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Capítulo 5: Vibrações no escuro
Era apenas mais uma noite comum em Porto Alegre, desperta sob a luz fria da lua, enquanto o movimento habitual seguia pelas ruas.
Por estar perdido nos próprios pensamentos, Louie decidiu sair para caminhar. Já fazia um dia desde o estranho momento em frente ao memorial do Colégio Península.
E desde então, sua cabeça não tinha espaço para mais nada. Era informação demais para processar de uma vez.
Ele só queria respirar. Andar sem rumo, vagar pela cidade e tentar organizar os pensamentos, algo que, desde o terrível incidente, havia se tornado parte da sua rotina.
As vias seguiam tranquilas, envoltas na luz fraca de postes falhos nas calçadas e pelos faróis ocasionais dos carros que passavam. Tudo ali era distante, quase desconectado da realidade.
Em meio àquele cenário, Louie seguia em frente, com os pensamentos à flor da pele, cada passo ecoando no silêncio ao redor.
“O que tá acontecendo…? Que merda foi aquilo ontem? Até agora eu não entendi nada!”
Seu semblante mudava aos poucos, transitando da frustração para a raiva.
“Depois de tudo, ainda aconteceu aquilo com a mãe…”
Louie apertou os olhos, tentando lembrar da reação dela.
“Eu não entendo… por que ela não pareceu surpresa quando mencionei os poderes?”
Ele parou por um instante, franzindo a testa.
“Será que ela já sabia de alguma coisa?”
Ele estreitou os olhos, olhando para o nada, como se estivesse montando um plano genial na própria cabeça. Ou pelo menos era o que ele queria acreditar.
Se colocou em posição, todo desengonçado, respirou fundo e—
— CHIDORI! — gritou, socando o ar com força.
O som se perdeu no vazio da rua.
Uma quietude constrangedora se instalou, quebrado apenas pelo canto dos grilos, que zombavam da situação.
— …É. Bateu certa vergonha agora.
Ele soltou uma risada sem graça, balançando a cabeça em negação.
— Tô viajando demais.
Pensativo, passou a mão na nuca, os dedos se perdendo entre os cabelos pretos, marcados por leves manchas brancas, enquanto tentava disfarçar o incômodo.
“É impossível… não deve ser nada do que eu estou pensando.”
Olhou pras próprias mãos, como se esperasse alguma resposta.
“Deve ter sido um raio ou alguma miragem…”
Suspirou fundo.
“Mas aquilo tudo foi muito assustador.”
Fechou os olhos por um segundo.
“Eu sei que provavelmente foi uma lembrança que se misturou ao susto, e deu no que deu. Só que a conversa sobre a Camélia branca…”
Um clima pesado dominou o ar.
“Foi tão real…”
Ele soltou o fôlego lentamente, como se tentasse expulsar a confusão que o corroía por dentro.
— Ahhh, já tá tarde. Desse jeito a Nina vai ficar preocupada, e me dar esporro quando eu chegar. Melhor eu já ir voltando.
Mas antes que pudesse pensar em qualquer outra coisa, uma vibração estranha percorreu sua espinha. Foi rápida, mas suficiente para congelar seus movimentos
— Ugh… que merda de sensação é essa? — murmurou, sentindo os pelos do braço se arrepiarem. — “Justo quando eu tô sozinho numa rua escura e deserta…”
Ele fechou o punho por instinto, sentindo um formigamento incômodo percorrer seus dedos.
“Até parece aquelas cenas de filme em que, do nada, alguém vai aparec—”
Foi quando ouviu.
— E aí, Louie.
A voz veio de um dos becos ao lado. Baixa. Pesada. Arrastando-se pelas sombras.
O garoto paralisou.
Seu coração disparou, e o olhar trêmulo se voltou na mesma hora, tentando entender o que acabara de ouvir.
E então, outra vez:
— Como tem passado? — a voz masculina, imponente, ecoou.
Mesmo forçando a visão, ele só conseguia enxergar a escuridão do beco.
O medo tomou seu peito, e suas pernas vacilaram, prestes a ceder. Ainda assim, algo dentro dele o mantinha ali, impedindo-o de fugir. De alguma forma, aquilo era… familiar.
Então, das sombras mais escuras, uma figura surgiu.
Alta, forte, de ombros largos, vestindo uma camisa social simples e amarrotada. Os cabelos grisalhos e a barba branca reforçavam a imponência que carregava.
Mas o que mais chamava atenção era o seu olhar. Fixo. Cortante. Atento a qualquer movimento, até o menor deles.
Louie recuou um passo, finalmente quebrando o gelo.
— Q-quem é você? — perguntou, tentando disfarçar a tensão na voz enquanto recuava mais um passo. — E de onde me conhece?
O homem deixou escapar um meio sorriso.
— Dá pra parar de tentar fugir? — respondeu, em um tom leve, debochado. — Queria poupar a etapa chata se possível.
Ele avançou, os olhos castanhos por um breve momento brilhando em dourado, fixos no garoto.
— Tu já deve ter percebido que é diferente. Só depende de quanto tempo vai levar pra aceitar isso.
Louie sentiu o corpo esquentar e recuou ainda mais, engolindo em seco.
— D-diferente? — murmurou. — Não sei do que tu tá falando… acho que tu veio atrás da pessoa errada.
A respiração começou a se estabilizar aos poucos. O corpo ainda tenso, à beira de ceder, oscilava entre a curiosidade e o desespero.
O homem não respondeu. Apenas o observou por longos segundos, como se tentasse enxergar além do medo estampado em seu rosto.
— Pelo visto, tu ainda não sabe mentir — soltou, com uma breve risada irônica. — Mas antes de qualquer coisa, me escuta. Esse teu poder… não tem nada a ver com essa tal de “Chidori” aí.
Louie arregalou os olhos, o rosto ficando em chamas. Na mesma hora, o medo evaporou, dando lugar à mais pura vergonha.
— …T-tá, esquece isso — murmurou, virando o rosto de lado, sem saber onde se enfiar.
O homem gargalhou ainda mais, claramente se divertindo com a situação.
— Certo, eu vou te ouvir. Mas antes, me responde uma coisa… — a expressão de Louie voltou a se fechar em desconfiança. — Como sabe meu nome? De onde me conhece?
Ao avançar um passo, o homem fez com que Louie recuasse automaticamente.
— Parece que é verdade mesmo. Tu esqueceu de tudo — seu rosto, agora sério, mantinha o olhar fixo no garoto. — Então, respondendo sua pergunta, sou alguém que já passou por algo parecido com o que tu tá sentindo agora. Faz tempo… mas eu ainda lembro da confusão e da solidão que vêm junto.
Em um gesto calmo, ele estendeu o braço; a manga branca recuou levemente, revelando a mão estendida para Louie.
— Posso te ajudar a controlar isso. A transformar esse medo que tu sente, na força para proteger todos aqueles que tu ama.
O homem sorriu de leve.
— Então… o que tu acha de vir comigo, Louie Kaede?
A mão estendida permaneceu suspensa no ar por longos segundos, acompanhada pelo sorriso tranquilo do homem, aguardando uma resposta.
Mas o que veio em seguida o pegaria de surpresa de uma forma inimaginável.
— Nem fudendo! — ele franziu a testa, a voz se elevando. — Tu tem noção do quão maluco isso é? Quem, em sã consciência, sairia por aí com um velho bombado só porque ele pediu?!
— V-velho bombado? — questionou, em um tom mais baixo.
— Tu realmente achou que eu ia contigo do nada, só porque tu pediu?
— Bom… na verdade, sim. — o homem coçou a nuca, sem jeito. — Pra ser sincero, considerando a inteligência questionável do teu progenitor, achei que seria bem fácil te convencer. Tanto que eu até já comprei uns cafés lá em Áurea, já que sei que tu gosta…
— Café? Nem sei o que é isso — retrucou Louie, indignado. — Mas não é como se isso importasse agora. Tem coisa demais acontecendo, e eu mal tive tempo pra processar tudo isso!
O homem assentiu, respirando fundo.
— Beleza, beleza. Já entendi. Mas pensa bem nisso. Esse poder pode ser teu escudo… ou a lâmina que se volta contra quem tu mais ama. E quanto mais demorar, maior os riscos.
Soltou um último suspiro.
— Bom, pelo menos já foi avisado. Se cuida.
Então virou de costas, começando a se afastar e acenando de leve.
— Nos veremos em breve, Louie Kaede.
Assim, ele se afastou, desaparecendo no horizonte, enquanto a noite em Porto Alegre ainda estava só começando.
As luzes dos postes tremeluziam, como se hesitassem em iluminar o caminho à frente do garoto.
Nada fazia sentido em meio a tanta loucura, mas uma coisa era certa: mesmo na escuridão mais sombria, as vibrações da noite ainda ecoavam no ar.


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