Índice de Capítulo

    A comoção desencadeada por Alexander como regente foi tão grande que, já no dia seguinte, rumores sobre a nova família baronial e o dragonoid começavam a correr soltos por todo o baronato.

    A situação escalou tanto que o próprio duque Robert entrou em contato com ele em busca de respostas.

    — Você está deliberadamente tentando me causar problemas? — perguntou o duque, incomodado. Ele era uma espécie de fiador dele. — Este não é o meu território. Não posso encobrir todas as suas bagunças.

    — Longe disso. O grupo que expulsei emanava tanta malícia e hostilidade para com minha família que aquilo era quase tangível para mim — respondeu Alexander com frieza, mas muita calma. — Se não tivesse prometido ao senhor que iria me conter, eu teria feito aquelas pessoas desaparecerem em vez de apenas expulsá-las com ameaças.

    Após suspirar para liberar um pouco de sua frustração, Robert passou a entender a situação. — Seu {Talento} parece ser bem problemático de se lidar em situações assim.¹

    — Não sou tão intransigente. Entendo que a ascensão da minha família gerou descontentamento em toda e qualquer liderança local por tomarmos o poder — disse o dragonoid, demonstrando que não era irracional. — Mas a quantidade de malícia/hostilidade que senti por parte deles é inaceitável perto da minha família… Eu não estarei sempre por perto.

    Mais calmo ao ouvir que ao menos havia alguma lógica nas ações dele, o duque emitiu um último suspiro resignado antes de continuar: — Digamos que eu entenda o seu lado. O que pretende fazer agora?… Você não pode simplesmente deixar tudo desgovernado.

    — Pretendo contratar pessoas para substituí-los o mais rápido possível — disse Alexander, como se fosse óbvio. — Se o senhor puder me informar sobre áreas onde novos nobres assumiram o controle — já que eles tendem a ser estúpidos o suficiente para demitir bons administradores por acharem que podem fazer melhor ou para colocar os próprios amigos — eu ficaria muito grato e resolveria isso ainda mais rápido.

    — Mas, voltando ao cerne da sua pergunta, vou manter as coisas funcionando aqui pessoalmente até encontrar alguém para assumir essa função — acrescentou, claramente pouco satisfeito com tal encargo. — Felizmente, não deve haver mais muitos problemas sérios para resolver. Estamos na época das chuvas e logo entraremos no inverno.

    — Como sempre, a sorte parece estar do seu lado, garoto — comentou o diretor Robert, quase como se quisesse vê-lo ter o máximo de trabalho possível como uma pequena vingança. — Este período costuma ser mesmo o mais fácil.

    — Se estivesse mesmo com toda a sorte, eu não precisaria ficar confinado atrás de uma mesa para resolver problemas administrativos que nem são meus — rebateu o dragonoid, como se já estivesse cansado do trabalho que teria. — A minha ideia inicial era manter tudo igual e usar o título apenas como dissuasão.

    — … — Diretor Robert. — Então eu acho que podemos dizer que a conta das confusões que causamos na vida um dia chega… Mas verei o que posso fazer quanto às informações que me pediu.

    — … — Alexander.

    O dragonoid não sabia se o conceito de carma existia naquele mundo, muito menos se era parecido ou verossímil ao da Terra, mas Robert estava claramente aludindo a isso para dizer que ele mesmo atraíra aquela situação para si.

    Após a sua conversa com o duque, foi direto para a mansão do Lorde da cidade.

    Apesar do nome que levava, o local não era necessariamente propriedade do Lorde. Ele poderia até ser transferido de lugar com as devidas burocracias e permissões.

    O imóvel funcionava mais como uma espécie de setor de governo central. Uma prefeitura, por assim dizer.

    Para sua quase surpresa — felizmente para ele e para os exilados — não houve muitas confusões. Saques aos cofres públicos seriam quase “normais” em um cenário como aquele, no qual Alexander apareceu e sumariamente os exilou.

    O medo que a aura de Drayygon causou neles provavelmente foi tão extremo que só pensaram em fugir antes de qualquer outra coisa. Não ousaram fazer nada que pudesse levar aquele “monstro” atrás deles.

    Sem precisar se preocupar com isso, a primeira ação que o “novo regente” tomou ao assumir a gestão da região foi confirmar tudo o que estava sob o baronato. Ordenou aos funcionários restantes que levantassem quanto dinheiro havia em caixa, qual era sua real área de controle e quais pendências ou solicitações ainda existiam.

    Após pontilhar e delinear a área do baronato em seu mapa, bem como tomar nota das populações, o dragonoid confirmou que tinha 2 cidades, 3 vilas, 2 vilarejos e várias áreas agrícolas registradas sob seu comando. Esta era uma área bem maior que qualquer baronato normal, equiparável em extensão a vários viscondados.

    O mais triste de toda essa situação era que, confirmado pela receita em caixa, a área não era particularmente próspera, apesar do seu tamanho. Ela gerava pouco lucro, tendo em conta o seu custo de manutenção.

    Exasperado por ter sido empurrado para tal bomba, mas satisfeito por saber que não havia nenhuma pendência muito importante, traçou algumas soluções para os problemas mais aparentes. Em seguida, levantou-se e foi resolvê-los.

    Embora ambiciosos, os seus planos eram relativamente simples. Ele só elencou 5 aspectos que visavam solucionar tudo o que considerava mais prioritário:

    1º (Ordem): fazer com que as pessoas não só reconheçam sua autoridade, mas também a obedeçam. Se as pessoas não o obedecerem, sua administração estará fadada ao fracasso devido à ineficiência e a interferências externas.

    2º (Segurança): intuitivo e autoexplicativo. O próprio conceito de viver em sociedade gira em torno da segurança. Uma regência que não consegue proporcionar segurança básica satisfatória também está fadada ao fracasso.

    3º (Economia): o ponto que marca a divisão entre aspectos obrigatórios e não obrigatórios, pois já havia recebido a economia da região em uma situação estagnada. Mas, como isso facilitaria sua vida, além de gerar alguns benefícios subsequentes, também iria implementar medidas para valorizar e expandir a economia da sua área.

    4º (Educação, qualificação e desenvolvimento): seguindo de perto o conceito do aspecto acima, estes também não eram setores que ele precisaria obrigatoriamente tocar. Mas, se não os fomentasse, muito provavelmente a economia da sua região estaria sempre dependente de produzir e explorar muitos recursos naturais como commodity — algo não muito viável quando se tenta manter um rendimento consistentemente elevado.

    5º (Saneamento e saúde): como último ponto, se e quando todos os pontos acima fossem implementados, ele poderia começar a implementar medidas públicas para melhorar a vida dos habitantes de sua região. Uma ação para melhorar sua produtividade interna e atrair mais pessoas, gerando mais receita e mão de obra para sua família a longo prazo.

    Tendo bem claro em sua mente o que queria fazer em seu primeiro passo, ele postou uma missão na Guilda dos Aventureiros. A seu comando, a mansão do lorde estaria temporariamente contratando qualquer um que comprovasse proficiência em leitura, escrita e aritmética.

    Sua intenção era ambiciosa: todos os documentos que pudessem ser encontrados relativos aos anos anteriores do baronato seriam organizados, auditados e transcritos em versões mais simples e diretas.

    Ainda não satisfeito apenas com aquilo, Alexander adiantou o pagamento do próprio bolso e fechou um acordo com o mestre da Guilda dos Aventureiros local. Ele mandou registrar absolutamente todos os moradores do baronato.

    Um movimento custoso em que “a baronia”, por intermédio dele, pagaria o dobro do valor que seria cobrado de cada indivíduo. Em troca, a Guilda o ajudaria com as informações dos moradores, além de adicionar algumas marcas que os diferenciassem dos demais aventureiros.

    Apesar de parecer ultrajante, o pedido era de fato concebível. Em alguns lugares do Reino dos Estados Livres, era comum que a identificação de aventureiro fosse usada dessa forma.

    A matriz da Guilda até apoiava isso para elevar sua influência e prestígio.

    Com a situação resolvida com a Guilda dos Aventureiros mediante um generoso adiantamento, o dragonoid foi notificar os líderes das outras cidades, vilas e aldeias de que também deveriam organizar tudo e registrar os seus habitantes o mais rápido possível.

    Incapazes de ir contra a ordem direta de seu superior, especialmente quando este já havia adiantado a maior parte das despesas dos registros, os líderes locais só podiam baixar a cabeça e observá-lo recolher informações dos habitantes.

    Satisfeito com o andamento das coisas, Alexander voltou para passar algum tempo com Diana.

    Ele estava verdadeiramente feliz por ela ter amigas na cidade e por a mãe dela estar grávida. Com todas essas situações, o tempo dele com ela acabou ficando bem reduzido.

    Após fazer uma refeição e passar algum tempo com sua pequena luz e seus familiares, voou novamente — desta vez para o quartel-general dos guardas da cidade.

    Como queria resolver tudo o mais rápido possível, despachou os recrutas para cuidar dos portões da cidade e convocou todos os demais.

    — Vou ser bem claro ao reiterar ou esclarecer para quem ainda não sabe, ou acredita, do que sou capaz — disse o dragonoid depois que todos os guardas se reuniram. — Eu tenho a capacidade de sentir a malícia e a hostilidade em relação a mim e às pessoas próximas a mim.

    — E é por isso que vocês aí têm até amanhã para deixar o território do baronato ou estarão mortos demais para se arrepender — continuou ele com muita frieza ao apontar para alguns guardas. — Também não pensem nem por um segundo que estou “apenas brincando” só porque não usei aquela “aura aterrorizante” que alguns de vocês já devem ter ouvido falar… eu só pensei em usar algo um pouco mais visível para toda a cidade desta vez.

    No momento em que terminou de falar, Alexander ergueu as mãos ao céu em direções opostas. Lançou 2 feitiços |Luzes Elementais| de uma vez, ambos ofensivos.

    Através do seu controle e poder mágico, ambos os conglomerados multicoloridos de mana subiram alto no céu da cidade e causaram enormes explosões.

    Apesar de não causarem danos à cidade em si, os feitiços abalaram todos que estavam próximos, obrigando-os a olhar para o céu, que ficou multicolorido antes de revelar enormes espaços abertos entre as nuvens.

    — … — O silêncio atordoado dos guardas no quartel era quase sufocante.

    — Agora que todos parecem estar prestando muita atenção, deixem-me ser ainda mais claro: eu estou no comando a partir de agora — disse Alexander, inexpressivamente. — Todos vocês têm até amanhã para pôr fim a qualquer esquema, favoritismo ou encobrimento que tenham no baronato; ou partilharão da punição por esses crimes.

    — Qualquer pessoa que não pertença ao núcleo da família do barão desta baronia ou não tenha uma autorização escrita do Imperador, do Duque Marvin, do Barão Dimitri ou minha, deve ser tratada da mesma forma — acrescentou, abrindo um sorriso estranhamente tortuoso. — O novo lema que acabo de instituir para os guardas é: com o devido respeito a cada pessoa, que todos tenham medo… “das leis”.

    — Vocês sabem, embora alguns pareçam querer ignorar, que existem leis e existem regras. Então entendam: a partir de agora, eu farei ambas serem cumpridas — completou, de uma forma que não se permitia ser questionada.

    Vendo os guardas que havia banido finalmente fugirem, bem como os demais engolirem em seco enquanto a hostilidade inconsciente deles aumentava, o dragonoid pareceu ficar satisfeito com a reação que causara.

    Em seguida, ordenou a todos os que restaram que escrevessem em um pedaço de papel em qual dos seus camaradas mais confiariam suas vidas, caso precisassem escolher alguém para falar por eles. Também fez questão de lembrá-los de escolher com sabedoria, pois poderiam realmente precisar da ajuda da pessoa escolhida.

    Após todos fazerem sua escolha e as centenas de papéis serem recolhidas, Alexander pediu que a pessoa com mais tempo de serviço — independentemente de possivelmente ser só o responsável pela água — se apresentasse à frente.

    — Eu sei que acabei enfraquecendo suas fileiras e até expulsando alguns líderes, por isso o nomeio como comandante interino dos guardas por tempo de serviço. A pessoa mais citada entre os nomes nesses papéis será o seu vice, por aclamação — disse ele ao entregar as escolhas dos soldados para o homem de meia-idade que se apresentou ao ser chamado. — Vocês têm este final de mês e o próximo para me provar se têm ou não capacidade para tais cargos…

    — Quanto ao resto de vocês, também têm este mesmo tempo para me provar se merecem essas posições mais do que eles, ajudando-os a manter as tropas e a situação geral da guarda como um todo em ordem — acrescentou em um tom mais neutro. — Mas lembrem-se: não estou lhes dando aval para insubordinação, e eles continuam sendo seus líderes. Se tentarem derrubá-los de forma imprudente e mesquinha, vocês não vão acabar bem.

    Após mostrar-lhes seu “chicote” espinhoso e extremamente brutal, mas também balançar grandes cenouras com bons cargos, Alexander passou o resto da tarde ajudando a resolver alguns pormenores. Depois disso, voltou para casa.

    Tudo o que restava era ver o que aconteceria e fazer as correções necessárias.


    Nota ¹: Lembrando: poucos sabem sobre a real natureza do talento dele. Os demais acreditam/só sabem que ele amplifica os instintos e sentidos dele.

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