Capítulo 103: Partida
Você realmente vai levar frutas? — Touka encara as cerejas com a testa franzida.
— Só elas. — Helvetia faz um bico pro lado com a boca.
— Vou ver se ainda tem alguma caixa pequena vazia. — Ele já vai se virando.
— Vou até o lugar que combinei com o pessoal, já volto. — Ela caminha com passos um pouco mais acelerados que de costume.
Vários minutos de caminha e chega até a uma das pontes que liga o anel intermediário a ilha central.
— Bom dia! — Ela os cumprimenta com um sorriso.
— Bom dia! — Sarah ainda boceja enquanto fala. A mochila que repousa perto dos pés chama a atenção de Helvetia por um momento.
— Bom dia! — Adão veste uma armadura que mais parece incompleta, as únicas partes que ela cobre são os braços, peitoral, costas e canelas.
— Bom dia! — Symphony olha por um instante para ela, e volta sua atenção para o grande escudo escorado em um pilar de madeira ao lado da ponte.
Primeiro Helvetia se aproxima de Adão e examina cada detalhe de sua armadura. Ela a olha com estranheza. Depois ela vai até Shymphony que chega a abraçar o escudo. Também o examina minuciosamente.
— Eles realmente são muito bons no que fazem. — Helvetia até suspira enquanto olha vagamente para o chão.
— Quer ver uma coisa bem legal? — Shymphony retoma a compostura e equipando o escudo. Metade dele tampa seu braço e a outra metade fica projetada para frente do punho. Ele tem um formato alongado e pontudo dos dois lados.
Quando ela vira o escudo na direção de Helvetia, alguns raios de sol batem diretamente nele, resplandecendo o metal dourado. Revelando mais nitidamente algumas sombras derivadas de tiras do próprio metal que saltam e depois retornam para a superfície.
Adão e Sarah colocam a mão no ouvido e se afastam um pouco.
Helvetia seguindo o instinto após ver os dois, até pensa em fazer o mesmo, mas já é tarde.
Com um soco de leve na lateral enquanto vibra o punho, Shymphony faz o escudo inteiro vibrar como se fosse uma extensão de seu corpo. Então o metal ressoa continuamente por alguns segundos, vibrando o ar ao redor.
Adão e Sarah relaxam a postura estranhando a cena.
— Já estou pegando o jeito. — Shymphony sorri como se fosse a pessoa mais feliz do mundo.
— Ainda bem! Mais um daqueles, e o mercador ali te jogava correnteza a baixo. — Adão ela de relance para o mercador ao fundo que os observa com desconfiança.
— Ele é muito compatível com você, mas um problema para quem está perto. — Helvetia coloca a mão no queixo e volta a olhar mais atentamente para o escudo. — Já tenho o papel perfeito para você.
Agora quem olha com estranheza é Symphony.
— Vamos? — Helvetia começa a caminhar. — A nossa carga nos espera.
Quando chegam até o estabelecimento de Touka, encontram um toco comprido de madeira ao lado da porta.
— Adão esse aqui é para você — Helvetia nem se vira enquanto aponta para o toco.
Ele olha com estranheza e vê uma corda presa nele, tanto em cima com em baixo, ao agarrá-la para levantá-lo, sente o peso e o chacoalhar da água ali dentro. Ele abre a pouco um pouco surpreso. Mas logo se adapta ao peso e o coloca nas costas se fosse uma mochila de uma alça só.
— Sarah, percebi que essa coisa sua, pode guardar coisas dentro. — Helvetia já está perto do balcão, olhando para uma pequena caixa de madeira. — Consegue colocar isso aí dentro? — Enquanto fala, ela repara na adaga presa na cintura dela, mas disfarça.
— Acho que sim. — Ela responde enquanto se aproxima e abre a mochila.
Helvetia fica fascinada pelo zíper.
— O que tem aí? — Shymphony a indaga.
— Cerejas, querem experimentar uma? — Helvetia abre a caixa, revelando um punhado de feno misturado com vários pedaços de gelo.
Shymphony, Sarah e Adão pegam uma cada.
Helvetia os observa com neutralidade.
Quando as primeiras remeladas de olho surgem, ela já está perdendo a compostura. Os três olham para ela segurando o riso com a boca.
— Credo, você gosta disso? — Adão a indaga, ainda cuspindo o que pode.
— Pensem nelas como um amuleto da sorte. — Ela fecha a caixa e entrega para Sarah. — Conto com você! — Ela sorri ao ver que dos três, ela foi a que menos fez caretas.
— Vou colocar no fundo, então. — Sarah já está enfiando a caixa com cuidado.
— Porquê? — Helvetia a indaga.
— O tecido e mais grosso ali. — Ela explica ainda olhando para dentro da mochila.
— Falando em tecidos. — A gente precisa dar uma passada no mercado para comprar alguns para vocês.
Eles olham para ela ao mesmo tempo, como se estivessem pensando na mesma coisa.
— O que foi? — Ela retruca os olhares.
— Você tem bastante moedas em. — Shymphony solta no ar as palavras esperadas.
— Ah! Eu tinha bastante. Quando deixarmos Atlântis, estarei falida. — Ela faz um bico com a boca enquanto coloca a mão em uma pequena bolsa presa na cintura.
— E eu? Carregarei o quê? — Shymphony a indaga enquanto puxa um dos bancos perto do balcão para se sentar.
Nesse momento Touka aparece como um fantasma ali.
— Aqui está. — Ele coloca no balcão um grande saco de couro e cinza. Ele é amarrado no alto por uma corda. E duas alças de couro saltam dele.
— Obrigada. — Helvetia da alguns tapas na lateral do saco. — Você será a responsável pela nossa carne. — Ela fala encarando o olhar violeta dela com convicção. Que é retribuído com outro olhar convicto.
Adão encara o saco por alguns segundos, até a Sarah entrar na frente dele.
— Vou ficar de olho em você! — Ela olha no fundo dos olhos dele, enquanto ativa sua presença.
— Nesse momento Helvetia e Touka paralisam ao sentir. Helvetia sente menos, mas ainda olhara para Sarah com cautela sem fazer nenhum movimento brusco.
Shymphony repara nisso, mas logo disfarça.
— Sarah! — Shymphony a chama.
Nesse instante ela desativa a presença, fazendo o ambiente ficar mais leve. E liberando os dois para voltar a respirar. Adão suspira aliviado.
— Desculpem! Eu me esqueci de vocês. — Sarah olha para os dois com cara de coitada. Eles a encaram por alguns segundos. Touka com medo, e Helvetia com admiração.
A cada segundo com eles, seu horizonte parece se expandir cada vez mais.
Seu coração até volta a acelerar um pongo enquanto fecha o punho.
— Damas, com licença, vou buscar o restante das coisas. — Com uma deixa ligeira, Touka some tão rápido quanto apareceu.
— Você consegue fazer isso a hora que quiser? — Helvetia pergunta se aproximando de Sarah.
Ela responde com um aceno positivo de cabeça.
Helvetia desvia o olhar um momento para o chão e logo o volta para Sarah, depois para Symphony e por último para Adão. Os três a encaram a espera de algo.
— Acho que já tenho o papel de cada um quando chegar a hora. — Ela sorri enquanto coloca a mão no ombro de Sarah.
Shymphony a observa atentamente e disfarça quando ela vem se aproximando novamente.
— Até chegarmos no território dela, cada um vai carregar uma parte de nossa carga.
Ela se vira para Adão primeiro
— Você será o mais importante. Então peço que ande sempre na retaguarda.
Ele acena positivamente com a cabeça e o olhar sério.
— Você fara a frente. — Ela se vira para Shymphony. — Por ter mais sensibilidade com sons e vibração. E a pessoa certa para evitarmos animais submersos e areia movediça.
Shymphony a encara atentamente.
— E mesmo que a gente perca você. É mais fácil caçar no deserto do que achar água.
Ela olha com seriedade para Shymphony.
— É a posição mais arriscada. Tudo bem?
Ela levanta o escudo bem alto!
— Um passo de cada vez,
Eu darei por ti.
E mesmo que sucumba na escuridão
Serei a canção
Que guiará seu coração!
Algumas palmas surgem vindas do lado. Ao olharem de onde elas vêm, Touka apare sorrindo
— Já tinha ouvido falar de sua poesia. Mas ouvi-la presencialmente, entoada por voz tão bela. Realmente foi uma honra.
Shymphony fica levemente corada nesse momento.
— Sarah, esses são seus. — Helvetia se aproxima de Touka e pega dou troncos de madeira menos, um terço do tamanho do que Adão irá carregar
Sarah os pega e percebe o quão vazio estão.
— Peço também que cada um pegue um desses pequenos. — Helvetia aponta para alguns cantis pequenos, feitos de bambu-verde.
Depois que cada uma pega o seu, Helvetia se aproxima do balcão e pega um rolo de tecido grosso e enrolado. Algumas cordas o envolvem como se o selasse. Uma alça de couro desponta dele. E em uma das pontas, várias estacas de madeiras despontam. Ela o puxa para si, colocando-o no pescoço.
— Vamos? — Ela encara os três mais uma vez.
Eles acenam positivamente com a cabeça.
— Touka, novamente, muito obrigada.
— O pagamento foi justo. — Ele sorri esticando a mão para ela. — Fiz o meu trabalho.
— Guarde alguns pedaços para quando voltarmos. — Helvetia fala já puxando a caminhada.
— Guardarei. — Ele sussurra mais para si mesmo do que fala
Após passarem pelo mercado e comprarem vestes adequadas para o deserto e mais alguns tecidos. Eles embarcam rumo a vila dos canoeiros.
A cada metro que se distanciam de Atlântis, Shymphony sente seus batimentos acelerarem.
Adão olha o horizonte com olhar distante e semblante sério.
Sarah segura a sua adaga como se estivesse prestes a usá-la.
Helvetia olha para cada um deles, lidando com a situação da sua maneira.
Ela sente a seriedade do momento, que não pode falhar.
Se isso acontecer, será o fim.
Mal sabe ela.
Mas esses sãos os últimos de uma vida, que ela nunca mais terá de volta.
Mal sabe eles.
Que a verdade do mundo será revelada diante de seus olhos, da pior forma.
Mal sabe ela.
Que mais uma vez, a realidade cruel desse mundo.
Cobrará seu preço.

Regras dos Comentários:
Para receber notificações por e-mail quando seu comentário for respondido, ative o sininho ao lado do botão de Publicar Comentário.