Capítulo 34: Calamidade vinda da morte
Capítulo Extra
Em luto pelas vítimas do massacre do Colégio Península, um evento que existe exclusivamente dentro do universo da obra e que ocorreu há cinco meses na linha do tempo da história, mas que ontem, dia 04/02, completaria dois anos na nossa, enviei hoje um capítulo extra como brinde, marcando oficialmente o encerramento do segundo volume de “O que eu deixei para trás?”.
Aproveito também para agradecer, de coração, a todos que acompanham essa história até aqui. O apoio, os comentários e o tempo de vocês significam mais do que imaginam.
Vocês são incríveis.
Rumo às 10k de views. Estamos mais perto do que nunca!
Áurea continuava mergulhada na noite, banhada pela falsa lua que aparentava flutuar no céu.
Mesmo sendo mecânica, era a melhor representação da enorme esfera prateada que os habitantes daquela cidade subterrânea poderiam ter.
Kael e Emi agora seguiam pelas ruas de Áurea, iluminadas por tons dourados. Iam em direção à casa de Kael, para onde Louie e Nina haviam sido levados temporariamente após o resgate.
Cada passo de ambos sobre o chão rochoso, iluminado pelas lamparinas e pelos grandes prédios ao redor, ecoava por todo o local.
Até mesmo a região central de Áurea, àquela hora da noite, permanecia em completo silêncio.
Ambos caminhavam lado a lado.
Kael, sempre mantendo um rosto tranquilo e sossegado, mesmo preocupado com tudo o que havia acontecido e com o que poderia ocorrer novamente, permanecia calmo como a brisa da noite.
Já Emi tinha seus sentimentos visivelmente estampados em sua bela pele parda e nos lindos olhos castanhos.
A distância parecia infinita, ao menos para sua percepção, onde cada passo carregava o peso de uma década inteira de fuga nas costas, para, no fim, ter sido em vão.
— Você parece ansiosa… — comentou Kael, seu corpo robusto escondido por uma nova camisa social.
— Eu sei… mas não tenho por que disfarçar a ansiedade estando só eu e tu aqui, Kael. — respondeu Emi, olhando para ele com um sorriso sincero.
— Uma coisa é certa… Nina puxou completamente a personalidade explosiva e excessivamente expressiva do Daltro! — Kael riu ao lembrar do caminhão de amor de Nina ao reencontrar Louie.
— É… essa sempre foi uma das maiores qualidades dele. — Emi virou o rosto calmamente de volta para a rua. — Isso era, sem dúvidas, o que eu mais amava nele.
— Realmente, a positividade e as brincadeiras dele, até mesmo nos piores momentos, eram algo realmente único… — concordou Kael.
— Sabe, Kael… — a voz dela saiu mais fraca e frágil agora. — Eu fico pensando… será mesmo que eu estou sendo uma boa mãe?
— Do que tu tá falando, Emi?! É óbvio que é! — respondeu Kael na mesma hora.
— Essa já é a terceira vez… a terceira vez que o Louie entra em uma situação de perigo… e eu, fraca como sou, não só não ajudei em nada, como dificultei ainda mais pra voc-
— Você está errada. — exclamou Kael, agora com a voz séria, cortando a fala de Emi.
— Q-que?
— Tu é, sem dúvidas, uma das mulheres mais fortes que eu já conheci em toda a minha vida.
— Mas eu não tenho força pra mudar nada…
— Emi. Muitos pensam em força como poder, como vencer ou perder, matar ou morrer… mas isso é um completo erro. A força não é o que tu se tornou. A força é o caminho que tu percorreu para se tornar quem é. Eu demorei para entender isso… é só compreendi graças ao esporro de alguém que não via a muito tempo…
Os olhos de Emi brilhavam levemente, não só pela iluminação, mas pelas palavras que, há tanto tempo, precisavam ser ouvidas.
— Esse, é o verdadeiro significado de força. Então nunca mais fale algo semelhante a isso, entendeu?
— Hmmm… acho que você está certo… obrigado Kael. — seus olhos agora refletiam a grande lua artificial que pairava sobre o falso céu. — Mesmo falsa… ela continua bela como sempre.
— Hahaha! É verdade. A lua sintética é uma das poucas lembranças deixadas pelos povos antigos e esquecidos de Áurea. Sua beleza continua a mesma, independente da era.
— mudando de assunto, é incrível como o Louie se saiu tão bem na luta contra os capangas da Sacrificium Sanguinis. — disse Kael, levando a mão direita ao queixo enquanto pensava. — Mesmo tendo perdido a memória sobre os próprios poderes, é impressionante a adaptabilidade e a memória corporal que o corpo dele demonstrou.
Porém, de um instante para o outro, o tom de Kael mudou.
— Por acaso… ele já demonstrou algum enfraquecimento no selo nesses últimos dez anos em que vocês estiveram fora de Áurea?
— Hmm… não que eu saiba. — respondeu Emi, tentando buscar em suas memórias alguma ocasião. — Acho que o selo funcionou bem. Ele ficava limitado apenas ao teu Raio graças a isso e, por estar vivendo uma vida de adolescente normal em Porto Alegre, não tinha motivos sequer para ativar suas habilidades, então mal as usava.
— Certo… — respondeu Kael, ainda com o olhar sério. — Eu… temo que o selo dele possa se romper em breve.
— Como assim?! — perguntou Emi, assustada com as palavras de Kael. — Se o selo quebrar, é extremamente perigoso para o Louie, principalmente agora, que ele não tem memória alguma e possui pouco controle sobre si mesmo!
— Segundo o relatório que recebi do Louie, ele conseguiu despertar uma síntese. — Kael soltou um breve suspiro. — Assim que ele chegou a Áurea, mandei realizarem alguns testes para entender exatamente o que essa síntese faz e, principalmente, quais poderes ela utiliza.
— E qual foi o resultado? — questionou Emi, com os olhos tremendo de ansiedade e preocupação.
— O nome é Reconstrução Electrocinética. Ela aumenta o metabolismo a níveis extremos e reconstrói os ferimentos do usuário em nível molecular, fortalecendo-os a cada reconstrução.
— Entendi… mas ainda não compreendo. O que o fato de ele ter despertado uma síntese tem a ver com o selo?
— Simples… com o selo ativo, não era para ele conseguir performar nenhuma síntese. Não usando o Raio, pelo menos. Porém, ele conseguiu. Ativou essa síntese, mesclando a superforça, o Raio e um poder que ele não possuía na época em que estava em Áurea: Íons.
— Íons?! — questionou Emi rapidamente.
— Sim… vendo sua reação, não parece que você sabia sobre isso, correto?
— Não, eu não sabia de nada sobre isso! Como eu disse antes, o Louie estava levando uma vida completamente normal. Ele mal usava os próprios poderes, quem dirá passar por uma situação capaz de despertar um novo! — os olhos da mulher se estremeceram por um momento. — …Espera…
— Isso mesmo. — respondeu Kael, olhando para Emi. — A única situação em que ele pode ter despertado esse poder é…
— O Massacre Sangrento do Colégio Península… — completou Emi. — Mas o que levou ele a despertar esse poder?!
— Isso eu ainda não sei. — Kael olhou para o céu, como se buscasse respostas nele. — E é aí que entram dois pontos principais.
Emi o observava, atenta.
— Primeiro, o motivo da minha suspeita: como dito anteriormente, o poder de Louie, por estar selado ao Raio, com a limitação de ficar trancafiado nele, não poderia gerar uma síntese. Digo isso por já ter convivido muito com o Daltro durante a época em que ele ainda usava o selo.
— Segundo: o que pode ter causado esse enfraquecimento do selo? Até o momento, só consegui pensar em um motivo. Se uma situação foi impactante o bastante para fazer o Louie despertar um poder como a manipulação de Íons, ela também pode ter sido forte o suficiente para destravar, ou ao menos afrouxar o selo.
— Isso faz sentido… tu chegou a falar com o Louie sobre isso? — perguntou Emi, levando a mão ao pescoço. — Que, na verdade, ele tem o poder do-
— Não. — respondeu Kael, interrompendo a frase de Emi. — E é melhor que continue assim. Infelizmente, o doutor que fez o selo no Louie, o mesmo que havia feito o selo no Daltro quando criança, já faleceu devido à idade.
— E… e agora? O que nós… vamos fazer? — perguntou Emi, com a respiração pesada.
— Não contar é a melhor opção, pois os poderes Kaelums são movidos e evoluem a partir do conhecimento que o usuário tem sobre eles. Quanto mais alguém se aprofunda no próprio poder, mais forte ele se torna. Por sorte, optei por não contar ao Louie sobre a real natureza do poder dele no dia em que fiz o teste. Assim, pelo menos inicialmente, ele próprio vai se limitar ao que acredita ser apenas um poder de raios.
— Mas… e se isso não acontecer?
— Nesse caso… eu até posso conter, de forma limitada, os surtos usando meu poder do tempo, porém isso seria apenas uma fuga temporária. E, principalmente, eu não vou estar com ele o tempo todo. — Kael manteve-se sério, ciente da gravidade e das consequências que isso traria. — Meu objetivo é tentar fortificar ao máximo o corpo e a mente dele antes de contar a verdade. Com um corpo e uma mente mais resistentes, as chances de ele suportar os surtos aumentam exponencialmente.
— Entendi. — Emi soltou um breve suspiro, como se sentisse estar completamente à mercê da sorte.
— Bom… vamos deixar o resto dessa conversa para depois. Tem algo mais importante que você deve fazer no momento, Emi.
Um silêncio dominou as ruas por um breve instante.
Até que Emi se deparou com uma gigantesca casa de três andares, coberta por mármores brancos que brilhavam levemente sob a luz dourada das lamparinas.
As janelas escuras e as sacadas longas a faziam se destacar das demais casas ao redor.
— Você está certo… — Emi encarou a grande casa, sabendo que, dentro dela, seus maiores tesouros a esperavam.
Em um gesto simples, mas carregado de emoção, ela deu um passo em direção à entrada da casa.
A cada passo, seu coração acelerava, pulsando com ansiedade, querendo ver o mais rápido possível quem estava lá.
Dentro de sua mente, um turbilhão de memórias se desenrolava em segundos.
Viu Louie e Nina correndo pela antiga casa em Porto Alegre, as risadas infantis ecoando como fantasmas do passado.
Reviveu o nascimento de Nina e o olhar encantado de um pequeno Louie ao segurar a irmã nos braços pela primeira vez.
E, por fim, vieram as lembranças mais antigas… de um tempo anterior à dor, antes da perda que mudou tudo, que partiu seu coração e a obrigou a não medir esforços para afastar Louie de um caminho parecido ao de seu pai.
Memórias do desaparecimento que forçou Nina a crescer conhecendo sua própria figura paterna por meio de histórias contadas.
Foi assim que ela chegou até a grande porta branca.
Em um movimento suave, levou a mão até a maçaneta.
Girou-a com um cuidado até excessivo.
Por fim, em um leve impulso, empurrou a porta à sua frente, que rangeu suavemente em resposta ao movimento.
Era como se aquele simples gesto chamasse a atenção do mundo inteiro para aquela mãe, que enfim adentrava a casa.
Dois olhares se voltaram imediatamente para ela.
As visões se encontraram no mesmo instante.
Eram Louie e Nina, de pé, com as costas voltadas para um gigantesco sofá branco.
A sala ampla exibia estantes alinhadas, quadros elegantes nas paredes e uma grande escadaria central que levava ao segundo andar.
No exato momento em que os olhares se cruzaram, uma lágrima solitária deslizou pelo rosto de Emi.
Ao finalmente rever seus filhos, sussurrou, mais para si mesma do que para eles:
— Boa noite… meus amores.
Os olhos dos três se encheram de lágrimas.
Nenhuma palavra foi dita naquele momento.
Até que o silêncio foi finalmente quebrado. Não por palavras, mas por ações.
Louie e Nina dispararam como relâmpagos em direção à mãe, envolvendo-a em um abraço apertado, carregado de amor, saudades e preocupação.
E assim, a noite continuou, entre risos e lágrimas, abraços demorados e a felicidade de ter a família reunida novamente.
Enquanto isso — 2:12 AM, Vallheim Vetrask, Megacânion da Groenlândia
No frio gélido, rodeado por paredes nevadas, uma imensa fenda de aproximadamente 900 metros de profundidade, mais de 700 quilômetros de extensão e 30 Km de largura, estava gravada na terra há milhões de anos, forjada de forma antinatural por forças desconhecidas e inimagináveis.
Próximo ao fundo desse monstruoso abismo, uma gigantesca cidade flutuante seguia oculta a olhos humanos, graças a uma variação do poder conhecido e venerado como “A visão de todos”. Impedindo e alterando completamente a percepção dos olhos humanos sobre a cidade.
Essa era: Vallheim Vetrask. O lar oculto dos vales sagrados.
Assim como Áurea, essa cidade Kaelum, mais antiga que a própria OPKM, se escondia do resto da sociedade.
Sua arquitetura translúcida, marcada por tons de azul-gelo e branco-neve, se destacava.
Tanto no centro quanto nas bordas da cidade, próximas às paredes azuis e cristalinas do Megacânion, casas modernas se erguiam como blocos perfeitos de vidro e aço. Muitas eram parcialmente escavadas no gelo, integrando-se à paisagem.
Telhados inclinados evitavam o acúmulo de neve, e passarelas de vidro conectavam praças e áreas de convivência suspensas no céu.
As luzes internas das casas, douradas e brilhantes, atravessavam o vidro e refletiam nas paredes geladas, iluminando o complexo com suavidade.
Em níveis elevados, rodeando toda a cidade, torres Helgardas se destacavam, onde guerreiros Kaelum treinavam, prontos para proteger os vales a qualquer momento.
No centro, uma escadaria suspensa atravessava entre blocos elevados até alcançar o pináculo da cidade, onde se erguia uma construção imponente, símbolo do coração gelado, mas não frio, da metrópole.
Nomeado como Templo de Vetranská, abrigava a jovem Takua Vestrak, epicentro da cidade e cultuada como a encarnação de uma divindade que protegia e ocultava a cidade por eras.
O cotidiano do vale era marcado por um silêncio acolhedor e um movimento urbano sereno.
Porém, na data atual, 7 de maio de 2024, uma movimentação estranha e inquietante dominava o forte.
Um sino, no topo do coração da cidade, badalava alto, estremecendo todos os edifícios próximos.
— SOLDADOS! — uma voz masculina ecoou entre a marcha dos combatentes. — MARCHEM RÁPIDO ATÉ O TEMPLO DE VETRANSKÁ!
Eles subiam de forma sincronizada as escadas suspensas entre os blocos flutuantes, atravessando rapidamente o gigantesco portão do templo.
Ao chegarem à área principal da estrutura, depararam-se com um caminho rochoso estreito, porém belo, envolto por um enorme jardim verde, repleto de milhares de flores de papoula ártica branca.
A estrada levava até um pavilhão no centro do edifício, marcado por gravuras e símbolos florais, além de uma enorme corda que descia do sino no alto do templo.
No meio do pavilhão, uma menina de vestido branco, cabelos longos e grisalhos como a neve, e olhos azul-celestes encontrava-se ajoelhada.
Suas mãos pressionavam firmemente o próprio pescoço.
Em um instante, um vendaval descontrolado saiu de seu redor, sacudindo as plantas e assustando os soldados.
— RÁPIDO! AVANCEM ATÉ A VIGIA! — gritou novamente o líder do batalhão.
Todos os soldados correram em direção à menina o mais rápido que conseguiram e, quando finalmente a alcançaram:
— Senhora Vigia! O que aconteceu?! Por que está fazendo isso?! — o primeiro soldado a chegar tentava se comunicar com a garota.
— …SENHORA VIG-… — a voz dele saiu cortada.
— “Os soldados chegaram…?” — pensou a menina, sentindo sua visão começar a escurecer.
— …Senhora-… — Exclamou, tentando alcançar ela, porém foi novamente inaudível.
— “Por que eles estão falando tão baixo?” — suas pálpebras tornavam-se cada vez mais pesadas.
— …Rápido! Façam alguma coisa!… — o grito do comandante surgia distante, tão baixo e abafado quanto um sussurro.
— “Que estranho… tudo está ficando tão escuro, tão… quieto…” — enfim, sua visão cessou completamente.
— Quê?! Onde eu estou?! — falou em um despertar repentino no meio da escuridão. — Está tudo tão escuro que não consigo ver um palmo à minha frente.
Mexeu as mãos, sentindo a estranha sensação de cada célula de seu corpo se mover.
— Tenho certeza de que ouvi os soldados agora há pouco… como vim parar aqu- — porém, antes de completar a frase, seu coração acelerou descomunalmente, tão rápido e forte que parecia prestes a saltar pela boca.
— UGH… COFF… COFF… — sua garganta se trancou completamente, como se tivessem dado um nó nela. — “Que… que merd-“
Em um instante, sua visão mudou novamente. Da completa escuridão, a luz se moldou em uma pintura da morte.
Presenciava, à primeira vista, o que parecia ser o próprio apocalipse.
Prédios destruídos, carros tombados, cicatrizes imensas na crosta terrestre… o simples, porém mais puro: Caos.
A morte ao redor dominava tudo, manchando a terra com sua bela cor vermelho-sangue.
Então, um som distante voltou.
Ainda abafado, porém começando a ecoar.
— …Senhora Vigia! — uma voz masculina cortou as ruínas.
O cenário tremeu incessantemente.
As imagens começaram a se desfazer, como se a água da chuva limpasse a tinta.
O céu vermelho desmoronou em ruínas, e o caos se dissolveu, como se a pintura regredisse ao quadro em branco, antes de ser pintada.
— Ela está tendo uma “Visão emprestada do amanhã”! — berrou um dos soldados, ajoelhado ao lado da menina.
O vendaval ao redor do pavilhão tornava-se ainda mais violento. As papoulas árticas se curvavam quase até o chão, com pétalas sendo arrancadas e lançadas pelo ar como neve despedaçada.
A menina permanecia imóvel, ajoelhada no centro do pavilhão. Seus olhos estavam completamente abertos, porém vazios.
As íris azul-celestes tremulavam levemente e, como uma tatuagem feita em olho nu, uma ampulheta negra foi desenhada sobre sua pupila direita.
— Ela não está respirando direito, comandante! — alertou outro soldado, tentando se aproximar e sendo forçado a recuar pelo vento.
Graças ao vendaval, a enorme corda do sino se movia sozinha, fazendo com que o som do sino ecoasse cada vez mais forte.
— NÃO TOQUEM NELA! — ordenou o comandante, cerrando os punhos. — Se interromperem a visão agora, ela pode acabar morrendo!
Um silêncio intenso surgiu entre os soldados, restando apenas o som do sino vibrando ao fundo.
No centro de tudo, a menina continuava presa àquela visão infernal.
E, mesmo sem emitir som algum, uma única e solitária lágrima escorreu por seu rosto… vermelha.
A gota de sangue deslizou por seu olho até cair de seu rosto e, enfim, tocar o chão.
Com o seu respingar, todas as lindas e puras flores brancas do jardim mudaram de tom.
Do puro e inocente branco…
… para o mais intenso preto.
— C-comandante… as flores… — o soldado gaguejava.
— Quê?! Do que tu tá fal- — disse o comandante, desviando os olhos da garota por um momento. — Mais que merda… é essa…?
Então, de um instante para o outro, o vendaval cessou.
Todos os olhares, agora direcionados às flores, voltaram-se para a garota.
Ambos os olhos dela sangravam, e seu olhar estava fundo, vazio.
Sua voz saiu baixa, mas carregava o peso de um decreto divino.
— R-rápido… c-chamem o Vidar e avisem que…
Seus olhos tremiam sem parar, e a voz saía falha, como se cada palavra drenasse o pouco de força que lhe restava
— …S-seu nascimento… virá da morte… da morte de… Louie Kaede…
— V-VIGIA?! Como assim?! Nascimento de quem!?
Lágrimas escorriam por seu rosto, misturando-se ao sangue.
— O-o nascimento da calamidade final…
Fios espessos de sangue escorriam lentamente por sua boca e pelos ouvidos, misturando-se à saliva e tingindo seus cabelos de vermelho escarlate.
Então, enfim, tombou desacordada ao chão.
Por um breve instante, ninguém se moveu.
O sino, que até então ecoava de forma incessante, emitiu um último badalar antes de silenciar por completo.
O vento cessou, como se jamais tivesse existido.
As pétalas negras das papoulas árticas caíram lentamente, uma a uma, cobrindo o jardim e o piso de pedra ao redor da Vigia como um manto de luto.
A ampulheta marcada em sua pupila direita se apagou, dissolvendo-se no azul pálido de seus olhos.
E, no alto do templo, sob o céu gélido da Groenlândia, o tempo seguiu em frente.
Mas algo, em algum lugar do mundo, já havia dado início ao fim.

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