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Capítulo 190 — Plano em ação
A poucos passos da entrada daquela mata densa e fechada, Cassian voltou-se para os demais e perguntou mais uma vez:
— Todos entenderam o plano, não é?
Helick mantinha-se um passo atrás do irmão, com um semblante orgulhoso. Ele sempre soubera da capacidade de Cassian, mas não esperava que ele fosse capaz de elaborar algo tão complexo em tão pouco tempo, e, ainda mais, algo que realmente pudesse funcionar.
— Entendido! — respondeu a maioria, quase em uníssono.
Nem todos, porém, pareciam completamente convencidos. Cassian os havia bombardeado com perguntas desde que alcançaram o topo da escadaria: se aquela floresta abrigava predadores naturais capazes de se tornarem um obstáculo para ambos os lados; se existiam clareiras, cursos d’água ou desníveis significativos; se algum deles conhecia bem os caminhos da arena, afinal, seria natural que desafiantes experientes tivessem assistido a corridas de ascensão anteriores.
Sue mencionara criaturas habitando as arenas, mas nenhuma delas havia se manifestado até então. Ainda assim, Cassian não ignorou a possibilidade de que desafiados e desafiantes pudessem ter mais um inimigo além uns dos outros.
Com as informações necessárias reunidas, ele dividiu os cerca de trinta sobreviventes em quatro grupos.
Alguns passos à frente, cruzaram o limite entre a pedra fria e a terra viva.
E a floresta os engoliu.
A luz foi a primeira a mudar.
O céu desapareceu atrás de copas entrelaçadas, e o pouco que restava do exterior se dissolveu em tons esverdeados, filtrados por folhas largas, constantemente úmidas. O ar tornou-se pesado a cada avanço, quente, abafado, como se respirassem através de tecido encharcado.
Os sons vieram em seguida.
O canto incessante das cigarras-borboletas parecia se deslocar, ora à esquerda, ora atrás deles, impossível de localizar com precisão. Cada passo afundava levemente no solo lamacento; o estalo de galhos se misturava ao som distante de água corrente.
Cassian avançou alguns metros e ergueu a mão.
Simples.
Preciso.
Os passos cessaram.
Por um instante, todos permaneceram imóveis, respirando pesado, sentindo o suor escorrer sob armaduras e roupas ainda marcadas pela arena anterior.
Então Cassian baixou a mão, num gesto brusco.
E a formação deixou de existir, se dispersando rapidamente.
Os príncipes seguiram em linha reta, acompanhados de mais três desafiantes ossuianos.
Gustoo, o homem de baixa estatura que sempre estava ao lado de Isaac, corria à frente do grupo com os joelhos dobrados, as mãos rasgando o solo enquanto avançava, como uma besta farejando território inimigo.
Suas mãos sentiam as vibrações na terra ao redor. Ele era como um radar ambulante.
— O restante dos grupos está se locomovendo de acordo com o plano.
Logo atrás dele vinha Lyrien, uma mulher de cabelos curtos lilás. Seus olhos violetas permaneciam semicerrados enquanto ajustava um pequeno aparelho preso ao ouvido. O dispositivo tecnológico vibrava de forma quase imperceptível, captando ondas invisíveis no ar.
Ela escutava a mana com seu ARGENTEC.
— Nenhuma mana hostil nos arredores, por enquanto.
Brakka, um homem negro de cabeça raspada e corpo maciço, mantinha-se no centro da formação. Sua pele refletia a pouca luz que atravessava as copas espessas, dura e reluzente como diamante lapidado para a guerra.
— Ao menor sinal de inimigos, me avisem — disse, firme. — Eu salto na direção deles. Nada passa por mim.
Cassian se movia na retaguarda, ao lado de Helick. Ambos usando suas sensibilidade mágica para detectarem qualquer tipo de conflito que pudesse se iniciar.
Mas o silêncio da floresta não durou por muito tempo.
A alguns quilômetros dali, ele foi quebrado.
Galhos estalavam enquanto algumas árvores eram propositalmente derrubadas na terra molhada.
Corvhienas, criaturas de corpo esguio e quadrúpede, mas dotadas de grandes asas negras, irromperam das copas e passaram a sobrevoar o grupo. Pairavam no ar, à espera do momento em que teriam carne fresca para devorar.
O chão tremeu levemente.
O segundo grupo avançava.
Sem preocupação em esconder sua presença.
Redgar caminhava à frente.
Seus passos não eram pesados apenas pelo cansaço, havia algo mais ali. Algo contido. Algo perigoso. Estar dentro de uma floresta fechada não o trazia boas memórias, e as vozes em sua cabeça pareciam querer gritar cada vez mais.
O suor escorria por seu rosto, pingando da ponta dos cabelos negros, enquanto seus olhos permaneciam fixos adiante.
Atrás dele, cinco combatentes mantinham formação aberta, não para se proteger, mas para chamarem a atenção.
Para serem o alvo.
— Já nos perceberam… — murmurou uma voz.
Era Bane.
De sua coluna saíam cabos metálicos finos que se conectavam à máscara presa à sua boca. Pequenas luzes percorriam os fios, pulsando em ritmo irregular. O ARGENTEC vibrava como um organismo vivo, absorvendo e interpretando sinais ao redor.
— Três… não… quatro fontes reagindo — acrescentou Marco se aproximando. — Distantes… mas mudando de posição. Eles estão vindo.
Um dos combatentes soltou uma risada baixa, nervosa.
— Ótimo… — Era Vell, um jovem de cabelos castanhos penteados para trás. Seu capacete protegia a testa, as laterais do rosto e descia até o pescoço e sumia por de baixo do sobretudo marrom que cobria seu corpo. Diante dos olhos, uma lente avermelhada se projetava. — Era exatamente o que eu queria ouvir.
“— Não brinque com uma coisa dessas, pirralho! — A última integrante do pelotão de Redgar exclamou, acertando um tapa na nuca de Vell.
Era Yssa, uma mulher mais velha, de cabelos brancos presos em um rabo de cavalo. Apesar da idade, mantinha o corpo firme e o vigor intacto. Empunhava um arco branco, adornado com detalhes rúnicos em vermelho.
Redgar não reagiu a pequena discussão dos dois.
Ele apenas parou.
O grupo inteiro parou com ele e o ar sério voltou ao semblante de todos.
Por um instante, nada aconteceu.
Então—
Uma pressão invisível percorreu a floresta.
Folhas tremeram e troncos rangeram.
O chão vibrou sob seus pés.
Redgar ergueu lentamente a cabeça.
Seus olhos haviam mudado. Estavam caídos, fundos e olheiras começavam a marcar sua face.
A emoção havia sido escolhida.
Atrás dele, Yssa sussurrou:
— …Eles morderam a isca.
— Agora é com a gente. — Marco falou sacando sua espada espelhada.
E, pela primeira vez desde que entraram na Arena das Árvores…
Os inimigos deram as caras.

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