Capítulo 133 | Potamoi
A superfície do rio fervia. Bolhas grossas de lama estouravam na margem, liberando um vapor quente e com cheiro de enxofre. Magno observava a água agitada com os olhos estreitados.
“Ele já está lá embaixo há muito tempo”, pensou o gatuno. “Será que aconteceu algo mesmo com aquela máscara?”
Magno deu um passo em direção à margem. O calor do vapor atingiu o seu rosto.
— Merda. Ele está demorando demais — estalou a língua.
Sêneca segurou o braço do gatuno e apontou para as bolhas de água fervente.
— A água está cozinhando tudo o que toca. Se nem um deus conseguir sair daí, não seremo-
— Eu não vou ficar aqui parado esperando o corpo dele boiar — rebateu Magno. Ele puxou o braço das mãos do velho e flexionou os joelhos, preparando-se para o salto.
Antes que ele tomasse impulso, o barulho da fervura cessou.
O grupo estreitou os olhos.
A água escura e lodosa perdeu a densidade em questão de segundos, tornando-se limpa e transparente até revelar o fundo de pedras.
A superfície do rio se rompeu. Uma figura emergiu. Era um homem de proporções imensas, com ombros muito largos e cabelos longos de água fresca dos quais pendiam seixos e vinhas. Sua pele era de um azul translúcido mas brilhoso, como a mais bela cachoeira.

Encaram-no com curiosidade e descrença.
Potamoi, a deidade do rio, caminhava em direção à margem com passos pesados enquanto carregava Hermes desacordado nos braços.
— Guarde o seu fôlego, mortal — disse o espírito do rio com voz grave para Magno.
O homem recuou dois passos, surpreso com o tamanho da divindade, e abaixou a ponta da espada sem perceber.
O Potamoi depositou Hermes sobre o chão de terra úmida. Estava imóvel.
Sob a pele pálida do pescoço e dos braços de Hermes, grossas veias negras pulsavam e inchavam, marcando todo o corpo dele com uma rede escura.
— O que é isso no corpo dele? — Magno perguntou, franzindo o cenho.
O deus-rio não respondeu. Ele virou o rosto para a Ninfa, que continuava caída na lama a poucos metros de distância. A expressão do Potamoi era severa.
— Aproxime-se — ordenou o Potamoi. — Cure o mal que você espalhou na superfície. Faça isso agora.
A Ninfa estremeceu. Ela engatinhou pela margem até alcançar o corpo de Hermes.
Com as mãos trêmulas, tocou o peito do mensageiro e começou a manipular uma corrente de água limpa do rio sobre a pele dele, canalizando o líquido para tratar as feridas.
Sêneca ajoelhou-se e destravou as fivelas da máscara de Atlântida, puxando o metal escuro para longe do rosto do companheiro.
Hermes puxou o ar de forma violenta. Os olhos dourados se abriram. Ele rolou o corpo para o lado direito, apoiou as mãos na terra e vomitou uma poça de um líquido negro e viscoso diretamente na lama.
Aylla soltou um grito curto e cobriu a boca com as mãos. Sêneca recuou.
Hermes tossiu mais duas vezes, cuspindo o restante do fluido escuro da garganta. À medida que o líquido saía do seu sistema, as veias negras em seus braços e pescoço diminuíam de espessura, até sumirem por completo sob a pele.
Hermes limpou a boca com as costas da mão. O gosto de terra e cobre ainda marcava sua língua. Ele apoiou as mãos nos joelhos e forçou o corpo a se erguer, recuperando a postura.
— O que havia naquele buraco? — perguntou Hermes. Sua respiração ainda estava descompassada.
O Potamoi abaixou os ombros largos. A presença imponente da divindade cedeu lugar a cansaço.
— Uma rachadura para o submundo — respondeu o deus-rio. — Ela se abriu há meses no meu leito. Eu lutei contra a força que vazava de lá, mas fui subjugado. Entidades do Tártaro invadiram a minha consciência. Eu as segurei na água para que não ganhassem forma física na terra, mas o esforço esgotou o meu poder.
Hermes assentiu.
“Ele serviu de barreira”, pensou o mensageiro. “Mas a barreira não conteve tudo.”
Hermes virou o rosto para a Ninfa. Ela ainda estava sentada na lama, com as mãos sobre o colo, evitando contato visual.
— Você estava preso lutando contra a fenda — disse Hermes, apontando para o Potamoi. — Mas ela não. A fissura não a corrompeu. Mesmo assim, ela cometeu essas atrocidades contra os homens de Pérgamo por vontade própria. Ela mentiu e atraiu dezenas para a morte.
O espírito do rio olhou para a filha. Ele não encontrou palavras de defesa. A vergonha moldou a expressão da divindade anciã.
— O que você sugere, mensageiro? — perguntou o Potamoi. — Qual deve ser a punição dela?
Hermes limpou a sujeira da túnica.
— Eu não sugiro nada. Pérgamo não é o meu domínio. O problema não é meu.
Ele deu um passo para o lado e apontou para Aylla. A mulher tremia de frio e pânico, segurando o próprio manto com força.
— O julgamento pertence a ela — cravou Hermes.
Aylla arregalou os olhos. Ela caminhou de forma instável e parou a poucos metros da Ninfa. As lágrimas já desciam pelo rosto da pobre mulher.
— O que você fez com ele? — a voz de Aylla falhou no final da frase. — O que aconteceu com Átalo e com os outros homens que sumiram?
A Ninfa continuou olhando para a terra.
— Responda — ordenou o Potamoi. A voz grossa fez a lama sob os pés deles tremer.
— Eu os consumi! — confessou a Ninfa fechando os olhos e apertando os próprios dedos. — Eu precisava da vitalidade deles para alimentar a floresta. Eles não são mais humanos. As raízes tomaram os corpos originais. Eles agora são espíritos da mata.
Aylla soltou um soluço alto e caiu de joelhos na terra úmida. Ela cobriu o rosto com as mãos. As lágrimas encharcaram seu vestido de forma contínua.
O grupo observou a cena em silêncio. Sêneca estava prestes a se aproximar para consolar a mulher, mas Magno o segurou com um aceno negativo com a cabeça.
Eles não eram ninguém ali.
Hermes sentiu um aperto físico no peito. Não era a pena distante de um deus por um humano, mas um pesar real pela dor da mulher. Ele endureceu a expressão e olhou para a Ninfa.
— Traga-os aqui — ordenou Hermes.
Aylla levantou o rosto molhado, confusa com o comando. A Ninfa hesitou. Ela olhou para o pai em busca de aprovação. O Potamoi apenas acenou com a cabeça, forçando-a a obedecer.
A mulher da água abriu os lábios e cantou. Uma sequência de notas altas e contínuas. Uma vibração aguda e melódica que atravessou os troncos escuros e ecoou pela floresta.
Em instantes, a mata respondeu.
Da escuridão entre as árvores, figuras começaram a emergir. Animais de forma translúcida caminharam pelas raízes. Logo depois, criaturas bípedes com pernas e cascos de bode pisaram na margem do rio. Eram dezenas.
Os três invasores observavam com atenção, Hermes com pesar, Magno com pavor, e Sêneca com curiosidade.
“Tantas vítimas…” O mensageiro suspirou e fechou os olhos.
— O- o que diabos são essa- — Magno gaguejou, mas parou antes de interromper a cena que se desenrolava a seguir.
Um dos sátiros separou-se do grupo. Era jovem, com chifres curtos e pelagem escura nas pernas. Ele caminhou a passos lentos até parar bem na frente de Aylla. A expressão no rosto da criatura era de um pesar absoluto.
Aylla olhou para a criatura. O formato do rosto humano acima do focinho, a cor castanha das íris e a linha do maxilar não deixavam dúvidas.
Seus lábios tremeram, seus olhos se fecharam e mais lágrimas fluíram. Ela estendeu os braços envolveu o pescoço peludo. O pequeno ser retribuiu o gesto, como se fosse natural.
Era Átalo. A transformação física operada pela floresta estava completa.

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