Índice de Capítulo

    Surpresa e grata (não apenas pelos presentes, mas pelo reconhecimento), a primeira esposa de Robert aceitou os presentes com um sorriso radiante e levantou-se para saudá-lo e ajudá-lo a erguer-se, em um gesto de cortesia mútua. Enquanto isso, o duque já calculava mentalmente quanto lhe custaria harmonizar novamente a sua casa com mimos e presentes extras, sentindo o coração afundar e o bolso apertar ante a perspectiva.

    Verdade seja dita: em um Império onde gênero e “grau de linhagem” pouco importavam perante força, poder, influência e potencial para possíveis sucessões, a primeira esposa não estava em desvantagem alguma frente à segunda (assim como qualquer outra mulher também não estaria) por ter dado a Robert apenas filhas.

    No entanto, como padrinho do filho mais novo (mesmo sem desejar particularmente que o garoto se tornasse o cabeça da família), Alexander sentiu-se compelido a compensar a primeira por se tornar o fator a desestabilizar a situação familiar do duque. Afinal, com toda a certeza, ele transformaria seu afilhado no mais singular entre os filhos; quiçá, entre todos os Raiovas vivos.

    Devolvendo o sorriso à mulher que fora gentil com ele, Alexander despediu-se com cortesia e retornou ao seu grupo original, ficando frente a frente com Brie, a segunda esposa de Robert. — Eu sei que este não é nosso primeiro encontro, mas também preparei um pequeno sinal de cortesia para a senhora.

    Sem aguardar resposta, ele gesticulou com a mão e uma pequena caixa refinada surgiu sobre sua palma, revelando 3 tipos de frascos ao se abrir. — Não direi que estes são superiores aos últimos, mas são mais abundantes em alguns itens específicos: 50 [Elixirs de Nutrição da Luz], especialidade única da família LittleLight para fortalecer afinidades luminosas; 25 [Elixirs de Nutrição Corporal], especialidade única da minha facção para fortalecer e refinar o corpo; e 10 [Pílulas de Nutrição Espiritual], onde cada pílula auxilia a despertar, fortalecer e manifestar o inerente {Talento} latente no espírito de cada indivíduo ou linhagem… que só eu sei a receita.

    Ao testemunharem mais uma rodada de presentes potencializadores distribuídos à vontade entre os membros da família Raiovas, e ao verem Brie aceitar a caixa apesar da certa desfeita que o dragonoid lhe havia feito, os convidados mergulharam em uma nova onda de cochichos e trocas de olhares intensas. A própria existência daquele indivíduo parecia ser um elemento disruptivo até para aliados mais poderosos que ele.

    A noite no Império era bela quando vista dos pontos certos, mas a estrela que mais parecia destacar-se entre as sombras e luzes da selva de pedra era a recém-formada família daquele casal. Os jovens pareciam não temer que nada no mundo pudesse cruzar seu caminho para detê-los.

    Eles eram distintos de tantas maneiras, e ainda mais controversos eram os relatos sobre a ascensão das suas origens. No entanto, eram estranhamente apegados e profundamente unidos: ele, como o Sol dela, colocava-a sob os holofotes, assegurando que seu brilho recebesse o reconhecimento merecido; ela, como a Lua dele, regulava as marés do caos que era sua vida, ditando o fluxo e contendo as intempéries.

    Assim que se separaram do grupo local para que este pudesse fazer seus preparativos, Alexander e Diana (para completa surpresa dos presentes) não pareceram ter a menor intenção de socializar ou formar relações naquele evento, dirigindo-se diretamente para a porta de acesso à ala das comidas e bebidas.

    O pior de tudo, para os convidados, era que não pareciam portar-se como glutões ou esnobar alguém; eram simplesmente indiferentes aos demais, pois genuinamente não conheciam ninguém com quem já não tivessem falado, e aparentavam estar plenamente satisfeitos com a própria vida para não precisarem de “puxar o saco” dos outros, ao menos não naquela festa.

    Por mais singulares ou excepcionais que fossem, faltava ao casal tanto a habilidade quanto o interesse intrínseco pela frivolidade do jogo político.

    Para além de nunca terem aprendido tal arte na juventude (e não verem a menor necessidade de aprendê-la na vida adulta), ambos eram “especialistas” em sentir intenções e emoções direcionadas a eles, especialmente as maliciosas. Isso tornava cada interação forçada num exercício profundamente cansativo e desagradável.

    Era verdade que ainda havia alguns conhecidos de vista e pretensos associados naquele aniversário. No entanto, como Pauline era a gestora exclusiva daquela parte da Rota da Lua Marítima, tais pessoas não podiam ser consideradas verdadeiros parceiros de negócios, merecendo pouco mais do que um cumprimento breve.

    Aconchegando-se um no outro, o casal aproveitou a brisa fria que circulava pelo amplo salão; refrescando-se nela antes que esta se aquecesse e subisse ao teto alto, devido à diferença de temperatura.

    Uma aura de ternura e cumplicidade emanava do casal enquanto se serviam de um pouco de comida e se acomodavam à mesa, aguardando os novos companheiros de viagem. A tranquilidade, porém, foi quebrada pela atenção dos convidados mais corajosos e curiosos, que se aproximaram para puxar conversa.

    “Forçados” a interagir pelo contexto, a mesa do casal transformou-se em uma espécie de balcão de atendimento: assim que um grupo se levantava, outro imediatamente tomava seu lugar. Felizmente, a maioria dos diálogos era, de fato, interessante para ambos os lados; afinal, embora o casal não fosse proficiente na arte da conversa, isso não significava que os outros nobres não fossem excelentes no jogo social.

    — Minhas saudações ao casal jovem de maior destaque no momento. Não fazem ideia de como foi bom encontrá-los aqui — disse uma mulher elegante e bem-vestida, com quem parecia ser seu marido a tiracolo. Suas palavras eram polidas e fluidas, denunciando familiaridade com a arte da diplomacia. — Não podemos comparar-nos ao seu comprometimento com a difusão do conhecimento, mas a conferência de intercâmbio para a geração mais jovem, que pretendem promover no fim do ano, chamou-nos muito a atenção… Será que poderiam nos falar mais a respeito?

    — Claro. Sente-se — respondeu Diana, solícita, com um sorriso. — Apesar de não ser apenas pelo puro amor ao conhecimento, uma vez que sediar o evento certamente impulsionará nossa região, não queremos dar nem pedir feitiços de outros grupos. O que queremos é debater o como: o cerne mágico elementalista.

    Surpreso com a franqueza da jovem Demi, o casal sentou-se à mesa e ponderou um momento, até que o homem fez a pergunta crucial: — Compreendo a ideia, e ela me parece cada vez mais viável, uma vez que não envolve a partilha de feitiços. Mas qual é, exatamente, o conceito a ser debatido?

    Tamborilando os dedos sobre a mesa enquanto refletia, Alexander passou a explicar com uma demonstração prática: — Eu me estenderia muito se o abordássemos por completo, então vamos nos focar na magia; em particular, nesta bola de água que criei sobre o dedo.

    — Como sabem, tornar-se um Elementalista consiste em transmutar a mana em um nível tão profundo que ela se torna capaz de gerar um evento natural elemental, replicando um fragmento do poder da natureza pela vontade do mago — disse o dragonoid, brincando com a bola d’água antes de envolvê-la com mana e energia, aquecendo-a até que se tornasse apenas vapor. — No entanto, entre esse ponto e as diversas finalidades que cada feitiço pode conceber, existem muitas formas de sentir e exprimir esse poder…

    — O que queremos é debater como tornar esse processo mais natural e acessível, em vez de depender majoritariamente de poder bruto, mana refinada e compreensão instintiva — apontou, fazendo o vapor que vinha contendo espalhar-se pelo ar até se tornar invisível. Tudo isso, apenas para ele erguer o dedo novamente e fazer aquelas e outras gotículas de água suspensas no ar se reunirem, criando uma bola ainda maior. — O poder e o estudo de cada indivíduo importam, mas queremos mostrar que dar significado às sensações únicas de cada um pode não só aumentar o poder do Império, como também fornecer novos pontos de vista…

    — A ideia é semelhante a esta bola de água: ela se espalhou, mas voltou ainda maior, pois trouxe consigo a umidade que já estava nesta sala, mas que nossos olhos não viam — concluiu… Ele então estalou os dedos e a bola de água dissipou-se numa névoa de minúsculas gotículas que, por sua vez, transformaram-se em vapor e se espalharam novamente pelo ar, invisíveis, porém presentes.

    Postos em contemplação, tanto o casal de interlocutores quanto os demais ouvintes à espera de sua vez começaram a compreender a verdadeira vantagem do casal que se revelava diante deles: a idade. Com tudo dito e feito, Alexander e Diana, de modo assustador, ainda tinham pela frente uma longa vida útil de ascensão; tanto de seu poder quanto de sua capacidade cumulativa de conhecimento.

    Assim que o primeiro casal se despediu, após trocar mais algumas palavras, um grupo mercantil pareceu enviar o seu representante. As pessoas que se colocaram diante do jovem casal tinham a postura e o olhar astuto típicos de quem vive das negociações e do comércio.

    — Nossas saudações aos jovens mestres — cumprimentou um homem corpulento de olhar astuto. — Seria muita presunção da minha parte pedir um pouco do seu tempo para conversarmos sobre as rotas comerciais que abriram nos últimos meses?

    — De forma alguma. Sente-se — respondeu Alexander, trocando um olhar divertido com Diana. — No entanto, desde já deixo claro que peço sejam sucintos e diretos em seus pontos, pois, após um certo estágio, torna-se inviável a inclusão artificial de novos membros à rota sem um diferencial significativo.

    — Como desejar, jovem mestre — respondeu o homem com um sorriso. — Pelo que apuramos, a sua relação com um ramo da Lua Negra, via Rota da Lua Marítima, já está bem consolidada, e eles se tornaram seu revendedor primário para os demais territórios além da esfera de contato do Império; essa parte do bolo já está reservada para os devidos associados. Nosso ponto é que ainda restam 4 outros territórios fronteiriços para negociar, dos quais desejamos assumir um.

    — Com todo o respeito, o senhor tem experiência para uma operação desse porte em um território estrangeiro? — perguntou Diana com calma. — Não é uma questão de desmerecê-los, mas uma falha poderia criar dificuldades onde atualmente não existem entraves. Especialmente porque estariam lidando com o Reino dos Anões, visto que os demais territórios são bem mais simples de negociar devido ao nível de especificidade de suas demandas.

    Aturdido e confuso por ela ter assumido a voz do casal naquele assunto (quando claramente fora o noivo quem guiara a formação e expansão das rotas comerciais), o mercador entreolhou-se com seus colegas, como se perguntasse que espécie de jogo aqueles jovens estavam jogando, antes de responder.

    — Eu não vou esconder nem mentir, minha senhora: tenho experiência em negociar em territórios estrangeiros e estou familiarizado com o temperamento direto dos Anões, que consideram a especulação de preços um roubo. No entanto, não posso afirmar que já lidamos com algo nessa escala — admitiu o homem com surpreendente sinceridade. — Fizemos, porém, nossa pesquisa e estamos confiantes em garantir que os seus insumos, pílulas e elixires terão boa aceitação no Reino dos Anões. O mesmo não podemos dizer dos itens de forja e manufaturas, devido ao imenso orgulho nacional que depositam em suas próprias habilidades e tradições.

    — Bom, muito bom. Gostei do seu preparo em conhecer e compreender a cultura local — assentiu a demi-canídea com um sorriso. — A honestidade de um bom mercador deve ser sempre valorizada. Por isso, estamos dispostos a financiar os custos e lhe fornecer pessoal para uma primeira caravana…

    — No entanto, sinto-me obrigada a avisar que o meu dragão particular — disse ela, ao lançar um olhar lateral para o seu companheiro — não gosta muito de lidar com mentirosos ou ladrões.

    O mercador sentiu-se ainda mais estranho ao ouvir aquela resposta, entregue com um sorriso, mesmo recebendo não só uma aprovação, mas um endosso concreto.

    O desconforto foi ainda maior do que se fosse o próprio Alexander falando, pois parecia que era ele quem falava através de sua mulher (algo que simplesmente não combinava com a personalidade conhecida dela). Mal sabiam eles que, naquela mesa, o casal brincava de “imitar” um ao outro, tentando responder como a outra parte o faria… Algo para passar o tempo.

    Obs 1: Contribuição arrecadada para lançamento de capítulo extra: (00,00 R$ / 20,00 R$).

    Obs 2: Chave PIX para quem quiser, e puder, apoiar a novel: 0353fd55-f0ac-45b5-a366-040ecefa7f7b. Caso não consiga copiar a chave pix, é só clicar nela que vai ser gerada uma aba/guia que tem como URL/Link a própria chave pix com algumas barras nas pontas: https://0353fd55-f0ac-45b5-a366-040ecefa7f7b/, e é só retirar a parte excedente.

    Ps: Para finalizar, volto a reiterar que as publicações seguirão normais e recorrentes no ritmo mencionado mesmo que, porventura, haja a publicação de capítulos adicionais.

    Regras dos Comentários:

    • ‣ Seja respeitoso e gentil com os outros leitores.
    • ‣ Evite spoilers do capítulo ou da história.
    • ‣ Comentários ofensivos serão removidos.
    AVALIE ESTE CONTEÚDO
    Avaliação: 100% (7 votos)

    Nota