Capítulo 46 - Um Lado Assustador!
O envelope desta vez está bem pesado; pelo visto, há uma enorme quantidade de papel.
Fico bastante curioso para saber exatamente o que eles estão fazendo. Esconderem-se assim e me usarem como entregador é muito estranho e suspeito.
Minha maior preocupação é: se alguém me pegar fazendo isso, qual será minha desculpa? Não duvido nada que o Okawara negue tudo e ainda me acuse de algo.
Por esse motivo, preciso ser muito cauteloso, olhar para todos os lados e ficar sempre alerta.
Cheguei ao local da entrega, o mesmo de antes. Assim como naquela vez, não há ninguém por perto, o que facilita a entrega.
Porém, não é noite, mas o céu está entardecendo, e o sol está à beira de se pôr, dando lugar à lua.
Nesse caso, vou ter que esperar mais um pouco até a Emi Satoru chegar.
Eu não tinha pensado nisso, mas conheci duas Emi: a Satoru e a Emi, colega da Abe.
E falando da Abe, será que o plano que o Sasori criou vai dar certo? Estou contando muito com isso; se funcionar, talvez elas parem de mexer com a Itsuki, e assim ela ficará bem mais livre.
Depois de um tempo, a noite chegou. Me arrependi de ter vindo tão cedo. Na verdade, por que o Okawara pediu para que eu viesse cedo? Ela só iria pegar isso à noite.
Nesse tempo ocioso, não fiz nada, apenas fiquei sentado dando voltas no banco, chutando folhas caídas no chão.
Meu relógio marcava cinco minutos para as oito da noite, porém não sei o horário em que ela virá.
— Droga, Okawara… nada para fazer! — murmurei em tom alto.
O estranho é que, até agora, nesse tempo, não vi sequer um aluno passando por aqui, nem zelador nem segurança, o que torna tudo muito estranho. Na verdade, dá um pouco de medo ver um lugar tão solitário, com sons apenas das árvores balançando seus galhos por conta do vento seco.
Meu corpo fica tenso a cada estalo de galho. Qualquer barulho parecia perto de mais.
Já cansei de dizer isso, mas tudo nesse lugar é muito estranho; em cada canto que vou tem algo estranho. Mas não vou esquecer do som elétrico que escutei em bom som num ambiente calmo.
Algo dentro de mim pede para eu voltar e investigar aquele local para ver o que encontro, e aceito esse desejo de boa vontade.
Enquanto pensava, um som surgiu no meio dos galhos. Da mesma forma que na primeira vez, apareceu a Emi, mas desta vez usando roupa formal, e não misteriosa como antes.
— Olá, Yuki! Como está? — indagou Emi.
— Bem, estou bem, senhora Emi, e você?
— Eu estou bem, gentil da sua parte perguntar isso!
— Hehe, é educação e preocupação, né? — comentei, enquanto ria tímido.
— Sim, isso mesmo, bom garoto! Mas você tem certeza que está bem? Você quase morreu afogado e ainda machucou sua perna, não foi?
Como ela sabe disso? Até onde sei, só o Arushi sabe que quase morri afogado, e a enfermeira Pink que cuidou do meu machucado.
— Bem, foi isso mesmo… mas como você sabe?
— Ora, não é pergunta que se faça para uma pessoa que está preocupada com você, não é mesmo? — disse ela, de forma educada.
— Sim, sim, eu sei, é que… ah…
Fiquei sem reação; ela me pegou e me amarrou no banco com suas palavras. Surreal.
— Enfim, pode me entregar o que o Okawara lhe deu? — disse ela, apontando para o envelope na minha mão esquerda.
— Ah, sim, sim! Aqui está! — disse, entregando em sua mão.
Ela pegou o envelope e olhou seu conteúdo por dentro.
— Interessante… — disse Emi em um tom baixo.
— O que é interessante?
— Hmm, nada demais! Enfim, aqui está uma pequena recompensa pelos seus serviços.
Emi retirou de seu bolso algumas notas de pontos de compra.
Os pontos de compra têm dois tipos de formato: em notas de papel e digital.
Porém, os de nota não contabilizam no sistema, logo não tem como ninguém saber que você teve aqueles pontos de compra em tal dia ou quem te deu.
— É… para mim mesmo? Posso ficar?
— Pode sim! Mas não conte a ninguém que eu te dei, certo?
— Certo!
A senhora Emi é realmente muito atenciosa.
Depois daquele ocorrido na loja dela, pensei que tinha feito algo horrível com uma senhora de idade, mas vendo ela agir dessa forma agora me tranquiliza.
Ela voltou para os arbustos sinistros, e eu fiquei olhando a nota na minha mão, virei para os lados para ter certeza que não havia ninguém olhando, mas dentro de mim queria muito seguir a Emi; estava chamativo.
Os arbustos mexendo e o som das folhas sendo movidas para direções diferentes era como se o arbusto me chamasse para aquela direção também.
Mas não, tenho que voltar para casa.
Segui meu caminho de volta, pensando no que poderia fazer com esses pontos de compra. Acho que vou comprar um presente para meus amigos.
Uma coisa que percebi nesses dias é que não estou mais sentindo aquela sensação estranha de perseguição; o homem do capuz azul também faz tempo que não aparece, isso me deixa preocupado, assim como não vejo mais aquele homem que me viu no sótão do prédio escolar.
Não sei dizer se isso é bom ou ruim. Eu deveria estar andando sozinho numa hora dessas? Mesmo com algumas crianças ainda aqui na rua, não sei o que poderia acontecer.
Cheguei em segurança no dormitório. Passando pela entrada, só vejo o porteiro me encarando enquanto eu ia para o elevador, aquela cara de tacho dele como se estivesse me ameaçando sem palavras. Eu engoli seco e dei um joinha para ele; como se não bastasse, dei um sorriso sem graça, mas ele fechou ainda mais o rosto.
Ele definitivamente não gosta de mim.
Fui para meu quarto, fiz minhas necessidades como banho, comer lámen e escovar os dentes, deitei na cama cansado de mais um dia. Fechei meus olhos e com pouco tempo encontrei o sono.
…
Barulho de água? Tudo escuro ao meu redor, estou de olhos fechados?
O quê? O que é isso? Eu… eu estou na água? Meus olhos se abriram aos poucos e o que vejo é as profundezas se aproximando de mim, estou tendo um pesadelo dessa vez?
Será que é porque quase morri afogado naquele dia, e agora meu cérebro está tentando replicar aquela sensação?
Só sei que estou afundando dentro da água, sem resistir, sem tentar nadar para cima…
Por qual motivo isso está acontecendo, como se eu quisesse afundar.
Esse pesadelo está me assustando, eu quero sair daqui, acorda, Yuki…
Acorda, Yuki!!
ACORDA, YUKI!
ACORDAAAAA!
Espera, agora estou subindo, mas é alguém que está me puxando, consigo ver o braço dela em torno da minha barriga.
O fundo está se distanciando, não estou mais afundando, esse som agoniante das profundezas da água está cada vez mais longe, o que era escuro agora está ficando claro, estou me aproximando da superfície.
Minha visão agora está ficando completamente escura, estou fechando os olhos provavelmente?
— Ahh… tô na água? Onde tô?? Ah, tô no meu quarto… que pesadelo foi esse, meu Deus.
Isso foi surreal, talvez pode ser alguma lembrança daquele dia que o Arushi me ajudou misturado com o que o cérebro criou; o resultado foi esse pesadelo?
Eu com certeza vou comprar um presente para meus amigos hoje, principalmente para o Arushi; se não fosse ele, eu nem estaria aqui tendo esse pesadelo.
Vou passar no mercado depois da aula com a Itsuki para comprar os presentes.
— Ah…uffa! Que alivio…
Me estiquei na cama aliviado que era tudo um pesadelo.
Me arrumei e fiz o que tinha que fazer de manhã, e parti para a aula do Okawara.
No caminho até o prédio dos professores, estou usando uma roupa mais leve do que o comum, um short e uma camisa suave, o sol está enorme e sem nuvens para escondê-lo fazendo tudo aqui ficar um calor imenso.
Mas enquanto caminhava, percebi que no sul, onde fica o prédio escolar, tem uma enorme nuvem escura, chovendo e relampeando, um clima diferente daqui sendo que estamos no mesmo lugar, deve ser estranho sair de um sol quente desse e entrar numa chuva forte em menos de 1 minuto.
Assim que cheguei no prédio dos professores fui direto para a sala de aula do Okawara.
— E aí, moleque, como foi a entrega ontem, sucesso? — perguntou Okawara assim que entrei na sala.
— Eita, mas já? Mal entrei na sala e nem me deu bom dia, que desagradável.
— Tanto faz, aqui não tem que ser agradável, aliás, não estamos no parque, mas em uma prisão chamada escola.
— Você tem razão, finalmente certo em uma coisa! Mas sim, foi um sucesso!
Okawara, desta vez, está com um terno preto e gravata borboleta verde, e usando um óculos com alça vermelho sangue.
— Que ótimo! O mínimo pelo menos você faz! — disse ele, tirando seus óculos.
— Nossa, obrigado… eu acho!
Okawara começou a dar aula de química desta vez, uma matéria que acho bem interessante, poder fazer um gás mortal, até uma poção forte a ponto de derreter metal, isso com certeza só se vê nos mangás que lia na minha casa.
O tempo passava, e resolvi interromper o professor com uma pergunta que me incomoda há um tempo.
— Ei, professor Okawara… posso fazer uma pergunta?
— É sobre a matéria?
— Bem… não?
— Então não! Continuando o que eu estava dizendo… — disse ele, se virando para o quadro novamente.
— O que você e a Emi estão querendo fazer? — indaguei, sem cerimônia.
Ele rapidamente se virou para mim, com uma expressão maníaca.
— Eu não falei que era para você, em momento algum, independente do momento e circunstâncias, não falar sobre isso abertamente em qualquer lugar? Por que diabos está falando agora? — disse ele, em tom grosseiro.
— Ah… eu… me desculpa, professor!! Eu não vou mais falar e nem perguntar sobre isso, prometo!
— Agora que falou não adianta mais, quebrou o que você prometeu, você não é confiável para manter promessas? É isso mesmo? — disse ele, se aproximando de mim.
Eu levantei da cadeira, assustado e pressionado com a situação.
— Não é claro que não! Eu sou confiável, só estou curioso com isso, pois quero ajudar você com o que for preciso, mas queria saber o que está acontecendo.
— Você não precisa saber o que está acontecendo, só precisa entregar o que eu peço e só! Sem perguntas e sem falar sobre, entendeu? É coisa simples que nem isso você consegue fazer?
Okawara estava na minha frente me pressionando a andar para trás, mas eu continuava parado em sua frente, sem me mexer.
— Eu entendi, isso não vai se repetir, nunca mais, professor! Você tem minha palavra!
— Assim como eu tinha até dois minutos atrás?
— Eu só estava curioso, mas agora entendi completamente que não posso nem ficar curioso sobre isso, então por isso tenho certeza que não vai se repetir!
Ver o Okawara na minha frente, um cara de quase dois metros de altura, me encarar e me pressionar dessa forma é uma sensação surreal, amedrontadora. Eu estava até suando enquanto olhava para cima, para seu rosto enfurecido.
Não está calor nem quente na sala, mas a sensação é de tanto calor que meu corpo está clamando por um ar frio, eu clamo por um ar fresco para respirar.
— Espero que não se repita novamente, entendeu? Moleque? — disse ele, cutucando minha testa.
— Entendi!
Okawara se virou e voltou para sua mesa, eu fiz o mesmo após soltar todo o ar que estava preso dentro de mim; foi uma sensação de liberdade.
Voltei para minha mesa rapidamente.
A aula continuou depois disso, ele voltou ao seu estado normal e agia como se nada tivesse acontecido.
Não tinha visto esse lado tão assustador do Okawara ainda, realmente parecia que ele estava com os olhos vermelhos cor de sangue e dentes afiados prontos para arrancar cada pedacinho da minha alma.
Preciso entender que ele não é meu colega, então não posso falar qualquer coisa com ele.
Assim que a aula acabou, Okawara sentou em sua cadeira e nem olhou para minha cara, nem disse mais nada.
Me levantei, deixando o tablet em cima da mesa, e fui embora sem dizer nada para ele também. Só espero que esse clima não fique assim por muito tempo.
Por agora, vou até o quarto da Ayumi para chamar a Itsuki.
Mas, na hora de virar o corredor, dei de cara com ela.
— Ah… Itsuki… quase que nossos lábios se encontram de tão perto que esbarramos. — comentei sorrindo.
— O-quê? Eh… quase… — disse ela, com as mãos nas bochechas.
— Que foi? Suas bochechas estão doendo? Está com a mão em cima delas, e olha, estão até vermelhas!
— Não… não é nada! Não precisa se preocupar! Éh… onde você estava indo?
— Ora, obviamente estava indo te chamar, hehe!
— Me chamar? Você ia encontrar com a Ayumi?
— Sim, ia falar na cara dela, “cadê a minha amiga Itsuki?”
— Sei, você teria a coragem suficiente para falar assim com ela em frente ao quarto dela? — indagou Itsuki, com um sorriso travesso no rosto e suas bochechas coradas.
— Com certeza! Não tenho medo dela, minha cara amiga!
— Uhum, então tá bom, meu herói corajoso, hihi.
— Sou mesmo! Aliás, minha princesa, um dia irei tirar você dessa torre e livrar você dessa sua maldição, tá bom? — disse, me abaixando e erguendo minha mão para ela.
— Eu esperarei, meu amado ogro verde! Esperarei até esse dia tão, tão distante! Mas cadê seu amigo burro? — disse ela, segurando minha mão erguida.
Ergui meu corpo ao normal enquanto sorria.
Esse tipo de brincadeira eu não podia fazer quando estava sozinho em casa, e com meus amigos fico com vergonha, mas com a Itsuki me sinto livre, até porque ela responde minhas brincadeiras com as dela.
— Hehe! Não se preocupe, princesa, o burro está vindo com o dragão fêmea dele para nos levar embora algum dia!
— Então esperarei esse dia.
Olhei para ela e comecei a rir; ela também fez o mesmo.
— Você é muito bobo, Yuki.
— Sou mesmo, você acha isso ruim?
— Claro que não, bobinho, você me faz rir, me deixa feliz. Logo eu que… enfim, para onde iremos hoje?
— Bom, vamos para o mercado, quero comprar um presente para meus amigos e para você, vamos?
— Presente? Para mim?? Aaaa, quero sim!! Vamos logo, vamos logo! — disse ela, completamente animada, com os olhos vibrantes e um sorriso enorme no rosto.
Seus olhos pareciam até ter uma estrela dourada no meio dessa cor azul oceano.
— Vamos, haha!
Ela segurou firme minha mão direita e começou a andar na frente, completamente animada.
Mas fiquei curioso e preocupado com uma coisa: algumas frases atrás, ela por um momento recuou, queria dizer algo, mas preferiu cortar. O que ela queria dizer com “logo eu que…” Logo ela o quê?
Essa garota tem certos pontos sujos no coração que precisam ser limpos.
Seguimos adiante até o mercado central, conhecido como shopping!

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