Estou revisando, refazendo e remodelando todos os capítulos iniciais de “O que eu deixei para trás?”. Então, já peço desculpas caso vocês percebam uma mudança drástica de qualidade entre os primeiros capítulos e os que virão em seguida.
Quero trazer a melhor versão possível da obra para o Volume 1 físico, que sairá em breve. Por isso, vou tentar concluir toda essa melhoria o quanto antes e peço a compreensão e paciência de vocês durante esse processo.
Muito obrigado pelo apoio de sempre. Vocês são o que me motiva a continuar escrevendo todos os dias!
Capítulo 3: O que… eu sou?
3 meses após o massacre — Porto Alegre, RS
As ruas estavam vivas. Carros iam e vinham, e o reflexo dos faróis se espalhava pelas poças deixadas pela chuva mais cedo.
Pessoas apressadas cruzavam as esquinas, alguns falando ao celular, outros apenas seguindo no automático, sem sequer olhar ao redor.
O barulho dos motores, dos passos, das buzinas, tudo seguia no mesmo tom monótono e robótico de sempre. A cidade não havia parado, mesmo após aquele fatídico incidente. Poucos meses depois, retomava seu rumo como se nada tivesse acontecido.
Mas, para Louie, Porto Alegre ainda era uma imensidão de coisas novas e desconhecidas. Mesmo assim, caminhar por aquelas ruas começava a ganhar um ar familiar.
— Caramba… mesmo passando por aqui todo dia, ainda me impressiono com o tamanho disso… — murmurou, seguindo com as mãos nos bolsos e o olhar perdido adiante.
Não muito longe, uma folha se soltou.
Sem pressa, desprendeu-se do galho quase nu, girando no ar, resistindo à queda. A brisa úmida a conduziu entre os prédios, em desvios suaves, até esmorecer.
Ela desceu devagar, oscilando contra a gravidade, até parar diante dele.
O garoto ergueu a mão por instinto, e a folha pousou em seus dedos.
Ele a observou por um instante.
“O outono já está acabando, né?”
Seu rosto se ergueu para o céu, em busca de resposta. O gesto bagunçou o cabelo escuro, deixando à mostra algumas mechas brancas.
“Qual é mesmo a próxima estação?”
Uma rajada mais forte cortou a passagem de repente, frio e incisivo, infiltrando-se por baixo da jaqueta e alcançando sem dificuldade as partes mais sensíveis do corpo.
— Atchim… — encolheu os ombros, arrepiado. — Ah, deixa pra lá. Nem decorei a ordem das estações ainda.
Soltou um suspiro curto, lançou uma última atenção à folha e a deixou ir, seguindo em frente.
“Mas tenho a impressão de que vai ser bem frio.”
Ali, a poucos metros, erguiam-se os grandes portões do antigo Colégio Península, fechados desde o infeliz evento.
O lugar agora era um memorial, visitado por famílias, ex-alunos e curiosos atraídos pela tragédia.
Grades de ferro cercavam o local, acompanhadas por painéis de vidro que exibiam, um a um, os nomes das vítimas. Flores, cartas e fotografias se acumulavam em murais improvisados. Algumas encharcadas pela garoa fina; outras, já desbotadas pelo tempo, marcadas por aqueles curtos, porém dolorosos, três meses.
— Não gosto deste lugar… — estendeu a mão até tocar a grade fria. — Ainda assim, tenho vindo bastante aqui nos últimos dias.
Seus foco desviou por um momento, evitando encarar os nomes gravados no vidro.
— Bom… acho que o mínimo que posso fazer por eles é visitá-los.
Aquele vazio não havia desaparecido de seu peito. Era como se o chão ainda guardasse as últimas vozes, os ecos finais e o rubro que um dia dominara as paredes.
Uma única peça perdida de um grande quebra-cabeça esquecido para ele. Fragmentos de algo, ou de alguém, que ele nem sabia por onde começar a juntar.
Ele tocou de leve o olho direito. Aquele vermelho estranho não tinha explicação, só a constante sensação de estar sendo vigiado.
Encarar o próprio reflexo vinha se tornando cada vez mais difícil.
Aquilo não o deixava em paz. Era como se algo dentro dele o observasse o tempo todo, com o mesmo olhar que encontrava nos outros, por onde passava.
Todos.
Menos a sua família.
Emi permanecia ao seu lado, mas nem o apoio dela apagava a ferida aberta.
Tudo mudou de repente. Um incidente o levou à beira do fim e, embora tenha sobrevivido, quem ele era antes estava cada vez mais distante.
Nina, era a luz nos dias mais sombrios. Sempre sorrindo, com piadas sem graça e uma confiança quase ingênua de que, no fim, tudo daria certo.
Em algum momento ao longo daqueles meses, passou a vestir a máscara do antigo Louie, mantendo seu atual eu escondido.
Sabia que não era o melhor para si. Ainda assim, se aquilo pudesse ajudar sua mãe e irmã, mesmo que só um pouco, ele estaria disposto a ser apenas um caco de vidro de um espelho que já não existia.
Com as mãos nos bolsos, soltou o ar devagar, sentindo o vento gelado cortar seu rosto.
Foi então, no meio desse gesto, que uma voz conhecida atravessou o horizonte, chamando por ele.
— Louie! Louie! espera aí! ESPERAAAAA!
Ele se virou de leve e viu Nina correndo em sua direção; os olhos brilhavam como se tivesse acabado de sair de um parque de diversões.
— O que foi? — sua fala saiu distraída, acompanhando o clima estranho do dia. — Não acha que é nova demais para sair por aí sozinha? Olha o Homem do Saco, hein…
— Ah, vai se catar, bundão! Eu não sou pequena coisa nenhuma! Já sou quase adulta! — rebateu, mostrando a língua enquanto tentava recuperar o fôlego.
Ofegante, com o rosto corado, apoiou as mãos nos joelhos e se curvou sutilmente, tentando se recompor.
— “Bundão”? Essa é nova. De onde tu tirou isso? — deixou escapar uma risada sincera, pela primeira vez no dia.
— Não te interessa.
— Mal-educada. Mas fala logo, o que tu veio fazer aqui?
— A mamãe disse que tu ia ao memorial — respondeu, tropicando na fala. — Então eu quis vir contigo, boboca.
— Precisa mesmo me xingar no final de cada frase?
Depois de se recompor, suspirou e cruzou os braços, fazendo drama.
— Preciso. Mas quer saber? Nem quero mais andar contigo, feioso!
Louie olhou para ela com um sorriso fraco e disse:
— Certo, certo, chega de manha. Vamos voltar juntos. Só tinha vindo dar uma caminhada mesmo. — Sua visão recaía firme sobre os belos olhos azuis da irmã.
— Caminhada, né? Sei… — um sorriso maligno surgiu no canto da boca Nina. — Tu anda saindo bastante pra essas caminhadinhas aí ultimamente. Arranjou uma namoradinha e não nos contou, foi? Quem é a grande azarada?
O garoto suspirou, coçando a nuca com calma.
— Azarada nada. Qualquer uma ficaria encantada de namorar um príncipe encantado como eu. — afirmou com confiança.
— Tá mais pra sapo, isso sim.
— Como é que é?! Repete se tu tem coragem, sua pirralh—
A ofensa se partiu na garganta, engolida por uma onda brutal de calor.
Seu coração disparou tão violentamente que pareceu querer rasgar as costelas. O ar ficou espesso, pesado como água, e cada tentativa de respirar era como se afogar em um oceano de sangue.
“O-o que é isso…?”
Seu corpo se curvou sozinho, tomado por uma dor que não compreendia.
— Louie? — a voz de Nina surgiu, primeiro confusa. — O que aconteceu?
Ele levou uma mão ao peito.
— E-eu…não consigo…respirar…
Suor gelado lhe escorria pelo rosto; a visão, tensa, varria a via atrás de uma explicação.
A resposta que encontrou? Nenhuma.
As calçadas e avenidas permaneciam vazias; apenas alguns carros passavam ao longe, reduzidos a borrões sem importância. O memorial continuava imóvel.
Mas dentro dele, tudo se movia.
“Parece que eu tô pegando fogo por dentro…”
— LOUIE?! ME RESPONDE, FILHO DO TINHOSO! — Nina tentava mascarar o pânico com deboche.
Mas o som dela estava distante, como se viesse do fundo de um poço.
Seus punhos se fecharam com tanta força que as unhas rasgaram a própria pele, fazendo filetes de sangue escorrerem entre os dedos.
E então vieram as vozes. Primeiro uma. Depois dezenas. Então, já eram milhares. Ecos, lamentos e acusações atravessavam sua mente como lanças.
— SOCORRO!—
— RASGUE-A!—
— ASSASSINO!—
— DILACERE-A!—
Louie cambaleou, levando as mãos aos ouvidos. A visão tremia. O chão girava.
— Fiquem… quietos…
A frase saiu num ruído quase inexistente.
— O que tu disse, mano? — Nina se inclinou para ouvi-lo, sua pergunta vacilando, o corpo tremendo.
— Mate-a… — a palavra saiu sozinha de sua boca, como se tivesse sido cuspida por outro alguém.
— Ir…mão…? Tá me ouvindo?! — o chamado trêmulo da menina chegava distorcido, afogado sob o denso oceano.
— N-não, não, não, não, não, não, não…
Mas os ecos não paravam; ficavam mais altos, mais cruéis, mais próximos.
O chão se dissolveu em um líquido rubro, espesso. Braços emergiam dali, puxando-o para baixo, enquanto apontavam para a garota à sua frente.
— ELIMINE-A—
— ABERRAÇÃO!—
— DESTRUA-A—
— MONSTRO!—
— ANIQUILE-A—
— Eu imploro… — lágrimas escorriam sem parar por seu rosto. — Calem a boca…
Mais sussurros. Mais calor. Faíscas escapavam da pele, estalando em azul pelos braços, pescoço e ao redor dos dedos.
— I-irmão… — Nina recuou um passo.Medo. Pela primeira vez, sua voz não conseguiu escondê-lo.
Os gritos urraram em uníssono:.
— Por favor… MATE-A!!!—
O pedido explodiu da garganta:
— CALEM A BOCA!!!
A menina foi lançada para trás pelo impacto do som, tropeçando.
O calor já não cabia em seu corpo. Vazava. Quebrava. Derramava-se em descargas violentas, com faíscas descompassadas subindo pela pele como relâmpagos.
O chão começou a tremer e se distorcer. O memorial gemeu em agonia.
E por um último segundo, tudo ficou em absoluto silêncio.
Então—
BOOOOOOM!!!
Uma onda de impacto varreu o lugar, fazendo o espaço vibrar e o chão ceder sob a percepção do garoto. As grades do memorial estremeceram, e o som atravessou seu corpo inteiro antes de se espalhar pela cidade e morrer aos poucos.
Por alguns segundos, Louie não conseguiu distinguir se ainda estava consciente ou se parte dele tinha ficado presa naquele delírio rubro.
Estava de joelhos, as mãos cravadas no asfalto molhado, respirando com dificuldade, como se tivesse corrido até os pulmões rasgarem.
Quando ergueu a cabeça, viu Nina caída alguns metros adiante, apoiada nos cotovelos, o rosto tomado por susto.
— Nina!
Ele foi até tropeçando ela e segurou seus ombros.
— Tu tá bem?! Se machucou?!
Ela piscou algumas vezes antes de responder, ainda tentando recuperar o fôlego.
— Eu… acho que sim.
— M-me desculpa! — disse, abraçando-a fortemente.
Os dois ficaram assim por um instante, absorvendo o que acabara de acontecer. O, memorial continuava ali. A rua também. Os carros ainda passavam indiferentes ao que aconteceu naquele lugar.
Louie soltou o abraço e baixou o olhar para as próprias mãos. As faíscas haviam desaparecido. A luz azul também. Restava apenas um tremor leve e insistente, como se o corpo ainda não tivesse entendido que tudo terminara.
“Isso foi real?”
Não tinha como negar, a própria Nina tinha visto.
“Mas e as vozes? O chão vermelho? Os braços? Aquilo… só eu vi?”
Nina foi a primeira a quebrar a quietude.
— Mano… que foi isso?
Louie passou a mão pela testa úmida de suor, ainda atordoado.
— Eu… não sei. — a resposta saiu sincera e vazia.
— Não sabe? — ela arregalou os olhos. — Saiu raio do teu corpo!Ele soltou um riso nervoso.
— E-eu sei. Mas não entendo como aconteceu…
Nina o encarou como se pensasse em algo absurdo demais para dizer. Mas, ignorante o senso normal, disse ainda assim.
— Será que tu tem poderes?!
Louie a encarou como se a ideia fosse simplesmente ridícula.
— Nina, não viaja. Isso não existe.
— Mas eu vi!— E eu também vi, mas isso não quer dizer que foi um poder.
— Então me diz o que foi?
Ele abriu a boca para responder, mas nada veio. Não havia resposta.
O olhar caiu outra vez para os dedos, e só então percebeu a palma levemente chamuscada.
— Não foi poder. — murmurou por fim, tentando convencer a si mesmo. — Mas eu não sei o que foi…
Quando Nina ia retrucar, o olhar de Louie enrijeceu subitamente. Seu rosto perdeu a cor na mesma hora.
— O que foi? — Nina perguntou.
Ele não respondeu. Seus olhos permaneciam presos em algum ponto atrás dela, na direção do portão do memorial.
Entre as grades, tudo ao redor começou a desaparecer. Os sons, as cores, até o movimento da rua pareciam se afastar, ficando distantes e abafados.
Era como se sua consciência estivesse sendo puxada para outro lugar, enquanto o mundo real recuava novamente.
Louie levou a mão à testa, tentando aliviar a intensidade. Foi então que as imagens surgiram, em flashes fragmentados, como pedaços desconexos de um vídeo.
Uma cidade em chamas, prédios desmoronando, pessoas fugindo.
Erguendo-se entre a devastação, um penhasco colossal.
À sua beira, havia alguém.Uma silhueta solitária diante da cidade incendiada, imóvel como uma estátua no fim do mundo.
O corpo estava envolto em sombras misturadas a um tom carmesim, tornando impossível distinguir onde sua existência começava ou terminava no ambiente.
O ar ao redor era denso e sufocante.
O cabelo branco, manchado de escarlate, movia-se lentamente com o vento quente que subia das chamas, lembrando neve tingida por um crepúsculo rubro agonizante.
Os olhos vermelhos brilhavam na escuridão, como brasas vivas presas em um corpo que já deveria ter se apagado.
Sob essa camada, linhas surgiam, semelhantes a veias corrompidas, pulsando como magma fervente.
Louie travou no mesmo instante. O sangue gelou em suas veias.
— Louie, o que tá acontecendo contigo?! — gritou Nina, assustada, vendo o irmão tremendo.
— Louie!… Louie… Lou… — a voz dela foi ficando distante, apagando, como se tudo estivesse sendo puxado pra longe.
A silhueta continuava parada diante do abismo.Como se estivesse contemplando algo que só ela conseguia ver.
Quando falou, a voz saiu tão baixa quanto um sussurro frio e mórbido.
✦ Você já reparou… em uma camélia branca?
Devagar, a figura ergueu a mão.
Entre seus dedos repousava uma pequena flor, uma camélia de branco impecável. O vento fazia as pétalas tremerem suavemente.
✦ Tão delicada…
Um breve silêncio passou entre suas palavras.
✦ Tão pura…
A silhueta moveu levemente a cabeça, como se estivesse analisando um quadro.
✦ Mas basta uma pequena gota…
Algo escuro surgiu na ponta dos dedos.
Uma gota rubra se formou lentamente… então caiu.
Solitária.
Triste.
Tocou o centro da flor.
O líquido se espalhou pela pétala clara, tingindo-a aos poucos, infiltrando-se na delicadeza da camélia.
As pupilas escarlates apenas observavam, em silenciosa admiração, por um breve instante.
✦ …para que o branco comece a mudar.
O vento soprou ao longo do penhasco, enquanto a pequena mancha pulsava sobre a pureza.
A cor começou a se expandir, abrindo-se como tinta na água.
Uma risada baixa escapou da silhueta.
✦O curioso… é que a mudança a torna bonita.
A voz carregava um prazer sombrio enquanto girava a flor entre os dedos, como pigmento escorrendo sobre uma tela.
✦ Alguns chamariam isso de tragédia…
Ele ergueu a mão um pouco mais, observando a transformação.
✦ Eu prefiro… revelação.
A voz suavizou, tornando-se contemplativa, enquanto um ruído grave atravessava o ambiente.
A flor já estava completamente tingida de um rubro profundo.
✦ Ah…
Observou com um olhar fanático.
✦ Que obra magnífica.
A silhueta inclinou levemente a cabeça, os olhos fixos em Louie, como se sondasse algo enterrado dentro dele.
✦ Você não acha?
O vento passou entre os dois, carregando o cheiro de fumaça e sangue.
✦ Não…
Então a voz suspirou.
✦ Ainda não.
Uma risada baixa escapou da figura, que recuou sem pressa e se virou. Ao mesmo tempo, a camélia se desprendeu de seus dedos.
A flor girou devagar no ar durante a queda, como se o tempo ao redor tivesse desacelerado por um instante.
✦ Flores levam tempo pra desabrochar.
A flor manchada caiu no vazio do abismo, acompanhada de um último sussurro que ficou no ar.
✦Algumas… só revelam sua cor depois de manchadas.
Com um último olhar para trás, sussurrou:
✦ Até logo… Camélia Branca.


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