabia que as palavras do homem eram verdadeiras. O fato de Brakas ser seu Vassalo não mudava o fato dele ser um Beholder, um inimigo absoluto da Humanidade.

    Depois de pensar um pouco em silêncio, voltou sua atenção para Wedsnagauer.

    No momento, ele estava verdadeiramente irritado, mas, ao mesmo tempo, sentiu-se mal ao ver seu professor, um homem de idade avançada, curvando-se em sua direção e implorando. Então, apesar do que havia ocorrido, abaixou-se, apoiando o velho homem.

    “Levante-se, professor.” disse, sem dar qualquer explicação adicional.

    Ao ouvir isso, Wedsnagauer levantou a cabeça, com um semblante surpreso. Mesmo sem dizer explicitamente, o garoto estava dando sua resposta ao chamá-lo novamente de ‘professor’.

    “Eu entendo que você tinha seus motivos e eu não estou dizendo que está totalmente errado e talvez eu agisse de forma semelhante em seu lugar. Eu vou esquecer o assunto de hoje, mas não irei tolerar algo assim por uma segunda vez…” afirmou, sua voz num misto de frieza e calor.

    “Está combinado!” O velho homem disse, envolvendo a mão do garoto com suas duas palmas.

    A verdade é que Wedsnagauer queria fazer mais algumas perguntas ao rapaz, para sondá-lo sobre seus planos e o que pretendia fazer com as Veias de Mana Artificiais e a Aptidão Absoluta, mas rapidamente desistiu da ideia, temendo irritá-lo ainda mais.

    Mesmo que estivesse preocupado com algum tipo de desvio de caráter dele, apenas saber que ele não era uma marionete de outra raça já havia tirado um grande fardo de seu coração.

    Inicialmente sua maior preocupação era que esses tais ‘presentes’ que Fernando estava distribuindo, fossem, na verdade, algum tipo de plano do Beholder dentro do Anel de Aprisionamento. Mas agora ele já havia confirmado que a coisa realmente estava sob seu controle.

    Com tudo esclarecido e ambos os lados tendo resolvido suas diferenças, Alfie não pôde evitar perguntar algo que estava o incomodando.

    “Por que você faria um Contrato de Vassalo com um Beholder, dentre todas as criaturas?” indagou, com as sobrancelhas franzidas. “Você deve saber o quão perigosas essas coisas são.”

    “Sim, eu sou muito perigoso!” Brakas falou, revirando os seus múltiplos olhos, ainda no chão. “Alguém vai me desamarrar?”

    Ignorando as palavras investigativas do homem, Fernando deu de ombros.

    “Apenas aconteceu.” respondeu brevemente, sem dar muitos detalhes. “Não me importa muito se ele é um Beholder ou outra coisa. Tudo que eu sei é que ele salvou minha vida em mais de uma ocasião, assim como dos meus subordinados.”

    Alfie e Wedsnagauer não pareciam muito satisfeitos com a resposta, mas não insistiram.

    Pouco tempo depois, o Mestre de Runas, mesmo que a contragosto e com um olhar fulminante para Brakas o libertou.

    “Huh! Já era hora, velhote!” A criatura falou, de forma provocadora, sabendo da antipatia do velho Humano em relação a si.

    “Bem, podemos prosseguir para a construção das suas Veias?” Fernando disse. Apesar de não estar mais no clima, uma promessa ainda era uma promessa.

    “Eu… Bem, ok.” Wedsnagauer disse, depois de ponderar por um tempo. Ele ainda estava indeciso sobre aceitar tal presente ou não, mas não queria contrariar o garoto novamente. Afinal, Fernando era o discípulo que ele sempre sonhou. Logo o sujeito voltou sua atenção para a criatura. “Você pode primeiro tirar essa coisa daqui.”

    A expressão de Brakas não mudou, parecendo não se sentir ofendido com as palavras do Humano.

    “Mestre, eu gostaria de ver o processo pessoalmente. Afinal, é difícil de observar de dentro do Anel e eu também preciso de algum ar fresco de vez em quando.” então olhou para o Mestre de Runas e seu Assistente. “Considere isso como minha indulgência, Humanos.”

    Wedsnagauer parecia furioso ao ouvir isso e mesmo Alfie tinha um olhar assassino em seu rosto com a provocação. Estava claro que ambos os lados não se davam bem.

    Suspira!

    Isso vai ser difícil de lidar…

    Pouco tempo depois, com alguma conversa, Fernando conseguiu chegar a um acordo com Wedsnagauer e Brakas. A criatura observaria de longe, sem se aproximar muito, mas ainda estaria dentro da sala.

    Quando o jovem Tenente começou o processo de criação das Veias, Alfie Caiman se posicionou entre o Beholder e Wedsnagauer, como se estivesse o advertindo que se tentasse qualquer coisa, as coisas não acabariam bem para ele.

    Brakas apenas observou isso com algum desdem. Na verdade, ele parecia até estar se divertindo ao ver a apreensão palpável do homem.

    Há algum tempo ele havia descoberto um novo passatempo que lhe interessava e isso era incomodar e provocar Humanos. Ver suas reações exageradas sempre o entretinham.

    Assim como as Veias de Zado, as de Wedsnagauer foram extremamente desafiadoras para Fernando, fazendo o rapaz encharcar-se de um suor frio. Mas depois de realizar o procedimento tantas vezes, estava muito mais proficiente do que antes.

    O velho Mestre de Runas, ao sentir por si mesmo as Veias sendo, pouco a pouco, criadas e expandidas dentro do seu corpo, não pôde evitar analisar.

    Esse estranho Mana que vem desse garoto… Agora que sinto isso diretamente, tenho certeza. A qualidade é absurda, de onde ele está tirando isso? Além disso, várias outras questões e indagações estavam flutuando em sua mente, mas ele fez o seu melhor para evitar trazê-las a tona.

    Logo o Mestre de Runas levantou-se quando o processo foi concluído.

    Ao ver isso, Alfie rapidamente fez seu melhor para controlar a Matriz da sala, preparando-se para o que viria a seguir.

    Swish!

    Uma incrível onda de Mana emanou a partir do velho homem, como se ele fosse um redemoinho.

    Treme! Treme!

    Todo o lugar balançou com tremores rítmicos, como se algo estivesse chegando em alta velocidade.

    Logo Wedsnagauer abriu os olhos, quando uma luz azul-clara inundou suas pupilas.

    Em relação a Dimitri e mesmo Zado, a pressão de energia do velho homem parecia muito mais intensa. Na verdade, Fernando não pôde deixar de sentir que se assemelhava um pouco a de Ferman, só que mais suave.

    Mesmo que o velho homem não fosse um combatente direto e não tivesse tanto poder bruto como um General, a qualidade de seu Mana e proficiência e controle estavam léguas de distância dos dois homens, com poucos militares podendo se comparar a um Mestre de Runas como ele.

    “Essa sensação… É como se eu, não fosse mais eu.” disse, com um olhar confuso, mas, ao mesmo tempo, alegre. Mesmo as dores que sentia em seu corpo pareciam ter sumido e até a confusão e embaraço em sua mente, pareciam ter diminuído, com seus pensamentos muitos mais claros que o normal.

    Vendo que o processo havia sido um sucesso, Fernando assentiu.

    “Muito bem, professor e senhor Alfie. Se me dão licença, tenho alguns assuntos a resolver.” disse, quando abriu o portal negro do Anel de Aprisionamento. “Brakas.”

    Ouvindo seu Mestre o chamando, o Beholder parecia um pouco decepcionado, quando se enfiou de volta no portal.

    Com isso, Fernando não perdeu tempo, partindo da sala.

    Com apenas os dois homens restando, Alfie não pôde deixar de olhar para o Doutor.

    “Parece que ele não nos perdoara tão facilmente, senhor.”

    O Mestre de Runas suspirou, em reminiscência.

    “Mesmo que seja assim, eu ainda precisava ter certeza. Não posso permitir que outra tragédia se repita.” afirmou, mostrando que mesmo que estivesse arrependido, ainda faria o mesmo se fosse necessário.

    Alfie ficou em silêncio por um momento, então continuou.

    “Ainda acha que ele pode ser uma ameaça?”

    Wedsnagauer ficou em silêncio, negando-se a responder diretamente.

    “Apenas o tempo dirá. Independente do resultado, como seu professor, estarei ao seu lado e observarei tudo.”

    Dentro de seu escritório pessoal, Fernando estava sentado em sua mesa, de frente para Argos.

    “Você demorou mais do que o normal, Líder. Algo aconteceu?” O sujeito, de longo cabelos negros, perguntou, com um olhar calmo.

    “Não… Apenas alguns pequenos imprevistos.” respondeu brevemente, sem dar detalhes. Obviamente não se atrevendo a contar que Wedsnagauer e Alfie haviam o prendido. Se isso vazasse, se tornaria um grande problema dentro do Batalhão Zero. “Esqueça isso, tenho algo mais importante para te pedir.”

    “Claro, sou todo ouvidos.” O sujeito respondeu, com um sorriso simpático em seu rosto.

    “Primeiramente, como tem ido as operações aqui em Garância? E principalmente, como está o assunto com o Salão da Recepção?”

    Ouvindo a pergunta, Argus sabia exatamente do que Fernando estava se referindo.

    “Nosso desenvolvimento está relativamente acelerado. Tenho conseguido treinar algumas pessoas de confiança para ocupar certas posições na cidade, desde pequenos comerciantes, migrantes e muitos outros. Quanto a questão do Salão de Garância, ainda tenho trabalhado nisso. Por hora a organização deles está uma bagunça, com funcionários e Administradores vindos de várias cidades e regiões diferentes. Inicialmente tentei infiltrar pessoas lá dentro, mas parece que o General Comandante tem sido bem rigoroso quanto as contratações, por isso mudei minha abordagem e tenho discutido com alguns funcionários de baixo escalão para trabalharem para mim, ou mais precisamente, para Solomon, da Guilda Sopro Noturno.” Argus explicou, com alguma confiança em sua nova identidade. “Obviamente, a maioria desses caras parece ser bem leal aos Generais e tem sido uma dor de cabeça colocar algum deles em nossa folha de pagamento, mas é claro que por mais belas que sejam as maças em um cesto, sempre haverá algumas podres… É apenas questão de tempo para termos pessoas lá dentro.”

    Ouvindo essas informações, Fernando assentiu, satisfeito. Seu principal objetivo com a rede de inteligência era obter informações privilegiadas que normalmente não chegariam a pessoas como ele e apenas ao ter acesso aos assuntos internos do Salão da cidade, é que ele se sentiria mais confiante em interceptar informações sensíveis.

    “Muito bem, apenas me diga se precisar de mais fundos.”

    Argus ficou assustado com as palavras do rapaz.

    “De forma alguma, o que você investiu é mais que o suficiente, senhor! Logo a Guilda Sopro Noturno deixará de dar prejuízo e começará a dar lucros, então manter nossas operações não será um problema.” garantiu.

    Ouvindo isso, Fernando assentiu.

    “Muito bem, mas se precisar de algo, não hesite em me avisar. Preciso que essa organização funcione da melhor forma e no tempo mais curto possível.”

    “É claro. Farei meu melhor senhor!” O Sargento concordou, animado.

    A verdade é que em relação a trabalhar como um mero espião descartável dos Lobos de Batalha em Vento Amarelo, que poderia ser descartado e morto a qualquer momento, o sujeito se sentia muito mais vivo e feliz atualmente. Não só ele estava vivendo melhor, como se sentia muito mais desafiado nessa nova função.

    O próprio Argus não conseguia acreditar que assinar um Contrato de Vassalo seria a melhor coisa que teria acontecido em sua vida.

    “Muito bem, agora preciso perguntar mais uma coisa.” O rapaz disse, com um rosto sério. “Com a mão de obra que temos atualmente, quais as chances de conseguirmos monitorar um General?”

    Quando o homem ouviu a pergunta, seus olhos ficaram arregalados de surpresa.

    “Senhor, você não quer dizer…”

    O rapaz logo assentiu, confirmando a hipótese do homem.

    “Quero montar uma operação de vigilância sobre o General Herin.”

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