Capítulo 664 - Sem tempo
“Habilidade de Nível Cavaleiro?!” Fernando perguntou, chocado. Ele nunca tinha ouvido falar disso! Imediatamente seu coração disparou, cheio de curiosidade. “Algo assim realmente existe? Quais os requisitos para se aprender? Espera, o que significa ser nível Cavaleiro? Você nunca mencionou algo sobre uma Habilidade assim antes.”
Ouvindo a enxurrada de perguntas uma atrás da outra, assim como a empolgação do rapaz pálido, Raul e Lerona ficaram extremamente surpresos, já que o Tenente era estoico na maior parte do tempo.
Apesar disso, o Capitão moreno não se sentiu incomodado, pelo contrário, deu um sorriso de satisfação. Para trilhar o caminho de um Usuário de Habilidades, esse era o mínimo de vontade e paixão exigidos.
“Calma moleque. Uma pergunta por vez… Primeiro de tudo, até pouco tempo atrás, eu também nunca havia ouvido falar sobre isso.”
A expressão de Fernando mudou com a resposta, afinal Raul era seu mentor e quem havia lhe apresentado ao Sistema de Habilidades. Mesmo que o sujeito tivesse um comportamento no mínimo questionável, ele era extremamente competente na área. Logo, era estranho que ele não soubesse de algo assim.
“Como assim?” perguntou, com uma expressão séria.
Raul apenas o olhou calmamente, então voltou sua atenção para o braço esquerdo dele. O membro estava numa posição estranha, levemente torcido.
“Um momento. Antes de continuar, vamos resolver isso.” Ao falar até aí, aproximou-se de Fernando, então agarrou seu braço com força, o que fez o jovem pálido arregalar os olhos de dor.
“Espera, o que…” Antes que ele pudesse perguntar, um som do estalo de seus ossos foi ouvido, quando Fernando sentiu uma dor excruciante. “Uh… O que você fez?!”
Vendo-o suando frio e tremendo, mas sem demonstrar sinais de perder a consciência, o Capitão moreno assentiu, satisfeito com a resistência à dor que seu pupilo havia adquirido.
Esse pivete é realmente impressionante, ele chegou a Avalon há tão pouco tempo, mas já conseguiu desenvolver esse nível de resistência mental. A maioria das pessoas precisa de pelo menos cinco anos de treinamento intenso para chegar perto disso… Parece que ele realmente está pronto para aquilo. Raul pensou, olhando-o fixamente.
“Relaxa, só estou alinhando seus ossos quebrados. Mesmo que sua Habilidade de Auto Regeneração ou sua Magia de Cura possa reparar seus ferimentos e ossos quebrados, eles ainda precisam estar bem alinhados, caso contrário eles irão se conectar de forma deformada. Nesse caso, precisaríamos quebrar tudo de novo. Se bem que não seria algo exatamente ruim, tem algumas coisas que eu gostaria de testar em você… Hahahah!”
Ouvindo o sujeito falar de forma tão casual sobre quebrar seus ossos, Fernando imediatamente sentiu um calafrio em sua espinha. Mesmo que ele fizesse seu melhor para não demonstrar dor e até estivesse melhor em suportá-la, não era como se ele fosse fã em senti-la.
Após colocar o braço do rapaz de volta no lugar, Raul enfaixou-o habilmente com algumas bandagens que tirou de sua Pulseira, para que ficasse firme.
“Ok, agora tente ativar sua Magia de Cura e beba isso.” falou, tirando um frasco com um líquido levemente esverdeado.
“O que é isso?”
“É uma Poção Desintoxicante, você já bebeu antes, então deve se lembrar.” explicou, ao recordar o rapaz de quando o levou até Dimitri para ser tratado após a emboscada da Família Lopes. “Você disse que aquelas pessoas te obrigaram a beber algo e que provavelmente é uma Poção da Verdade. Mesmo que você pareça bem agora, esse tipo de Poção é ilegal e só é fabricada e comercializada por pessoas do submundo. Sabe-se lá que tipo de ingredientes foram utilizados nessa coisa ou que efeitos colaterais isso pode gerar, então é melhor tomar isso, só por precaução.”
Ouvindo isso, Fernando ficou surpreso pelo sujeito pensar nisso e não pôde deixar de concordar. Então rapidamente bebeu tudo em um único gole e logo em seguida usou sua mão direita para tocar a parte do braço esquerdo quebrado, ativando sua Magia de Cura, bem como sua Auto Regeneração em conjunto.
Lerona olhou para Raul com algum interesse.
Apesar desse cretino ser bizarro e repugnante, até que ele é bom em lidar com esse tipo de situação. pensou, impressionada. Mesmo ela não havia se lembrado de usar esse tipo de Poção no rapaz pálido. Logo deduziu que o sujeito já deve ter tido alguma experiência no assunto. Somente alguém que já foi envenenado mais de uma vez teria esse tipo de pensamento rápido a respeito de como agir.
Logo sons de leves estalos puderam ser ouvidos dentro do braço de Fernando. Eram seus ossos lentamente se reconectando sob os efeitos da Magia de Cura e de sua Habilidade.
Merda, como eu odeio isso… O rapaz pálido exclamou mentalmente, cerrando os dentes e suportando a dor.
Embora a Magia de Cura e a Habilidade de Auto Regeneração ajudassem muito, sendo muito mais práticas e de efeito mais rápido que as Poções de Cura, também tinham seus lados negativos. Ele claramente podia sentir seus ossos, carne e tendões se movendo e regenerando por debaixo da sua pele numa velocidade impressionante e igualmente dolorosa.
Qual o problema daquela mulher, e que força monstruosa era aquela? Fernando perguntou-se, ao lembrar-se da garota de cabelos azuis de antes, que parecia tão jovem. A força e velocidade que ela havia demonstrado eram extremamente bizarras. Inicialmente ele achou que o problema poderia ter sido por ser pego de surpresa, mas pensando com calma no que aconteceu, duvidava que seria capaz de se defender daquele chute mesmo se estivesse totalmente preparado.
Quando o processo de cura estava praticamente terminado, a voz de Raul logo soou, interrompendo seus pensamentos.
“Eu queria ter uma boa noite de descanso hoje, já que viajamos alguns dias quase sem parar. Mas se o que você disse sobre aquela tal Viajante Eterna for verdade, não temos tempo a perder. Vou falar mais a respeito sobre o que aprendi recentemente enquanto te torturo, digo, te treino lá embaixo.” falou, ao agarrar o rapaz pelo ombro, puxando-o ao seu lado.
“Ei, você falou algo sobre tortura?!” Fernando exclamou, assustado.
“Não falei não, você deve ter ouvido errado.” Raul respondeu, com uma expressão de inocência.
O jovem Tenente logo olhou para a Capitã ruiva, em busca de ajuda. Ele mal havia curado seu braço quebrado, mas esse sujeito já queria levá-lo para ser espancado!
“Senhorita Lerona!” chamou, com uma voz trêmula.
A mulher parecia estar com pena do rapaz, mas balançou as mãos, de forma impotente.
“Desculpe Tenente, mas eu recebi ordens diretas do General Dimitri para não interferir em qualquer coisa relacionada ao seu treinamento com esse cara. Além disso, viemos até aqui exatamente para isso…”
“Você ouviu a ruiva, garoto. Ninguém vai te salv-, digo, atrapalhar nosso treino. Hahaha! Raul falou, rindo alto.
Você não deveria ser supostamente minha guarda-costas?! Fernando pensou, nervosamente, olhando para a mulher.
Logo o sujeito ‘acompanhou’ o rapaz para a porta do quarto, mas quando viu a mulher o seguindo de perto, franziu a testa.
“Você não precisa vir.”
“Eu preciso.” Lerona afirmou. “Você vai ensiná-lo sobre Habilidades. Eu sei uma ou duas coisas, mas acho que seria bom ouvir sobre elas a partir de alguém que é mais experiente nesse campo, já que uma das missões que o General me deu foi sobre dominar ao menos uma.”
Ouvindo isso, Raul franziu o cenho, com uma expressão estranha.
“Que merda você está falando? Você é uma praticante veterana do Sistema de Magia.” disse, com convicção, já que ele mesmo havia a visto usando Magia de Luz por diversas vezes no caminho até Yandou.
Além disso, mesmo que fingisse menosprezá-la, o Capitão moreno não era alguém alienado, pois até ele sabia o quão incrível essa pessoa era. Apesar de ser de uma cidade do extremo Norte já tinha ouvido falar sobre as inúmeras conquistas e feitos da Lança Boreal da Cavalaria Blindada Nagalu. Logo, por que alguém tão talentosa no Sistema de Magia iria querer se arriscar no Sistema de Habilidades, sendo algo tão perigoso?
A mulher parecia surpresa com a pergunta, então olhou para Fernando, de forma questionadora.
“Você não contou para ele?”
“Contar o quê?” Raul perguntou, franzindo a testa e também olhando para o rapaz pálido.
Nesse momento, o jovem Tenente lembrou-se que o Capitão moreno era um dos únicos dentre suas pessoas de confiança que havia ficado de fora da ‘reunião’ que fizeram no Batalhão Zero, estando completamente ignorante sobre tudo que havia acontecido e de seus planos traçados naquele dia.
Como Raul havia simplesmente desaparecido de forma repentina pouco após salvá-lo das mãos de Lincon, ele simplesmente não havia tido a chance de informá-lo.
“Eu imaginei que o General Dimitri talvez tivesse dito algo para você.” Fernando comentou, surpreso.
Lerona balançou a cabeça, de forma negativa.
“Nem eu e nem o General Dimitri jamais nos atreveríamos a fazer isso, Tenente. Acredito que o General desconfiava que esse homem tinha passado por aquele processo, já que vocês se conhecem há bastante tempo, mas como ele não tinha certeza, se absteve e deixou o assunto para você. Além do mais, estamos sobre Contrato e nunca iríamos nos arriscar.”
Ouvindo isso, o Tenente assentiu, percebendo que fazia sentido, enquanto o próprio Raul apenas ouviu tudo aquilo, com uma expressão estranha.
“Bem, o que aconteceu, é…”
Logo Fernando explicou sobre tudo o que havia feito.
Após Dimitri lhe dar um ultimato quanto aos seus segredos, ele acabou mudando vários dos seus planos, revelando tudo a ele e há muitos outros. E por precaução, emitiu Contratos de Sigilo para Lerona, Dimitri, Zado, Wedsnagauer e Alfie Caiman, bem como o restante dos membros centrais do Batalhão Zero que ele convidou, além de ter criado Veias de Mana para todos eles. Também contou sobre os planos de tornar Zado um Grande Mago até o fim da Missão de Trucidação, com o objetivo de reconquistar Vento Amarelo.
Ouvindo a enxurrada de informações, o Urso Tirânico ficou sem palavras.
“Merda, moleque, você realmente…”
O jovem Tenente sabia exatamente o que se passava na cabeça do sujeito, afinal, ele havia repetidamente o alertado sobre não espalhar ainda mais sobre as Veias de Mana e muito menos sobre a Aptidão Absoluta, já que eram segredos extremamente perigosos caso vazassem, mas não só ele não respeitou esse pedido, como incluiu ainda mais pessoas ao seu círculo de confiança.
“Senhor Raul, me desculpe, mas não tive escolha. Eu…” Antes que o rapaz pudesse continuar, o sujeito moreno o interrompeu, com uma expressão pensativa, então o soltou, afastando-o e olhando em seus olhos de forma séria.
“Não precisa explicar ou se desculpar comigo. Se essa é a decisão que você tomou, então não direi nada.” afirmou, com um humor totalmente diferente de segundos antes, parecendo ainda mais preocupado do que quando Fernando lhe contou sobre a Eterna Viajante.
Ele está bravo? O jovem Tenente perguntou-se, com algum receio.
Mesmo que ele tivesse uma relação aparentemente conturbada com o sujeito na superfície, Fernando realmente respeitava e valorizava Raul como seu Mentor, considerando seriamente suas opiniões e pensamentos.
Apesar de ter um apreço especial por Gallia, foi o Urso Tirânico quem lhe deu uma oportunidade quando mais ninguém via valor nele. Mesmo que ele tivesse feito isso meramente por capricho na época, o jovem Tenente ainda era grato. Se ele não tivesse aprendido Habilidades quando ainda era um Recruta, muito provavelmente teria morrido na missão do Vale de Flaviore.
Porém, logo a expressão do sujeito moreno amenizou-se, ao perceber a expectativa e apreensão do rapaz quanto a ele.
“Relaxa, tá tudo bem. Eu meio que já imaginava que você faria algo assim em algum momento, apenas não imaginei que envolveria até mesmo o General Dimitri e o General Zado… Agora entendo porque ele aceitou tão facilmente meus pedidos e parecia tão próximo do General Zado.” falou, com leve sorriso, parecendo impressionado. “Além disso, eu realmente não posso reclamar do fato de você ser alguém tão solidário em relação aos seus talentos com as pessoas ao seu redor. Se você não fosse assim, eu jamais teria recebido aquelas Veias de Mana, bem como aquela Habilidade… Na verdade, se não fosse por você, eu provavelmente ainda estaria preso no nível de Guerreiro.”
Ouvindo tudo aquilo, com Raul tendo aceitado tudo tão bem e até expressando sua gratidão a ele, Fernando relaxou, suspirando mentalmente e até se sentindo levemente emotivo com a sinceridade do sujeito.
“Dito isso… você realmente colocou dois Generais na coleira. Moleque, você realmente não é alguém normal. Hahahah!” O Capitão comentou, rindo alto e voltando ao seu humor normal.
Lerona, que estava ao lado, apenas observando, franziu o cenho com a piada.
“Mais respeito pelos Generais!” exclamou, irritada.
O sujeito moreno a olhou por um momento, mas apenas a ignorou, sem vontade de provocá-la.
“Vamos andando. Depois conversamos melhor sobre tudo isso.” Ao dizer isso, foi em direção à saída do quarto.
Fernando e Lerona assentiram, seguindo-o.
A Capitã ruiva ficou impressionada com o quanto o jovem Tenente confiava em Raul, já que até mesmo Dimitri teve que assinar um contrato, mas ele não havia pedido qualquer coisa do tipo ao sujeito.
Logo o trio saiu do quarto, seguindo pelos corredores em direção à parte administrativa da pousada, onde Aldebaran normalmente ficava, mas o sujeito não estava ali.
“Se bem me lembro, deve estar por aqui…” Raul falou, ao tatear a parede, logo sua palma afundou nela, quando uma parte cedeu para dentro, revelando-se como uma porta falsa. “Hah, eu sabia, é aqui. O último que passa fecha, não queremos que aquela gente descubra sobre isso…”
A passagem era estreita e escura, mas o sujeito moreno não hesitou, quando se abaixou e entrou diretamente.
Fernando e Lerona se entreolharam, quando ele seguiu logo atrás, bem como a Capitã, que logo puxou a porta falsa ao passar.
Abaixo havia um lance de degraus, que desciam para sabe-se lá onde. Sem a luz da entrada, foram obrigados a ativar sua Visão Escura.
Enquanto desciam, uma série de pensamentos passaram na mente do rapaz pálido, ao ponto que havia até mesmo esquecido do medo que estava de treinar com o Urso Tirânico.
Vendo as costas do sujeito e o silêncio que se seguiu, sem uma única piada ou provocação a Capitã Lerona, o rapaz pálido tinha certeza que Raul não havia aceitado tudo tão bem quanto aparentava e ele sabia exatamente o motivo para isso.
Estamos ficando sem tempo? perguntou-se, preocupado.

Regras dos Comentários:
Para receber notificações por e-mail quando seu comentário for respondido, ative o sininho ao lado do botão de Publicar Comentário.