Capítulo 147 | Zerados
O grupo retornou à clareira delimitada por pedras. No centro do espaço, Corneto, o sileno de chifres longos e encurvados aguardava. A criatura bufava pelas narinas largas jatos de ar que balançavam a pequena argola pendurada em seu septo, e arrastava o casco direito na terra batida, preparando-se para o embate.
Sileno parou na borda da arena.
— O nosso campeão está pronto. Contudo… — Apontou para o topo da cabeça de Hermes. — O desafiante possui uma falha anatômica evidente para este jogo.
O jovem de cabelos brancos suspirou. Caminhou até a lateral da clareira, até perto das cinzas de uma fogueira apagada, onde abaixou-se, inspecionou os restos e recolheu o crânio espesso de um bisão. O osso possuía dois chifres curtos e grossos intactos. Ele retornou ao centro da arena, segurou o crânio com firmeza usando as duas mãos à frente do rosto e estabilizou as pernas.
Sileno encarava-o com a mão no queixo.
— Maravilhoso, uma ajudinha dos mortos às vezes cai bem! — Juntou as mãos numa prece jocosa enquanto sorria.
Os outros silenos caíram na gargalhada, zombavam da tentativa vã do desafiante de emular a estrutura que só eles possuíam.
Logo, o guia ergueu um braço ao céu e o desceu num movimento. Deu-se início à disputa. Dessa vez, a música que tocava no aulos tinha um quê de duelesca. Assemelhava-se ao próprio sopro do vento no topo de uma colina.
As poucas notas produziam tanta tensão que aqueles que assistiam imediatamente cessaram o riso, a bebedeira e as conversas para focar no desenrolar da luta.
Corneto, o adversário, abaixou a cabeça, alinhou as pontas de seus chifres longos na direção de Hermes e investiu correndo em linha reta. Os cascos pesados afundavam na terra a cada passada em velocidade máxima.
Hermes manteve-se estático. Mediu a distância e o tempo de aproximação do adversário e travou o maxilar.
No último segundo, Hermes flexionou os joelhos de forma rápida, diminuiu seu centro de gravidade. Empurrou o crânio de bode para cima e para a esquerda no exato momento da colisão.
O ângulo do movimento desviou os chifres longos do sileno para o lado. A força da própria corrida da criatura, somada ao desvio lateral, quebrou a sua postura. O rosto do adversário foi jogado para o alto e ficou totalmente exposto.
Hermes projetou o corpo inteiro para a frente e desferiu uma cabeçada direta e dura no centro do focinho desprotegido de sileno.
O estalo do osso e da cartilagem ecoou pela clareira. Corneto estacou no lugar, paralisado pela dor e pelo choque. A criatura cambaleou dois passos para trás, com os olhos revirados, completamente brancos, e desabou pesadamente na poeira, inconsciente.
O guia sileno abriu a boca, o que interrompeu a música repentinamente, surpreso com o encerramento abrupto do combate. Em seguida, sorriu e ergueu o braço na direção de Hermes.
— Um uso impecável da estrutura do ambiente! — exclamou para a multidão ruidosa. — A vitória é válida. Os nossos convidados assumem a liderança nos jogos!
Magno, que ancorava um Sêneca ainda desorientado, sorriu e mostrou o polegar para o colega que afagava o topo da própria cabeça no centro da arena.
O grupo deixou a clareira e retornou à viela estreita de rochas. Magno sustentava o peso de Sêneca sobre o ombro direito. O homem recobrava a consciência de forma lenta, arrastando os pés no chão de terra com passos trôpegos e mantendo o queixo encostado no próprio peito.
Sileno parou em frente ao armazém coberto pelos tecidos remendados. O som de respirações arrastadas e gemidos continuava a vazar pelas frestas.
— A nossa próxima disputa ocorrerá aqui dentro — o guia anunciou. Ele apontou para a entrada coberta da estrutura. — Testaremos a resistência primária de vocês na modalidade de cópula.
Hermes franziu o cenho, estava prestes a objetar quando Anaxímenes deu um passo à frente. Ele ajeitou o broche dourado de aranha no ombro.
— Eu assumo esta.
Magno ajustou a postura de Sêneca contra o próprio corpo e olhou para o jovem.
— Você competirá contra criaturas fisicamente incansáveis — os olhos semicerrados e o tom de voz desacreditado somaram-se a um sorriso de canto. — Foi mal, garoto, mas você não parece o tipo vigoroso.
Anaxímenes estufou o peito. Manteve o queixo erguido e assumiu uma postura rígida.
— Eu sou amplamente conhecido em toda a extensão de Mileto pela minha vitalidade — respondeu com convicção direta. — Possuo um histórico imbatível de encontros desse tipo. Garanto a vocês que dominarei as dinâmicas desta competição com extrema facilidade.
Hermes coçou a nuca, todos já haviam competido nas outras modalidades. Pelas regras impostas pelo guia, não poderiam repetir competidores até que ninguém restasse.
Magno revirou os olhos. Ele guiou Sêneca até a base de um pilar de pedra desmoronado, encostou o colega ali e cruzou os braços. Hermes permaneceu estático a poucos passos de distância.
Os três ficaram do lado de fora da tenda em silêncio, observando Anaxímenes afastar o tecido remendado e entrar no armazém para iniciar a disputa.
Sileno levou outra vez seu instrumento à boca e soprou uma canção. Desta vez a melodia era lenta e cadenciada, misturava os baixos e altos de modo a causar arrepios em quem quer que escutasse.
Lá dentro, risadas, gemidos, e até mesmo um rugido escapavam de tempos em tempos.
Um intervalo curto de tempo se passou. O tecido da entrada do armazém foi empurrado para o lado.
Anaxímenes saiu da tenda tropeçando nos próprios pés. A sua túnica clara estava completamente amarrotada e com marcas de poeira. O broche de aranha pendia torto no ombro. Os cabelos castanhos estavam despenteados e grudados na testa pelo suor. As pernas do rapaz tremiam de forma incontrolável a cada passo. A túnica estava pendendo no meio dos braços, o broche pendurado.

Ele respirava com dificuldade, puxando o ar pela boca.
Apesar da exaustão extrema, o garoto exibia um sorriso largo e abobalhado no rosto.
Ele caminhou de forma instável e parou ao lado de Magno encarando o espaço vazio à frente, com os olhos desfocados.
— Anaximandro não vai acreditar que a minha primeira vez foi com uma náiade… — murmurou, maravilhado.
O gatuno arregalou os olhos.
— Primeira vez? Você não disse que era imbatível?
— E eu era, nunca havia perdido antes de hoje…
Magno soltou um suspiro ruidoso e bateu a palma da mão direita na própria testa com força.
Sileno, posicionado na entrada da viela, soltou uma risada rouca e apontou para o rapaz trêmulo.
— A nossa náiade continua invicta! — o guia declarou. — A energia da juventude mortal não é suficiente para superar a natureza.
Hermes tinha os ombros tensos com os braços cruzados. Seus dedos tamborilavam, inquietos, o outro braço.
O grupo perdeu no campeonato de bebedeira e na modalidade de cópula, mas venceu na escalada de rocha e no choque de chifres. O placar geral das festividades encontrava-se em um empate exato.
Com olhos cravados no sorridente e festejante Sileno, ele pigarreou.
— Nós temos duas vitórias e duas derrotas — aproximou-se até ficar a um metro da criatura. — O placar está empatado. O que deve ser feito para resolver isso e garantir as respostas que você prometeu?
O guia abriu um sorriso largo.
Ele deu as costas para Hermes, caminhou até o centro da rua de terra batida e virou-se novamente para o grupo, abrindo os braços cobertos por pelos.
— Uma nova e última rodada — o guia propôs. — Um desafio direto entre o líder dos convidados e o anfitrião. Eu e você.
Hermes manteve a expressão fechada, aguardando as condições.
— Faremos um triatlo contínuo — o sileno mostrou os três dedos do meio de sua mão. — Começaremos com um salto em distância, emendaremos em uma corrida de velocidade pelas ruas da vila e terminaremos com uma disputa de luta corporal franca. O pancrácio. Quem imobilizar o outro ou forçá-lo à desistência vence o festival.
O rapaz de cabelos brancos sequer pensou.
— Eu aceito
O deus levou a mão direita à linha da cintura de forma automática. Repousou os dedos sobre o tecido da cintura.
“Com as moedas, não me importa contra quem seja…”
O guia sileno interrompeu o próprio sorriso. Ele levantou o dedo indicador direito na direção de Hermes e estreitou os olhos amarelados de pupilas horizontais. A postura relaxada desapareceu.
— Sem poderes.
O rapaz de cabelos brancos franziu o nariz, o olhar confiante sumiu.

Regras dos Comentários:
Para receber notificações por e-mail quando seu comentário for respondido, ative o sininho ao lado do botão de Publicar Comentário.