CAPÍTULO ANTERIOR:

    — “Então o poder dele é do tipo Místico…” — pensou Kael, estreitando os olhos. — “E os cortes que eu recebi vieram de pequenos fragmentos da espada, controlados individualmente.”

    — Certo. — Kael respirou fundo, faíscas azuis saltitavam ao redor de seu corpo. — Agora eu vou com tudo… Seprus.

    — Tu vai continuar com essa merda de piada? — retrucou o apóstolo, com uma pitada de irritação. — Vamos ver por quanto tempo tu vai conseguir continuar com essas brincadeiras.

    A espada dourada reapareceu na mão de Sethros, brilhando intensamente.

    Ambos se encararam por um instante.

    E então, como em uma largada de corrida, dispararam.

    Tão velozes que até suas sombras ficaram para trás, incapazes de entender o que havia acabado de acontecer.


    Após suas rápidas investidas, ambos colidiram como estrelas cadentes.

    O punho direito de Kael explodia em relâmpagos, como uma luva elétrica de raios verdes, enquanto se chocava contra a lâmina dourada de Sethros, que brilhava como um farol na escuridão da noite.

    Ambos sorriam, confiantes, como se a derrota fosse uma palavra desconhecida, mesmo naquele cenário.

    — Vamos ver se tu aguenta a brincadeira, ou se vai quebrar rápido como todos os outros brinquedos, KAEL! — gritou Sethros, forçando ainda mais o golpe.

    O vendaval da colisão levantava destroços ao redor. O solo rachava e se abria por centenas de metros, espalhando destruição pela área.

    E então… o que aconteceria momentos depois seria uma afronta a toda a física conhecida até aquele instante.

    Dizem que até Einstein choraria se presenciasse tal cena.

    Uma troca de golpes ocorreu, tão veloz que o próprio tempo mal conseguia acompanhar. Kael usava seu domínio temporal para acelerar reações e pensamentos a níveis inimagináveis.

    O punho de um comandante, imbuído de eletricidade e acelerado além do limite, ia de encontro à lâmina corrompida de um apóstolo. Um julgamento herético contra a própria causalidade personificada.

    A cada choque, o campo de batalha se deteriorava mais.

    As fendas se abriam ainda mais, engolindo árvores, edifícios e carros ao longe.

    Em um piscar de nanossegundo, dezenas de milhares de golpes eram trocados, alternando entre posições diferentes graças ao teletransporte de Sethros.

    — “M-mas como?! Como ele está acompanhando minha velocidade com o “Punho da Causalidade” ativo?! Essa síntese me permite alcançar a velocidade de uma Inércia Zero Absoluta mesmo sem possuí-la!” — questionava-se Kael, ao perceber Sethros se defendendo e teletransportando ambos em meio a cada golpe.

    •♦• Punho da Causalidade

    ────────────────────

    A Síntese externa, chamada Punho da Causalidade, une manipulação temporal e de raios, formando uma luva de relâmpagos verdes sobre a mão do usuário. Ao reduzir o intervalo entre causa e efeito, cada golpe atinge no mesmo instante em que é desferido. Não quebra as leis, apenas impõe a regra básica do mundo em seu nível extremo: toda ação gera uma reação, neste caso, quase instantâneamente.

    ────────────────────────────────────────────

    — “A menos que… ele tenha uma Inércia Zero Absoluta! Mas, se ele é tão rápido assim, por que não usou essa velocidade durante a trocação anterior, quando eu estava usando apenas a manopla de raios?!” — A frustração de Kael crescia a cada troca de golpes. — “Eu… preciso ganhar alguma distância!”

    Em um instante, Kael recuou com um salto ágil para trás, seus pés ainda flutuando sobre as pedras rachadas, enquanto mantinha os olhos fixos em Sethros. Cerrou a mão, e os “Punhos da Causalidade”, que formavam luvas em suas mãos, corriam em forma de raios por seus dedos, mudando de cor no mesmo instante.

    Do verde…

    …para um dourado brilhante.

    — CHRONÓASTRAPÍ! — gritou Kael.

    ♦ Chronóastrapí — (Χρονοαστραπή)

    ────────────────────

    » Chronóastrapí, ou Raio Temporal em tradução, é uma rajada dourada que surge da fusão entre o poder do Raio e a Manipulação Temporal. Ao atingir um ponto específico, pode congelar, acelerar ou regredir o tempo naquele local. Extremamente instável, exige controle absoluto do usuário: qualquer hesitação ou perda de foco pode distorcer seu efeito, com consequências imprevisíveis e catastróficas. O impacto chega antes mesmo do golpe realmente acontecer. «

    ────────────────────────────────────────────

    Então, com um movimento rápido e certeiro, Kael disparou o Chronóastrapí, um relâmpago dourado que atravessou o ar antes mesmo de ser lançado, curvando o espaço ao seu redor, veloz demais para ser percebido a tempo.

    O som veio muito depois.

    Um estrondo impiedoso ecoou por todo o local.

    A rajada, que atingiu o chão onde Sethros apoiava os pés, estagnou completamente o tempo naquele ponto.

    As partículas de poeira pararam no ar.

    As rachaduras no chão congelaram.

    O som… chegou ao fim.

    Por alguns instantes, tudo ao redor daquele ponto foi paralisado no tempo, como se o local fosse uma fotografia real.

    Mas… Sethros já não estava mais lá.

    Ele já havia saído da zona de efeito antes mesmo do raio ser disparado, antecipando o movimento com um sorriso maluco no rosto.

    — Você realmente achou que eu ia cair nessa, Kael? — murmurou Sethros, surgindo atrás dele num piscar de olhos.

    Kael girou, desviando por um triz do corte descendente. Uma esfera azul surgiu em sua palma e rapidamente sumiu, enquanto Kael a utilizava para bloquear a espada de Sethros.

    A luta continuava, cada vez mais frenética.

    Porém, por um instante, o mundo parou.

    Uma adaga estava cravada no abdômen de Kael, um pequeno fragmento da Espada da Justiça.

    Não era fatal. Ainda assim, não deixava de ser um ferimento. E, acima de tudo, uma âncora para sua desconstrução.

    Assim, em um piscar de olhos, Kael desapareceu.

    Reaparecendo no ar, a quase um quilômetro de altura, com Sethros atrás dele no mesmo instante.

    Porém, rapidamente se reposicionou em pleno céu, usando sua manipulação temporal para paralisar os pés no ar e obter estabilidade.

    O apóstolo já estava à frente, executando um corte transversal com a espada.

    Mas Kael reagiu antes que a lâmina o alcançasse.

    Com um movimento perfeito, ativou o poder de Chronos, criando uma bolha temporal ao redor da espada dourada. Em um instante, o tempo dentro dela foi selado.

    A lâmina de Sethros congelou no ar.

    A pausa do golpe deixou Sethros suspenso no ar, as mãos do apóstolo paralisadas, firmes na empunhadura.

    Kael não desperdiçou a chance.

    Girando no ar com a leveza de uma dança divina, canalizou seu “Punho da Causalidade” no pé e, em um instante, uma couraça de relâmpagos verdes envolveu sua perna, rugindo como um leão faminto por destruição.

    Então, o chute foi desferido. Preciso e cirúrgico, porém devastador.

    O chute atingiu Sethros com força devastadora, lançando-o pelo ar a grande velocidade, deixando um rastro de destruição no caminho.

    A colisão contra a Neurotempestade fez a barreira estremecer. O campo psíquico roxo rachou em todas as direções, como se estivesse a um fio de se quebrar.

    O solo se partiu em fragmentos e detritos, rachando como vidro sob extrema pressão. Tudo próximo foi arremessado violentamente.

    Fora da barreira, todo o resto da cidade estremeceu, alarmes dispararam, e janelas se estilhaçaram.

    E, mesmo depois de colidir contra a barreira e afundar no solo, Sethros se levantou rapidamente.

    Seu corpo estava quase intacto. Nenhuma fratura aparente. Apenas um roxo na bochecha e fios de sangue escorrendo do nariz e da boca.

    Fumaça subia aos céus a partir de seus ombros. A poeira se dissipava ao seu redor.

    Era como se aquele golpe, capaz de devastar cidades inteiras… mal causasse danos ao tão temido Apóstolo de Samael.

    Kael não queria dar tempo para Sethros se recuperar.

    Após despencar em queda livre e fincar os pés no solo, o impacto formou uma pequena cratera ao seu redor. O chão à volta cedeu, mas Kael permanecia firme, pronto para finalizar aquela luta na próxima oportunidade.

    E então… ele partiu.

    Por onde passava, o solo respondia com atraso, abrindo um rastro de chamas atrás de si.

    Em menos de um microssegundo, avançou pelo chão, seguindo a trilha de destruição que Sethros deixara.

    Mas algo estava errado.

    Os olhos do comandante vasculhavam o ambiente em busca de seu alvo.

    — “Mesmo ele sendo naturalmente mais rápido do que eu, consigo acompanhá-lo graças à Manopla da Causalidade. E, podendo parar o tempo em um ponto específico, tenho a vantagem no combate direto…”

    O suor escorria lentamente por seu pescoço.

    — “Mas então… por quê? Por que essa maldita sensação de que estou esquecendo de algo?”

    Kael, um soldado treinado desde novo, criado para ser da elite tanto em intelecto quanto em força, naquele momento sentia uma sensação ruim, difícil de ignorar.

    Para muitos, isso seria apenas insegurança, preocupação ou até… medo. Mas para aquele comandante, que liderara inúmeras batalhas e conduziu combates à vitória, seu instinto falava tão alto que era impossível ignorá-lo.

    Algo estava fora do lugar… ele só ainda não sabia o quê.

    Seus olhos, ainda buscando o impacto deixado por Sethros, até enfim encontrarem a zona de impacto. E nela, a silhueta de Sethros, pronta para avançar contra Kael.

    — “Eu já imaginava que ele não ia cair só com esse golpe…” — pensou Kael, indo imediatamente em direção ao alvo. — “Mas… é melhor eu ficar atento até descobrir o motivo desse meu desconforto.”

    Assim, Sethros deu a largada, tão veloz que mal conseguia ser visto, até mesmo pelo comandante.

    Kael rangeu os dentes, os olhos vidrados em seu objetivo. E, mesmo com aquele pressentimento ruim, abriu um sorriso confiante.

    — Vamos acabar com isso… — gritou, aumentando ainda mais a velocidade, imbuindo os punhos com a Manopla da Causalidade. — SEPRUS!

    Mas foi nesse instante… que o inimaginável aconteceu.

    O corpo de Kael travou no meio da investida. Não por muito, apenas uma fração mínima, menor que um picosegundo. Tão pequena que chegava a ser difícil de registrar.

    Mas, para alguém como Sethros… aquilo era tudo o que ele precisava naquele momento.

    Em um único instante, Sethros se desconstruiu e se reconstruiu instantaneamente atrás de Kael. Sem o menor som, sem a própria sombra, sem ao menos um vestígio deixado no ar.

    Então se moveu, com a precisão esperada do apóstolo que carrega o julgamento final nas costas.

    Assim, perfurou o coração de Kael, quebrando, em um instante tão curto, um dos pilares que sustentavam Áurea.

    Nesse exato momento… o tempo deixou de respirar, como se sentisse a próxima perda daquele que o representava.

    Kael, ainda sem entender o que havia acontecido, sentia a lâmina do carrasco atravessar seu peito. Seu corpo até tentou reagir… porém, já era tarde demais.

    — Sabe, Kael… — disse Sethros, cheio de deboche. — Mesmo com toda essa tua patética limitação, com esse inútil medo de ferir os insetos ao redor… você até que era bem mais forte do que eu esperava. Ele realmente estava certo quando disse que eu era uma ameaça para os planos…

    A lâmina afundou ainda mais.

    — Eu conheço muito bem as tuas habilidades, eu sei que tua mente fica indefesa enquanto tua Neurotempestade está ativa.

    Um sorriso macabro surgiu em seu rosto enquanto observava o sangue escorrer da boca de Kael.

    — E essa brecha era tudo o que eu precisava. Uma simples e pequena oportunidade para que minha Dominância Mental fizesse efeito. Eu podia ter te matado a qualquer instante após a Neurotempestade, mas a brincadeira estava tão divertida que eu me empolguei.

    Kael, por fim, compreendeu a situação em que estava. Mas o corpo já não obedecia. O sangue já tingia seus lábios.

    — Foi uma boa luta, Kael… obrigado por ser um brinquedo tão divertido… — sussurrou Sethros, com a voz baixa, enquanto o brilho da espada dourada se intensificava dentro de Kael. — Mas a nossa diversão… acabou aqui.

    Então, com um último suspiro súbito e o brilho da lâmina que cravava o tempo, o coração de Kael foi teletransportado para longe do próprio corpo, como se uma peça fosse arrancada de um quebra-cabeça outrora completo.

    E junto dessa peça, um dos três membros da Trion de Áurea, nomeado como Pilar da Força, agora caminhava no limiar entre a vida e a morte.

    Sua camisa social, suja, rasgada e perfurada, agora estava encharcada pelo sangue do próprio guerreiro, que um dia tentou domar o tempo…

    Seus olhos dourados, antes radiantes como o nascer de uma era, agora se apagavam lentamente… como os últimos grãos de areia escorrendo por uma ampulheta quebrada, voltando assim ao seu castanho original, sem vida…

    Naquele instante, o tempo parava.

    Não por poder ou por ordem, mas por respeito à sua personificação, que lutou confiante até seus últimos segundos.


    ⋞⋆⋟⋰⋞⋆⋟⋰⋞⋆⋟⋰⋞⋆⋟EXTRA⋞⋆⋟⋰⋞⋆⋟⋰⋞⋆⋟⋰⋞⋆⋟

    ↓↓↓↓↓↓↓↓↓↓↓↓↓↓↓↓↓↓↓↓↓↓↓↓↓↓↓↓↓↓↓↓↓↓↓↓↓↓↓↓

    CURIOSIDADE 10:

    Com a Neurotempestade ativa, o Escudo Mental de Kael sofreu um leve retardo, pois estava sendo usado internamente para sustentar essa síntese, ao mesmo tempo em que mantinha sua abrangência externa máxima.

    Esse acúmulo de funções causou um atraso de um picosegundo, equivalente a 10⁻¹² segundos, ou seja, um trilhão de vezes menor que um segundo.

    Esse intervalo, embora ínfimo, foi suficiente para Sethros, um usuário de Inércia Zero Absoluta, explorar a brecha com sua Dominância Mental e executar o golpe decisivo usando de seu desconstruir, que age instantâneamente.

    [Inércia Zero foi explicada no “Fragmento Histórico 5”]

    ↓↓↓↓↓↓↓↓↓↓↓↓↓↓↓↓↓↓↓↓↓↓↓↓↓↓↓↓↓↓↓↓↓↓↓↓↓↓↓↓

    FRAGMENTO HISTÓRICO 9:

    ❖━━━━━━━━━━━━━━━━━━━━━━━━━━━━━━━━━━━━━━━━━━━━━━━━━━━━❖

                     ⟬ ARQUIVO DE ESTÁGIO 1 — Nº 007

               Diário pessoal — Observações

            Autor: Marek Aurellum — Ano XL após a morte de Cristo.

    —————-

    (Documento confidencial. Extraído dos registros centrais da OPKM.)

    Originalmente compilado por Marek Aurellum no quadragésimo ano após a morte de Cristo, como parte da obra “Crônica de Um Poder que Não Compreendo”.

    ❖━━━━━━━━━━━━━━━━━━━━━━━━━━━━━━━━━━━━━━━━━━━━━━━━━━━━❖

    Segui Lucanus ao longo da provável rota de fuga do suposto “Homem Ciclone”. À medida que avançávamos, encontrávamos ainda mais árvores cortadas; contudo, algo chamou minha atenção: a partir de certo ponto, os cortes tornavam-se progressivamente menores, como se a força ou o alcance, do que quer que os tivesse causado estivesse diminuindo.

    Esse padrão repetiu-se diversas vezes, até que, por fim, os cortes deixaram de servir como guia. Ali, nossa trilha artificial simplesmente cessava.

    Determinados a não interromper a investigação, passamos então a buscar outros sinais de passagem: pegadas quase apagadas pelo tempo, marcas no solo, possíveis vestígios de sangue seco, qualquer indício que pudesse confirmar que não estávamos seguindo apenas coincidências naturais.

    Todos esses sinais, embora escassos e difíceis de interpretar, pareciam convergir para um mesmo ponto: uma enorme caverna, visível apenas por instantes, cravada na encosta de uma montanha ao longe. Sua entrada era parcialmente oculta pela vegetação e pelas sombras, como se o próprio terreno tentasse escondê-la.

    Se nossas suposições estiverem corretas, aquele será o próximo destino.

    Atualizarei este registro quando alcançarmos a caverna.

    Assinado: Marek Aurellum

    ❖━━━━━━━━━━━━━━━━━━━━━━━━━━━━━━━━━━━━━━━━━━━━━━━━━━━━❖

                          FIM DO FRAGMENTO

    ❖━━━━━━━━━━━━━━━━━━━━━━━━━━━━━━━━━━━━━━━━━━━━━━━━━━━━❖

    Regras dos Comentários:

    • ‣ Seja respeitoso e gentil com os outros leitores.
    • ‣ Evite spoilers do capítulo ou da história.
    • ‣ Comentários ofensivos serão removidos.
    AVALIE ESTE CONTEÚDO
    Avaliação: 0% (0 votos)

    Nota