Capítulo 667 - Caçador e presa
Ao contrário dos demais, Kelly não entrou na brincadeira e apenas encarou Verônica, transparecendo seus sentimentos ruins em relação a ela. Mas mesmo que ainda sentisse algum desejo de vingança latente, sabia que as ordens do Tenente eram absolutas, então se conteve.
Com o clima tenso diminuindo, Argos levantou-se.
“Bem, vamos voltar ao assunto original dessa reunião.” Ao dizer isso, todos imediatamente se voltaram para ele, quando todo o fraco humor do local imediatamente se dispersou. Então o homem ficou ao lado do sujeito baixinho de pele morena e monóculo. “Como o senhor Alastor sugeriu, o que estamos enfrentando não se trata de um grupo de atacantes e também não é algo orquestrado pelo General Herin ou qualquer outra tropa dos Leões Dourados.”
“Como você sabe disso?” Ilgner perguntou.
Ouvindo a indagação, Argos sorriu, quando colocou a mão no ombro de seu prisioneiro.
“Por causa dessa pessoa aqui. Seu nome é Tariq Aksoy, gerente da filial dos Herbalistas do Sul, uma associação comercial com alguma relevância na Zona Divergente e também… um grupo diretamente ligado à Família Lopes, sendo seus intermediários em Garância.”
A expressão de todos mudou, ficando surpresos. Muitos deles já tinham comprado suprimentos dessa loja e nunca imaginariam que esse lugar era, na realidade, uma base inimiga!
Logo Argos continuou:
“Graças às informações fornecidas pela senhorita Verônica, mantivemos uma vigilância apertada sobre os Herbalistas nos últimos tempos e coincidentemente, pouco tempo depois de começarmos, descobrimos algumas movimentações suspeitas deles e percebemos que estavam em contato com alguém. Infelizmente, esse ‘alguém’ não era uma pessoa simples e eliminou várias das minhas equipes de vigilância. Obviamente, isso foi informado ao Tenente antes de sua saída da cidade.”
Lina teve uma mudança de expressão ao saber disso.
“Na realidade, recebemos alguns relatórios não-públicos do Salão sobre algum tipo de conflito nas ruas da cidade, com alguns mortos. Esse é um dos motivos pelo qual eles têm nos pressionado sobre retomarmos nossas missões, especialmente de Guarda na cidade.”
Argos parecia incomodado ao ouvir isso, já que os ‘mortos’ relatados eram todos seus subordinados diretos, que ele estava pessoalmente treinando nos últimos tempos.
Não só o inimigo havia matado seu pessoal, como expôs seus cadáveres em locais chamativos, para serem facilmente localizados pelos guardas do Salão. Estava claro que o objetivo do inimigo era encontrar pistas sobre eles. Felizmente, a maioria dos seus homens de campo haviam entrado em Garância sob identidades falsas, não relacionadas diretamente a Sopro Noturno, impedindo que chegassem a ele.
Nesse momento, Theodora e os demais finalmente ligaram os pontos, entendendo o porquê de Fernando ter pedido que todos evitassem missões do Salão.
“Nos últimos dias, apenas observamos em silêncio, vendo o atacante visar o Batalhão Zero. Nenhum dos meus homens parecia ser capaz de lidar com essa pessoa, mudamos a abordagem. Ao entendermos seus padrões de comportamento, fizemos nosso primeiro movimento de contra-ataque. Enquanto o inimigo estava ocupado visando esse lugar, aproveitamos essa oportunidade para atacar os Herbalistas do Sul e capturamos o gerente Tariq. E claro, como o lugar é uma base inimiga, fizemos questão de destruí-lo no processo.” Argos explicou, parecendo satisfeito com o resultado, já que eles haviam conseguido alguns bons saques no processo. “Depois de uma longa ‘conversa’ com o senhor Tariq aqui, descobrimos algumas coisas interessantes, certo gerente? Que tal compartilhar o que nos contou antes.”
Ao ser questionado, o sujeito de monóculo rangeu os dentes. Ele havia subestimado completamente o Batalhão Zero, acreditando que se tratava apenas de um lugar fomentado por um General, mas jamais imaginou que essas pessoas realmente iriam criar uma organização de inteligência nas sombras. Não só isso, mas a qualidade dos indivíduos que os emboscaram era realmente alta, evidenciando que não se tratava de uma mera organização medíocre.
Apesar de estar furioso por dentro, por perder sua preciosa filial e ser feito de prisioneiro, o velho homem baixinho e moreno era alguém relativamente inteligente. Sabia que se quisesse viver, teria que seguir conforme o que lhe era ordenado, pelo menos por um tempo.
Assim que eu sair desse lugar, esses malditos vão pagar por toda essa humilhação! pensou, confiante. Afinal, ninguém que mexia com a Família Lopes continuava vivo por muito tempo e com o ataque feito a sua filial, talvez até mesmo os próprios Herbalistas deveriam se envolver.
“S-sim… Quem está atacando seu Batalhão, é uma única pessoa.” confirmou, a contragosto. Mesmo que não se atrevesse a revelar informações sobre a Família Lopes, sentiu que não teria problemas em entregar algo sobre um assassino contratado.
Ouvindo que era uma única pessoa não fez Theodora ou Ilgner ficarem felizes, pelo contrário, suas expressões diminuíram.
Se fosse um grupo, significava que haveria toda uma infraestrutura por trás, que poderia ser alvejada, assim como foi feito com a filial dos Herbalistas. Mas se o outro lado fosse apenas uma única pessoa, isso seria infinitamente mais difícil, já que um alvo solitário era muito mais complicado de se prever ou rastrear. Além disso, alguém que se atrevia a atacar um Batalhão sozinho e conseguia até mesmo entrar e sair sem ser capturado, definitivamente não era uma pessoa de força comum.
“Qual o nome do agressor e qual seu objetivo?!” Noah perguntou.
“I-isso…” Tariq hesitou, com receio. Ele não se importava em falar o nome, mas se ele falasse qualquer coisa sobre a missão, a Família Lopes não iria perdoá-lo!
Vendo-o em silêncio, Argos sorriu, quando sacou uma agulha de sua Pulseira de Armazenamento, então, sem qualquer hesitação, agarrou um dos braços do homem, o ergueu para o alto e começou a lentamente fincar uma agulha em sua axila, empurrando-a lentamente para dentro de sua pele.
“Ahh! Não, espera! Por favor!”
Todos ficaram em silêncio, observando a situação com olhos frios. As únicas pessoas que ainda pareciam incomodadas com esse tipo de crueldade, que parecia ter virado rotina, eram Karol e Lina, mas não se atreveram a expressar qualquer coisa, pois mesmo que não concordassem com isso, sabiam que era necessário.
Argos não parecia interessado em suas súplicas, quando enfiou ainda mais a agulha, até que o homem não aguentou, berrando.
“S-seu nome é Maron! Todos o conhecem como Máscara Branca, ele é um assassino muito famoso atualmente. Quanto a sua missão, ela é… Matar o Tenente do Batalhão Zero!”
Quando o sujeito finalmente revelou isso, todos os no local franziram o cenho. Assim como antes, o alvo era Fernando!
Vendo que o homem havia falado tudo, Argos assentiu, satisfeito.
Alastor, que estava apenas observando tudo, pareceu lembrar de algo.
“Eu já ouvi esse nome alguns anos atrás. Máscara Branca é um alguém bem famoso, um mercenário de primeira linha.” declarou, com confiança, já que ele próprio havia trabalhado como mercenário por algum tempo, ainda cultivava o costume de trocar informações com outros mercenários. “Se realmente estivermos lidando com essa pessoa, vai ser algo problemático.”
Quando até mesmo Alastor, um ex-Tenente, disse isso, imediatamente muitos ficaram preocupados.
“Qual a força dessa pessoa?” Dessa vez, quem perguntou foi o velho Damon. Se tivessem uma estimativa disso, poderiam se preparar melhor.
Tariq congelou no lugar, pois era algo que nem mesmo ele tinha certeza.
“Eu não sei… Mas acredito que sua força esteja em torno da de um Capitão. Tudo que eu sei é que ele provavelmente se especializa em Magia de Luz. Eu não sei nada mais!”
Karol imediatamente sentiu um calafrio ao ouvir a palavra ‘Capitão’, se realmente se tratasse de alguém tão forte, ninguém ali conseguirá enfrentá-lo!
“Talvez realmente devêssemos entrar em contato com o General Dimitri ou Zado. Um Capitão é demais para lidarmos…” sugeriu, mas Argos rapidamente negou com a cabeça.
“Receio que isso não seja possível. O General Dimitri foi enviado hoje de manhã para uma escolta importante, envolvendo suprimentos e uma nova Guilda Construtora vinda de Belai para cá. Quanto ao General Zado, atualmente está envolvido em vários assuntos internos do Salão. Não acho que seria sensato entrar com contato com ele no momento, muitos olhos estão sobre nós ultimamente.”
Mesmo que Zado fosse um aliado do Batalhão Zero, sua relação não poderia ser revelada ao público, já que isso afetaria os planos futuros de Fernando e poderia causar suspeitas quando o General falasse em seu favor. Por isso, era extremamente importante que isso fosse mantido em sigilo.
“E o Major Silvester?” Karol perguntou esperançosa.
“Ele também serve ao General Zado, seu envolvimento é o mesmo que o do General.” O Sargento declarou.
Ou seja, esse era um assunto que deveria ser resolvido internamente pelo próprio Batalhão Zero.
Noah que parecia incomodado com a situação, olhou para Tariq, ao pensar em algumas coisas.
“O que mais você sabe? Há mais assassinos enviados? Quais as intenções desses desgraçados da Família Lopes?”
O sujeito baixinho respondeu a essa pergunta com um olhar fixo no Oficial loiro, era como ele tivesse insultado seus próprios pais, imediatamente lançando-lhe um olhar mortal. Seu rosto quase se contorcendo de raiva.
“Não ouse falar assim da Família! Seu bando de caipiras cretinos. Vocês não sabem de quem estão falando! Todos vocês vão morrer, seu pequeno Batalhão Zero vai ser esmagado!”
Quando o homem começou a explodir insultos e ameaças uma atrás da outra, Argos suspirou.
“Não adianta perguntar a ele sobre essa organização. Eu não sei exatamente o que acontece, mas mesmo sob tortura, ele não fala nada e entra nesse loop irritante, provavelmente está sob o efeito de alguma Magia de Controle envolvendo informações delicadas.” explicou, então olhou de lado para Verônica. “Na verdade, acho que o senhor Tariq não tem mais tanta utilidade…”
A garota negra, ao ouvir essas palavras, assentiu. Quando moveu sua mão rapidamente por trás do homem, num movimento linear e preciso.
“A Família irá mat-” Antes que o Tariq pudesse concluir, seu olhos se arregalaram, como se ele tivesse travado. Logo sua cabeça começou a lentamente cair para o lado.
Plock!
Sangue jorrou, quando seu corpo caiu sem vida.
Alguns ficaram assustados com a execução repentina, enquanto outros não pareciam se importar.
Quando viu aquilo, Damon levantou-se, furioso.
“Por que fez isso?!”
Argos achou a reação do homem um pouco estranha.
“Sargento Damon, você não poderia estar com pena de um inimigo, certo?” indagou, com um olhar afiado.
Desde que ele havia saído do Batalhão Zero para formar a Sopro Noturno, mais duas novas pessoas haviam sido indicadas por Fernando à posição de Sargento. Sendo uma delas Damon e a outra Arslan. Apesar de não desconfiar deles, Argos ainda estava analisando suas personalidades, julgando se eles eram capazes de ocupar tais cargos. Caso se mostrassem indignos, faria questão de recomendar a Fernando que fossem removidos de tais posições.
Ao lado, Karol, que também estava enojada com a cena, assentiu, ao ver que Damon também parecia indignado com a morte súbita de um prisioneiro.
Ainda bem, não sou só eu. pensou, sentindo-se um pouco mais confiante.
“Não estou falando disso. A sala de reuniões… ela acabou de ser limpa!” exclamou irritado, ao ver a cabeça de Tariq caída.
“…”
Karol que estava prestes a se levantar e mostrar sua insatisfação e apoiar o Sargento Damon, imediatamente sentou-se de novo, com uma expressão mórbida.
Argos apenas sorriu levemente para as palavras do homem, sentindo que essa era a forma correta de ver a situação.
“Enfim, reuni o máximo de informações que pude a respeito dessa tal Máscara Branca. Nesse momento ele já deve ter percebido que atacamos os Herbalistas do Sul, então seu próximo ataque deve ser muito mais violento. Acredito que ele irá atacar essa noite, assim como das outras vezes, antes do amanhecer.”
“Como você tem tanta certeza? Ele pode mudar os horários de ataques para nos confundir.” Theodora apontou.
Em resposta a isso, Argos tinha um rosto calmo, parecendo estar seguro sobre o assunto.
“Não, ele definitivamente vai nos atacar essa noite. Essa pessoa não nos trata como oponentes, mas como presas a serem caçadas. É a arrogância dele em nos subestimar que irá derrubá-lo.” Logo voltou-se para Theodora. “Então, Subtenentes, quais são suas ordens?”
Theodora ficou pensativa por um momento, assim como Ilgner. Na ausência de Fernando, toda a responsabilidade sobre movimentações militares estava sobre seus ombros.
Mas após se olharem, ambos pareciam chegar a um acordo silencioso. Logo a mulher levantou-se
“Lina, envie uma resposta ao Salão. A partir de amanhã iremos aceitar novas missões.
“O-o quê? Mas e o inimigo…?” A Tesoureira perguntou, em pânico.
Theodora sorriu brevemente, quando olhou para todos na sala.
“Esta noite o caçador irá virar a presa!”

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