Índice de Capítulo

    Desde que voltei do intervalo, não consegui prestar atenção na aula da Ayumi, pois fiquei pensando no sonho que tive e, agora, no que aconteceu com a Itsuki; eu a deixei triste.

    Por que fiquei em dúvida entre ficar com ela ou deixá-la sozinha na mesa? Eu deveria ter ficado com ela.

    O assunto entre as irmãs Yagame deveria ter sido tratado depois da aula, até porque eu estava no intervalo.

    Agora ela nem sequer está na sala; a professora Ayumi certamente pediu para que ela não voltasse depois do que aconteceu.

    — O sinal tocou, infelizmente a aula de hoje terminou. Podem ir, deixem os tablets na gaveta debaixo da mesa, por favor, desligados, obviamente!

    Todos na sala se levantaram e começaram a sair.

    Disse para a Aikyo que não demoraria para estar no local da investigação, mas, infelizmente, preciso procurar a Itsuki.

    — Professora Ayumi, onde está a Itsuki?

    O quadro não tinha nada escrito; depois do intervalo, ela usou uma tecnologia que refletia a tela do dispositivo dela em uma tela branca para dar a aula.

    Ayumi estava fechando a tela branca, nem sequer olhou para mim ou me respondeu.

    — Professora…?

    — O que você quer?

    Ela cruzou os braços e ficou me encarando, parada, de costas para o quadro, na minha frente.

    — Eu… quero saber onde a Itsuki… está!?

    Ela se aproximou de mim, abaixou o corpo até ficar na minha altura; pude sentir sua respiração, o calor do seu corpo.

    — E por qual motivo você quer saber onde ela está?

    A maneira como ela me observava, a forma como agia, estava me deixando ansioso.

    Além disso, não havia mais nenhum aluno na sala, apenas eu e ela. O silêncio era tão brando que até o som de eu engolir seco estava alto.

    — É porque quero falar com ela… eu preciso falar com ela.

    — Você não precisa falar com ela, e você não quer isso! A única coisa que você quer neste momento é ir para seus afazeres fora da escola e ficar longe… longe da Itsuki!

    Não sei por que, mas começou a escorrer suor pela minha testa; o calor dela perto de mim, essa tensão que ela passa, está me fazendo suar.

    — Na verdade, professora Ayumi, eu não quero ficar longe dela, então desculpe… o mal-entendido. Eu quero e vou ficar ao lado dela, espero que você… não esqueça disso.

    Saí calmamente de perto dela enquanto ela fazia uma cara de tacho para mim.

    Já que ela não vai falar onde a Itsuki está, vou ter que procurá-la no prédio dos professores.

    Ou talvez não, se bem que a Ayumi não deixaria ela ir sozinha para o prédio dos professores, então ela deve estar aqui ainda.

    Minha opção seria esperar a Ayumi sair da sala e segui-la; talvez onde ela for, a Itsuki possa estar também.

    Ou ir embora e não falar nada? Talvez o silêncio de agora seria melhor, e amanhã, com a mente mais calma, poder conversar.

    — Fique! — disse a voz na minha cabeça.

    Sim… melhor eu ficar e conversar com ela.

    — Yuki? Você não vai embora, não?

    Me virei na direção da voz; era o Arushi.

    — Ah, oi Arushi. Você ainda não foi embora.

    — Não, eu estava na sala de aula ainda, conversando com o professor. Mas agora estou indo para o debate entre os candidatos a presidente do conselho. Preciso estudar uma forma de conseguir a chave do sótão.

    Arushi estava com uma expressão séria no rosto, realmente focado em me ajudar a entrar no sótão.

    — Entendi, vai ser uma tarefa bem difícil, né? Conseguir a chave da Abe, até mesmo entrar no sótão. Vamos nos arriscar muito com isso.

    — Sim, mas não se preocupe, eu vou resolver isso para nós; tenho uns contatos que podem nos ajudar.

    Ele disse em um tom de confiança.

    Arushi é um cara incrível, tem até mais pessoas ao seu lado para ajudar.

    — Tá bom, mas conte comigo também, e com nosso pessoal de Chiheisen; vamos todos ajudar, certo?

    — Certo, também faço parte do grupo; vamos todos nos ajudar!

    Ele estendeu a mão para um soquinho e um sorriso no rosto; cumprimentei ele dando um soquinho.

    — Aliás, Arushi, você viu a Itsuki por aí?

    — Itsuki… a menina que anda com você de cabelo vermelho, né? Eu a vi depois do intervalo indo fazer os exames de Rank Azul.

    — Exames de Rank Azul?

    — Sim, esqueceu já? Quem tem olhos azuis tem que fazer esses exames semanais no laboratório subterrâneo no prédio dos professores.

    Eu havia me esquecido desse detalhe; será que a Ayumi foi buscar ela para esses tais exames e não porque eu estava perto?

    — Hehe… tinha me esquecido mesmo, mas o que acontece nesses exames?

    — Isso eu, infelizmente, ficarei te devendo; não sei o que acontece, pois nunca fui a um desses exames.

    — Mas nenhum Rank Azul fez um relato sobre? — indaguei, enquanto caminhava lado a lado do Arushi.

    — Não, na verdade nem tem como eles falarem, pois, ao que parece, os exames são feitos enquanto eles estão em sono profundo.

    Olhei para Arushi com um olhar assustado e perplexo.

    — Q-quê? Como assim… sono?

    — Não sei explicar bem, mas é um remédio que dão para a gente dormir e não sentir dor; deve ser algo bem forte e delicado — disse Arushi, passando a mão na parede como se estivesse verificando se havia pó nela.

    — Meu Deus… que coisa estranha. E se, enquanto estivermos nesse sono, alguém quiser machucar a gente? Não vamos acordar?

    Arushi balançou a cabeça, negando o que havia perguntado.

    — Infelizmente, se não for algo muito grave, só vamos saber ao acordar depois de algumas horas. Tirando isso, ou nunca mais abre os olhos, ou abre e está tudo bem. Mas, até hoje, sempre está bem com quem acorda.

    — Entendi. Mas isso dá medo, sei lá.

    Coloquei minhas mãos entre os bolsos da calça; enquanto isso, Arushi dava umas palminhas leves no meu ombro para me acalmar.

    — Eu sei, isso com certeza deve deixar você incomodado, se tem a ver com o que te aconteceu ano passado. Mas não se preocupe, aqui pode confiar nos médicos, certo?

    — Arushi…?

    Olhei para ele, e havia um sorriso sincero em seu rosto; então acenei com a cabeça também, com um sorriso no rosto.

    Eu não estou incomodado com isso; na verdade, o que me incomoda é que algo estranho está acontecendo neste lugar, desde que comecei a fazer as entregas para o Okawara escondido.

    E agora, com o que aconteceu com o Satoru… só aumenta o desconforto.

    Estávamos caminhando em direção às escadas no fim do corredor. Não havia brilho do sol, nem janelas para passar um vento, mas, pelo menos, era refrescante; se não fosse, íamos passar mal com esse uniforme pesado.

    O cheiro de chocolate transbordando pelo corredor dava uma sensação doce; será que é um produto de limpeza ou estão fazendo chocolate em algum lugar?

    — Você vai para o debate também, Yuki? Ou vai esperar a Itsuki? Porque, se for esperar, a Ayumi já está fazendo isso; ela sempre acompanha os exames.

    — Que estranho, né? É difícil decifrar o relacionamento das duas.

    — Pois é, Ayumi é muito rígida com a Itsuki, mas, ao mesmo tempo, parece se importar com ela; mas, no fim, é grosseira do mesmo jeito.

    — Sim… por isso que quero ficar ao lado dela, para amenizar um pouco o que ela passa — disse, com um tom melancólico.

    — Mas então, Yuki, você vai ver o Satoru no debate? Ela vai ficar feliz de ver você lá.

    — Eu sei, já não fui nos outros debates que teve, né? Mas acho que vou ficar devendo hoje também.

    Arushi olhou de canto para mim.

    — Entendo… na próxima você tenta ir, então, certo?

    Acenei com a cabeça.

    Arushi tocou em meu ombro, com uma expressão carismática.

    — Você está indo para onde, então? Vai voltar para o dormitório? — indagou Arushi.

    Não podia dizer ao Arushi para onde estava indo; mesmo que seja meu amigo, se não contei para a Itsuki, logo não contarei para ele também, me perdoe, Arushi…

    — Eu acho que vou andar por aí, olhar as passagens, as estátuas de anjos ou talvez ir para a cachoeira — disse, olhando para o teto enquanto descia as escadas.

    — Legal, andar é bom, ajuda a liberar a criatividade; bom que você pensa em algum outro plano para recuperar a chave da Abe caso o meu não funcionar.

    — Certo, aliás, você conversou com os seus contatos para ajudar você? Tinha dito antes que iria fazer isso.

    Arushi negou com a cabeça.

    — Ainda preciso montar uma reunião com eles; por enquanto, relaxa, ainda terá muitos debates pela frente que possamos aproveitar… hehe — disse Arushi, bagunçando meu cabelo com sua mão direita enquanto sorria.

    Acenei com a cabeça para ele.

    Após isso, fui para o caminho oposto do Arushi, tomei todos os cuidados para ele não ver que eu estava indo na direção das piscinas.

    Durante o caminho, a única coisa que pensei foi no objeto que vi caindo no meu sonho, o objeto que a Itsuki deixou cair.

    Meu medo é que, se eu for até o local e encontrar realmente esse objeto,

    isso vai significar que foi realmente ela que me empurrou?

    Não estou preparado para isso.

    Os passos que eu dava estavam ficando pesados, assim como o ar que eu respirava, pesando meus pulmões.

    O ambiente parecia estar mexendo comigo, me testando, pois, do nada, começou a ficar quente e sem nuvens no céu.

    Um silêncio assustador ao redor, sem um vento para balançar os galhos das árvores.

    Um caminho feito para ser dramático e ter um final ruim quando eu encontrar o objeto.

    Mas não irei ao encontro dele direto; se não, será muito suspeito e as irmãs Yagame vão suspeitar disso.

    Ao chegar nas piscinas rasas, desci o caminho dentro das árvores para as piscinas grandes.

    Pelo menos aqui tem sons de galhos sendo pisados, e não um silêncio estranho.

    — Ah, Yukiii! Aqui, você chegou finalmente — gritou Katsu, acenando com a mão levantada.

    Elas estavam sentadas em um banco em frente a algumas árvores e antes do caminho.

    — Oi, gente, desculpa se demorei algum tempo. Mas, pelo visto, vocês ainda não foram até o local, né?

    — Hmf… — murmurou Aikyo, enquanto segurava sua bolsa entre os braços.

    Katsu fez um sorriso leve para a Aikyo, que estava com uma cara fechada e braços cruzados.

    — Tudo bem, Yuki, a gente chegou quase agora também; tive que passar em um lugar antes… e sentamos aqui para te esperar — disse Katsu, com as bochechas coradas.

    Pela aparência da Katsu, parece que o lugar que ela teve que passar foi seu quarto para trocar de roupa e arrumar o cabelo.

    Ela não estava com roupa da escola, estava com uma roupa que lembrava bem um detetive, fora o chapéu no cabelo.

    Ela deve gostar disso, mas, diferente dela, Aikyo estava com uma blusa marrom e uma saia preta.

    Aikyo levantou rapidamente do banco com seu jeito ríspido.

    — Vamos logo, não podemos perder tempo.

    — Ah… certo, tá bom — disse.

    Aikyo andando na frente e Katsu logo atrás segurando a mão dela.

    — Primeiramente, revoltante. Tenho três regras para te passar e quero que você siga.

    — Hm, que regras? — perguntei, logo atrás.

    — A primeira regra é: se achar algo suspeito, me chame, não faça nada além disso. Segunda regra: não faça nada sozinho sem me falar antes e não esconda evidências só para você, compartilhe!

    Ela repetiu as mesmas coisas…

    — Mas é claro que vou fazer isso, por isso estamos nos ajudando.

    Katsu acenou com a cabeça enquanto fazia um som: — Uhum, uhum.

    — Enfim, tem mais uma última regra!

    — Mais uma, irmã? Mas já foram as três quando você disse para não omitir evidências.

    — Sim, mas para ele juntei essas duas em uma para não ficar quatro.

    — Nossa, por que você está fazendo isso? Eu não sou uma pessoa ruim, poxa — disse.

    Aikyo virou a cabeça disparando seu olhar para mim, que estava andando atrás.

    — Isso eu irei descobrir com o tempo!

    — Tá bom… qual a terceira regra, então?

    Ela pegou a Katsu e trocou de lugar com ela, colocando-se na minha frente e Katsu na frente de todos nós, pelo visto para ela não escutar o que Aikyo queria falar comigo.

    Bem baixinho, disse:

    — Não se envolva com a Katsu! Ela não é sua amiga e colega; se quiser falar alguma coisa, fale comigo; no mínimo, coisas importantes de trabalho você pode falar com ela, entendeu?

    Seu olhar afiado, sua voz ríspida, sua face fechada tentando de toda forma me dar medo.

    Eu engoli seco; dessa vez foi bem diferente do que quando Abe ficou na minha frente, isso aqui é assustador.

    — C-certo! — disse, assustado.

    Não sei por que ela está falando isso para mim; não é como se eu quisesse roubar sua irmã.

    Katsu parou de andar e virou para nós.

    — Irmã! O que você está cochichando?

    Ela fechou os braços e ficou de cara fechada para Aikyo.

    — Eh… nada não, irmã, vamos indo que estamos chegando! — disse Aikyo, pegando a mão de Katsu.

    Que meninas estranhas, pelo menos não são iguais de personalidades assim como são de aparência.

    Ainda bem que Katsu tem uma cor de cabelo diferente para diferenciar da Aikyo.

    — Bom, chegamos! Mas antes, vou dar umas coisas para vocês — disse Aikyo, abrindo sua bolsa.

    Ela retirou de dentro da bolsa luvas, óculos e duas lanternas.

    — Materiais de investigação! Que legal — disse, com um sorriso no rosto.

    — Não estamos aqui para divertir, revoltante! Estamos fazendo uma coisa séria.

    — E-eu sei, mas ainda assim, para quem gosta, é divertido! — disse, pegando as luvas na mão da Aikyo.

    — Pois é, irmã, você sempre se diverte quando faz isso; sempre é bom e sempre gosto de ver você assim!

    Aikyo ficou com as bochechas coradas, uma cena bem diferente do normal dela.

    Ela ficou toda envergonhada na frente de Katsu mas depois ficou séria quando olhou para mim.

    — Hmf… você tem razão, irmã, eu sempre me divirto porque estou com você; já dessa vez tem esse…

    Antes dela terminar a frase, Katsu cruzou os braços, bateu o pé firme no chão e disse:

    — Irmã! Sem abraços e carinho hoje se continuar desse jeito, rhum!

    — Ham? T-tá bom, tá bom, vou parar! Tá vendo? Já até parei, toma aqui, garoto, pega esses equipamentos e não suma eles!

    Ela entregou para mim os itens e rapidamente pegou um papel enorme de sua bolsa.

    — Enfim, aqui temos um desenho da planta das piscinas grandes — disse Aikyo, segurando o papel para nós.

    Nele havia um desenho bem feito à mão, mostrando de cima toda essa área da piscina grande.

    — Mas, irmão, por que está mostrando isso? — perguntou Katsu.

    — É porque temos que primeiro criar uma estratégia de vistoria, onde cada um vai examinar um ponto, e depois nos encontraremos aqui para reunir informações.

    — Entendi, mas Aikyo, não iria precisar de uma planta maior para cobrir toda essa área aqui, incluindo esse lado das árvores e das piscinas rasas? — indaguei.

    — Eu sei, mas não tenho a planta disso tudo; está na biblioteca, mas só quem pode pegar é os professores e os vigilantes.

    — E como você pegou essa planta? — perguntei, apontando para o papel.

    — Não te interessa! Enfim, eu e a Katsu vamos investigar essa área de fora, em torno dessa piscina onde ocorreu o empurrão; já você investiga essa área do vestiário, daqui vinte minutos volta para cá e vamos reunir informações, entendeu?

    — Sim!! Cuidado, viu, Yuki? — disse Katsu, olhando para mim.

    Seu olhar fofo e rosto corado me encarando me deixou encantado, faz parecer que é a Aikyo que está olhando assim para mim.

    — Hmf… vamos, irmã!

    Aikyo pegou Katsu rapidamente, sem deixar eu responder.

    Por que ela não quer que eu me aproxime da Katsu? Que ciúmes estranho e bobo é esse.

    Mas por que ela quer que eu olhe um lugar onde claramente não teve nada? Eu estava de frente para a piscina e, consequentemente, de frente para o vestiário, mesmo que estando longe; a pessoa não veio de lá, veio de trás de mim.

    Ou seja, ela veio das árvores.

    Mas, enfim, pode ser que tenha algo lá.

    Estou ansioso para investigar e saber quem fez isso.

    Olhei para o lugar onde Itsuki deixou cair o objeto no meu sonho; se a Aikyo achar e mostrar para mim, eu não sei o que vai acontecer comigo, se vou chorar ou ficar com muita raiva.

    Só vou saber se Aikyo encontrar esse objeto quando investigar aqui fora.

    Minhas mãos tremiam levemente dentro das luvas.

    Arco: Investigação

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