Capítulo 80 - Inicia-se a forja
[ Campo de Treinamento 1, às 13h da tarde. ]
O sol alto queimava o solo batido, gerando um calor abafado que grudava no uniforme colado dos catorze alunos da Turma 1F, que perfilados em descansar, aguardavam a chegada da Instrutora Hisako Shimizu.
Suando, Akemi ajeitava o colarinho do tecido branco que absorvia o calor ao invés de repeli-lo, e trocou um olhar cansado com Nikko ao lado.
A garota, extrovertida até quando exausta, assoviava baixinho. — Eeentããão… Acha que hoje vai ser treino de controle áurico ou combate? — murmurou Nikko, inclinando-se levemente para o lado.
— Sei lá. Só queria que o dia de hoje terminasse logo. Esse calor tá me matando.
Ao fundo da formação, Sho Yamamoto respirava pesado. Aruni, ao lado, também não suportava o calor. Rin Kurosawa bocejavá, entediada, enquanto o clima embaçava os óculos de Teruo Kenzo.
Mas algo estava diferente.
Novamente, Miya não estava presente.
Akemi virou a cabeça discretamente, procurando pela companheira que sequer aparecera para a formação. “Onde ela tá?” Entretanto, antes que pensasse mais, o chão tremeu. Não um tremor comum: proposital e direcionado. Algo enterrado decidiu emergir. O solo sob os pés dos alunos ondulou em círculos concêntricos, e então, diante deles, a terra explodiu para cima em um show de poeiras e pedras.
Da nuvem de terra, uma figura emergiu. Alto, musculoso, coberto de cicatrizes que mapeavam décadas de batalhas sobrevividas. Olhos pequenos que mediam o valor de cada aluno com um único olhar.
— BEM-VINDOS DE VOLTA AO CAMPO DE TORTURA DO ESTRIPADOR DE URSOS E DEGOLADOR DE DRAGÕÕÕES!!! — anunciou Major Yujiro Yura, extravasando sua bruta autoridade com dois passos pesados à frente. — HUHOHAHAHA!!! PELO QUE VEJO, ALGUNS DE VOCÊS DEVEM ESTAR PENSANDO: “Mas senhor, o que faz aqui! Eu não o esperava!” É VEXATÓRIO VER CERTOS RECRUTAS DAQUI, ME DÁ NOJO!
— Psiu, Nikko! O que esse cara tá falando!? Ele não vai parar nunca com essas vozes finas do nada!?
— Ah, relaxa, Akemi, deve ser apenas uma preparação para a operação… He hiii! Eu tô tão animada!
— Major Yura, senhor! — Mayumi Sanada ergueu a mão — onde está a Instrutora Hisako?
Yura estreitou os olhos à aluna, arregalando-os em sequência. — EXCELENTE PERGUNTA, ZERO SETE! ESCUTEM! A INSTRUTORA SHIMIZU DECIDIU TIRAR FÉRIAS. Algo sobre “necessidade de descanso mental”… BABOSEIRA!!! ENFIM, PERANTE ESTAS CIRCUNSTÂNCIAS, VENHO INFORMÁ-LOS, QUE A PEDIDO DOS SUPERIORES, EU SEREI O PESADELO DE VOCÊS! PELOS PRÓXIMOS TRINTA DIAS, COORDENAREI TANTO OS TREINOS ÁURICOS, COMO TRIPLICAR A DOR DOS TREINOS FÍSICOS! SEMPRE À TARDE, E SE FOR PRECISO, À NOOOITE!!! Lembrando, sessões noturnas só serão efetuadas a depender do desempenho de vocês, pooositivo?
Akemi engoliu seco. Os irmãos Yamamoto resmungaram, mentalmente açoitados. Todos os outros seguiram em silêncio.
— EU PERGUNTEI, POOOOSITIIIIVO!!!???
— SIM, SENHOR!!!
Yura bufou, insatisfeito. — Pff, patético… PRESTEM ATENÇÃO! SOBRE O TREINAMENTO, VOCÊS POSSUEM TRINTA DIAS PRA ALCANÇAR UMA FORMA FÍSICA IMPECÁVEL! TRINTA DIAS PARA SE TORNAREM ÁURICOS DE VERDADE E ESTAREM À ALTURA DAS OPERAÇÕES MILITARES DA ACADEMIA!
— S-senho-
— DIGA, ZERO UM!
— Condicionar o corpo todo em um mês? Isso é… possível?
Em silêncio, Yura virou o pescoço como se estivesse possuído e caminhou até Akemi. Cara a cara, o cheiro acalorado e áspero de terra e suor aterrorizava o jovem.
— Você acha que é impossível, Zero Um?
— E-eu… eu só acho que-
Yura violentamente ergueu o aluno como um boneco pelo colarinho. — NADA É IMPOSSÍVEL DENTRO DO MEU COMANDO! SEU EU QUISER QUE O ARCO-ÍRIS SEJA CINZA, EU O FAREI! MAS SE SUA FRAQUEZA E MENTE FRACASSADA O FAZ PENSAR QUE NÃO CONSEGUE,DESIIIISTAAAA!!!
Nikko posicionou-se em sentido e levantou um punho. — Major, permissão para explicar? — Seu sorriso aliviava a tensão.
Yura soltou o aluno. — Oh! A Zero Dois quer bancar a inteligente? POIS MANDA BRAAASA!!!
Nikko focou-se na explicativa. — Nós, áuricos, temos condicionamento áurico acelerado. Nossas células respondem à energia áurica. Quando você força o corpo, a aura acelera a reparação muscular, fortalecimento ósseo, adaptação cardiovascular… tudo! Um trivial precisa de doze a dezesseis semanas pra atingir condicionamento militar básico, nós, quatro semanas… seis se formos preguiçosos. Ganhamos massa três vezes mais rápido que os triviais. Por isso, nos recuperamos quase na metade do tempo deles.
— Mas há limitação — interrompeu Teruo — o condicionamento só se mantém enquanto a aura permanecer ativa e circulante. Longos períodos de inatividade resultam em perda acelerada de massa muscular e resistência.
Yura bateu palmas, satisfeito. — EXCELENTE! PELO MENOS ALGUNS AQUI AINDA USAM A CABEÇA! — Meia volta, volver, e ele retornou ao centro do campo. — AGORA QUE TODOS SABEM QUE SÃO CAPAZES, ou nããão… VAAAMOS COMEÇAAAR!!!
Um pisão forte no chão elevou irregularidades na terra em uma linha reta. O campo plano transformou-se em um circuito acidentado, atravessando o campo de treinamento com colinas, vales, rampas íngremes, lamaçais rasos e diversos perigos.
— PRIMEIRA AVALIAÇÃO! QUINHENTOS METROS! USEM DAS ARTIMANHAS QUE DESEJAREM, POIS O TERRENO MUDARÁ CONFORME EU QUISER! QUEM ATRAVESSAR, GLORIFICADO SERÁS! QUEM DESISTIR, PUNIDO SERÁS! EM SUAS POSIÇÕÕÕES!!!
Os alunos se alinharam na borda do circuito, colados à parede leste do campo.
O objetivo era a passagem por todo o percurso imprevisível e a chegada na marcação final do outro lado, na parede oeste.
Akemi aquecia a respiração, pensando nas técnicas que Nikko lhe ensinara. “Inspirar fundo. Expirar devagar. Controlar o fluxo de aura… Vamos lá.”
— CORRAM!!!
Hikaru desapareceu em um borrão de velocidade, ziguezagueando feixes amarelos sobre o terreno irregular.
Nihara aproveitava sua aura ígnea em voo, impulsionando-se e desviando-se de qualquer obstáculo aéreo com facilidade.
Aya demonstrava toda sua agilidade e velocidade, correndo com o corpo tão inclinado que remetia a precisão de uma flecha.
Nikko corria com leveza, mas logo atrás vinham outros garotos.
Minoru avançava com passadas largas e pesadas, esmagando os sobressaltos da terra por onde pisasse, enquanto logo atrás, Kentaro vinha moldando lâminas e objetos destrutivos improvisados que limpavam o caminho à força. Quando superou Minoru, nem percebeu, mas quando ultrapassou a garota…
— Hamp! Vê se apressa esses passos, ô cabeluda!
— CABELUDA!? Argh! Esse carequinha vai ver só! — resmungou Nikko, reduzindo a resistência do ar com manipulações do vento à frente. Assim que o alcançou, aproximou-se com um sorriso meigo o bastante para que disfarçasse a vingança. — Oiii!
— O quê!? Como você-?
— Nossa, sua aura é bem legal, sabia? Mas… seria mais justo se me emprestasse um bastão. Prometo cuidar muito bem dele!
— Eu não tenho nada pra te dar, sai do meu pé!
Atrás, Minoru gargalhava. — Haha! Qual foi, cara!? Vai arregar pra ela!? Mas olha só, vai passar vergonha se decidir ajudá-la, tá!?
A provocação atingiu o alvo em cheio.
— Grrr, que irritante… Toma isso logo! — Kentaro estendeu a palma e expeliu dali um longo bastão que tilintou no fim da criação.
Com brilho nos olhos, Nikko recebeu o objeto como um presente divino. — Muito obrigada, querido! — Sem tempo perdido, ela girou o bastão, fincou-o no solo e, canalizando seu vento, catapultou-se cem metros adiante. O estrondo da compressão aérea quase derrubou Kentaro, causando-lhe tosses secas entre a poeira levantada.
— Eu avisei, hein! Haha! — zombou Minoru, passando sem piedade.
Kinyoku, Mayumi e Kyoko seguiram o mesmo embalo, superando o atordoado metálico enganado por um sorriso…
Já Akemi? Corria, porém… não sozinho. Uma presença o perseguia, opressor como uma fera a centímetros de seus ouvidos.
— O senhor sabe por que o seu número é o Zero Um?
— Por- Uff… Porque os números são por ordem alfabética, senhor?
— NEGATIVO, ZERO UM! É POR QUE SERÁS O PRIMEIRO A DESISTIR!
Akemi tropeçou em um relevo espontâneo e foi recebido pela dor da queda. Mas a desistência não estava em seus planos: a determinação o recuperou.
— NÃO ADIANTA CORRER, ZERO UM! VOCÊ É FRACO! PEDE PRA SAIR!
O solo cedeu sob o jovem, derrubando-o de bruços numa vala estreita…
Não era o fim.
A força de vontade o ergueu de prontidão, motivando um salto que o levou à saída do buraco. Entretanto, a voz seguia lhe causando dores de cabeça.
— OLHA PRA VOCÊ! PERNAS DE PALITO! BRAÇOS DE GALHO SECO! VOCÊ NEM DEVERIA ESTAR AQUI!
Akemi pressionou os dentes, a raiva o dominava. Por que o instrutor o menosprezava tanto, implicando absurdamente com sua forma física e coordenação motora? Não importava, a prevalência do foco no progresso era a obsessão, e nenhuma reles fala ou sequer grito dignaria uma desistência.
A soma da respiração áurica aperfeiçoada e ritmo mantido resultou na liberação de faíscas amareladas nas pernas frágeis.
— PLANEJA USAR SUA AURA FALHA!? RÁ! É INÚTIL! SEU CORPO VAI QUEBRAR! E VOCÊ NEM CHEGARÁ A MORRER NAQUELA FLORESTA! POIS EU O MATAREI ANTES COM AS MINHAS-PRÓPRIAS-MÃÃÃOS!!!
“Ignora… Respira… Continua…”
A colina à frente era íngreme demais. A escalada exigia arranhar as mãos na terra.
Yura subia sem esforço. — HAHAHAAA! DESISTA LOGO, ZERO UM! SEUS BRAÇOS CAIRÃO SE SEGUIR ESCALANDO COMO UM CALANGO NO DESERTO! POUPE SEU TEMPO… E O MEEEU!!!
Tremendo pernas, Akemi alcançou o topo. Mas quando olhou para baixo… “Ah, fala sério…”
Descida abrupta. Solução: deslizando.
Dito e feito.
Ardendo a pele e sujando o branco de sua roupa colada, o jovem quase perdeu o controle do deslize, mas evitou que caísse rolando.
Quando chegou no solo para o próximo estágio, percebeu que Yura desapareceu, deixando os ecos de sua voz. “Desiste. Você é fraco.”
Akemi continuou.
Trezentos metros depois, suas pernas queimavam nas subidas, pulmões ardiam nas retas, a visão embaçava nas descidas.
Mas o desafio foi completado.
Akemi cambaleou sobre a linha de chegada marcada na terra e colapsou de joelhos, com as mãos apoiadas no chão.
Nikko, que já havia terminado o percurso, aproximou-se do colega. — Akemi! Você conseguiu! Parabéééns!
Ele tentou responder, mas… acabou vomitando bile.
Aos poucos, outros concluintes se aproximavam: Mayumi, suada, mas posturada; Kyoko, sem sinais de esforço; Hikaru, Kinyoku e Aya, inalterados; Nihara e Minoru, rindo alto .
Quatro faltavam.
De mãos nos joelhos, Sho mal respirava, estagnado nos quarenta metros.
Teruo parou nos trinta, preocupado com o suor nos óculos.
Rin desanimou nos primeiros dez metros, sentou no chão e ficou por lá.
E Aruni, sequer passou da linha de largada, a falta de coragem não permitiu.
À distância, Yura analisava os quatro. — Patético… — murmurou ele, abrindo uma das mãos erguidas. Instantaneamente, o circuito ergueu-se num raio de cinquenta metros, formando um funil colossal que lançou os desistentes para o vão profundo cheio de lama até o pescoço.
Quando o funil desfez-se, os alunos presos viram o autor da obra os encarando de cima, iluminado pela luz do sol.
— BEM-VINDOS AO POÇO DA VERGONHA!
Aruni desabou em lágrimas. Sho se asfixiava, prestes a se afogar. Teruo, com os óculos boiando na lama, limitou-se a ficar parado, tão sem ânimo quanto Rin, que sequer cogitava o uso de sua aura.
O major redirecionou-se aos “vitoriosos”, que também observaram o evento.
— ATENÇÃO! AQUELES QUATRO SÃO O EXEMPLO DO QUE VOCÊS NÃO DEVEM SER: FRACOS, DESISTENTES, INÚTEIS!!! — Juntamente do grito, todo o circuito foi desfeito. No lugar, ao lado do militar, ergueu-se um totem de pedra de um metro e meio de altura.
Yura agachou-se, e com os dedos, esculpiu nomes na superfície:
No topo, o título: “Sistema de Destaque: Classificação Inicial”. Abaixo, os nomes seguiam em ordem: Hikaru Sasaki, Nihara Miyazaki, Aya Hattori, Nikko Ichikawa, Minoru Suzumura, Kinyoku Shinkai, Kentaro Ozaki, Mayumi Sanada e Kyoko Shimizu.
Akemi olhou o placar e viu seu nome em décimo, abaixo, uma linha o separava dos quatro últimos, insinuando uma zona específica do décimo primeiro ao último, onde estavam insinuados: Sho Yamamoto, Teruo Kenzo, Rin Kurosawa e Aruni Yamamoto.
Yura bateu na lateral da coluna, fixando a palma da mão. — ESTE PLACAR VAI MUDAR TODO DIA! QUEM SUBIR, RECONHECIDO SERÁS! QUEM DESCER, HUMILHADO SERÁS! E QUEM FICAR ABAIXO DO LIMITE… — ele olhou diretamente para Akemi — … bom, vocês vão descobrir.
“Eu… estou longe… do meu limite…”
Paf.
O coitado desmaiou.
Quando abriu os olhos, Akemi sentiu uma luz amarelada aquecendo o ambiente. O cheiro de álcool e ervas medicinais agradava seu olfato. Percebendo-se deitado, o jovem esforçou-se para que se erguesse. Resultado? Dores agudas por todo o corpo.
— Calma. Você forçou demais — disse uma voz feminina, suave mas com um toque de curiosidade. Era a Dra. Kurori Kurosawa, avistada sentada ao lado da maca; a prancheta no colo e a caneta entre os dedos insinuava anotações. — Seu corpo está se adaptando, sua aura está circulando bem… muito bem, na verdade. Mas seus músculos são fracos demais para suportar a carga que você impõe — ela arrastou a cadeira para frente num breve impulso, demonstrando fascínio ao umbigo do paciente. — Interessante…
— Você enxerga meus órgãos e ossos, né? Estranha.
— Huhuuu, olha, infelizmente não poderei brincar com você. Minha média de lesionados triplicou da noite pro dia. Lhe concedo alta por agora, contudo, tome mais cuidado daqui pra frente. Se exagerar nos treinos, pode ganhar sequelas irreversíveis — Kurori levantou-se, caminhou até a porta dos setores superiores, e antes que saísse, olhou para trás. — Ah, quase esqueço de te avisar, garoto. Deixaram uma carta no cômodo ao lado, leia, pois parece importante.
Na saída da médica, Akemi ignorou os ferimentos, e entre gemidos de dor, esticou-se para pegar o envelope branco acima do criado de madeira.
“Você tem até as 20h30 para comparecer no nosso ponto de encontro diário. Em caso de atraso, se arrependerá amargamente.”
Com o relógio marcando 20h27, não havia outra escolha, era preciso correr.
[ Campo de Treinamento 3 ]
Akemi arrastava-se pelas escadarias de mármore do dojo, sustentando o peso do corpo com os braços que se agarravam ao corrimão. As ruínas das antigas simulações espalhadas ao redor ainda lhe causavam calafrios, mas o que o aguardava adiante inspirava um temor bem maior.
Na chegada ao topo, o rapaz visualizou Miya de costas, sentada em posição de lótus, mãos nos joelhos, costas eretas, com o mesmo kimono laranja impecável. Uma baixa aura flamejante circulava, aquecendo o local e energizando o recém-chegado pouco a pouco.
— Atrasado — apontou ela, sem elevação no tom.
— P-por favor… me desculpa, eu-
— Desculpas não alteram o tempo. Fiquei sabendo dos treinamentos de hoje, se quer sobreviver naquela floresta, terá de deixar todas as suas fraquezas aqui, neste dojo.
— Ei, qual é? De novo eu desmaiei de tanto me esforçar! Um elogio cairia bem, sabe?
— Elogios não compensarão se você desmaiar novamente no meio de uma floresta áurica. O resultado de tudo que fez hoje está longe de ser o suficiente.
— Miya… o que há com essa seriedade? Desde manhã você anda sumida e-
A garota levantou-se.
— É… Miya?
Diante do temor estampado em Akemi, Miya virou-se lentamente. Seus passos de aproximação ecoaram pelo dojo, lentos e compassados, acelerando a respiração do rapaz. — Postura do Cavalo: A Raiz que Sustenta a Montanha.
— … Quê!?
— Trata-se de uma posição para fortalecer as suas pernas. Vamos, afaste-as! — Miya desferiu duas rasteiras curtas nos pés dele, afastando-os.
Akemi apoiou uma mão no chão para que não caísse. — A-ah! C-calma! — Repentinamente, mãos pressionaram seus ombros.
— Abaixe-se, flexione os joelhos!
— Espera! Agh-! — Um golpe rápido com a lateral da mão acertou suas costas, alinhando a postura.
— Coluna reta! Ombros firmes! Joelhos abaixados! Respiração longa! — Insatisfeita com a postura do discípulo, Miya passou a contorná-lo em passos lentos. Para cada encontro de imperfeições, a correção era feita com golpes precisos e impiedosos.
Pancada pós pancada, lágrimas saíam. — Eu vou quebrar no meeeio…
Paf!
Queda…
— Volte à posição. Terá de aguentá-la por uma hora.
— UMA HORA!? Miya, por favor!
— Eu disse, volte à posição!
— Não dá, tô exausto! Não me sobrou nada de energia!
Ignorado, ele tentou novamente…
Falha.
— Mais uma vez!
Na quarta tentativa, mesmo que os dentes cerrados se partissem e as pernas rígidas explodissem, Akemi esforçou-se para que mantivesse a postura.
Trinta segundos pareceram uma eternidade. O suor caía em rios, os músculos imploravam clemência. — Miya… piedade… você não é assim! O que tá acontecendo!? Pretende me treinar com crueldade também!? É dessa forma que planeja ser minha mestra!?
— Está equivocado. Nestes treinos, não passo de uma mediadora. Sua verdadeira mestra é a dor, é ela quem fala sobre seus limites, e te ordena a destruí-los. Então, escute-a!
Joelhos cederam.
— Erga-se.
“Ela quer me matar…”
Levantou.
A noite passou entre quedas, tentativas e gemidos dolorosos.
Às vinte e duas horas, quando Miya o acompanhou de volta ao dormitório, Akemi já não sentia as pernas, mas em troca, ganhou a sensação estranha de que, pela primeira vez, algo dentro de si havia despertado.
Uma fagulha em sua mente o dizia: “Talvez esse extra me consiga sobreviver até o fim do mês.”

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