Capítulo 663 - Jogo de palavras
A expressão de Fernando mudou, quando o rapaz se jogou para trás, verdadeiramente surpreso com o ataque repentino.
Swish!
Os dois dedos da garota, em formato de garra que visavam seus olhos, passaram a centímetros dele, roçando fracamente em seu nariz.
O quê? Ele desviou? A garota de cabelos azuis perguntou-se, completamente surpresa. Mesmo que não tivesse usado mais que uma fração da sua força, sabia que ela mesma não era uma pessoa comum. Alguém que estava em torno da sua idade simplesmente não deveria ser capaz disso! Eu só queria ensinar uma lição a esse atrevido, tirando seus olhos sujos, mas já que é assim…
Apesar de surpresa, ela não se conteve, quando puxou de volta sua mão em formato de garra, que havia errado o rapaz pálido e esquisito, dessa vez visando sua garganta.
Com a cabeça levemente inclinada para trás, Fernando imediatamente percebeu a intenção dela.
Ela quer me matar? pensou, alarmado. Ele achou que a situação estava resolvida entre os dois grupos, mas essa pessoa havia realmente o atacado repentinamente, sem motivo algum! Merda, esse dia ainda pode piorar?
Vendo que não tinha escolha, ele ativou sua Habilidade Fúria, aumentando seus atributos, ao mesmo tempo, ergueu o braço direito para se defender.
Perfura!
Fernando sentiu uma dor imensa, quando os dedos em formato de garra da garota, com unhas afiadas, cravaram-se firmemente em sua carne, atravessando a proteção da armadura de couro com extrema facilidade.
Porra, quem é essa mulher?! pensou, alarmado.
Vendo que o rapaz havia se defendido, a garota de olhos azuis franziu a testa, quando puxou sua mão de volta, então com extrema destreza ergueu um chute alto em direção ao pescoço dele, dessa vez com muito mais força e velocidade.
Que rápido! O jovem Tenente exclamou mentalmente, ao ver o vulto do ataque entrante, então usou ambos os braços para se proteger.
BOOM!
Raul e Lerona, que mal haviam se virado para olhar o que estava acontecendo, ficaram chocados, quando viram Fernando voando descontroladamente pelo ar, passando por eles, até colidir com um pilar.
O jovem Tenente balançou a cabeça, levemente atordoado, então levantou seu braço esquerdo, apenas para sentir uma dor terrível. Claramente estava quebrado!
“Mas que porra?” O sujeito moreno falou ao ver a garota de cabelos azuis avançando na direção que Fernando fora jogado, mas ele rapidamente entrou em seu caminho. “Ei, mocinha. Não sei o que está rolando, mas é melhor parar com isso!”
Lerona, que estava ao lado, também rapidamente ficou ao lado do Urso Tirânico, sacando sua lança e apontando para ela, com um olhar sereno, mas implacável.
Ao ver os dois indivíduos interferindo, a garota parou em seus passos, observando-os com suas sobrancelhas franzidas.
Os seus companheiros também ficaram surpresos ao ver a pessoa que deveriam proteger atacando o rapaz e rapidamente se aproximaram, tentando entender o que estava acontecendo. Em especial o sujeito de cabelos cinzentos, Eduardo. O homem já estava com vontade de terminar a luta anterior, então mal poderia esperar para se envolver.
“Senhorita, o que está fazendo?!” A velha senhora, chamada Magnólia, perguntou, sem entender.
Aldebaran também ficou assustado ao ver esse desenvolvimento inesperado, afinal ele tinha uma dívida com Raul, mas também não se atrevia a ofender essas pessoas. Mesmo que não soubesse suas origens, tinha certeza que não era gente simples.
“Esse verme… ele estava me olhando de uma forma vulgar!” exclamou, apontando para o rapaz pálido.
Magnólia, Eduardo e os outros membros da comitiva se entreolharam, pasmos com a justificativa. Não havia sido sequer um comentário, mas um olhar?
“Ei, ei! Você está falando sério?! Se tivesse atacado o garoto por termos surrado seu pessoal, eu até entenderia, mas por isso?!” Raul perguntou, cético.
A velha senhora, apesar de achar o motivo idiota, não recuou dessa vez. Seu dever era proteger sua senhorita, assim como atender a todos os seus caprichos e desejos.
“Se a senhorita disse que quer matar o rapaz, então ela o matará. Você tem algum problema com isso?” perguntou em direção ao sujeito moreno. Assim que ela disse essas palavras, deu um passo a frente e todo o local tremeu, quando um mana denso espalhou-se por todo o local, causando uma imensa pressão em todos os presentes.
Raul, Lerona, Aldebaran e mesmo Fernando ficaram chocados. Nenhum deles sabia qual era a força exata da velha senhora, mas todos tinham certeza de algo, eles não tinham a mínima chance! Essa pessoa claramente era uma Maga de alto nível!
Merda… será que arrancar o metal daquele sapo nos deu azar ou algo do tipo? Fernando perguntou-se, sem entender porque os problemas continuavam aparecendo um após o outro nesse dia.
Sentindo que não tinha escolha, se ajustou, quando andou para frente, em direção à dupla da velha e a garota.
“F-fernando? O que está fazendo? Fuja!” Lerona falou, com urgência, porém o rapaz pálido apenas ignorou suas palavras, avançando com uma expressão calma.
Fugir? Para onde eu iria? Eu sequer conheço a cidade e essa velhota monstruosa com certeza me alcançaria em segundos. pensou, suspirando.
Essa ação repentina e imprudente surpreendeu até mesmo a garota de cabelos azuis, bem como a velha senhora.
“Hoh, parece que essa criança entende seus erros e veio aceitar a punição de bom grado. Vamos, senhorita, termine o que começou.” Magnólia disse.
Raul estava suando frio, se fosse um oponente próximo do seu nível, ele não hesitaria em resolver de uma forma mais bruta, mas contra alguém tão mais forte, só restava tentar uma abordagem diferente.
“Calma ai, senhoras. Claramente houve algum tipo de engano. O moleque aqui é quase um monge e só tem olhos para a esposa dele. Com certeza ele não estava fazendo algo como olhar para os seios de alguém. Certo, garoto?”
O jovem Tenente, que se aproximou, tinha um rosto apático.
“Na verdade, eu realmente estava olhando para os peitos dela.” disse, com uma voz calma. “Não só os peitos, eu olhei todo o corpo dela, cada pedacinho.”
Quando essas palavras foram ditas, um clima pesado imediatamente se espalhou, assim como um silêncio constrangedor.
“Vamos matar esse desgraçado!” Alguns dos Guardas exclamaram, ao ver que o jovem pálido realmente se atrevia a falar isso de forma tão aberta e sem qualquer vergonha aparente.
“Matar? Precisamos torturá-lo primeiro!” Outros disseram, furiosos.
“Esse pervertido precisa morrer hoje!”
Porra moleque, qual o seu problema?! Raul exclamou mentalmente, olhando para Fernando como se não pudesse esperar que os inimigos o matassem, pois poderia acabar fazendo isso com suas próprias mãos.
Lerona também não sabia o que dizer, estando completamente perplexa. Esse tipo de comentário doentio parecia algo que Raul diria, mas não era algo que esperava vir da boca do rapaz.
Mas o mais incomodado com suas palavras, não era outro senão o próprio Fernando.
Se eu tiver a chance, preciso acabar com a raça daqueles dois malditos! pensou, ao se lembrar de Deran e da Eterna Viajante.
Apesar de já ter passado algum tempo, os efeitos da Poção da Verdade ainda estavam em pleno funcionamento. Então, mesmo que não quisesse, ele era obrigado a responder com sinceridade, independente de qual fosse a pergunta feita. A única coisa que ele poderia fazer era tentar controlar a forma que era dito.
“S-seu atrevido! Maldito pervertido!” A garota de cabelos e olhos azuis exclamou, cheia de raiva e vergonha, ela parecia estar pronta para executá-lo ali mesmo.
A velha ao lado dela também estava igualmente irritada ao ouvi-lo falar tão abertamente, assim como o restante dos Guardas, que pareciam querer esfolá-lo vivo.
Suspirando internamente, Fernando sabia que não conseguiria sair dessa por meios convencionais, então decidiu partir para o tudo ou nada.
“Pervertido? Eu?” O rapaz pálido indagou, com um rosto calmo. “É verdade que eu estava olhando para o seu corpo, mas qual o problema nisso?”
Raul e Lerona tinham expressões estranhas, nenhum dos dois sabia o que havia dado no rapaz pálido, pois quanto mais ele falava, pior a situação ficava!
Os olhos da garota de cabelos azuis pareciam querer pulverizá-lo com a pergunta.
“Você ainda pergunta, desgraçado! Eu vou te matar agora mesmo!” Ao dizer isso, a garota moveu seu pulso, quando tirou dois leques feitos de metal.
O jovem Tenente observou aquilo em silêncio, mas logo continuou, sem dar importância. Mesmo seu braço quebrado parecia não estar o afetando.
“Quando alguém vê uma bela flor a beira da estrada, para e a aprecia, essa pessoa é considerada pervertida?” perguntou, olhando para a garota diretamente em seus olhos. “Ou quanto alguém olha para o céu e vê um belo pôr do sol e o observa com atenção, você chama alguém assim de pervertido?”
A jovem garota foi pega de surpresa com as perguntas estranhas.
“D-do que diabos você está falando? É claro que não.” respondeu, franzindo a testa, acreditando que o sujeito só estava cuspindo bobagens para escapar da situação.
“Então por que está me insultando dessa forma? Tudo que eu fiz foi ver uma pessoa atraente e admirá-la. Nunca tive segundas intenções ou pensamentos sexuais com você.” O rapaz afirmou.
A garota olhou o jovem pálido de forma estranha. Ela queria dizer que ele só estava falando bobagem, mas o jeito de falar dele emanava uma sinceridade que lhe deixou levemente constrangida. É como se cada palavra que saísse de sua boca fosse a mais pura verdade, sem esconder qualquer detalhe ou pensamento.
“E-eu vi você olhando para os meus seios, ou você irá negar?”
O jovem pálido apenas balançou a cabeça.
“Não, eu realmente fiz isso.”
“Então você admite!” A garota exclamou, apontando seu leque metálico para ele.
“Como eu disse, não tive qualquer pensamento sexual, até porque…” falou, agarrando o ar vazio com seu único braço bom, como se estivesse simulando algo. “Ali não tem nada que me atraia. Você é reta como uma madeira plana. Se algo fosse me atrair, seria mais como isso.” falou, olhando para Lerona.
Todos imediatamente se voltaram para a mulher, comparando-a com a garota de cabelos azuis. Era como comparar uma montanha, com uma estrada de terra
“E-ei!” A mulher ruiva rapidamente cobriu o próprio busto, com seu rosto ficando vermelho sob os olhares, bem como o comentário inesperado de Fernando.
Enquanto isso, a garota de cabelos azuis estava igualmente vermelha, numa mistura de raiva e vergonha. Ela estava prestes a explodir novamente, mas o rapaz pálido interviu.
“Mais cedo, quando passamos por vocês, vi que distribuíam alimentos para os pobres. Pensei que fossem pessoas decentes, mas vocês realmente falam tão facilmente sobre matar outros apenas por causa de um olhar casual? Que tipo de psicopatas vocês são?!” O jovem pálido falou, com uma expressão enojada.
A garota, bem como a velha senhora, mesmo que a contragosto, sentiram-se envergonhadas. Ao pararem para pensar, suas ações realmente foram extremamente excessivas.
“Senhorita, não ouça esse sujeito.” Eduardo falou, de forma altiva. “Se desejar, a vida dele será sua, agora mesmo! Pessoas sem valor como essas sequer merecem escolher como vão morrer! Na verdade, ele deveria estar grato por morrer por alguém como você.”
Vendo o homem falar isso de forma tão grosseira e arrogante, ficou ainda mais evidente que seu lado era o errado na história.
Olhando para o rapaz pálido, ela franziu fortemente as sobrancelhas, quando moveu o pulso, guardando o leque.
“Vamos embora!” ordenou, com a voz trêmula, seguindo um dos corredores para as suítes.
Vendo isso, a velha senhora olhou para o trio de forma peculiar, especialmente para o rapaz pálido. Era a primeira vez que ela via sua senhorita ser convencida por alguém apenas com palavras e argumentos. Normalmente, quando ela decidia algo, era quase impossível fazê-la mudar de ideia.
Como alguém que a servia, era seu dever cumprir com suas vontades, sejam elas benevolentes ou cruéis.
“Você sabe como falar, criança. Parece que sua vida será poupada hoje.” Ao dizer isso, a velha senhora calmamente seguiu o mesmo caminho que a garota.
O sujeito de cabelos acinzentados parecia descontente com o desfecho, mas não ousou contrariar a decisão de sua senhorita.
“Organizem as coisas e não toquem nesses três. Pelo menos por enquanto.” ordenou de forma arrogante.
Vendo tudo sendo resolvido, Aldebaran suspirou de alívio. Por causa de uma mera troca de olhares indevida, quase houve um banho de sangue em seu estabelecimento.
“Porra Garcia! Você e esse garoto por acaso querem se matar e me arrastar junto? Essa gente é perigosa!”
Raul, que apenas ouviu tudo em silêncio, apenas deu de ombros.
“É, eu tô sabendo.” falou, ainda sentindo os calafrios do mana da mulher, ele não tinha certeza, mas acreditava que ela era pelo menos de nível Major. Após um breve suspiro, voltou-se para Fernando. “Moleque, você até que é bom de papo. Mas é melhor me explicar que porra você tá fazendo hoje!”
Ao lado, Lerona não disse nada, mas a mulher também estava curiosa. Ela também estava um pouco envergonhada pelo que o jovem Tenente havia dito sobre ela.
Fernando apenas suspirou, aliviado. Ele apenas havia dito tudo que pensava, quase sem filtro, deixando a Poção da Verdade em seu corpo agir. As chances de sair algo que não indevido eram extremamente altas, mas felizmente tudo havia acabado bem.
Pouco tempo depois, Raul, Lerona e Fernando se reuniram num dos dois quartos da pousada.
“O que aconteceu, foi…”
Logo ele contou a eles sobre como havia sido abordado no bordel por Deran, como foi até o quarto com ele e a dançarina, fingindo estar embriagado e como acabou descobrindo que a mulher era a Eterna Viajante, e claro, não escondeu o fato de que ele havia sido obrigado a ingerir uma Poção suspeita que lhe fazia contar toda a verdade contra sua vontade.
A única coisa que omitiu foi o fato de ter descoberto que a mulher era uma Medusa. Esse era um assunto sensível que ele não queria abordar, já que poderia acabar levando a Theodora.
Ouvindo que Deran, o subordinado da Viajante Eterna, era muito provavelmente um Major, fez as expressões de Raul e Lerona escurecerem. Se eles fizessem alguém assim seu inimigo, estariam em sérios apuros em Yandou.
“Espera, você tá dizendo que eles iam te matar, mas simplesmente te liberaram quando você fez uma oferta? Isso não faz o menor sentido.” Raul disse, olhando para o rapaz de forma suspeita. “O que exatamente você ofereceu a eles?”
Ele realmente não deixa passar nada… Fernando pensou, suspirando consigo mesmo, lamentando que o Urso Tirânico fosse tão esperto.
Ele queria omitir a questão do que havia oferecido, mas percebeu que não poderia fazê-lo mesmo se quisesse.
“1kg de Cristal de Sangue de Delgnor.” respondeu, com uma expressão calma.
Ao ouvirem isso, Raul e Lerona ficaram boquiabertos.
“Porra, você tá louco? Onde vamos conseguir essa merda?!” Raul exclamou, com a voz alta. Porém, ao ver a estranha calma do rapaz, sua expressão mudou. “Espera, você… Não vai me dizer que você realmente tem isso, vai?!”
Até mesmo pessoas que não eram do ramo das Matrizes sabiam o quão valiosos eram Cristais de Sangue de Delgnor, sendo verdadeiros tesouros.
“Eu tenho.” O jovem Tenente respondeu diretamente.
Sabendo que ele ainda estava sob o efeito dessa Poção da Verdade, Raul e Lerona congelaram no lugar, não imaginando que o rapaz estava casualmente carregando algo de tão alto valor por aí.
O Capitão estava prestes a perguntar mais sobre a origem disso, mas Fernando rapidamente apressou-se para interrompê-lo.
“Senhor Raul, para o bem de nós dois, é melhor não perguntar nada além disso.” O rapaz pálido falou, com uma voz séria.
O Capitão moreno arqueou levemente a sobrancelha, não tendo gostado do que ouviu, mas concordou.
“Se é isso o que você quer… mas enfim, se é como você falou, isso pode ser mais perigoso do que pensei. Acho que mesmo se eu e a ruiva trabalharmos juntos, não conseguiríamos vencer um Major.”
Lerona, que estava de pé ao lado da porta, concordou.
“Ele também não identificou o nível de força da mulher, então devemos considerar o pior cenário possível, ela é alguém igual ou mais forte que esse tal Deran.” complementou.
Quando essas palavras foram ditas, todos os três ficaram em silêncio.
“Senhor Raul, o que exatamente você quer comprar dessa pessoa?” Fernando perguntou, quebrando o clima tenso. Essa era uma dúvida persistente que ele vinha tendo. Conhecendo o homem, não acreditava que ele se arriscaria tanto procurando a Eterna Viajante por algo banal.
O sujeito moreno cruzou os braços, parecendo pensativo.
“A verdade é que… Nem eu tenho certeza.”
Fernando e Lerona se entreolharam, sem entender, achando que era mais uma piada do homem. Mas ao verem que ele realmente estava falando sério, ficaram ainda mais atordoados.
Esse cara, ele está de brincadeira? Ele me fez arriscar minha vida por algo que ele nem sabe o que é?! O jovem Tenente pensou, irritado.
Lerona também não parecia contente, principalmente por ter que frequentar um lugar como aquele.
Vendo os olhares insatisfeitos dos dois, Raul deu uma leve risada, quando coçou a cabeça.
“Vejam bem, eu não tenho certeza, mas eu recebi uma dica.”
“Dica? Do quê?” Fernando indagou.
“Isso, eu não sei exatamente o que esse Eterno Viajante possui para venda, mas a dica que recebi é que ele… pode estar em posse de uma Habilidade de Nível Cavaleiro.”

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