Índice de Capítulo

    O teleporte se desfaz como vidro quebrando no ar.

    Ryuji cai em pé desta vez.
    O corpo ainda dói, mas agora a dor é conhecida. Controlável. Ele respira fundo e sente o Sen girando por dentro, espiralando junto da mana, como dois rios prestes a colidir.

    O cenário é um pesadelo esculpido à força.
    O chão parece feito de pedra misturada com carne fossilizada. Colunas de ossos gigantes emergem como dentes de um deus morto. O céu é baixo, pesado, nublado, como se estivesse observando.

    Então… ela se move.

    A Quimera desperta de verdade.

    O corpo colossal se levanta, cada músculo se contraindo como se fosse um terremoto vivo. A cabeça de leão encara Ryuji com olhos dourados, inteligentes demais. A serpente sibila, calculando ângulos. A cabeça de bode começa a concentrar energia, runas arcanas se formando nos chifres.

    Pressão de Sen explode.

    Ryuji ativa a CTD instantaneamente.

    O mundo desacelera.

    Linhas invisíveis surgem diante dos olhos dele — trajetórias, intenções, micro-movimentos. Não é previsão perfeita. É sobrevivência refinada. Ele vê onde vai morrer se errar.

    — Tá… — ele murmura — então é assim.

    A Quimera ataca.

    Ela não corre.
    Ela some.

    A CTD grita.

    Ryuji se joga pro lado no último milésimo. A pata do leão passa onde a cabeça dele estava, rasgando o ar e o chão junto. A arena explode atrás dele.

    Antes que ele se estabilize, a serpente vem.

    Ryuji puxa a Kidou Katana.

    A lâmina se materializa envolta em Sen condensado, vibrando num tom agudo, quase como um grito. Ele gira o corpo e corta.

    CLANG.

    Faíscas. Escamas voam. A serpente recua, ferida, mas viva.

    — Você é rápida… — Ryuji rosna — mas não é inevitável.

    A cabeça de bode termina a conjuração.

    Um feixe mágico bruto explode da boca da criatura — energia caótica, fogo, pressão arcana misturada. Não é Hadou. É magia pura.

    Ryuji finca os pés no chão e cruza a katana na frente do corpo. O Sen explode ao redor dele, criando uma barreira improvisada. Mesmo assim, o impacto o arrasta dezenas de metros. A pele queima. O ombro estala.

    Ele cai de joelhos.

    O Sistema tenta alertar sobre danos críticos.
    Ele ignora.

    A CTD ativa de novo.

    Ele vê.
    Um ponto. Um instante. Uma abertura microscópica entre os ataques coordenados das três cabeças.

    — É agora… ou acabou.

    Ryuji abre a mão esquerda.

    A Magia de Raios responde.

    O céu da arena se rasga. Nuvens negras se formam em segundos, girando como um vórtice. Raios começam a cair ao redor dele, não aleatórios — obedientes.

    Ele avança.

    A Quimera tenta esmagá-lo com o corpo inteiro. Ryuji desliza por baixo, usando a agilidade no limite, corta o tendão da perna traseira com a Kidou Katana. O monstro ruge.

    A serpente ataca por trás.

    Morde.

    Os dentes perfuram a coxa.

    Ryuji sente o veneno entrar… e morrer.

    A passiva age.

    — Fraca.

    Ele gira o corpo e enfia a katana direto no crânio da serpente. Um raio desce junto, amplificando o golpe. A cabeça explode em energia e carne.

    A Quimera enlouquece.

    A cabeça de leão morde Ryuji no ar, pega o tronco dele inteiro. Ossos rangem. O mundo some por um segundo.

    Dentro da boca da criatura, Ryuji sorri.

    Sangue escorre do canto da boca dele.

    — Você acabou de errar.

    Ele enfia a mão livre garganta abaixo.

    A mana explode.
    O Sen converge.
    A Magia de Raios entra em sobrecarga.

    DESCE.

    O raio não cai do céu.

    Ele nasce de dentro.

    A cabeça do leão é destruída num clarão branco-azulado que transforma a arena em dia. A onda de choque arremessa o corpo colossal da Quimera para trás, rasgando asas, quebrando colunas, destruindo tudo.

    A criatura cai.

    O corpo começa a se desfazer em partículas douradas.

    Silêncio.

    Ryuji cai de joelhos, depois de costas. O peito sobe e desce rápido. Cada músculo treme. Mas ele tá vivo.

    O Sistema finalmente fala.

    [Prova do Trono Concluída]
    Ameaça: Quimera — ELIMINADA

    Recompensas:

    • +16 pontos em TODOS os atributos
    • +10.000 Fichas do Rei
    • Subida de Nível x2

    Nível Atual: 3

    Bônus de Nível Aplicado:

    • +50 pontos em TODOS os atributos

    O corpo dele muda.

    Não é visual.
    É estrutural.

    O Sen flui mais pesado. A mana responde mais rápido. A CTD fica mais silenciosa — mais eficiente. A Kidou Katana vibra, reconhecendo o crescimento.

    Ryuji se levanta devagar.

    — Se isso foi uma Quimera… — ele olha pro vazio — então o resto do mundo tá muito atrasado.

    O Sistema não responde.

    Mas o Trono…
    definitivamente percebeu.

    O silêncio depois da vitória pesa mais que a luta.

    Ryuji fica parado, encarando as próprias mãos. Ainda tem sangue seco nos dedos. Ainda sente o eco da Quimera morrendo dentro do peito. E mesmo assim… algo não encaixa.

    — Isso não faz sentido.

    Ele fecha os olhos. A memória vem sem pedir licença.
    Antes de morrer… ele era um monstro.
    Mais forte que Kaede e Ayumi juntos. Não era disputa. Era fato.

    E agora?

    — Sistema — a voz dele ecoa no vazio do subconsciente — como eu virei Rank C?

    A pergunta sai sem raiva. Sai cansada. Pesada.

    O Sistema responde, frio como sempre, direto no osso.

    [Resposta Confirmada]
    Após sua morte e ressurreição, você perdeu dois terços da sua força total.

    O mundo dá uma leve inclinada.

    Ryuji abre os olhos devagar.

    — …Dois terços?

    O peito aperta. Não é choque. É compreensão tardia. Tudo começa a fazer sentido: a dificuldade absurda, a sensação constante de estar “atrasado”, o corpo pedindo mais do que entregava.

    — Então… — ele respira fundo — eu já recuperei isso?

    Silêncio por meio segundo.
    O suficiente pra doer.

    [Negativo.]
    Você recuperou apenas um terço da sua força original.

    Ryuji solta uma risada curta, sem humor.

    — Então isso tudo… — ele olha ao redor, lembra da Quimera, dos magos, dos basiliscos — …foi só o aquecimento?

    O Sistema não provoca. Só confirma.

    Ele passa a mão pelo rosto. O cabelo cai nos olhos. A expressão muda. Não é desespero. É foco frio. Aquele olhar que não pede permissão ao mundo.

    — Me mostra meus atributos atuais.

    Os números surgem, flutuando como sentenças gravadas no ar.

    [Atributos Atuais]

    Força: 296

    Resistência: 296

    Agilidade: 291

    Percepção: 291

    Controle de Sen: 291

    Vontade: 291

    Inteligência: 291

    Magia: 291

    Vitalidade: 2910

    Mana: 2910

    Ryuji observa tudo em silêncio.

    Quase 300 em tudo…
    E ainda assim, só um terço.

    — …Beleza — ele murmura — então quando eu recuperar tudo…

    Ele não termina a frase.
    Não precisa.

    — Quanto dinheiro eu tenho agora?

    [Fichas do Rei: 14.000]

    Um sorriso torto surge no rosto dele. Pequeno. Perigoso.

    — Então é isso. Eu não fiquei fraco. — Ele ergue a cabeça, o olhar firme como aço recém-forjado. — Eu fui resetado.

    O Sistema permanece quieto.

    Ryuji dá um passo à frente, sentindo o Sen e a mana se alinharem dentro do corpo como engrenagens finalmente no ritmo certo.

    — E dessa vez… — ele diz, voz baixa, quase um juramento — eu vou passar do que eu era.

    Não pra ser herói.
    Não pra salvar ninguém.

    Mas pelo motivo que agora…o jogo é só dele.

    O vazio do subconsciente começa a rachar.

    As telas somem. Os números se apagam. O peso da batalha dá lugar a outro tipo de pressão — mais cotidiana, mais humana… e igualmente irritante.

    Ryuji estala o pescoço.

    — Sistema. Próximo desafio.

    A resposta vem rápido demais. Rápido demais.

    [Aviso do Sistema]
    Desafio indisponível no momento.

    Ryuji franze a testa.

    — Como assim indisponível? Eu acabei de…

    Antes que termine, outra mensagem surge, maior, piscando em vermelho discreto.

    [Interferência Externa Detectada]
    Seus aliados estão há 4 horas tentando acessar seu quarto.

    Ryuji pisca.

    — …Quê?

    O Sistema, impassível:

    Kaede Shizuma.
    Naki Senrou.
    Genjiro Okabe.
    Tsubasa Hayashi.

    Status:
    Bater na porta.
    Gritar seu nome.
    Ameaçar arrombar.
    Repetir o ciclo.

    Ryuji passa a mão no rosto devagar.

    — Quatro horas…?

    [Confirmação.]
    Você permanece isolado há aproximadamente 26 horas no tempo real.

    Silêncio.

    Então…

    — Puta merda.

    Ele olha ao redor, frustrado, como se pudesse discutir com o conceito de tempo.

    — Eu tava entrando no ritmo agora.

    [Recomendação do Sistema]
    Saia do quarto imediatamente.
    Probabilidade de dano estrutural: 63%.
    Probabilidade de dano social irreversível: 41%.

    Ryuji solta uma risada nasal.

    — “Dano social irreversível” é foda.

    Do mundo real, mesmo abafado, o som atravessa o subconsciente.

    RYUJI! — a voz de Naki ecoa — SE VOCÊ TIVER MORTO AÍ DENTRO EU JURO QUE EU TE MATO!

    — Isso nem faz sentido… — Ryuji murmura.

    Logo depois, a voz mais controlada de Kaede, claramente tentando ser racional:

    — Ryuji, abre a porta. Agora. Ou eu vou considerar isso um ato hostil.

    Um thump pesado na madeira.

    Genjiro:

    — EU AVISEI QUE ERA MÁ IDEIA DEIXAR ELE SOZINHO!

    Tsubasa, mais contido, mas igualmente tenso:

    — …Isso já passou do normal.

    Ryuji fecha os olhos, respirando fundo. A irritação sobe, mas não vira raiva. Vira aquele cansaço típico de quem queria grindar mais uma dungeon e foi puxado pra realidade à força.

    — Sistema… depois a gente continua.

    [Registro Confirmado.]
    Treinamento pausado.
    Desafios aguardando.

    Ele sente o mundo real puxando de volta. O chão sólido. O corpo pesado. As dores voltam todas de uma vez.

    Ryuji se levanta da cama com um gemido baixo.

    — Quatro horas… — ele resmunga — esses caras não têm vida, não?

    A porta treme com mais um impacto.

    ABRE LOGO! — Naki grita.

    Ryuji caminha até a porta, passa a mão no trinco… e para por um segundo.

    — …Tô ferrado.

    Ele abre.

    Quatro pares de olhos o atravessam como se fossem julgá-lo ali mesmo.

    Silêncio absoluto por meio segundo.

    Aí Naki explode:

    ONDE TU SE METEU, SEU FILHO DA—

    Ryuji ergue a mão, expressão neutra, voz cansada:

    — Depois eu explico.

    Kaede o encara de cima a baixo, analisando cada detalhe, como se sentisse que algo ali estava… errado.

    — Você sumiu por um dia inteiro — ele diz, sério. — E agora tá com essa cara.

    Genjiro cruza os braços.

    — Cara de quem foi atropelado por um caminhão invisível.

    Tsubasa completa, seco:

    — Ou por dez.

    Ryuji coça a nuca, meio irritado, meio sem paciência.

    — Relaxa. Eu só… tava treinando.

    Silêncio.

    Naki inclina a cabeça.

    — Trancado. Sozinho. Por um dia inteiro.

    — É.

    — Sem comer.

    — Talvez.

    — Sem responder ninguém.

    — Provavelmente.

    Kaede suspira fundo.

    — Ryuji… isso não é normal.

    Ryuji olha pra eles. Amigos. Companheiros. Âncoras no mundo real.

    Por um instante, o olhar frio do “jogador” some. Só por um instante.

    — Eu sei — ele diz. — Mas confia em mim.

    Do fundo da mente, a voz do Sistema sussurra, quase irônica:

    [Aviso]
    Modo Social: Ativado à força.

    Ryuji fecha os olhos.

    — …Odeio quando você tem razão.

    E assim, entre risos nervosos, tensão no ar e um monte de coisas não ditas, o jogo pausa.

    Só por agora.

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