Índice de Capítulo

    Dica para leitura: aspas simples são para pensamentos internos, que é esse símbolo: ’
    Aspas duplas para conversa mental: “
    Travessão para falas em voz alta: —

    A cauda de Severus varreu o cume como um aríete de carne e osso. Toneladas de massa movidas por força centrífuga pura. 

    A onda de choque percorreu a espinha dorsal da montanha em uma fração de segundo. Antes que o som do impacto pudesse ser registrado em seus ouvidos, Flügel sentiu a vibração atravessar seus ossos. Foi como segurar um martelo de guerra com as costas. O ar foi expulso de seus pulmões, e a pressão interna fez seus ouvidos zumbirem um som agudo e doloroso.

    O túnel raso, sua pequena concha protetora, cuspiu-o para fora.

    A força da inércia o arremessou como um boneco de pano para o vazio. Por um segundo eterno, o chão não existiu. O estômago subiu até a garganta. Poeira sufocante e estilhaços de rocha o envolveram enquanto o precipício o engolia.

    Mana se remexeu por instinto, freando a queda até os dedos tocarem a borda. Desativou a magia no último segundo, evitando o apagão, mas o peito bateu contra a pedra com violência. A dor irradiou pelas suas costelas.

    Pedaços enormes de pedras caíram às suas costas. Com o impulso de um pé na parede, Flügle se arrastou de volta para o buraco raso, respirando com dificuldade. Ele quase morreu. Certamente teria morrido caindo daquela altura. 

    Seu rosto estava suado, ofegante, cansado. Fisicamente e mentalmente. Nada estava indo bem. Ele precisava dormir. Tinha sido cansativo, procurar Elijah a noite toda e então ir direto para uma guerra dessa escala. 

    O corpo jovem, endurecido por drogas, batalhas e privações estava no limite, mesmo sendo um corpo refinado, ele ainda era o corpo de uma criança. A mente, apesar dos anos que carregava de outra vida, ameaçava quebrar-se a qualquer momento. 

    — Se Nytheris estivesse aqui… — murmurou, quase sem som. 

    Lágrimas quentes brotaram nos cantos de seus olhos, e ele logo as esmagou com as costas da mão, irritado consigo. Engoliu o choro. Levantou-se devagar, apoiando-se na parede.

    Ultimamente vinha se permitindo fraquejar demais. Usando a idade desse corpo como desculpa. Como muleta. Era a mesma covardia de antes, a mesma preguiça emocional que o transformara num parasita na vida passada.

    Um sabor mais amargo que o de sangue subiu em sua garganta, era nojo. Ele não era mais aquele garoto, ele prometeu a si mesmo mudar. 

    Mesmo que doesse. Mesmo que ele morresse mil vezes. Seu dever ali era claro. Ele queria — com uma fome que quase o assustava — arrancar a cabeça do Lich com as próprias mãos. Mas desejar não bastava. Descansar agora era trair aquele desejo.

    A motivação retornou como brasa quase apagada que leva óleo.

    Não era inspiração de herói, nada bonito ou nobre. 

    Era raiva pura, vontade doentia de se provar e uma teimosia cega de ir até o fim. E isso bastava.

    Se motivar era a parte fácil nessa situação. Fazer acontecer era o mais difícil. Como ele iria descer a montanha? Ou como ele subiria nela? 

    Ponderando sobre o que fazer, ele caminhou até a beirada do buraco, o vento chicoteou seus cabelos contra sua testa suada.

    Ele ergueu o olhar. A face da montanha era irregular, cheia de saliências, rachaduras e platôs estreitos, degraus naturais que pareciam desafiá-lo a subir. Talvez fosse possível. Pendurar-se, apoiar os pés, ganhar altura metro a metro.

    Seus olhos desceram por um instante.

    Lá embaixo, através da nuvem de poeira que ainda pairava como fumaça lenta, os corpos apareciam. Alguns esmagados contra as rochas, outros parcialmente soterrados pelas pedras que despencaram.

    Mana quase zerada. A magia gravitacional estava fora de questão. 

    Mas os braços… os braços ainda obedeciam. Anos absorvendo impactos que derrubariam adultos comuns, somados às malditas aulas intermináveis com o mestre Álvaro, haviam forjado neles uma pegada de ferro.

    Descer fazia mais sentido. Muito mais.

    Subir até o topo sem mana, com o corpo moído e o estômago vazio? Isso era enredo de protagonista de anime, daqueles que gritam “eu consigo!” enquanto o sangue escorre e a trilha sonora explode. Ele não era um desses. 

    O plano era simples: descer. Recuar. Conseguir comida, uma poção que prestasse, alguns minutos de sono, nem que fosse encostado numa pedra. E então voltar inteiro o suficiente para matar algo.

    Flügel flexionou os dedos. Sentiu os calos grossos roçarem uns nos outros, velhos conhecidos. Respirou fundo, os pulmões ardendo.

    — Espero não morrer… — murmurou, um frio descendo pela espinha como se a própria montanha tivesse sussurrado de volta.

    E começou a descida.


    Gundal permanecia imóvel sobre a saliência rochosa, o corpo quase indistinto da pedra cinzenta graças a sua capa que o cobria como uma segunda pele. 

    Um monóculo pequeno, de metal fosco e lentes escuras, estava pressionado contra seu melhor olho. Ele varria o campo devagar, sem pressa, procurando brechas que já não existiam mais.

    A batalha havia escalado além do ponto em que batedores faziam diferença na linha de frente. Garrick ordenara que fossem a vanguarda, os primeiros a tocar o inimigo, mas isso fora antes da cauda de Severus varrer o cume como se fosse papel, antes de Ophiornis começar a cuspir aquele feixe de anti-luz púrpura prateada.

    Ninguém sabia ao certo o que era aquilo. Não era fogo, não era ácido, não era magia convencional. Era algo que apagava matéria, deixando buracos perfeitos em qualquer superfície, como se partes do mundo simplesmente deixassem de existir.

    Agora, a linha de frente era um inferno à céu aberto: gigantes de ossos avançando em massa, cavaleiros pesados colidindo contra eles, magos lançando feitiços em rajadas desesperadas. Batedores, especialmente os novatos, não tinham lugar ali. Eles atrapalhavam. Morriam rápido e sem glória.

    Gundal recuou com sete. Apenas quatro permaneceram na frente, grudados nas sombras de seus próprios companheiros e dos inimigos. lutando como ladinos sabem lutar: esperando a oportunidade errada do inimigo, usando veneno, distração, faca nas costas do joelho. 

    Os outros sete agora estavam com ele na saliência, ofegantes, sujos de terra e sangue alheio, olhos vidrados.

    O grupo de batedores já era pequeno desde o início. Dividido ao meio, tornava-se quase simbólico. Mas era o que restava. A maioria dos recrutas sonhava com mantos luxuosos de mago ou armaduras reluzentes de cavaleiros. 

    Poucos escolhiam o caminho discreto, o conhecimento das sombras, do reconhecimento, das artimanhas que matam sem alarde.

    Gundal abaixou o monóculo. Seus sete batedores estavam atrás de árvores, outros agarrados em seus galhos, esperando ordens. Os novatos olhavam para ele com expectativa, como se ainda acreditassem que havia espaço para eles no caos.

    — Vocês ficam — disse ele, voz baixa, quase morta. — Mantenham posição. Observem. Qualquer coisa anormal, anotem. Me relatem quando eu voltar. Nada de heroísmo. Nada de avançar.

    O rapaz agachado atrás da pedra em que estava abriu a boca, mas fechou em seguida. Os outros trocaram olhares inquietos.

    — Senhor… — começou o mais jovem, voz rachada. — E o senhor?

    Gundal já se levantava, ajustando a bainha da adaga curva no cinto e verificando as pequenas lâminas ocultas nas mangas.

    — Eu vou ver o que consigo fazer.

    Ele não esperou resposta. Desceu a saliência em movimentos silenciosos, quase felinos, a capa ondulando como sombra líquida. 

    Como membro da guarda do rei, ele não era apenas um observador, era treinado para sobreviver onde outros morriam, para encontrar o ponto fraco em meio ao caos e explorá-lo. Ele com certeza não podia ficar de fora da batalha.

    Regras dos Comentários:

    • ‣ Seja respeitoso e gentil com os outros leitores.
    • ‣ Evite spoilers do capítulo ou da história.
    • ‣ Comentários ofensivos serão removidos.
    AVALIE ESTE CONTEÚDO
    Avaliação: 100% (1 votos)

    Nota