Índice de Capítulo

    O vento sessa

    As folhas assistem.

    E os pulsares se sincronizam após uma ínfima pausa.

    — Por que diz isso? — Shymphony cerra os punhos de leve.

    — Não estamos prontos ainda… — Pietro sussurra para si mesmo em voz alta.

    — Ainda não. — Méter complementa o sussurro.

    — Mãe… essa primavera, eu vencerei Sylphie e qualquer um. E quando isso acontecer, se achar que sou digna… — Ela fala de olhos fechados. Seus punhos ressoam tão sutilmente, que só as partículas de ar mais próximas são capazes de perceber.

    — Cresça minha filha. Me mostre que está pronta para as verdades desse mundo. — As folhas voltam a balançar, a grama a sacolejar, e mesmo antes de Méter terminar sua fala, Shymphony já está seguindo seu caminho.

    — Mostrem a determinação que habita em seus corações. — Essa última fala, ecoa muito mais como um sentimento, do que propriamente palavras. Não só nos dois ali, mas em todos os filhos espalhados pelo mundo.

    E com esse último ressoar de Méter, uma chama se ascende no coração de cada um deles. Um sentimento, um último pedido.

    E as folhas mais frágeis se desprendem da copa. Escarlates como nunca, são carregadas pelo vento e se espalham. Algumas caem ali perto, outras conseguem chegar até as areias de Atlás.

    E tem aquelas, abençoadas pela sorte, que voam até caírem em jardins, canteiros, pequenas plantações, buscando o destino inevitável de todas as coisas. E assim, começar um novo ciclo de vida e morte.

    Uma folha em específica, vagueia até alcançar a sombra de uma cerejeira que decora a paisagem ao redor de uma pequena piscina.

    — Eu já vou indo então, preciso fazer os preparativos para a jornada. — Helvetia enrolada em uma toalha comprida, já se direciona para dentro.

    — Até amanhã! — Shymphony se despede de olhos fechados e toda relaxada na piscina rasa

    — Boa sorte! — Nova já está se secando ao lado.

    — Até! — Sarah a observa sumir pela porta.

    Enquanto Helvetia caminha pelas ruas, observando as pessoas, os animais, as cargas e toda a agitação que essa cidade sempre fica nessa estação. Dessa vez, ela repara mais atentamente nas decorações floridas pelos estabelecimentos. Nas lamparinas extras que são penduradas pelas calçadas e esquinas.

    Ela sorri com o olhar vago e distraída em memórias recentes.

    — Preciso falar com o Touka. — Então se escora no balcão enquanto espera.

    Ao fundo, ela vê Makae carregando algumas caixas de madeira com um pouco de dificuldade.

    — Seja bem-vinda! — Touka aparece vindo de uma escada.

    — Boa tarde! Tudo bem? — Helvetia estende a mão, gesto que ele retribui com um sorriso gentil.

    — Como posso ajuda-la hoje? — Ele vagueia o olhar pelo ambiente, e retorna para ela.

    — Eu preciso de mantimentos, e alguma coisa para armazená-los. — Ela volta a se escorar no balcão, mas agora de frente enquanto olha para algumas garrafas em algumas prateleiras.

    — Faz quanto tempo? — Ele também se escora ao lado dela.

    — Dói só de lembrar. — Ela coloca a mão na lateral da barriga.

    — Quanto tempo vai durar? — Ele olha de canto para ela.

    — No mínimo uma semana. — Ela se vira para ele.

    — Complicado. — Ele suspira e então retoma. — As caixas com gelo e feno não vão durar. — Ele se escora de costas no balcão e começa a encarar para o alto. — Vai ter que ser no sal.

    — A carne não é um problema tão grande… eu acho. O problema são as frutas e água. — Ela também se vira de costas e encara para o alto

    — Pode esquecer as frutas. A não ser que queira comê-las ressecadas. — Ele sorri de leve.

    — Melhor não — A cara de desgosto, fica estampada nela.

    — Água é o principal, mas em uma jornada longa, não se dá para carregar muito. — Touka fecha os olhos em procura de respostas.

    — A gente vai entrar no território de Urânus. — Ela fala enquanto se vira de volta para o balcão e busca olhar novamente as garrafas.

    Ele abre os olhos espantado por um momento, mas logo retoma a compostura.

    — Quanto menos peso melhor. — Ele suspira novamente e se vira para ela. — A melhor saída será levar um grande recipiente até perto do território. E quando chegar. Enterrá-lo bem fundo após encher um menor.

    — Isso pode funcionar. — Ela puxa um banco alto ali do lado, e após se sentar, cruza os braços sobre o balcão e se esconde no meio deles. O silêncio toma conta do ambiente por um tempo.

    — Se conseguir, pode levar um terceiro recipiente, de tamanho médio, e tentar enterrá-lo em um ponto estratégico dentro do território. — Touka explana cortando o silêncio.

    Helvetia levanta a cabeça com os olhos bem abertos e voltados para ele.

    — Isso realmente pode dar certo. — Ela sorri com confiança. — As pessoas que vão me acompanhar são bem fortes. Acho que dá para carregar até uns dois desse. — Enquanto olha para Touka, ao fundo, Makae passa novamente com outra caixa.

    — Você deve ter oferecido uma boa quantia para eles. — Ele sorri enquanto a olha.

    — Não sei por que, mas sinto que mesmo se não tivesse oferecido muito, eles viriam do mesmo jeito. — O olhar dela fica distante novamente em meio as garrafas.

    — Mesmo pagando bem, eles já são bem malucos de irem até lá. — Ele se vira, e de canto de olho, repara em Makae cambaleando com uma caixa. Seu coração quase para ao mesmo tempo que lhe foge o ar.

    Helvetia até olha para ele se perguntando o que teria acontecido

    — Quantos irão? — Ele indaga enquanto retoma a compostura.

    — Quatro.

    — Um bom número. Vou providenciar água e carne para oito dias. E o melhor que posso fazer. — Touka estende a mão novamente.

    — Mais do que isso, teremos que se virar por conta própria. — Ela estende a mão e acena positivamente com a cabeça.

    — Amanhã cedo estará tudo pronto. — Ele fala enquanto se vira para trás. — Agora deixa eu ir ali dar uma mão.

    — Pode chamar o Makae para mim um pouco?

    — Eu imaginei que diria isso. — Touka já está se distanciando.

    Alguns segundos após ele ter sumido para o fundo, Makae vem vindo enquanto coloca a mão no ombro.

    — Serviço pesado? — Helvetia fala enquanto sorri e o observa.

    — As moedas compensam. — Ele sorri de volta.

    — Sendo direta. Vou fazer uma jornada bem perigosa para o deserto, com chances bem grandes de morrer. — Ela vagueia o olhar entre ele e o ambiente enquanto. — E queria saber se você tem algum conselho sobre como sobreviver por lá.

    Ele fica em silêncio por um momento, puxa uma cadeira ali perto e se senta colocando um dos cotovelos sobre o balcão e o punho fechado por baixo do queixo.

    — Tecido fino, é o melhor instrumento de sobrevivência por lá, ainda mais dependendo da região. — Ele vira o olhar para ela que também já vai se sentando novamente.

    — Como assim?

    — Se você estender um tecido fino e grande durante a noite, ele capta humidade do ar. Não é muito, mas no deserto, cada gota importa. — Ele vagueia o olhar pelas garrafas e depois para ela.

    — É um recurso de emergência então. — Helvetia coloca a mão no queixo por um momento. — Vou tentar arrumar alguns.

    — Desculpe não ajudar mais, eu não cresci no meio deles, então não aprendi muito, só algumas coisas que meus pais falaram.

    — Só esse conselho pode ser a diferença entre viver e morrer. — Ela sorri gentilmente para ele.

    — De fato! — Ele sorri em resposta. — E para qual parte do deserto está indo?

    — Mais para sudoeste daqui.

    — Essa direção? — Ele foca o olhar nela.

    — Sim. — Helvetia retribui com o semblante sério.

    — Coragem viu, nem eles passam por lá.

    — É de se imaginar. — Ela volta a olhar para as garrafas.

    — Quer escutar uma lenda? — Makae fala sorrindo e olhando para o balcão.

    — Ultimamente venho escutando muita coisa parecida.

    — É sobre uma deusa guardiã que vaga pelo deserto à espera do dia que demônios surjam de cavernas profundas. — Ele sorri de boca fechada com o olhar distante.

    Em contrapartida, o semblante de Helvetia é sério com o olhar se voltando para ele. Mas logo disfarça com um sorriso.

    — Interessante, me fale mais.

    — Dizem que ela vaga por aí como um fantasma, e salva pessoas que estão em perigo, mas só quem foi uma criança boa que obedece aos pais. — Ele sorri, e ela também. — E se presentear ela ou com a água que cura tudo, ou com cerejas bem azedas, ela ficara em eterna gratidão a você.

    — Água que cura tudo é complicado, mas cerejas-azedas são possíveis. — Helvetia fala mais para ela mesma do que para ele.

    — Bom, são só lendas, minha mãe disse que ninguém nunca a viu. — Makae começa a se levantar. — Mas sempre que iam passar perto de territórios perigosos, mandavam alguém aqui antes para comprar cerejas.

    — Superstições ajudam muito a ter coragem ou a dar medo. — Helvetia também se levanta.

    — Se acredita que meus pais compram até hoje? — Ele ri bem de leve.

    — Onde?

    — Em um galpão no anel externo ao sul. — Makae arruma a cadeira, a deixando bem perto do balcão. Helvetia sorri bem disfarçadamente ao ver.

    — Obrigada, acho que vou dar uma passada por lá — Ela estende a mão. — Acho que estou precisando de um pouco de coragem.

    — É sempre bom. — Ele retribui o geste e logo vai se virando e sumindo para o fundo.

    Helvetia caminha a passos lentos enquanto se perde em pensamentos, e o olhar vago. Quando chega ao anel sul, rapidamente vislumbra algumas barracas de frutas, e se aproxima fazendo perguntas.

    Depois passa na guilda para trocar uma última conversa com Lyanna, e um chamego com Ely.

    E por último, chega até o estabelecimento de Palos. Após receber mais algumas dicas, e comprar algumas ervas, ela se despede dele e de Nero. Palos a olha se distanciando com o olhar relaxado e o coração apertado.

    Chegando eu seu estabelecimento. Vai separando algumas armas, armadilhas e equipamentos que acha necessário. Dá uma última olhada para o esqueleto do Carvão de Sangue sobre a mesa e sorri de leve. Por algum motivo seu coração acelera, e até perde o ritmo da respiração. Mas logo os controla com um profundo suspiro. Então fecha a porta e segue rumo a sua casa.

    Já deitada na cama, mal consegue fechar os olhos.

    Se levanta, desce as escadas, vai até à cozinha, bebe um pouco de água e para em frente à mesa. Encara um pequeno saco por um tempo e depois enfia a mão nele pegando uma cereja escura.

    Ao colocar na boca e mastigar, um de seus olhos pisca sem sua permissão enquanto coloca a língua para fora e faz uma careta.

    Volta a beber um pouco de água, agora com mais pressa, e volta para as escadas e para o quarto. Mas ao invés de deitar, ela pega uma coberta e um travesseiro, então abre uma porta que leva para uma sacada larga, e se senta em uma cadeira que é um pouco deitada após ajeitar o travesseiro no alto. Então ela se cobre.

    Seus olhos e coração se acalmam ao vislumbrar aquele céu expendido. E no centro dele, uma lua tão grande que parece estar mais próxima do que realmente está. Aos poucos a brisa suave da noite toca seu rosto e cabelo. E seus olhos vão se fechando enquanto ela esboça um sorriso de paz.

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