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    Anel externo – Zona Oeste

    Correndo o olhar do Leste, já quase mergulhado na noite, e chegando até o Oeste, ainda se é possível ver tons laranjas que são refletidos até na água escura. Pode-se observar, no terraço de uma construção, mesas que aos poucos vão ganhando companhias. Seja de casais apaixonados, amantes da natureza, apreciadores de peixe frito ao molho ou grupos altamente suspeitos.

    — Você realmente gosta daqui. — Ely contempla o pôr do sol como se fosse a primeira vez.

    Helvetia, em silêncio, aprecia aquele rosto, aqueles olhos e os fios tingidos levemente de laranja que sacolejam pela brisa salgada.

    — Aqui está o pedido senhoritas. — Uma voz masculina e juvenil, corta o silêncio.

    — Hmm. A aparência é boa. — Ely o observa deixar uma bandeja prateada e retangular sobre a mesa.

    Ele se prepara para desejar a elas uma boa refeição, mas quando se depara com aqueles olhos, aquele rosto, e toda a pintura do sol poente ao fundo. Seu rosto cora, e até esquece o que ia dizer.

    — Eu te entendo. Também senti isso. — Helvetia com um leve sorriso, fala despretensiosamente pra ele.

    — Me desculpa, não pude evitar. — Ele retorna as mãos para trás do corpo e se vira pra ela.

    — Você é novo por aqui, certo?

    — Sou sim. Meu nome é Makae, comecei hoje. Ainda estou aprendendo. — O sorriso dele de olhos fechados traz leveza ao ambiente.

    — É peculiar sabia. Encontrar alguém dos nômades, fora do deserto. — Helvetia o surpreende.

    — Mais peculiar ainda, conhecer alguém que os conhece. — Ele retribui a surpresa.

    Ely, já saboreando um pedaço de peixe após mergulha-lo em um pequeno pote com um molho escuro, repara que os dois estão em um dialogo, e se sente deslocada.

    — Eu os conheci em uma das minhas jornadas por aquele maldito deserto. Impossível esquecer esses olhos avermelhados. — Ela lança um leve olhar de emburrecimento para o horizonte e retorna pra ele. — Mas não sabia que vocês podiam ter a pele tão clara, e o cabelo tão escuro.

    — Esses foram os motivos de eu não estar mais com eles. — Agora quem lança um olhar para o horizonte é ele. Muito mais para as areias distantes do que para o céu.

    — Faz sentido. — Ela sorri mais relaxada enquanto observa as vestes brancas dele. — Você está no lugar certo. Aqui em Atlântis tem lugar pra todos. Fora que o Touka é um bom homem. — Helvetia observa de canto Ely que uma hora olha pra ela, e outra pra ele. — Aliás, gostei da roupa.

    — Segundo Touka, foi sugestão de uma cliente muito especial, que vende peixes bem baratos pra ele. — Makae já está se virando para retornar ao serviço.

    — Makae, se uma mulher chamada Lyanna aparecer procurando por mim e Helvetia, poderia dizer pra ela onde estamos? — Ely aproveita o fim do diálogo para orientá-lo.

    Ele para seus movimentos por um instante, e lança um novo olhar centrado em Helvetia por um breve momento.

    — Certamente senhoria. — Ele faz um ultimo aceno positivo com a cabeça e se distancia dali.

    — Ela realmente conseguiu? — Helvetia volta seu foco em Ely.

    — Com minha ajuda, tudo fica mais fácil. — Sem perder tempo, já vai agarrando outro pedaço de peixe.

    — Você realmente ama esse prato. — O olhar de admiração de Helvetia é descarado.

    — Ei, tu pode parar. Já sei onde você quer chegar. — Ely fica levemente corada. — Aquele dia foi um erro.

    — Não foi isso que você me disse de manhã, com o cabelo todo bagunçado.

    Ely perde as palavras, e até engole a carne mais rápido que planejava.

    Ela busca um copo de água no canto da mesa com a mesma voracidade que alguém perdido a dias no meio do deserto.

    — Sabe Hel, eu definitivamente não sei mais como esconder isso.

    Ely se recompõe e olha no fundo dos olhos de Helvetia.

    — Quando estamos juntas, é como se tudo ficasse borrado ao redor, menos você! — Ela coloca a mão calmamente em cima do peito, sobre o coração e se vira para olhar o pôr do sol.

    — Você realmente se tornou dona do meu coração.

    Helvetia até perde o ar por um momento com tais palavras que ecoam até o fundo de seu coração, o fazendo acelerar. E pra completar, diante de seus olhos, a mais bela pintura que um dia pode ver, a faz agir por impulso.

    Ela puxa Ely delicadamente, mas de surpresa pela cabeça, com as mãos tocando carinhosamente pelas laterais.

    E rouba um beijo.

    Tal cena é observada de camarote por Lyanna que acabou de chegar.

    — Finalmente! — Ela corta o clima ainda em pé.

    Dessa vez, até Helvetia fica envergonhada, e desviando o olhar para baixo e para o horizonte. Mas ao reencontrar a face toda corada de Ely, ela sorri ao voltar a admirá-la.

    — Desculpa a intromissão. — Lyanna vai se sentando de frente para a pequena cerca de madeira que cerca o local. Ela também não pode deixar de admirar a vista ao horizonte.

    — Pena que já está no fim. — Ela suspira, e encara o silêncio que as duas fazem no momento. — Mas as negociações estão só começando. — Ela sorri enquanto coloca um pano enrolado sobre a mesa.

    Esse pano atiça a curiosidade de Helvetia, e tira um sorriso confiante de Ely que volta a comer mais um pedaço.

    Ela então desenrola com cuidado o pano cinza e espoe uma faca que repousa sobre ele.

    — Posso? — Helvetia já vai pegando antes mesmo de fazer tal pedido.

    Lyanna só concorda com a cabeça.

    As mãos de Helvetia correm delicadamente pela faca como se fosse uma de suas maiores criações. A lâmina branca, o cabo talhado em madeira de um tom marrom-escuro faz a peça parecer só mais uma igual tantas outras que ela mesma já fabricou.

    — Olhando assim, não parece grande coisa. — Palavras que não concordam com o olhar de admiração dela.

    — Você percebeu? — Lyanna a questiona, e pega uma pequena lamparina que repousa no canto da mesa. Ela vai abrindo o vidro e a colocando virada para Helvetia.

    — Eu nunca vi um pessoalmente. Mas, dizem que quando um dragão vai cuspir seu fogo, o primeiro sinal que ele dá, são suas presas que começam a brilhar como se fossem metais prestes a derreter. — Ele coloca a faca próximo ao fogo da lamparina, e no instante seguinte, ela começa a emitir um leve brilho avermelhado, e conforme vai esquentando, mais intenso o brilho fica.

    Em um movimento rápido, Lyanna afasta a lamparina da faca.

    — Tome cuidado, ninguém pode saber que ela foi retirada dos cofres da guilda. — Ela adverte Helvetia, que não para de admirar tal criação.

    — Então é assim que eles cortam aqueles ossos. Quanto tempo você acha que levaria para alguém desconfiar que ela não está lá? — O leve brilho da faca ainda permanece, e ela até sente um pouco do calor em sua mão.

    — Enquanto não aparecer algo que precise dela. — Ely pega seu espaço no diálogo.

    — Posso ficar com ela por alguns dias?

    — Será mais caro. E vou precisar de uma réplica para colocar no lugar. — Lyanna dá as cartas.

    — Combinado. E qual será o preço? — Helvetia ainda sem tirar os olhos da faca, a vê finalmente perder o brilho.

    — O preço é você!

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