Capítulo 75 - O caminho até a princesa
Nihara viajava como um meteoro incandescente, chamas ondulavam em torno de suas mãos e pés, expandindo-se como impulsos de um demônio vingativo. Para o pouso triunfal, ele inclinou as pernas para frente e desceu. Quando seus pés bateram firmes contra a plataforma no topo do altar de gelo, a ira queimou tanto quanto o fogo. Embora a missão de “resgate a princesa”, seu foco estava na “vilã” escondida atrás do trono encarceceiro, onde Kyoko perdia-se na descrença perante a raiva incondicional daquele que supostamente a salvaria.
A instrutora cujo crescia a satisfação recebeu o aluno do fogo. — Parabéns, Miyazaki. Você é quem chegou mais longe até aqui. Pelo que vi, “Lobo” foi um nome apropriado para o seu grupo. Sua vontade de seguir em frente certamente me lembrou o poder de uma fera solitária.
A típica felicidade de quem provava o sabor da vitória e o respeito ganho complementava Nihara, deixando-o presunçoso por mais. — Vamos, instrutora, por que minha oponente não está frente a frente comigo agora? Ela deveria ser punida por dar as costas a um adversário em potencial, não acha?
Hisako riu sutilmente da sugestão do aluno, como se tivesse dó da sua insolência. — Deixarei com que se divirtam. O momento agora… é só de vocês. Aproveitem — terminou ela, afastando-se com a cadeira de rodas.
O ígneo sentiu-se incomodado e perdeu a paciência pela oponente oculta. — Chega de se esconder, sua covarde! Apareça logo! Quero aproveitar o resto do dia pra treinar o que vale a pena, não pra perder tempo com suas brincadeirinhas estressantes!
Silêncio…
O irritado esbravejou com os dentes, e sem mais delongas, apertou o passo rumo ao trono.
Besteira.
— Você definitivamente é forte, jovem — comentou Hisako — mas totalmente precipitado.
Nihara sentiu uma energia alheia vibrando abaixo de seus pés, alertando-se de que uma força avassaladora viria do solo azul. “Droga!” Com um explosivo salto mortal para trás, propulsionou-se em chamas e evitou o impacto de uma onda sônica arroxeada que abalou o espaço onde estava. Se tivesse sido atingido, onde pararia? Será que ao menos ficaria consciente depois daquilo?
Seu pouso foi forte: cada pé parou em degraus distantes na escadaria, enquanto suas mãos estabilizaram o equilíbrio.
Diante do último degrau do altar, Rin Kurosawa deu as caras. — Aff, Miyazaki — o sobrenome proferido lhe deu um gosto amargo na boca — esse povinho da sua família é bem difícil de aturar, viu. Sempre agindo como se o mundo fosse um tabuleiro feito exclusivamente pra suas peças douradas. Esse teatro todo é mesmo hereditário ou vocês ensaiam?
Nihara apertou os punhos. — Lave sua boca ao falar da minha família! Deve respeitar a linhagem do fogo!
— Hm, sendo sincera, não devo respeito a ninguém. Só estou aqui pra tentar descobrir alguma graça nesse imenso mar de merda que me forçaram a atravessar chamado: vida.
Entre os companheiros, Akemi observava a discussão ao longe. Os grupos dos heróis estavam encarregados do resgate de Kyoko, mas pelo visto, ninguém além de Nihara daria o próximo passo, talvez por responsabilidade? Preguiça? Medo? As variáveis eram muitas entre eles, contudo, um em questão não aceitaria que todo mundo ficasse parado.
— Nikko, consegue me jogar lá em cima? — perguntou Akemi, confiante.
— Jogar você? Lá em cima? Tipo, com vento?
— Exatamente.
— He hiii! Finalmente algo interessante! — Ela bateu palmas alegres. — Mas logo aviso, vai ser uma viagem meio violenta dessa vez.
— Confio no seu vento — assegurou, orgulhoso.
Minoru se aproximou de braços cruzados. — Cara, cê sabe que o Nihara te odeia, né? Ele vai te mandar de volta na porrada se você aparecer do lado dele.
— Eu sei. Mas ele tá sozinho contra uma adversária potencialmente imprevisível. Precisamos ajudá-lo, se não falharemos na missão. Estão comigo? — Akemi estendeu a mão à frente para um toque de união grupal.
Os outros dois se entreolharam, mas renderam-se à confiança do aliado.
Posicionada como antes, Nikko apoiava o calcanhar de Akemi com as mãos em concha. O rapaz estava de costas para ela, pronto para a impulsão. — A postos ao seu comando, garoto bisonho!
Preparado, Akemi encarou-a sobre os ombros. — Até quando vai ficar com esse apelido pra mim, hein?
— Até eu sentir que perdeu a graça, ou seja, nunca! Vamos, estou à espera do seu “já”!
— Ai ai… Já!
Fwooooshh!
Akemi foi arremessado pra cima como uma pedra lançada por uma catapulta, o mundo virou um borrão azul e branco enquanto o vento o carregava em espiral ascendente. As faíscas fracas que restavam irradiaram o corpo, estabilizando minimamente o voo caótico.
De baixo, Nikko manipulava o vento ao topo do altar. — He hii! Eu tô ficando boa nisso! Vem Minoru! Precisamos acompanhá-lo.
Ambos foram rumo à escadaria…
Lá no altar, Nihara nem percebeu: estava ocupado demais encarando Rin com toda a raiva flamejante acumulada. — Pagará por cada palavra que soltou sobre os Miyazaki!
Rin bocejou. — Ah, que medo.
Então, algo atravessou o campo de visão entre os dois.
A nuvem de vento se despertou e entregou Akemi em uma aterrissagem tranquila.
O pouco que o recém-chegado ficava perto do ígneo já era o suficiente para uma pequena alimentação da energia elétrica descompassada.
— Você?! — rosnou Nihara — O QUE DIABOS TÁ FAZENDO AQUI?!
— Ajudando — disse Akemi, direto.
— AJUDANDO?! — Nihara ampliou as chamas. — EU JÁ DISSE QUE NÃO PRECISO DE AJUDA! MUITO MENOS DE UM RATO COMO VOCÊ!
Akemi sentiu o insulto, mas manteve a voz firme. — Entendo que você não me queria nesta academia, mas já é passado. Devemos ser maiores do que isso.
— NÃO EXISTE NADA MAIOR DO QUE EU PROVAR QUE SOU O MELHOR!
— Então prova — Akemi apontou pra Rin. — Vá em frente e derrote ela sozinho.
— Os heróizinhos estão brigando entre si? — interrompeu Rin, sarcástica — continuem, isso deixa meu trabalho muito mais fácil.
Nihara rangeu os dentes com tanta força que explodiu labaredas pela boca. No auge da fúria, seu se inclinou e disparou em investida no ímpeto de uma bala de canhão.
Inicialmente, a trajetória apontou para Akemi, que arregalou os olhos diante do clarão ardente. Contudo, as faíscas desviaram do curso do fogo no último momento e revelaram o verdadeiro destino: a garota de cabelos roxos, que seguia indiferente.
Rin ergueu a palma da mão direita onde a coloração púrpura pulsava e distorceu o espaço adiante: uma barreira invisível se materializou.
Brumfff! Nihara socou o escudo com tanta força que o som da onda de choque arroxeada ecoou por todo o castelo de gelo. O ígneo não suportou o impacto: seu corpo ricocheteou para trás e foi lançado até os degraus médios do altar, onde caiu de costas.
Akemi olhou para trás, onde Nihara fora lançado, dali, criou-se um receio pelo poder de Rin. — Ehm, então… acho que a gente pode deixar nossa batalha pra mais tarde, hehe- — Entre o recuo de um pé, uma explosão de vento o isolou para trás. — WOOOO-!
Nikko o aterrissou de volta nos degraus, onde Minoru levantava Nihara com um olhar de “eu avisei”:
— E então, sabichão? A tentativa falhou como esperado. Qual o próximo plano brilhante?
Akemi olhou para onde Rin aguardava com imponência no topo, e depois para Nihara contorcido de raiva preparando o próximo ataque.
Akemi chamou Nikko e Minoru. — Vocês dois, ajudem Nihara a distrair ela. Vou buscar outro meio.
A garota inclinou a cabeça. — Outro meio? Tipo qual?
— Ainda tô pensando.
— Ótimo, adoro planos improvisados.
— Bom, pelo menos não é entediante. Vamos lá, Minoru! — motivou Nikko.
Os dois subiram as escadas correndo, e Nihara, vendo aquilo, alertou friamente: — Aí… se não passarmos nessa PAA por culpa das suas ideias, tu tá ferrado comigo.
— Desculpa colega, mas agora a festa agora é de todo mundo! — Akemi deu de ombros e desceu os degraus em direção aos outros da turma.
— Tsc… panaca…
— Kinyoku — chamou Akemi, levemente esbaforido da corrida.
O rapaz de cabelos escuros e friamente recostado na parede olhou de soslaio. — O que quer?
— Sua aura de sombras consegue ir até a Kyoko?
O misterioso ficou quieto por um segundo, depois apontou para frente com o queixo. — Provavelmente há uma sombra ampla embaixo daquela grande janela que ilumina o topo do altar. Talvez eu consiga translocar algumas pessoas comigo até lá.
— Oh, você pode levar mais de um com você?
— Três, até. Contando comigo, óbvio.
— Por que ainda estamos aqui então?
— Pois seria inútil. Mesmo que cheguemos lá, ninguém tem como cortar o gelo que prende da prisioneira, e aquela garota insana consegue inibir qualquer um que se aproxime demais. Quantidade agora vale de pouco, não temos nada que nos ajude de verdade.
Akemi preparou a resposta, mas uma voz o cortou.
— Eu tenho.
Mayumi parou a poucos passos deles, segurando a katana ensanguentada com a mão firme. O fio de corte vermelho brilhava sob a luz fria do castelo.
— Esta espada banhada pelo meu sangue pode cortar qualquer coisa.
Kinyoku ergueu uma sobrancelha e disse com meio sarcasmo: — Então você também possui uma aura eterna.
Mayumi assentiu, confiante.
A revelação animou Akemi e lhe trouxe novas conclusões sobre o vasto potencial da espadachim. Ao mesmo tempo, a lembrança das kunoichis surgiu com nitidez: a aura elétrica havia reagido com surpreendente eficácia na defesa contra as lâminas de gelo eterno, retornando a ideia de que, talvez, a energia faiscante também carregasse a mesma característica de uma aura especial. Contudo, tal reflexão pedia calma e tempo incabíveis àquele momento do desafio; respostas viriam depois.
— O frio inclusive ajuda o sangue a durar mais na lâmina — acrescentou a ruiva — estamos com sorte, devemos aproveitar.
O plano parecia semi pronto, até que outra voz interrompeu:
— Ainda assim, é inútil.
Meditando em posição de lótus ao lado de Kinyoku Shinkai, Hikaru Sasaki desvendou sua voz calma e definitiva raramente escutada.
— Os Sanada são uma família de nível defensivo alto, mas é lenta para um resgate que exige alta velocidade e precisão.
Mayumi estreitou os olhos. — De onde tirou tanta propriedade para proferir tamanha blasfêmia?
— Velocidade e precisão — Hikaru observou-a pela primeira vez. — Você enfrenta bem de frente. Mas a ocasião agora pede alguém que chegue, corte e saia antes que o próprio vento perceba.
Mayumi adiantou um passo afrontoso. — Pensa que este alguém é você?
— Sim.
— Com qual espada?
A resposta veio do olhar à katana de gelo ensanguentada. Porém, foi mau vista.
A força com que Mayumi apertou o cabo da empunhadura gélida deixou os dedos brancos. — Você menosprezou as habilidades da minha família, e agora pede a posse de uma espada encharcada pelo meu sangue?
A resposta já havia sido dada pelo prodígio da luz, restou a quietude.
Sentindo-se profundamente ofendida, Mayumi avançou e apontou a lâmina direto pro pescoço do outro espadachim.
Embora a ponta do fio vermelho a centímetros da jugular, Hikaru manteve-se imóvel.
— Só não te ataco pois é covardia enfrentar outro espadachim sem que ele nem tenha uma espada. Mas se eu ouvir outro insulto à minha família, juro que vou recuperar meu respeito à força quando a oportunidade vier.
A tensão se agravou entre os dois samurais, mas entre tanta intriga, havia aquele que procurava o melhor caminho.
Uma mão agarrou o braço da ruiva.
Era Akemi, concentrado para que retomasse o controle da situação.
— Mayumi, se acalma. Ele pode estar certo.
Mayumi o encarou, incrédula e irritada.
— Escuta — prosseguia o rapaz — você jamais vai ser inútil nesse desafio. Jamais. Essa espada que você conquistou e condicionou com o próprio sangue é a única coisa que pode cortar aquele gelo. Sem ela, a gente falha. E se a gente usar ela da forma mais eficiente possível, quem merece o crédito é você quem a criou.
Mayumi abaixou a lâmina devagar. Apesar da noção do controle perdido, seu olhar ainda queimava, mantendo-a em silêncio e remoendo sua honra.
— Você lutou contra o Kenshi sozinha, e venceu. Nenhum outro do nosso grupo teria feito aquilo. Mas agora, a gente precisa dessa espada nas mãos de quem pode usá-la da forma mais rápida. Lembre-se, isso não tira o valor do que você fez, só mostra que você é sábia o suficiente pra saber quando dividir suas capacidades pelo bem do grupo… diferente de uns esquentadinhos por aí.
Mayumi ficou quieta por um longo momento. Depois, soltou um suspiro pesado, e de mal grado, ajoelhou-se de forma protocolar às tradições samurais e ofereceu a katana para Hikaru. — Honre esta lâmina… Sasaki — pediu ela, com a voz perigosamente baixa.
O prodígio da luz pegou a espada com as duas mãos, respeitoso.
Mayumi deu as costas e enrijeceu o corpo, ignorando dolorosamente o que fez.
Aliviado, Akemi soltou o ar que nem sabia que estava segurando…
Nas proximidades, Aruni observava a luta de Nikko, Minoru e Nihara contra Rin, que continuava bloqueando cada investida com barreiras roxas sem que saísse do lugar. Curiosamente, a vilã se divertia de maneira contida machucando alunos de famílias nobres: Nikko, da Família Ichikawa, e principalmente Nihara, da Família Miyazaki. Minoru, sem a possibilidade de uso da sua aura, era parado com facilidade.
— Eles vão ficar bem? — perguntou a irmã Yamamoto, preocupada.
Sempre ao lado, Sho também analisava. — É difícil dizer. A aura da Kurosawa funciona criando distorções no espaço. Sem uma estratégia específica, é quase impossível passar por ela.
Teruo levou uma mão ao queixo. — Ela consegue bloquear ataques físicos, criar portais, e aparentemente, gerar impactos sônicos que podem nos deixar inconscientes. Certo, definitivamente precisaremos de algo surpreendente.
Atento a tudo que comentavam, Kinyoku levantou o queixo e olhou para Aya Hattori, a ninja silenciosa que sempre mantinha a máscara cobrindo metade do rosto. — Hattori, tá pronta?
Aya não respondeu.
Mas Kinyoku compreendeu. — Ótimo — finalmente, ele se descolou da parede, apertou os punhos, e olhou para onde Rin continuava bloqueando ataques com uma mão só. — O próximo passo dos heróis… promete…

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