Capítulo 668 - Caos em Garância
Na noite escura, pouco antes dos primeiros raios solares surgirem, os entornos de uma determinada região de Garância estava iluminada por altas chamas que subiam aos céus.
“Magos de Água, por aqui! Contenham o fogo, não o deixem se espalhar!” Um Capitão do Salão da Recepção gritou desesperado.
Inúmeros Soldados estavam indo e vindo trazendo enormes baldes de água em suas Pulseiras de Armazenamento e os deixando próximo de um prédio em chamas, enquanto Magos adeptos de Magia de Água estavam controlando a água reunida e jogando-a contra o fogo.
Swish! Swish!
Nesse momento, um velho homem de rosto enrugado e levemente corcunda, apareceu nos céus, acompanhado de várias outras pessoas.
Ao vê-lo, o Capitão do Salão, que estava controlando a situação, assustou-se, quando imediatamente levou o punho ao peito, em saudação.
“Capitão Airan Macrilan, é um prazer vê-lo!” O sujeito falou, cheio de respeito em sua voz. Mesmo que ambos fossem Capitães em nome, o sujeito era Comandante de uma Brigada Nomeada.
O velho homem no céu desceu lentamente, enquanto seu olhar varria ao redor, observando o local do incêndio. Três Capitães Combatentes sobre seu comando, outrora Comandantes de suas próprias Brigadas, estavam no seu entorno.
“O que aconteceu aqui?” perguntou, ao ver o prédio onde deveria estar localizada a sede dos Herbalistas do Sul em Garância, um grupo comercial, porém, agora só parecia haver escombros e chamas.
Ouvindo o questionamento, o Capitão do Salão franziu o cenho.
Por que esse tipo de merda tinha que acontecer no meu turno?! indagou-se, em autolamentação.
“Estamos averiguando senhor.”
Ouvindo a resposta padrão, Airan franziu o cenho, sabendo que o sujeito não deveria ter nenhuma pista ou evidência.
A verdade é que ele realmente não estava interessado em lidar com algo desse tipo, mas como a mão de obra do Salão era pouca e de baixo nível, sua Brigada Macrilan acabou sendo obrigada a se envolver. Além disso, se conseguissem resolver esse assunto, ele e o General Herin ganhariam mais destaque e influência.
“Talvez tenha sido um vazamento de mana?” Um dos Capitães Combatentes atrás dele sugeriu.
A maior parte das funções da cidade, incluindo abastecimento de mana e energia, era feito por um sistema integrado, com a Matriz localizada no Salão sendo o centro de distribuição. Mesmo que fosse um sistema relativamente seguro, às vezes acidentes poderiam acontecer.
“Vazamento de mana? Sem nenhum sobrevivente?” Airan perguntou, de forma retórica, olhando para seu Capitão Combatente com altivez e desprezo. Do seu ponto de vista, ele havia feito um favor a esse homem ao recrutá-lo para sua Brigada, já que parecia incapaz de comandar a própria com esse nível de raciocínio lógico. “Além disso, mesmo que a fumaça tenha mascarado um pouco, o cheiro de sangue nesse lugar é intenso demais. Claramente eles foram atacados e todo o lugar foi incendiado para encobrir os rastros.”
Ouvindo isso, tanto os Combatentes sob o seu comando, quanto o Capitão do Salão ficaram surpresos e ao focarem um pouco em seus olfatos, realmente puderam sentir um leve aroma de sangue correndo pelo ar. Todos não puderam deixar de olhar para o velho homem envergonhados, pois não foram capazes de perceber algo tão evidente sem que ele dissesse.
Ignorando todos, Airan olhou ao redor, parecendo descontente.
Primeiro aqueles assassinatos suspeitos por toda a cidade, agora isso. O que diabos está acontecendo nessa cidade? Os malditos Rebeldes chegaram até o fronte? perguntou-se, preocupado.
Havia certos grupos de oposição ao Conselho Superior e as Legiões no geral e comumente costumavam realizar ataques ou causar caos no território das Grandes Legiões. No entanto, esses grupos raramente visavam Legiões Médias como os Leões Dourados e muito menos realizavam operações no fronte de guerra. Por mais que odiassem o Conselho Superior, não eram ignorantes o bastante para sabotar os esforços de guerra contra outras raças, já que isso colocaria toda a humanidade em desvantagem.
Enquanto os Magos terminavam de apagar o fogo, uma figura esguia, usando uma máscara e roupas brancas, estava parada no alto de um prédio, observando silenciosamente tudo abaixo.
Mesmo sob aquela máscara estoica, seu humor era evidente, estando absorto em uma densa vontade de matar.
Faz algum tempo que um alvo não me morde de volta dessa forma. Maron pensou, irritado e, ao mesmo tempo, surpreso com a destruição dos Herbalistas.
Mais cedo ele havia realizado mais um ataque de provocação ao Batalhão Zero, porém, ele não esperava que ao retornar para a base de seu contato na cidade, ela estaria completamente arruinada dessa forma. Isso significava que os inimigos usaram o curto intervalo de tempo de sua saída para lançar uma ofensiva aos seus únicos aliados na cidade.
Mesmo que ele próprio não visse grande valor nos Herbalistas do Sul, ainda eram extremamente ligados a Família Lopes e poderiam ser considerados parte de seus ativos. Permitir que eles fossem mortos dessa forma, bem debaixo de seu nariz, prejudicando diretamente seu cliente, seria uma enorme mancha em sua reputação quando isso se espalhasse.
Esses malditos, vou ter certeza de mostrar a eles com quem estão lidando! Hoje esses desgraçados do Batalhão Zero irão pagar com sangue! O sujeito mascarado pensou, emanando brutalidade, um fraco brilho branco piscou em seus olhos.
Airan, que estava analisando o ambiente, em busca de pistas, de repente, sentiu um calafrio em sua espinha, quando imediatamente olhou para o alto, em busca da fonte, mas não encontrou nada.
“Senhor?” Um dos Capitães Combatentes falou, ao ver a reação do homem.
“Vasculhem os arredores, principalmente os prédios dos entornos, não deixem nada passar!” ordenou.
“Sim senhor!” Com a ordem dada, os Capitães e Soldados imediatamente começaram a vasculhar todo o lugar, mas mesmo após alguns minutos, ninguém foi localizado.
Foi minha imaginação? Airan perguntou-se, ao lembrar da sensação de antes.
Mesmo não sendo alguém tão talentoso, ele sabia que só havia chegado a velhice e na sua posição atual devido aos seus instintos apurados.
Apesar de algumas pessoas acharem que esse tipo de coisa era bobagem ou superstição, ele tinha certeza de que não era o caso. Alguns indivíduos nasciam com esse tipo de sensibilidade para detectar o perigo e ele era um desses raros casos.
Muitas vezes seus instintos haviam lhe salvado ao longo da sua vida, mas em todos esse tempo, foram poucas às vezes ele havia sentido uma sensação tão sufocante e assassina como essa. As únicas ocasiões ocorreram quando ele havia enfrentado inimigos verdadeiramente monstruosos e geniais.
Após o fogo ser apagado e seus homens terminarem de vasculhar o local, Airen levantou voo.
“Vamos embora!” ordenou aos seus Capitães Combatentes.
“M-mas senhor, ainda não encontramos o culpado…” O Capitão do Salão disse.
“E o que você espera que eu faça?! Tudo virou cinzas! Acione o Salão e tragam um rastreador até aqui, talvez consigam algo.” Após dizer isso, virou as costas e elevou-se ao alto, em direção sede da Brigada Macrilan.
Seja quem ou o que for, eu definitivamente não quero ter que lidar com isso! O velho homem pensou, suando frio.
…
Algum tempo depois, na região do Batalhão Zero, Theodora estava num dos andares mais alto do prédio, observando calmamente a situação abaixo. Com exceção da iluminação dos Soldados patrulhando de um lado ao outro, não parecia haver nada de incomum.
“Talvez o atacante não venha, afinal.” Uma voz soou, logo atrás, era Ilgner, sentado em uma cadeira, bocejando, prestes a dormir.
Os primeiros raios de sol estavam prestes a surgir no horizonte, mas ninguém havia aparecido.
“Não, tenho certeza de que ele virá.” Theodora disse, cheia de certeza, então continuou olhando para baixo, de forma atenta, quando pareceu notar algo. A iluminação de um Soldado da parte leste havia desaparecido.
Era um evento ínfimo, que normalmente passaria despercebido e poderia ter ocorrido por diversos motivos, como uma troca de turnos ou uma ida ao banheiro, mas não naquela noite. Ela havia enfatizado as tropas a importância de se atentar a isso e nenhum membro do Batalhão Zero ousaria ser descuidado após tal ordem.
“Parece que a ‘diversão’ está prestes a começar.” A mulher falou, de forma sarcástica.
Ilgner, que estava com os olhos fechados, lentamente os abriu, quando um sorriso bizarro surgiu em seus lábios.
…
Poucos minutos antes, uma figura mascarada estava na parte Leste do Batalhão Zero, tendo facilmente invadido os muros internos, escondendo-se ao lado do alojamento de treinamento. Próximo a ele, um pequeno destacamento de Soldados passou, com cada um deles carregando uma espécie de lampião.
A maioria dos Soldados do Batalhão sabiam usar Visão Escura e não precisavam realmente de iluminação, mas a função desse tipo de lampião não era realmente a de iluminar, mas alertar. Eram chamados de Lampiões Vaga-Lume e funcionam como uma espécie de sistema de alarme rústico.
Para que continuassem acesos, era necessário que a pessoa que o utilizava mantivesse um pequeno fio de mana constantemente. Se o indivíduo fosse morto ou perdesse o foco, mesmo que por um momento, a chama apagaria, alertando aqueles próximos de que algo estava errado.
Era algo que havia sido sugerido por Argos mais cedo. Mesmo que Theodora não se desse tão bem com o sujeito, não pôde deixar de concordar, achando a sugestão realmente boa e ordenando que comprassem algumas dezenas desses itens.
Maron apenas olhou, sem agir, parecendo estar analisando a situação. Obviamente, ele conhecia a função do Lampião Vaga-Lume, já que era uma ferramenta comum, mas não foi isso que chamou sua atenção.
Esse já é o quinto grupo que encontro em menos de três minutos. Parece que eles realmente reforçaram a segurança, mas isso parece ser apenas… um chamariz. concluiu.
Desde que invadiu as instalações do Batalhão Zero, tinha a sensação de que as coisas estavam estranhas, muito diferentes das vezes anteriores. Mesmo que antes eles tivessem mobilizado suas tropas, dessa vez algo não parecia certo.
Apesar disso, o sujeito mascarado não se intimidou, pelo contrário, estava feliz.
A verdade é que todos os ataques de assédio que ele vinha realizando contra o Batalhão Zero não eram apenas com o objetivo de intimidá-los ou causar danos, seu verdadeiro propósito era um só, atrair o Tenente do Batalhão Zero, Fernando Nobrega, para sua morte.
Contanto que ele localizasse seu alvo, estava confiante em eliminá-lo e sair da batalha sem precisar enfrentar as tropas inimigas. No entanto, por mais que tivesse o procurado nos últimos dias, não tinha visto um único traço dessa pessoa. Era como se o Tenente do Batalhão Zero estivesse se escondendo, permanecendo nas partes internas do prédio, sem nunca dar as caras. Mesmo ele não conseguia se infiltrar nessas áreas sem ser descoberto.
Maron deduziu que a última tentativa de assassinato havia feito seu alvo ficar em alerta, não mais ousando se arriscar, mas por mais que esse fosse o caso, ainda sentiu que havia algo de estranho nessa situação, já que o rapaz sequer se mostrou uma única vez.
Porém, agora, vendo o clima estranho ao redor de todo prédio, tinha certeza de algo. O inimigo definitivamente estava o esperando e se eles tinham montado uma armadilha, seu alvo certamente estaria envolvido!
Vamos ver do que você é capaz, Tenente Fernando. O sujeito mascarado pensou, confiante. Afinal, ele havia propositalmente atacado nos últimos dias em horários específicos justamente com esse objetivo.
Atacar ao anoitecer e ao amanhecer não eram atos inconscientes, mas previamente planejados.
Maron não temia o Batalhão Zero em si, mas sim o Salão da Recepção e esses eram justamente os horários em que a mudança de guarda costumava acontecer, o que significava que o tempo de reação deles seria muito mais lento. Além disso, ele também queria mandar uma mensagem, ou melhor, um aviso aos membros do batalhão, alertando-os que ele sempre viria naquele horário e que eles deveriam estar prontos para isso.
Não era apenas uma demonstração de plena arrogância e confiança em sua força, como também de manipulação e pressão mental.
Ao ver um Soldado solitário, que estava desajeitadamente arrumando suas roupas ao sair da área de sanitários, tendo ficado para trás do último grupo, os olhos de Maron imediatamente se focaram nele.
Era um sujeito alto e magro, tropeçando em seus pés, enquanto murmurava sozinho.
“Eles poderiam ter esperado ao menos dois minutos… Qual a pressa, afinal?” falou, irritado, sem sequer prestar atenção ao redor.
Do ponto de vista de um assassino como Maron, esse tipo de pessoa distraída sempre era a primeira refeição de um banquete. O tipo de indivíduo que estava praticamente implorando para ser morto.
Muito bem, vamos começar então!
De repente, o sujeito mascarado desapareceu de onde estava, reaparecendo logo atrás do homem que ainda murmurava, reclamando. Então, ergueu seu braço e estava prestes a empurrar sua espada para frente, quando um som interrompeu seus passos.
Crack!
O Lampião Vaga-Lume do homem havia caído, quebrando-se em pequenos pedaços, quando a chama apagou-se.
“Eu estava me perguntando quanto tempo mais teria que esperar, mas você finalmente apareceu.” O ‘Soldado’ alto e magro, falou, sem se virar.
Maron, que ainda estava imóvel na mesma posição, não disse nada e sua expressão escondida sobre a máscara branca também não poderia ser vista, mas era evidente que ele estava surpreso.
Ele não entendia o que estava acontecendo, já que com sua Magia de Luz, que manipulava seu entorno, era quase impossível alguém vê-lo a noite, além disso, ele tinha se especializado em uma série de magias que diminuíam seu cheiro e ruídos, mesmo seus passos eram tão silenciosos quanto os de uma formiga e mesmo alguém de seu nível acharia difícil detectá-lo.
O que me denunciou? Meu cheiro? Talvez ele seja um rastreador? perguntou-se, intrigado.
“Você deve estar se perguntando como soube que estava próximo. Na verdade, é bem simples.” O sujeito alto e magro disse, virando-se lentamente. “Um assassino desgraçado pode sentir seus iguais.”

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