Capítulo 121: Porto Seguro
O vento que desliza pelas areias e penetra as entranhas da floresta, traz consigo o toque gélido do que está por vir.
As chamas da despedida brilham reluzentes no metal dourado.
O chapéu vermelho balança enquanto enroscado em um galho baixo.
O reservatório de água, repousa rusticamente ao lado de seu guardião ronronante.
A carne se esconde timidamente por detrás de uma pequena estrutura de proteção feita de galhos e folhas largas ao pé de uma árvore. Espinhos cravados no chão e ao redor, se tornam um toque requintado para quem ousar.
Do lado oposto do metal dourado, Shymphony se estende encostada em uma pedra enquanto observa seu escudo criar uma barreira que protege a fogueira de se extinguir.
Ao pé da uma árvore, Helvetia se dá ao luxo de fechar os olhos ao som suave de seu chapéu roçando um galho acima.
Todos ali aproveitam esse momento para descansar, refletir, relembrar. Menos ela, que caminha ao redor do local, fazendo pausas estratégicas e fechando os olhos para observar mais atentamente cada detalhe do que não se pode ver.
Seus cabelos desprovidos de qualquer proteção, por alguns momentos ousam se rebelar contra seu rosto, fazendo-a colocá-los em seu devido lugar. Em determinado ponto, ela não vê alternativa a não ser acorrentá-lo para o alto como se fosse o rabo de um cavalo. Mesmo assim, continuam rebeldes, porém, menos incômodos.
— Sorridentes
Atravessaram
As águas negras a deslizar.
Sob o fogo
Do olhar
Descontente
Lagrimas
Se pôs a derramar
Caminhando pelas trevas
Que pintam o coração
Eles se opuseram
A um fim trágico
Sem lamentação
Adiante
Enfrentaram
Sem repouso
As ambições daqueles que matam
E por fim,
No limiar da existência
Vigiados pela justiça crepuscular
Descansam, pois, a jornada, apenas há de começar.
Shymphony termina de recitar um poema cantado enquanto observa aos poucos o ambiente ao seu redor com olhar leve e sereno. Cada parte, cada trecho de onde estão, parece uma pintura delicada, capaz de ruir a qualquer momento com a mais suave das chuvas.
Mas por algum motivo que ela não enxerga, porém, o vento lhe entrega enquanto lança seus fios dourados em direção a floresta. Sente que está noite, não será de caos. Pelo menos essa.
Helvetia ao terminar de escutar o recitar, se pega já de olhos abertos e distantes em meio as escassas folhas da copa da árvore. Com os braços cruzados atrás da cabeça e uma perna cruzada sobre a outra, sente ao mesmo tempo, o vento e o calor suave da fogueira, tocarem a pele enquanto a luz tremulante ilumina a visão periférica.
Até o ronronar sessou diante de tal nostalgia. Sem se dar ao trabalho de abrir os olhos, ele apenas balança o rabo em clara demonstração de seus sentimentos. Shymphony até esboça um sorriso de leve, mas que logo se perde em meio a contemplação das estrelas que no alto, estão a testemunhar.
— Sua vez! — Sarah se aproxima pelo campo de visão de Shymphony, colocando seu rosto entre ela e sua contemplação enquanto esboça um sorrio de leve. Então estende a mão, geste que é aceito de bom grado.
O ar gélido do deserto até pensou em tocar aquela terra recém redescoberta, porém, Sarah já trata de ocupá-la enquanto se ajeita de pernas esticadas e pés cruzados.
— Se eu não saio, senta em cima! — Shymphony murmura com um riso curto no fim.
Já com a face voltada para o alto, agora é Sarah quem aproveita a vista de infinitas estrelas que parecem desenhar uma estrada cósmica que ruma ao horizonte.
— Como você fez isso com o cabelo? — Helvetia agora sentada ao pé da árvore, indaga olhando para o cabelo de Sarah.
Vagando o olhar do alto para ela, primeiro repara eu seu olhar que reluz com a fogueira, depois eu seu cabelo que esvoaça sutilmente contra o rosto. Então Sarah coloca a mão no próprio cabelo, a deslizando sobre os fios negros e levemente ondulados.
— Isso aqui? — Ela fala enquanto começa a reparar em alguns fios quebrados.
— É bem prático amarrar ele assim para cima. — Helvetia se levanta e caminha tranquila até chegar ao lado dela, então se senta e encosta no pouco espaço que resta da pedra. — Posso ver?
Sarah apenas vira a cabeça para que ela possa ver e tocar.
— Isso é um cipó? — Helvetia a indaga ao ver o que prende o cabelo dela naquela forma.
— Eu peguei pelo caminho. — Sarah enquanto vira seu rosto para o alto para olhar as estrelas novamente.
— Então dá para usar eles assim também. — Helvetia até esboça um sorriso com as novas possibilidades que se abrem a sua frente.
— Mas para você não daria tão certo por causa do chapéu. — Sarah murmura palavras ao vento que volta a se fazer presente, bagunçando seus fios no rosto de Helvetia.
Depois que quase engolir alguns, lança um olhara para seu chapéu e retorna.
— Mesmo assim, no deserto venta muito, e isso sempre me incomoda muito. Da última vez eu lembro de ter dado um nó para trás de qualquer jeito. Estava quase cortando ele ali mesmo. — Helvetia explana enquanto brinca com o cabelo dela o jogando para um lado e para o outro.
Sarah então se vira ficando face à face com ela.
— Acho que dá para amarrar ele mais para baixo, posso? — Sarah fala enquanto toca em alguns fios do cabelo que Helvetia que estão sobre o ombro.
— Fique à vontade! — Ela já vai se virando enquanto oferece seu cabelo.
Após fazer uma pausa perto de uma árvore, Shymphony observa de longe às duas em um momento que até pouco não podia se quer imaginar que aconteceria. Não demora e ela retorna a patrulhar o entorno.
— Pronto! Oque achou? — Agora quem brinca com o cabelo da outra é Sarah.
— Ficou mais confortável do que quando eu mesmo prendo. — Helvetia até balança a cabeça um pouco para senti-lo balançando.
— Você fica muito bem de cabelo solto. — Sarah solta as palavras ao ar como se não fossem nada. Palavras que fazem Helvetia a olhar por cima do ombro e encara-la por alguns segundos.
— Você gosta do que? — Helvetia a indaga enquanto volta a se virar para ela.
— Como assim? — Sarah esboça uma leve expressão de dúvida.
— Ah! Você sabe… — Helvetia se aproxima mais do rosto dela, e observa o fundo da íris e depois os detalhes da pele no rosto e o machucado na testa. — Homens, mulheres, essas coisas.
Às duas se encaram diretamente em silêncio por alguns segundos, então Sarah faz um bico com a boca e desvia o olhar para o lado e encontrando Shymphony sofrendo para passar por um arbusto seco. Ela sorri um pouco com a cena ainda pensativa.
As orelhas do felino até dão uma tremida de leve nesse momento.
— Se não quiser responder, tudo bem. — Helvetia também observa Shymphony toda desengonçada.
Então Sarah aproveita para olhar de forma mais contemplativa a face de Helvetia e seu olhar, o tom da pele, a cor marrom do cabelo e como ele reluz suavemente com o fogo.
— Acho que os dois! — Sarah responde voltando seu olhar para o escudo e a fogueira atrás dele.
Agora é Helvetia que aproveita para apreciar os fios negros, e pele clara e o olhar castanho que brilha de forma longínqua.
— E você tem alguém especial? — Helvetia deixa a pergunta escapar enquanto seus olhos se voltam para baixo.
— Não nesse sentido. — Sarah repara de canto de olho a expressão levemente preocupada dela. — E você?
Helvetia não responde com palavras, e sim com um balançar quase ínfimo com a cabeça de forma positiva.
Com o olhar mais serrado e pensativo, Sarah aproveita o momento para fazer um pouco de carinho na cabeça dela.
Nesse momento, os ombros de Helvetia até tremem por um momento, e algumas lágrimas despencam sobre a terra.
— Eu não sei se sou digna daquele amor. — A voz dela sai falha e com um leve soluço. — E para ser sincera não me importo!
Ela seca os olhos enquanto vai virando a face primeiro para Sarah e depois para o alto e encontrando as estrelas mais brilhantes do que nunca.
— Por ela, sou capaz de invadir aquela toca sozinha ou enfrentar o pior dos demônios já mencionados em qualquer lenda. — Helvetia leva a mão ao peito sobre o coração e aperta o tecido cinza da camisa com força. — Acho que sou capaz de queimar o mundo por ela. — Então ela solta um punhado de ar e relaxa a mão enquanto sorri e fecha os olhos. — É! Realmente estou apaixonada.
Sarah prefere o silêncio como resposta enquanto a observa com atenção e relembra de um sonho.
Quando Helvetia abre os olhos novamente, aquele olhar violeta a encara de cima a baixo com um sorriso no rosto.
— Eu prometo que voltaremos vivos! — Shymphony está ali com o punho fechado e a oferecendo. Gesto que é correspondido por Helvetia que também sorri.
— Você também tem alguém importante para quem voltar. — Helvetia volta a se encostar na pedra enquanto fala e olha para Shymphony.
— Francamente! Até sinto falta daquelas bicadas chatas no meu cabelo. — Shymphony se deixa levar pelo momento, e desviando o olhar para um canto longe delas, encontra Adão ainda de olhos fechados, e inevitavelmente volta a sorrir de boca fechada ao lembrar de penas brancas que ficaram solitárias por tanto tempo.
— Bom, deixa eu pegar meu chapéu, por que agora sou seu. — Helvetia já está de pé e se direcionando para a árvore onde estava.
— Ei Sarah! Prende meu cabelo também? — Shymphony nem espera a resposta e já está sentando de costas para ela.
Com um sorriso no rosto, ela aproveita para dar uma estocada com o dedo na lateral da barrida dela, que se retorce para o lado enquanto resmunga do desconforto.
— Vou jogar suas batatas fora quando estiver dormindo. — Shymphony deixa as palavras desaparecerem pelo ar.
— Sabe! Acho que você está precisando de um corte de cabelo! — O olhar serrado e frio de Sarah enquanto segura sua adaga, da calafrios em Shymphony sem ela precisar olhar.
— Ei! Brincadeira tá! — Shymphony aceita a derrota.
E assim como o vento toca cada folha e cada tronco da floresta.
Ele também toca aqueles fios cinzas que se escondem parcialmente sob uma túnica que parece ser uma extensão do próprio deserto aos seus pés.
No alto de uma duna, aquele olhar heterocrômico, observa o horizonte no final do vale rochoso a frente.
O direito reflete a luz da lua em um tom dourado com âmbar dentro. O esquerdo absorve em um azul-marinho como se fosse um cristal raro.
Correndo eles pela paisagem, ela não vê outra saída senão seguir em frente pelo vale.
A passos calmos vai descendo da duna até chegar perto daqueles pelos avermelhados que repousam em descanso sobre as areias.
— Ora de ir! — Ela sussurra para ele enquanto faz carinho atrás de sua orelha pontuda.
Então ele levanta e se põe de pé como o mais nobre dos animais. Com um salto curto ela o monta e aponta a direção. Assim, com passos que mal dão para dizer existem, seguem em frente por entre aquelas paredes rochosas que se levanta por algumas dezenas de metros.
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